sábado, 20 de janeiro de 2018

“Caçador de Morte”: jogo de gato e rato


Ao ser lançado em 2011, Drive, de Nicolas Winding Refn, foi responsável pelo resgate histórico do longa Caçador de Morte (The Driver, 1978) de Walter Hill, lançado (e um pouco esquecido) há mais de três décadas. A premissa dos dois filmes é semelhante (exímio piloto de automóveis coloca suas habilidades ao volante à disposição do crime), ainda que provenham de fontes distintas. Caçador de Morte tem um roteiro original escrito pelo próprio Walter Hill. Já Drive é uma adaptação do livro de James Sallis. No entanto, a semelhança do plot dos dois filmes vai um pouco mais além dos títulos originais, muito parecidos. A sequência de abertura de ambos é bastante similar e traz os mesmos elementos: fuga de assaltes no banco de trás do carro, perseguição de automóveis noturna, frieza e perícia do motorista protagonista. Ainda que não explicitamente declarado por Nicolas Winding Refn, a abertura de Drive pode sim ser considerada uma referência/homenagem ao filme de Walter Hill.

Thriller de ação, sem muita ação, Caçador de Morte é um exemplar estranho à produção dos filmes policiais produzidos por Hollywood nos anos 70. Cerebral e contido, o filme de Walter Hill flerta abertamente com o cinema noir, ainda que a protagonista feminina não seja exatamente uma femme fatale e os homens da trama não pareçam especialmente envolvidos em dilemas morais.


Walter Hill vai direto ao ponto e simplifica a narrativa, mas sem perder o senso de ritmo da trama. Os personagens principais, por exemplo, não tem nomes. São chamados por suas funções. O protagonista é o Motorista (Ryan O’Neal), habilidoso piloto de automóveis especializado em dirigir carros para assaltantes e criminosos em fuga. Seu antagonista é o Detetive (Bruce Dern), obsessivamente no rastro do piloto para capturá-lo, custe o que custar. Completando o terceiro vértice de um triângulo está a Jogadora (Isabelle Adjani), cúmplice e aliada do Motorista, constantemente assediada pelo Detetive que deseja utilizá-la como isca para uma armadilha que poderá levar o piloto para a prisão.

A presença da então jovem atriz francesa Isabelle Adjani, absolutamente não convencional para um típico produto hollywoodiano, pode parecer inicialmente um tanto decorativa. Porém, sua figura diáfana traz um elemento extra de mistério e dissimulação que contribui decisivamente para o clima estilizado à mise-en-scène pretendida por Walter Hill. Algo que se aproximaria de uma narrativa distanciada, associada ao que popularmente é chamado de “cinema europeu”. Há uma frieza nas personagens, nos diálogos (com exceção, talvez, de Bruce Dern), nas interações e no universo particular onde a trama se desenvolve. É como se tudo se passasse dentro de uma bolha. Não há tramas paralelas, personagens secundários, envolvimento com a cidade. Tudo é cenário para a encenação de uma clássica história de gato e rato, enredados em seu próprio labirinto, movidos por regras próprias, descolados do real.


Não conhecemos o passado do Motorista e do Detetive. Não conhecemos suas verdadeiras razões. Presenciamos apenas um duelo marcado por fortes motivações pessoais, ainda que desconhecidas do espectador. Apenas podemos especular. Haveria um passado entre os dois? Uma vingança pessoal? O que realmente estaria em jogo para tanta obstinação que ultrapassa os limites da lei?

Sem dúvida estamos diante de uma relação arquetípica com personagens simbólicos. Lembremos que o Detetive se refere ao Motorista como o “Caubói”. Isto nos remete ao universo do Western, e nos dá outra chave para o entendimento do alcance icônico da trama. Mudemos o cenário da metrópole para o deserto do Grand Canyon e troquemos os cadilacs por poderosos cavalos e estaremos diante de um clássico filme de bangue-bangue, onde um bom duelo costuma colocar o mundo em ordem. Ou não.


Walter Hill é um diretor habilidoso, que transita em diversos gêneros, mas sua carreira é por demais errante. Seu maior êxito de crítica e prestígio de público é o cult Warriors – Os Selvagens da Noite, realizado na sequência de Caçador de Morte. Dirigiu também a comédia policial 48 Horas, com Eddie Murphy, e Inferno Vermelho, com Arnold Schwarzenegger. Atua também como roteirista, com destaque para o roteiro de Os Implacáveis, de Sam Peckinpah, e os filmes da série Alien, dos quais também é produtor.

Assista o trailer: Caçador de Morte

(Texto originalmente publicado na coluna “Cinefilia” do DVD Magazine em março de 2017)

Jorge Ghiorzi

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