quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

David Bowie: O homem que caiu na Terra


O clichê consagrado é chamá-lo de camaleão. Faz sentido. Sua capacidade de se transmutar foi única no meio artístico. Mais do que diversificada e múltipla, sua trajetória foi consistente por vencer o desafio do tempo. Não foi uma explosão passageira, com prazo de validade.

O cantor, compositor, produtor musical e também ator inglês David Robert Jones, que o mundo conhece como David Bowie construiu uma carreira de mais de quatro décadas, encerrada no início de janeiro de 2016, dois dias após completar 69 anos de idade. Não sem antes nos deixar sua última obra “Blackstar”, recentemente lançada. Mas aqui não vamos tratar do Bowie músico. Vamos relembrar um pouco da trajetória do Bowie ator.

A figura estética de David Bowie sempre atraiu a atenção. Ícone fashion, andrógino, artista performático, mestre da arte de seduzir plateias, ele não fazia apenas música. Entregava um pacote completo: som, imagens, luzes e imaginação. Era quase inevitável, senão desejável, que Bowie se aproximasse do cinema, ou vice-versa.


O que pouca gente sabe é que antes de ser músico Bowie foi ator. Estudou teatro e participou de peças e filmes de TV na Inglaterra. Então, em 1969 tudo muda com o estouro de “Space Oddity”, e o ator iniciante dá lugar ao rockstar em ascensão. A reaproximação com o cinema só ocorreu em 1976 com o filme O Homem que Caiu na Terra, dirigido por Nicolas Roeg. Apropriadamente David Bowie interpretou um alienígena que vem à Terra em busca de salvação para seu planeta. A figura andrógina e misteriosa que o artista encarnava nos palcos naquele período foi muito bem aproveitada pelo filme que se mostrou um excelente veículo para potencializar a imagem que por muitos anos ficou associada ao artista.


No início dos anos 80 David Bowie atinge o ápice de sua carreira como artista pop. Com o lançamento do disco “Let’s Dance”, recheado de hits, Bowie vendeu como nunca e rivalizava nas paradas de sucesso com Michael Jackson. Muito requisitado pela mídia, e também pelo cinema, Bowie participou de diversos filmes neste intenso período. Em 1983 estrelou Furyo, Em Nome da Honra, dirigido por Nagisa Oshima (de Império dos Sentidos). Sua interpretação de um prisioneiro inglês preso num campo de concentração na ilha de Java, em plena Segunda Guerra Mundial, foi amplamente elogiada pela crítica, e Bowie definitivamente atingia o status de ator. Na sequência Bowie viveu, ao lado de Catherine Deneuve, um vampiro moderno em crise no clássico Cult Fome de Viver, de Tony Scott.

Cineasta em alta na metade dos anos 80, John Landis chama Bowie para uma participação na comédia de ação Um Romance Muito Perigoso (1985), estrelada por Jeff Goldblum e Michelle Pfeiffer.


O tipo exótico que Bowie sempre inspirou, foi mais uma vez muito bem utilizado na produção de 1986, Labirinto – A Magia do Tempo. Ao lado de uma jovem e bela Jennifer Connelly, David Bowie faz um convincente e maligno Rei dos Duendes nesta fantasia infanto-juvenil dirigida por Jim Henson.

Ainda em 1986 David Bowie participa do musical Absolute Beginners, de Julien Temple, que revive em tom nostálgico e dinâmico os anos 50 quando o rock domina o mundo e vira a cabeça da juventude. A trilha sonora, recheada de sucessos, inclui o próprio David Bowie.


Grande sonho de Martin Scorsese, o polêmico A Última Tentação de Cristo foi lançado sob protestos da comunidade religiosa em 1988. Para o papel de Pôncio Pilatos o diretor Scorsese escalou David Bowie, que aceitou o papel, abrindo mão de interpretar um vilão na série 007.

Nos anos 90 Bowie se limitou a fazer participações em filmes de pouca repercussão como Twin Peaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer; Romance por Interesse e Basquiat – Traços de uma Vida, entre outros menores.


Na primeira década dos anos 2000 Davis Bowie ainda permanecia ativo no cinema. Estrelou o drama familiar Mr. Rice’s Secret (2000); deu um charme extra à comédia Zoolander (2001), de Ben Stiller; interpretou o cientista e inventor Nikola Tesla em O Grande Truque (2006), dirigido por Christopher Nolan; colocou a voz em um personagem da animação Arthur e os Minimoys (2006), de Luc Besson; dublou um personagem do desenho animado Bob Esponja (2007, na TV); participou do drama Reação Colateral (2008) e, por fim, sua última participação creditada no cinema como ator em ficção, foi em High School Band (2009) interpretando… David Bowie!

2016. Ano em que o homem que caiu na Terra partiu, nos deixando o legado de sua arte na música e no cinema.

(Texto originalmente publicado no portal “Movi+” em janeiro de 2016)

Jorge Ghiorzi

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