segunda-feira, 24 de julho de 2017

“Em Ritmo de Fuga”: corra baby, corra


Amplamente divulgado antes da estreia, os seis minutos iniciais de Em Ritmo de Fuga (Baby Driver, 2017) funcionam como uma síntese do que poderá ser assistido nos 110 minutos restantes. Está tudo lá: vilões estilosos, carros velozes, manobras alucinantes, fugas espetaculares, montagem empolgante, personagens cínicos, overdose de adrenalina e trilha sonora de arrepiar. Apontado como uma das surpresas da temporada, o filme de Edgar Wright (realizador de Todo Mundo Quase Morto e Scott Pilgrim Contra o Mundo) surge com o frescor de uma novidade mesmo que esteja trilhando caminhos já tantas vezes utilizados em filmes de ação, tipo Velozes e Furiosos e outros tantos congêneres de pouca grife. Não se trata evidentemente de uma reinvenção do modelo, mas com certeza tem o mérito de oferecer uma repaginada no gênero que vinha há muito tempo pecando pela repetição de uma fórmula reproduzida à exaustão.

O encanto do cinema pelas perseguições automobilísticas vem de muito tempo. Desde a era do cinema mudo com os Keystone Cops os realizadores conhecem o poder da energia cinética da velocidade das caçadas e fugas para seduzir as plateias. Em Ritmo de Fuga segue esta linhagem. Mas pisa no acelerador e avança um sinal. Sem olhar pra trás.


Após a abertura, já citada, sabemos que aquele jovem que assume o volante do Subaru vermelho em fuga com assaltante a bordo, após um roubo de banco, é habilidoso como poucos na direção, apesar da pouca idade. Desligado do mundo ao redor, seus sentidos são impulsionados apenas pelo rock furioso que ouve pelos fones de ouvido. O nome dele é simplesmente Baby, interpretado por Ansel Elgort, conhecido por seu papel anterior em A Culpa É das Estrelas. A música desempenha papel fundamental em todas as atitudes de Baby, e pontuam sua vida em todos os momentos, esteja ou não em ação como piloto de fugas.

Um exemplo da presença ostensiva da música no DNA do filme pode ser vista logo em seguida à cena inicial. Os créditos de abertura foram construídos como um número musical que não ficaria feio em um La La Land, por exemplo. Pontuado por uma versão da canção “Harlem Shuffle”, dos Rolling Stones, a abertura é um criativo plano sequência pelas ruas de Los Angeles onde frases e palavras da letra da música são exibidos parcial e discretamente em fachadas, letreiros e luminosos, enquanto Baby, cheio de bossa, vai caminhando até uma cafeteria.


O jovem piloto, órfão de pai e mãe, trabalha para um chefão do crime (Kevin Spacey) que nunca contrata o mesmo grupo de criminosos para seus elaborados planos de roubos a bancos e agências dos correios. Apenas Baby é fixo no grupo, graças a uma dívida do passado que o garoto tem com o chefão. Dentre os parceiros de crime estão as figurinhas aterradoras interpretas por Jamie Foxx e Jon Hamm (da série Mad Men). Preso a este compromisso de prestar serviço como piloto de fugas, Baby não vê a hora de cair fora e viver uma despreocupada vida de adolescente. E a situação fica ainda mais crítica quando ele descobre a paixão de sua vida: uma doce e ingênua garçonete que desconhece sua vida dupla no crime.

Em Ritmo de Fuga apresenta algumas das melhores perseguições automobilísticas já vistas nas telas. E olha que a lista é grande e respeitável: Bullit; Operação França; Viver e Morrer em Los Angeles; Ronin e o recente Drive. A edição das imagens frenética, porém não abusiva nem gratuita, segue o ritmo da trilha sonora criando um ambiente sensorial extremamente empolgante. Edgar Wright foi muito habilidoso em lidar com os elementos do filme de forma orgânica e crível, sem o uso excessivo de recursos de computação gráfica.


Em relação aos personagens, a lamentar a subutilização de Kevin Spacey. Ficamos na expectativa de que seu papel vá crescer na trama, mas isto não se concretiza efetivamente. Quanto a Ansel Elgort sua assustada de cara de bebê está bem adequada ao personagem, ainda que o papel não exija grandes arroubos de interpretação, pois pouco interage com os demais (inclusive é acusado de autista pelo personagem de Jamie Foxx). Baby só perde sua frieza e ganha humanidade quando está em frente a sua namorada ou de seu mentor surdo e mudo, uma espécie de pai adotivo, interpretado pelo simpático e cativante CJ Jones.

Em Ritmo de Fuga sai do lugar comum para filmes de ação do gênero. É entretenimento de primeira classe e diversão garantida. Senão pela trama, ou pelas eletrizantes sequências de perseguição, com certeza pela trilha sonora que reúne mais de 40 canções, muitos sucessos e algumas pérolas a serem redescobertas. Uma pena que a distribuidora brasileira optou por um título tão genérico e pouco memorável. A versão nacional perde toda a carga de significados que o título original oferece.

Assista o trailer: Em Ritmo de Fuga

Jorge Ghiorzi

sábado, 15 de julho de 2017

“O Espírito da Colmeia”: quando a fantasia constrói o real


Era uma vez. Assim iniciam as fábulas, os contos de fadas e as histórias infantis. A frase remete imediatamente a fatos ocorridos no passado. Reais ou imaginados. Mas certamente fantasiosos. É neste registro narrativo que transcorre O Espírito da Colmeia (El espiritu de la colmena, 1973), de Victor Erice, o estimado cult do cinema espanhol dos anos 70. Alegórico e simbólico, o filme se passa na Espanha no ano de 1940. Naquele momento a Europa estava conflagrada pela Segunda Guerra Mundial, e o país, em particular, vivia as consequências do fim da Guerra Civil espanhola, que durou três anos e instaurou o regime fascista de Francisco Franco.

Assim como O Labirinto do Fauno, o filme de Victor Erice também ecoa o terror do período do general Franco. Menos explícito do que o filme de Guillermo Del Toro, O Espírito da Colmeia envereda por um caminho mais imagético e trabalha essencialmente com a sugestão de repressão daquele período político de supressão dos direitos civis.

A ação se passa num pequeno vilarejo no interior da Espanha. O termo “ação” talvez não seja exatamente adequado no caso, pois a vida pacata do povoado segue uma rotina de poucas novidades. Os únicos contatos com o mundo exterior são o trem que chega diariamente à pequena estação local, e o cinema ambulante que eventualmente visita a cidade e traz um pouco de diversão lúdica para os moradores. As portas do imaginário coletivo são abertas para a comunidade quando o clássico Frankenstein (1931), de James Whale, é projetado no cineminha improvisado do povoado. Na sessão a plateia é formada por adultos e menores de idade, sem distinção. O filme impressiona de maneira especial duas pequenas crianças, Ana (Ana Torrent) e sua irmã, poucos anos mais velha, Isabel (Isabel Telleria). A experiência desperta dúvidas na pequena Ana. Ela questiona a irmã, querendo saber por que o “monstro” de Frankenstein matou a garotinha (sequência do lago) e porque a própria criatura foi morta depois pela população. Isabel responde que é tudo falso, um truque do filme, que aquilo que assistiram não é verdadeiro. E conta, para espanto da irmã, a história fantasiosa de um “espírito” de verdade que se esconde num poço numa área distante da vila. A história estimula a imaginação da pequena Ana, que passa a visitar o poço em busca do seu “Frankenstein”.


A narrativa muda de rumo quando um elemento do mundo real invade o universo fantasioso criado na mente da garota. No caso, a chegada de um soldado desertor que se esconde próximo ao poço. Para Ana, aquele homem é a corporificação do espírito que povoa sua imaginação, o seu “Frankenstein” construído por seu desejo. Passa então a cuidar do soldado, levando alimentos e roupas em segredo, inclusive da própria família. Ana cuida do seu monstro secreto como se fosse seu “Frankenstein” de estimação, desenvolvendo com ele uma relação que mescla sentimentos de estranhamento, fascínio e sedução. Por fim, a descoberta do pequeno segredo dos dois deflagra o desfecho da narrativa.

A dedicação de Ana a seu amigo secreto expressa, de certa forma, uma reação ao ambiente familiar pouco amoroso, onde seus pais vivem uma relação fria e distante. O pai, Fernando (Fernando Fernán Gómez), é um apicultor, que nas horas vagas escreve textos poéticos sobre a vida das abelhas. A mãe, Teresa (Teresa Gimpera), é uma mulher um tanto melancólica que escreve cartas para um desconhecido, que podemos supor que seja um amante ou amor perdido do passado. Não há praticamente nenhuma interação entre Fernando e Teresa. A volta deles o mundo das filhas pulsa de desejos, descobertas, medos e fantasias. A casa da família representa metaforicamente uma colmeia de abelhas, onde cada membro representa seu papel social submetido a uma hierarquia estabelecida para uma vida sem surpresas nem sobressaltos. Não por acaso, os vidros das portas e janelas da casa tem o formato hexagonal, semelhante aos favos de mel.

O olhar inocente da criança protagonista reordena o mundo percebido. A fantasia molda a dureza da realidade. A descoberta dos fatos da vida, de modo especial a morte, revelam uma realidade transformadora. A entrada em cena do soldado / “espírito”, e sua representação como figura adulta, alheia ao mundo (re)conhecido, reconfigura a arquitetura mental da pequena Ana. A colmeia está em desequilíbrio.


Há um clima de tensão e mistério no ar. A narrativa, lenta e silenciosa, de poucos diálogos, explora primordialmente o desconhecido, sob a ótica das crianças. Ao abrir mão de um realismo pleno, o filme de Victor Erice entrega uma narrativa que assume o tom sobrenatural em diversas passagens. Especialmente no final de forte caráter poético.

O “monstro”, ou espírito, é uma representação simbólica da situação política vivida pela Espanha naquele período. A jornada de descoberta da pequena Ana é uma metáfora para a sociedade sufocada no enfrentamento aos desmandos da ditadura liderada por Franco. Então, Franquismo é igual a Frankenstein. A sonoridade das palavras só auxilia na associação dos significados.

Nos aspectos puramente técnicos e artísticos o filme é um primor. Desde a doce e um tanto climática música de Luis de Pablo, passando pelo roteiro enxuto do próprio Victor Erice, em parceria com Ángel Férnandez Santos, até a bela fotografia de Luis Cuadrado, em tons âmbar, a cor do mel, O Espírito da Colmeia é um espetáculo que deleita o cinéfilo mais atento.

Assista o trailer: O Espírito da Colmeia

(Texto originalmente publicado na coluna “Cinefilia” do DVD Magazine em novembro de 2016)

Jorge Ghiorzi

quinta-feira, 6 de julho de 2017

“Homem-Aranha: De Volta ao Lar”: um novo recomeço


Uma boa notícia para os fãs. O Aranha não morreu, apesar das recentes experiências desastrosas. Apenas mudou de casa e agora retorna vivo, firme e forte. Para quem não está ligando os pontos desta teia, vale lembrar. O personagem Homem-Aranha, nos quadrinhos, pertence à Marvel. Mas no cinema o herói dava expediente na Sony, que detinha os direitos para a telona. Nesta fase de exílio o Homem-Aranha protagonizou cinco filmes. Uma primeira trilogia dirigida por Sam Raimi e estrelada por Tobey Maguire (2002, 2004 e 2007) e outros dois filmes protagonizados por Andrew Garfield (2012 e 2014).

Era chegada a hora de retornar ao lar. A estreia nesta nova fase ocorreu no ano passado com uma pequena participação do novo Homem-Aranha em Capitão América: Guerra Civil, onde, a convite do Homem de Ferro, integrou o grupo dos Vingadores. Agora, finalmente ganha seu filme solo com a marca inconfundível da Marvel. Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming) é na verdade uma sequência direta daquele filme do Capitão América. Porém, desta vez o foco é inteiramente direcionado ao personagem alter-ego de Peter Parker. Se antes ele foi um mero coadjuvante, nesta nova produção ele ganha vida própria e assume definitivamente o protagonismo no universo Marvel como integrante confirmado dos Vingadores.


Ao mesmo tempo em que participa do maior grupo de super-heróis do planeta, o jovem Peter Parker (Tom Holland) tem que se virar no dia-a-dia com a rotina dos problemas típicos de um adolescente universitário: estudar, fazer provas, ajudar com as tarefas domésticas e, quando possível, flertar com a garota que balança seu coração. Não fosse tudo isso, ainda tenta provar para Tony Stark (Robert Downey Jr.), o Homem de Ferro em pessoa, de que já está pronto para a próxima missão, que não chega nunca. Nesta relação Stark assume por vezes os ares da figura paterna que Peter Parker não tem.

Então, enquanto a missão não vem, ele próprio trata de correr atrás de algo para mostrar o seu valor como super-herói. Típico comportamento de rebeldia juvenil. Quando por acaso impede o roubo de um banco com assaltantes que utilizam armamento com tecnologia de origem alienígena, o Homem-Aranha entra na mira do novo vilão que está surgindo para levar o caos à cidade, o Abutre (Michael Keaton). Neste embate o Aranha assume o novíssimo uniforme super high-tech desenvolvido pelas indústrias do mega empresário Tony Stark. Altamente tecnológico, o novo traje é quase uma armadura com muitas gadgets e incríveis novas funções da tradicional teia, marca registrada do herói.


Homem-Aranha: De Volta ao Lar foi dirigido pelo novato, e pouco conhecido, Jon Watts que fez um ótimo trabalho neste reboot do personagem que estava à espera de uma retomada, pois trata-se de um dos super-heróis de maior prestígio da Marvel. A narrativa leve e descontraída flui sempre com competência, o que torna o filme uma experiência agradável, praticamente sem momentos de baixo interesse. As cenas de ação são eficientes, não pecando pelos excessos vistos ultimamente nas produções do gênero. Apenas uma ressalta negativa para as sequências noturnas que são de difícil visualização, o que dificulta sua plena apreciação.

Recentemente filmes como Deadpool e Guardiões da Galáxia apontaram um caminho que renova o interesse nas adaptações das HQs para o cinema. Ambos abandonaram uma certa solenidade na abordagem e acrescentaram generosas doses de humor. A proposta é reproduzir a experiência desencanada de ler uma revista em quadrinhos, com diversão e relaxamento. Acertadamente o novo Homem-Aranha bebe desta mesma fonte. Objetiva e direta, a nova adaptação do herói aracnídeo não perde tempo com questões de interesse relativo e parte direto para a ação. Pouco ficamos sabendo das suas relações familiares. Nosso conhecimento se limita apenas ao essencial: ele vive com a Tia May (Marisa Tomei) e basta. E nada de repassar a origem dos poderes de Peter Parker. A história da picada da aranha radioativa é citada rapidamente apenas num curto diálogo, e segue em frente.


A repaginação do Homem-Aranha nesta nova versão, com a grife Marvel, foi bem sucedida e demonstra fôlego para muitos filmes. Além do tom correto da aventura, claramente mirando um público mais jovem, possivelmente o grande acerto da produção foi a escalação de Tom Holland para interpretar o herói. Carismático, engraçado, bom ator e muito jovem (o que garante uma vida longa na pele do herói) ele assume com talento o papel que recentemente foi do insosso Andrew Garfield em filmes que não deixaram saudades. O novo Homem-Aranha das telas saiu melhor que a encomenda, até porque a baixa expectativa contribuiu para uma avaliação menos apaixonada e tendenciosa. É fato: Homem-Aranha: De Volta ao Lar revitaliza, com méritos, o prestígio de um herói que andava em baixa.

Assista o trailer: Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Jorge Ghiorzi

terça-feira, 27 de junho de 2017

“Zabriskie Point”: jornada no deserto


36º 25’ N 116ª 48’ O. Estas são as coordenadas geográficas que assinalam a localização do “Zabriskie Point” no globo terrestre. Um lugarzinho perdido no mapa, no meio do Parque Nacional do Vale da Morte, no deserto da Califórnia. O terreno árido é resultado de um lago que secou há milhões de anos. Uma região onde a vida é um desafio constante da natureza.

Este é o cenário que inspirou a única experiência de Michelangelo Antonioni em terras norte-americanas. Zabriskie Point (1970) foi realizado num período de grande evidência do diretor, quando o nome de Antonioni se consolidava como um cineasta com livre trânsito internacional, além da condição de apenas um realizador de cinema de arte europeu. Seu trabalho anterior, primeiro em língua inglesa, foi Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966), e o seguinte foi O Passageiro – Profissão: Repórter (1975).

Os emblemáticos tempos de passagem da década de 60 para os 70 estão na essência da narrativa de Zabriskie Point. Período de lutas pelos direitos civis, emancipação dos negros, contracultura, guerra do Vietnã, movimento hippie, psicodelia e rock, muito rock. O filme de Antonioni já inicia conflagrado, no olho do furacão. Na sequência de abertura, em estilo documental, somos jogados no meio de uma assembleia de universitários no campus discutindo sobre a iminente greve e as ações do grupo no enfrentamento contra a repressão policial. Logo identificamos entre os universitários o protagonista da história. O jovem Mark (Mark Frechette) parece alheio e distante da veemência dos discursos revolucionários de seus colegas. Ao se manifestar em público pela primeira e única vez na reunião revela sua verdadeira natureza de independência. Declara em alto e bom tom: “Estou disposto a morrer (pela causa). Mas não de tédio”. E sai da sala de forma teatral e dramática, para espanto dos estudantes pela clara exibição de individualismo.


Ao participar de um confronto da policia com um grupo de grevistas, Mark é testemunha da morte de um policial de Los Angeles. Por estar portando uma arma, Mark foge do local para não ser acusado de homicídio. Sem destino, sem mapa, sem bússola e sem dinheiro no bolso, decide, num impulso, roubar um pequeno avião e seguir sem rumo em direção ao deserto.

A outra protagonista da história é Daria (Daria Halprin), secretária de um poderoso empresário (Rod Taylor) que planeja construir um mega empreendimento residencial em pleno deserto de Mojave. Ao fazer uma viagem de carro por este mesmo deserto, para encontrar-se com seu chefe (e talvez amante, pode-se supor pelo contexto), Daria decide dar uma parada numa cidadezinha no meio do caminho para visitar um amigo. Durante a viagem Daria percebe no céu um pequeno aviãozinho que começa a dar voos rasantes sobre seu carro. Nestas coordenadas do deserto as histórias dos dois personagens errantes se cruzam e os destinos de ambos mudam de rota.

A escolha do deserto como cenário faz todo sentido se considerarmos que Michelangelo Antonioni é um cineasta reconhecido pelo pleno domínio da mise-en-scène nas geografias dos espaços cênicos que representa em suas obras. Em Zabriskie Point o diretor expõe o ambiente urbano da metrópole, com sua sufocante profusão de placas, painéis, outdoors e publicidade, em contraste com a paisagem desolada e plácida do deserto, espécie de paraíso (ainda) intocado pela civilização. Neste aspecto, o ambiente representa a própria natureza interior dos personagens que promovem uma fuga para, por fim, encontrar-se em si mesmo. Há sim algo de existencialista nesta jornada de descoberta. Um sonho utópico perseguido que não se completa. Fica apenas a desilusão.


Michelangelo Antonioni se posicionava como um intelectual marxista, no entanto, contradizendo este discurso, seus filmes invariavelmente tratavam de uma elite burguesa com seus problemas típicos, longe da dura realidade de um trabalhador proletário. Ainda assim, não resta dúvida que Zabriskie Point é um filme explicitamente anticapitalista, de contestação ao establishment e à manutenção do status quo da ordem ideológica, política e econômica instalada. Há, porém, uma fragilidade nesta abordagem um tanto idealizada que manifesta uma indulgência demasiada com os movimentos jovens, plenos de contestação, mas vazios nas alternativas que sugerem como opção.

Realizado há mais 45 anos, com a ambição de retratar um período peculiar da sociedade norte-americana, Zabriskie Point por vezes soa por demais datado e preso a um estilo “hiponga”, típico daquele momento. Mas não há como negar, porém, que o olhar europeu (estrangeiro) de Antonioni foi suficientemente bem sucedido para transmitir o espírito da América naquele início de década. Ainda que não tenha sido bem recebido no lançamento, ficando aquém das expectativas nas bilheterias, o longa-metragem foi reavaliado ao longo do tempo e hoje pode ser classificado como um dos melhores trabalhos de Michelangelo Antonioni.


Pelo menos duas sequências icônicas de Zabriskie Point passaram para a história. A primeira delas é a sessão de amor coletivo em pleno deserto com vários casais transando em meio às areias, um símbolo do sexo livre em conexão com as forças da natureza. A outra sequência de destaque, ainda hoje impactante, é a explosão final, metáfora do desejado fim do consumismo capitalista. De beleza plástica excepcional, a sequência ganha ares de pintura pop art a lá Andy Warhol ou Jackson Pollock. Com direito a uma hipnótica trilha sonora composta pelo Pink Floyd.

Na época do lançamento mundial Zabriskie Point foi censurado no Brasil pela explosiva mistura de política, contestação, corpos nus e sexo livre.

Assista o trailer: Zabriskie Point

(Texto originalmente publicado na coluna “Cinefilia” do DVD Magazine em novembro de 2016)

Jorge Ghiorzi