sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

"Cinema em Close-Up": Tesouros da Boca do Lixo


Localizado num tempo e espaço bem definidos, houve um período muito peculiar do cinema brasileiro. Um período onde nosso cinema foi autossuficiente, pois produzia, filmava e exibia suas produções praticamente à margem do chamado "cinema oficial", então patrocinado pela hoje extinta estatal do audiovisual, Embrafilme. Estamos falando da época da Boca do Lixo, que se constituiu quase num mundo à parte naquele momento tão prolífico da nossa cinematografia.

O tempo está localizado no período entre o final dos anos 60 e o final dos anos 80. O espaço era a Rua Triunfo (e suas imediações), localizada na região central da cidade de São Paulo. Lá floresceu uma indústria audiovisual fortemente calcada pelo cinema de gênero, extremamente popular, que transitava das comédias ao terror, do suspense aos dramas, mas, todos eles, fortemente marcados pelo apelo erótico. Eram tempos de ditadura e AI-5, onde as salas de cinemas de bairro constituíam o espaço possível para um pouco de liberdade criativa e expressão de individualidade.

Foi neste ambiente de intensa produção cinematográfica que surgiu uma revista de cinema que viria a ser um dos principais marcos históricos daquele período de efervescência. A publicação se chamava Cinema em Close-Up, que foi editada de 1975 a 1977. Com entrevistas, artigos e críticas, a revista registrou o surgimento, o apogeu e a glória da Boca do Lixo. Inserida no próprio núcleo da produção da Rua Triunfo, pois sua redação ficava literalmente no olho do furacão, a revista foi em seu tempo o porta voz "extra-oficial" daquela geração de cineastas, técnicos, atores e atrizes. Editar uma revista de cinema, especialmente naquele tempo, não era tarefa das mais fáceis. Mas a "Cinema em Close-Up", fundada e editada por Minami Keize, foi responsável por estabelecer um nível de respeitabilidade à Boca do Lixo, na medida em que levou aquela indústria de cinema popular para a mídia impressa.

Hoje os raros exemplares da publicação são disputados por colecionadores de todo o país. Mas essa história tem um final feliz. Todo o acervo das revistas publicadas foi digitalizado e está disponível para ser redescoberto, num louvável projeto de resgate conduzido pela Heco Produções.


(Texto orifinalmente publicado no portal "Movi+" em novembro de 2014)

Jorge Ghiorzi

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