quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

“O Deserto dos Tártaros”: batalha sem glória



Considerada por muito tempo uma obra impossível de filmar, o romance “O Deserto dos Tártaros”, escrito por Dino Buzzati, desde sua publicação em 1940 figurou como objeto de desejo de muitos cineastas. Michelangelo Antonioni foi um deles. Ao longo dos anos tentativas foram feitas, mas logo sucumbiram diante das dificuldades de transposição para as telas de um texto que transita do alegórico ao fantástico, passando pelo terreno fértil das reflexões existenciais.

Portanto, foi com alguma surpresa, e certa desconfiança, que surgiu na metade dos anos 70 um projeto de adaptação liderado pelo diretor italiano Valerio Zurlini. Lançado em 1976, O Deserto dos Tártaros (Il Deserto dei Tartari) foi o último filme de Zurlini, um cineasta de poucos filmes e grande prestígio junto à crítica, que na fase final de sua carreira assumiu um cinema abertamente político.


A exasperante passagem do tempo que consome a existência do homem em busca de um sentido para a vida é a matriz sobre a qual se constrói a trajetória do personagem central de O Deserto dos Tártaros. No período do Império Italiano (que durou até 1946) o jovem Giovanni Drogo (Jacques Perrin) sonha com uma carreira longa e gloriosa no exército. Mas o começo da vida militar não foi nada promissor. Ao ser nomeado tenente, Drogo foi designado para a longínqua e remota Fortaleza Bastiani, localizada na fronteira do Império, à beira de um deserto, dominado pelas tribos nômades dos tártaros, sob a ameaça iminente de ataque.

A monotonia, a rotina e a rigidez dos regulamentos militares consomem pouco a pouco o entusiasmo de Drogo. A espera por um ataque dos tártaros, que nunca se consuma, coloca à prova as convicções pessoais e as razões de uma missão que parece sem sentido. Dias, meses e anos transcorrem, e nada acontece. O tempo passa e uma vida de realizações pessoais, como família, filhos e amigos, deixa de ser vivida na plenitude, em nome de uma subserviência ao Estado. Por fim, resta a Drogo apenas a camaradagem militar de seus companheiros de farda em um universo que se basta por si só.


O clima mezzo alegórico, mezzo metafísico que permeia a narrativa de Dino Buzzati no romance, encontra eco na primorosa direção de arte e cenografia da produção, um achado a parte. Filmado em locação numa fortaleza real situada na fronteira do Irã com o Afeganistão, O Deserto dos Tártaros transforma a construção, e seu entorno desabitado, em “personagem” onipresente da narrativa. A paisagem desolada, monocromática, de aspecto lunar, forma um tecido geográfico único, onde o deserto e as paredes da fortaleza se mimetizam, a ponto de pouco discernirmos onde inicia um ou termina o outro. A exposição dos espaços geográficos do filme permite ainda outra leitura, onde os espaços exteriores da fortaleza representam as forças da natureza em seu estado bruto, e as sequências interiores da fortaleza, dominados pelo elemento humano, expressam conflitos existenciais, com suas complexidades, contradições e fraquezas morais.

Assim como a força e permanência dos ventos molda a paisagem das montanhas e das paredes rochosas da fortaleza, a passagem do tempo também molda o caráter, as convicções e os comportamentos dos personagens em O Deserto dos Tártaros. As verdades de ontem são substituídas pelas novas verdades de hoje. No plano externo, das ações, pouco acontece. Na dimensão interior é que ocorrem as grandes transformações.


Os tártaros, inimigos tão temidos no início da narrativa, por fim acabam quase como inimigos desejados. Que venha logo a batalha de uma vez por todas, para justificar toda uma existência em busca de sentido. Mais do que encarar a perspectiva de morte, o batalhão almeja, no seu limite, a imortalidade através da glória de uma guerra que o destino teima em não conceder. Os fantasmas que assombram o fim da vida justificam qualquer ato. Inclusive o próprio desejo de morte.

O elenco desta superprodução italiana conta com grandes nomes do cinema europeu: Vittorio Gassman; Giuliano Gemma; Philippe Noiret; Francisco Rabal; Fernando Rey; Jean-Loius Trintignant e Max Von Sydow. A trilha sonora foi composta pelo mestre Ennio Morricone. O Deserto dos Tártaros recebeu os prêmios David di Donatello de Melhor Filme, Melhor Diretor e prêmio especial para Giuliano Gemma. O realizador Valerio Zurlini recebeu também o prêmio Nastro d’Argento de Melhor Diretor, concedido pelos jornalistas cinematográficos da Itália.

Assista o trailer: O Deserto dos Tártaros

      (Texto originalmente publicado na coluna “Cinefilia” do DVD Magazine em setembro de 2017)

Jorge Ghiorzi