quarta-feira, 10 de maio de 2017

“Corra!”: Uma fábula de terror


Um homem negro caminha à noite pelas calçadas de um típico bairro de classe média. Quando se dá por conta, está sendo seguido por um carro suspeito. A respiração fica ofegante, pois ele sabe que o seu destino já parece estar traçado.

O surpreendente drama de suspense Corra! (Get Out, 2017) abre com este prólogo que já oferece a linha temática que conduzirá a história que acompanharemos na sequência: o preconceito racial. Porém, a abordagem que o filme dará ao tema foge do óbvio e vai muito além de uma mera manifestação de preconceito, ao combinar crítica social e supremacia étnica e discriminação racial com doses pesadas de terror e angústia. Mistura inusitada, mas altamente letal para abalar os nervos da plateia. Sucesso de público e crítica nos Estados Unidos, Corra! está chegando aos cinemas brasileiros. Dirigido e escrito pelo comediante Jordan Peele, o filme pode ser descrito como uma fábula de terror que explora medos e fantasias de uma sociedade que hipervaloriza as aparências e cultua o individualismo. Alguém aí lembrou de Black Mirror?.

O bem sucedido fotógrafo Chris (o ótimo Daniel Kaluuya) namora a bela Rose (Allison Williams, da série Girls). Tudo corre bem com o relacionamento do casal, mas a luz vermelha de alerta acende para ele quando ela decide finalmente levá-lo para ser apresentado a seus pais, Dean (Bradley Whitford) e Missy (Catherine Keener). A preocupação de Chris se justifica, afinal, eles formam um casal inter-racial (ele, negro, ela, branca). A inicialmente calorosa recepção dos pais da namorada logo começa a dar sinais de que algo muito perturbador está se passando e algum segredo se esconde naquela casa.


Corra! desenvolve uma curiosa versão do que poderíamos chamar de “eugenia reversa”. Lembrando o conceito básico, a Eugenia, segundo a ideologia nazista, preconizava a “supremacia racial” dos arianos em relação aos judeus, negros e outras raças. Pois no filme de Jordan Peele os personagens caucasianos (brancos), antes de se limitarem apenas a exercer seu preconceito racial, na verdade estão mais interessados justamente nas reconhecidas vantagens genéticas e biológicas atribuídas aos negros, tais como força, saúde e longevidade.

Em certa passagem o patriarca da família, Dean, lembra e exalta as qualidades físicas e atléticas de Jesse Owens, o atleta negro norte-americano que venceu todos seus oponentes brancos, especialmente os alemães, para desgosto de Hitler, nos Jogos de Olímpicos de Berlim em 1946. A tese da supremacia atlética dos arianos caiu por terra. A ideia que Dean pretendia passar é de que reconhece o valor da conquista de Jesse Owens, apesar dele ser negro. E completa afirmando com ele próprio possui amigos negros e até votaria novamente em Barack Obama, se fosse possível. Atitude clássica que mais revela do que dissimula um mal disfarçado preconceito.


O tema do racismo permeia o longa do primeiro ao último minuto, ora de forma explícita, ora de forma oblíqua, ora de forma velada. Os diferentes tons desta questão fazem o jogo no qual se sustenta o suspense da narrativa. Tudo poderia ser apenas um grande equívoco. Ou na verdade o apavorado Chris estaria apenas superestimando seu próprio racismo defensivo. Ou sim, estaríamos diante de uma história assustadora e impensável. A plateia alterna constantemente seus sentimentos, se agarrando em pequenos sinais e avisos que vão surgindo enquanto as situações evoluem. A angústia do personagem é também a nossa angústia. Este é o grande trunfo de Corra!.

Os problemas de um casal inter-racial já foram objeto de atenção em inúmeros filmes, de diversos gêneros. Um dos mais estimados e lembrados é Adivinhe Quem Vem Para Jantar, estrelado por Sidney Poitier, Spencer Tracy e Katharine Hepburn. Lançada há exatos 50 anos, esta produção guarda semelhanças com a premissa de Corra! ao também contar a história de uma jovem (branca) que vai visitar os pais para apresentar seu namorado (negro) com quem pretende se casar. O tratamento é de comédia dramática, mas o tema revelador da discriminação racial está igualmente presente.

O roteiro de Corra! é original e bem resolvido em termos dramáticos, apesar de ser um tanto rápido e inconclusivo no desfecho em relação a certas questões que ficam em aberto. A experiência exasperante do protagonista é envolvente e perturbadora na medida adequada, sem excessos. O tema de fundo, a questão racial, recebe uma abordagem criativa, a milhas de distância de um discurso meramente panfletário. Corra! é uma produção admirável, seja pela ótica da crítica social, seja como exercício de terror.

Assista o trailer: Corra!

Jorge Ghiorzi

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