quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

“O Destino de uma Nação”: V de Vitória


1940. A Segunda Guerra mundial se alastra pela Europa. O poder de Hitler invade e rende grandes nações. O próximo alvo da conquista nazista é o Reino Unido. A iminência de uma invasão força a troca de primeiro ministro na Inglaterra. A nação inglesa necessita de um político de pulso forte para conduzir os destinos da nação naquele momento de crise extrema. A escolha recai em Winston Churchill (Gary Oldman), que assume o posto de primeiro ministro com uma difícil missão: resistir aos avanços das tropas alemãs. Este é contexto histórico de O Destino de uma Nação (Darkest hour), dirigido por Joe Wright, um drama que retrata um dos episódios mais extraordinários da biografia de Winston Churchill, responsável por transformá-lo em mito.

Na primeira e assombrosa aparição de Winston Churchill em cena, tão admirados ficamos que somos tentados a ficar procurando traços da fisionomia real de Gary Oldman. Mas seu rosto está fantasticamente diluído e mimetizado na face enrugada do primeiro ministro inglês, graças a um soberbo trabalho de maquiagem. Passado o impacto inicial, resta apenas o deleite para um desempenho magistral.


Já dizia o mestre John Ford: Quando a lenda é mais interessante que a realidade, imprima-se a lenda”. Churchill, fazendo uso de sua notória sabedoria de raposa velha da política, utilizou ardilosamente deste princípio. Ao sustentar seus discursos ufanistas com uma versão fantasiosa sobre a realidade dos fatos (a Inglaterra na verdade estava prestes a cair diante do avanço das forças nazistas), o político criou uma narrativa idealizada, visando arrebatar o orgulho patriótico da população do Reino Unido. Manipulou corações e mentes por meio da palavra e aglutinou as forças do parlamento, da família real, da elite e do homem simples das classes proletárias.

Por narrar parcialmente o mesmo episódio – a retirada heroica das tropas inglesas sitiadas pelo exército alemão numa praia francesa - O Destino de uma Nação seria uma espécie de Lado B de Dunkirk, o drama de guerra dirigido por Christopher Nolan. O filme de Joe Wright fica restrito ao relato dos bastidores da desesperada operação de resgate utilizando barcos e navios civis, uma ideia suicida do próprio Churchill que exigiu um penoso processo de convencimento do governo e autoridades navais. Se o filme de Nolan fazia um permanente contraponto entre a grandiosidade épica do evento e pequenas ações de soldados e cidadãos anônimos, O Destino de uma Nação concentra todo seu foco na personalidade imponente de Winston Churchill, um herói inicialmente relutante que não se furta à vaidade de ser reconhecido como gênio estratégico. Nesta abordagem somos apresentados a um homem em conflito, sob o peso de uma nação que clamava por respostas e ações decisivas, ainda que exigissem sacrifícios de muitas vidas.


Com olhos de hoje podemos dizer que Winston Churchill era um personalidade midiática, com total entendimento do poder da comunicação para conquistar multidões. Seria ele um proto-youtuber? O fato é que o primeiro ministro sabia muito bem como utilizar sua imagem poderosa e o permanente otimismo para levantar o moral de um país à beira da rendição, fato este que reconfiguraria totalmente o desfecho da Segunda Guerra. A imagem de um Churchill fazendo o “V” de vitória e seu indefectível charuto nas capas dos jornais britânicos vendeu uma imagem de poder onde na verdade havia medo. Render-se, jamais. Lutar, sempre. Seu discurso motivador inflamou multidões e reverteu o destino tenebroso que assombrava a ilha britânica.

O estilo direção de Joe Wright privilegia mais uma vez a beleza estética dos enquadramentos, os planos-sequência elegantes, uma paleta de cores exuberante e tomadas aéreas de tirar o fôlego, elementos que configuram sua marca registrada em termos técnicos. Some-se a isto uma certa obsessão por máquinas de escrever e o som tão característico das teclas, mais uma vez presente. Como não lembrar da importância cênica da máquina de escrever em Desejo e Reparação, dirigido por ele em 2008.


Winston Churchill, obviamente, não era feito só de virtudes, seria idealismo ingênuo de nossa parte enxergá-lo desta forma. Ele era sim um velho ranzinza, matreiro, no mais das vezes com mais dúvidas do que certezas. Mas, somos obrigados a concordar, era um estadista maiúsculo, de uma grandeza que não se encontra mais. O Destino de uma Nação não é exatamente feliz ao retratar a figura mítica do primeiro ministro. Joe Wright sucumbe ao peso desta figura fundamental da história inglesa, cedendo espaço para uma narrativa que se equilibra entre a adoração do mito e o desnudamento, ainda que tímido, de sua personalidade avassaladora. Talvez Churchill não coubesse mesmo apenas num filme limitado a um episódio único da sua biografia.

Assista o trailer: O Destino de uma Nação

Jorge Ghiorzi

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