quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Ponto Sem Retorno: no fim do mundo


A evolução do cinema pós-apocalíptico reflete os medos coletivos de cada era, moldando o fim do mundo segundo as ansiedades de seu tempo. Se nos anos 1950 a paranoia da Guerra Fria se traduziu no pavor de invasões alienígenas (A Guerra dos Mundos), os anos 1960 materializaram o pavor real da aniquilação nuclear (Dr. Fantástico). Nos anos 1970 o foco migrou para a escassez de recursos e o colapso ambiental (Soylent Green – No Mundo de 2020). Os anos 1980 transformaram essa desolação em um colapso social hiperviolento e anárquico (Mad Max 2). A virada dos anos 1990 trouxe o medo da dependência tecnológica e do apocalipse cibernético (O Exterminador do Futuro 2), cedendo espaço nos anos 2000 ao pavor da paralisia social por infecções em massa (Extermínio). Nos anos 2010, o subgênero se aprofundou na ansiedade climática extrema e no colapso sistêmico (Expresso do Amanhã), culminando nos anos 2020 em narrativas pós-pandêmicas pautadas pelo isolamento, pela derrocada da verdade e pela ruptura institucional (The Last of Us). É justamente no cruzamento do trauma biológico recente da Covid-19 com a iminência do colapso climático irreversível que se situa Ponto Sem Retorno (The Dog Stars), no qual Ridley Scott (em seu 30º longa-metragem) sintetiza esses medos acumulados para explorar uma faceta do extermínio da humanidade. Não no contexto do coletivo global, mas no microcosmo de um drama de sobrevivência íntimo.

Adaptação do romance homônimo de Peter Heller, o filme contrasta a realidade devastadora de uma catástrofe biológica global com o sofrimento silencioso da solidão. Em um aeroporto abandonado, o mecânico e piloto de monomotor Hig (Jacob Elordi) tenta preservar o que restou de sua humanidade a partir da profunda cumplicidade com seu velho cão, Jasper, elo vital com o passado e sua principal âncora afetiva. Seu outro parceiro nessa rotina é Bangley (Josh Brolin), um veterano ex-militar bélico e paranoico. Essa frágil dinâmica se rompe quando Hig capta um misterioso e distante sinal de rádio. Motivado pela perspectiva de encontrar outros sobreviventes, ele decide voar para além do perímetro de segurança rumo ao desconhecido. Na jornada, acaba descobrindo uma fazenda isolada onde vivem Pops (Guy Pearce) e sua filha, Cima (Margaret Qualley). Superadas a desconfiança inicial e a paranoia do contágio, eles percebem que a única maneira de garantir a própria sobrevivência é unindo forças em busca do bem comum.


Assumindo o papel do protagonista após a saída de Paul Mescal, originalmente escalado para a produção, Jacob Elordi conduz o filme sob um tom predominantemente melancólico, sombrio e fatalista. Essa atmosfera reflete o estado de espírito de Hig, que carrega no íntimo um sentimento de culpa irreparável. Em vez de entregar a típica aventura de herói pós-apocalíptico, a narrativa prefere focar no peso psicológico de um homem incapaz de se perdoar pelas escolhas do passado. Cada atitude no presente soa menos como um ato de bravura e mais como uma tentativa dolorosa de expiar decisões que ele sabe não terem mais volta. 

Em meio a esse drama contido, o filme insere uma sequência inesperada que destoa fortemente do tom vigente. Após a fuga dos personagens do ataque de um bando hostil, eles chegam a um aeroporto de estética retrô-futurista comandado por uma alucinada comissária de bordo, interpretada com vigor mórbido e voz grave por Allison Janney. O local abriga uma espécie de sociedade alternativa formada por uma elite hedonista e decadente. Quando situado nesse espaço, Ponto Sem Retorno ganha finalmente alguns minutos de tensão genuína e estranhamento inquietante.

Contudo, esse sopro de inventividade é sufocado pelas poucas sequências de ação, todas por demais genéricas e burocráticas para o histórico do diretor. Seria natural esperar a energia pulsante e a decupagem visceral de obras como Falcão Negro em Perigo, mas as cenas aqui parecem cumprir apenas uma cota protocolar de adrenalina. Assim que cessam, a narrativa recai em uma calmaria desprovida de urgência, acomodando-se na busca óbvia pela sobrevivência em um mundo já em ruínas.


Para completar esse tom frio e distante, o romance simplesmente não engrena quando deveria dar as cartas no final. Jacob Elordi e Margaret Qualley têm uma química morna, para não dizer nula, e a gente não embarca pra valer naquele afeto de ocasião em momento algum. O que deveria ser a grande faísca de esperança e recomeço da história vira só mais um momento apático, deixando uma estranha sensação de indiferença diante de uma obra que observa o fim do mundo, mas não consegue fazer a gente sentir nada por ele.

Assista ao trailer: Ponto Sem Retorno


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Coyote vs. Acme: celebração do absurdo

 

Por muito pouco o público não foi privado de uma das comédias mais inspiradas dos últimos anos. A animação quase foi engavetada por uma manobra jurídico-contábil do estúdio Warner Bros. Discovery, que suspendeu o lançamento para alegar prejuízo financeiro e se beneficiar com redução no pagamento de impostos. Essa foi a mesma estratégia polêmica utilizada na produção, finalização e engavetamento do filme solo Batgirl. Uma atitude digna da própria ACME, convenhamos. Esta história só foi revertida após forte pressão do elenco, do diretor e de uma grande mobilização de fãs, permitindo que a Ketchup Entertainment adquirisse os direitos de distribuição. O fato de Coyote vs. Acme finalmente chegar às telas já é, por si só, uma imensa vitória para o cinema.

E que vitória. O filme, dirigido por Dave Green (de As Tartarugas Ninja: Fora da Sombras, 2016) promove um reencontro nostálgico com personagens que povoaram as manhãs em frente à TV de tantas gerações, se estabelecendo como a melhor produção a combinar live-action com animação desde o clássico Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988). Na trama, cansado de ver suas armadilhas para capturar o Papa-Léguas falharem miseravelmente e resultarem em acidentes dolorosos, Wile E. Coyote decide tomar uma atitude inédita e contrata Kevin (Will Forte), um advogado de pequenas causas, para processar a gigantesca ACME Corporation por disponibilizar produtos defeituosos. O caso ganha repercussão midiática e chega até os tribunais, se transformando em um embate jurídico épico quando a corporação envia seu implacável e intimidador CEO (John Cena), ex-chefe de Kevin, disposto a tudo para defender a reputação de seu império. Em essência, Coyote vs. Acme é um filme de tribunal.

A narrativa funciona brilhantemente por dialogar com a memória afetiva do espectador. A violência estilizada dos Looney Tunes nunca foi sobre dor ou destruição, pois sempre foi sobre a celebração do absurdo. Foi essa fórmula que forjou gerações na magia de se divertir com pancadas sem sequelas, explosões sem sangue e a mais gloriosa subversão das leis da física, em que a gravidade só funciona quando o personagem olha para baixo.

Essa dinâmica captura a essência pura do humor pastelão (slapstick). Quem cresceu assistindo a esses desenhos desenvolveu uma relação afetiva com o absurdo, no qual o impacto físico existe como recurso estritamente cômico. Não há trauma ou tragédia na explosão de uma dinamite, ou uma bigorna caindo do penhasco ou um martelo esmagando o dedão. Existe apenas o ritmo perfeito da piada e a resiliência inabalável de quem se levanta no frame seguinte, pronto para a próxima tentativa de chegar ao seu objetivo. O filme entende que a graça nunca esteve no sofrimento do Coyote, mas na sua obstinação de continuar tentando em um mundo onde a lógica real não se aplica.

Grande parte desse sucesso se deve ao afiado elenco live-action. Destacam-se as atuações de Will Forte, perfeito como o advogado frágil brigando contra uma megacorporação, e de John Cena, que entrega uma performance descarada, exagerada e divertida como o CEO da ACME, construído como um típico vilão cartunesco, cheio de truques e autoconfiança exagerada.

Com soluções inteligentes de roteiro que amarram a metalinguagem jurídica ao caos dos desenhos animados, o filme transborda envolvimento e ritmo. O humor é afiado, gerando sequências genuinamente hilárias que arrancam gargalhadas sinceras da plateia do início ao fim. Por mais que soe como um clichê, a obra prova ser aquele raro entretenimento universal, pois fisga os adultos pelo resgate afetuoso do passado e encanta os mais jovens pela energia inabalável da comédia física. Coyote vs. Acme é um êxito do cinema de humor, mostrando que, contra todas as probabilidades e manobras corporativas, o Coyote, de alguma maneira, desta vez saiu vitorioso.

Assista ao trailer: Coyote vs. Acme


Jorge Ghiorzi

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Muito Prazer: o amor nos tempos do algoritmo

Reconhecido pelo domínio da narrativa ágil, pelas tiradas inteligentes e pelo olhar perspicaz sobre os dilemas do cotidiano brasileiro, Jorge Furtado desenvolveu uma filmografia marcada pelo equilíbrio entre o cinema de autor e a comunicação direta com o público. Em seu novo longa-metragem, Muito Prazer, o cineasta gaúcho retorna ao terreno da comédia para investigar as dinâmicas de afeto e desejo na era digital, mediadas por algoritmos.

A história acompanha Rubem (Daniel de Oliveira), um motorista de aplicativo sufocado por dívidas que recebe como herança um motel decadente e abandonado. O imóvel vem acompanhado de Grace (Luisa Arraes), uma ex-funcionária que fez do lugar sua casa. Para tentar sair do buraco financeiro, a dupla, com a ajuda de Nalva (Samantha Jones), decide transformar o espaço em uma fonte inusitada de renda: espalham câmeras escondidas pelos quartos e faturam vendendo os vídeos dos clientes na internet.

Quartos de motel, casais empolgados, sexo quente e câmeras escondidas. Tinha tudo para ser uma comédia picante sobre voyeurismo, daquelas que cruzam a linha da sacanagem e, justamente por isso, ficam na memória. Não se trata de lamentar a ausência de nudez explícita ou o apelo vulgar. O problema é que a transgressão para por aí. Como cabe a uma produção com o selo da Globo Filmes, a ousadia esbarra na classificação indicativa e de olho na futura exibição na TV aberta, ou mesmo expansão para uma série. A opção por jogar na segurança e seguir a receita do cinema comercial acabou, paradoxalmente, limitando a força da premissa. O objetivo assumido é ser uma comédia popular bem-comportada. Em vez de cutucar o comportamento sexual contemporâneo ou fazer rir pela provocação, o filme prefere o riso inofensivo, que acomoda o espectador em vez de desafiá-lo. 

Essa opção pelo caminho mais seguro fica clara no próprio trio de protagonistas. Diante da chance de espiar a intimidade dos outros, Rubem, Grace e Nalva reagem com total indiferença. Não mostram um pingo de excitação ou curiosidade, parecendo personagens imunes ao desejo. A motivação deles é pura e simplesmente o ganho financeiro, isto é, o pragmatismo de quem explora a imagem de corpos anônimos sem peso na consciência, sob a desculpa moral de que, como ninguém é identificado, ninguém sai prejudicado.

A trama, que parece se contentar em navegar apenas na superfície do tema central, mostra-se pouco envolvente e derivativa, sem soluções realmente satisfatórias. Muito contribui para esse cenário o fato de algumas piadas potencialmente hilárias no papel falham ao serem transpostas para a tela, deixando a impressão de que a realização ficou aquém do seu potencial. Essa distância entre a ideia e o produto final salta aos olhos quando confrontada com o próprio texto de Jorge Furtado. O roteiro é repleto daqueles diálogos vivos, coloquiais e recheados de referências enciclopédicas que se tornaram sua marca registrada. A escrita continua afiada e inventiva, mas aqui parece esbarrar na execução.

Soma-se a isso uma aparente inadequação do elenco principal, que não demonstra uma intimidade natural com o timing de comédia que o roteiro exige. Faltou o ritmo preciso para fazer fluir o humor verbal e as tiradas inteligentes que funcionavam tão bem na palavra escrita, um padrão ouro de texto brilhante e atuação inspirada que o próprio diretor já alcançou em obras como O Homem Que Copiava (2003) e Saneamento Básico – O Filme (2007).

Desta vez, a experiência de Muito Prazer não faz jus ao título, resultando em uma comédia que prefere a moral da história ao verdadeiro prazer da transgressão. É um filme de boas intenções que acaba morrendo na praia, vítima do medo de ousar e de um elenco que não parece ter entrado totalmente na brincadeira. Ao espectador, resta a sensação de ter assistido a uma grande ideia diluída em uma piada inofensiva e comportada.

Assista ao trailer: Muito Prazer


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Só Por Uma Noite: sexo com hora marcada

 

Há apenas uma maneira de mergulhar integralmente na história de Só Por Uma Noite (One Night Only), e ela passa necessariamente pela nossa capacidade de aceitar, sem restrições, o conceito que sustenta a trama. Qual seria esse conceito? No universo proposto pelo filme, uma lei governamental permite que os solteiros dos Estados Unidos façam sexo antes do casamento apenas em uma data específica, das 19h às 7h. Isso mesmo: 12 horas de sexo livre, sem culpa, sem compromisso, sem necessidade de ligar no dia seguinte e, graças ao uso obrigatório de preservativos, sem o risco de uma gravidez indesejada. Fora desse período, homens e mulheres não casados devem se submeter à castidade. Com uma premissa dessas, a abordagem se prestaria perfeitamente a uma distopia de ficção científica, algo na linha de É Proibido Procriar, produção cult britânica estrelada por Oliver Reed e Geraldine Chaplin em 1972. Mas não é o caso aqui: o tema foi tratado como uma comédia romântica.

Naquela noite de fornicação consentida, nossa atenção se concentra em dois personagens. Dono de uma pizzaria, Owen (Callum Turner) é um romântico apaixonado, prestes a brindar a futura esposa com um anel de brilhantes. Seu mundo vem abaixo quando a noiva pede licença para aproveitar aquela noite de sexo livre com outro homem. A outra personagem que acompanhamos é Allie (Monica Barbaro), uma cantora de jingles insatisfeita com a carreira e com a falta de relacionamentos afetivos verdadeiramente autênticos. É nesse clima de puro descompasso emocional que os dois terão que atravessar a noite, em que a euforia geral contrasta diretamente com a nuvem de frustração sobre suas cabeças. Ambos agem como se estivessem na festa errada, da qual preferiam escapar, mas o acaso acaba conduzindo seus passos até um inevitável encontro casual pelas ruas. Ao contrário do que prevê o manual das comédias românticas, a faísca inicial não é suficiente para acender o fogo de imediato. Em situações distintas e inesperadas, eles continuam se cruzando ao longo da madrugada, até que o óbvio se escancara quando o destino dá a resposta que ambos procuravam.

A direção é de Will Gluck, que em 2011 assinou Amizade Colorida, onde Mila Kunis e Justin Timberlake vivem dois amigos que decidem levar a parceria a outro nível, incluindo na relação o sexo sem compromisso. Como se percebe, o realizador revisita aqui a dinâmica dos desejos casuais e suas consequências. Assim, Só Por Uma Noite se constrói como uma fábula moral moderadamente satírica ao partir de uma premissa absurda para desenvolvê-la sob uma ótica humanizada e realista. Nessa caminhada, a narrativa evoca diretamente o espírito de Depois de Horas, de Martin Scorsese, ao lançar seus protagonistas em uma jornada noturna contínua.

Só Por Uma Noite é um conto romântico movido pela urgência implacável do relógio, que se passa em uma Nova York que se recusa a ser mero pano de fundo. Filmada em locações reais, a metrópole surge de forma pulsante e palpável, tornando-se um verdadeiro elemento narrativo. É através desse labirinto urbano cru, repleto de encontros bizarros e tipos excêntricos, que o caos da madrugada espelha o desconforto emocional e a aproximação inevitável da dupla até o amanhecer. Para além do mero recurso narrativo, essa inacreditável lei proposta pelo filme funciona como uma divertida provocação à clássica moral careta dos americanos. Só mesmo uma sociedade historicamente puritana para achar que a libertação dos corpos se resolve com hora marcada e agendamento prévio. Ao transformar a noitada em um compromisso de agenda, a comédia debocha dessa mania de querer burocratizar os afetos, mostrando que nenhum decreto governamental é capaz de organizar o verdadeiro caos da busca por intimidade genuína.

No fim das contas, a grande ironia do filme está em sua recusa deliberada de ser o manifesto que poderia ser, ainda que com viés de comédia. A narrativa aceita a imposição autoritária na norma legal como um dado inquestionável daquele universo, sem qualquer interesse em criticar ou debater o controle estatal sobre os corpos. Ao jogar seus personagens em uma realidade utópica sem reflexões políticas, Só Por Uma Noite reduz a lei bizarra a um mero pretexto narrativo cujo efeito colateral serve apenas para desencadear uma momentânea desordem urbana e nos lembrar de que o afeto genuíno ainda encontra brechas para acontecer. Contudo, para uma comédia amarrada em uma premissa tão absurda, o longa comete o pecado mortal de não ousar na transgressão, entregando protagonistas conformados que aceitam passivamente a situação sem qualquer gesto de insubmissão.

Assista ao trailer: Só Por Uma Noite


Jorge Ghiorzi

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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O Fim da Rua: de volta para o passado

 

Um típico bairro residencial de subúrbio de uma grande cidade dos Estados Unidos. Uma família formada por pai, mãe, dois filhos adolescentes e um cachorro. Uma boa casa com gramado, carro na garagem e cercas brancas: o retrato do sonho americano de felicidade aparente que, nas sombras da intimidade, esconde as fraturas de um casamento em crise. Como metáfora desse iminente abalo doméstico, um fenômeno inexplicável provoca um lapso espaço-temporal que lança a vizinhança direto para a Era Jurássica, no tempo em que os dinossauros dominavam o planeta. Diante de um ambiente tão hostil, os personagens precisam encontrar maneiras de garantir não apenas a sobrevivência, mas também a preservação do núcleo familiar. Este é o contexto de O Fim da Rua (The End of Oak Street), um misto de drama, ficção científica, ação e mistério dirigido por David Robert Mitchell (o mesmo do interessante Corrente do Mal, de 2014). O casal protagonista, Greg e Denise, é interpretado por Ewan McGregor e Anne Hathaway em atuações honestas e viscerais em sua entrega.

A presença de J. J. Abrams na produção revela de imediato a grande inspiração desta aventura distópica. Mesmo sem assinar a direção, Abrams imprime no projeto aquele toque inconfundível dos anos 1980, tão marcante na obra de nomes como Steven Spielberg e Joe Dante. Essa influência fica clara na forma como o filme se apropria de uma premissa de ficção científica especulativa e a conecta a sentimentos profundamente humanos. O enredo situa os personagens no confronto entre o encantamento das descobertas da adolescência e os dilemas tipicamente adultos, enquanto enfrentam a ameaça assustadora que coloca em risco o ambiente familiar. Além disso, ao apostar na fórmula do mistério, bem no espírito de séries como Além da Imaginação, a produção não só desperta a nostalgia do sci-fi clássico, como também garante um ritmo ágil que equilibra suspense e drama.

A ambientação oitentista (a história se passa em 1982), além de acionar esse gatilho nostálgico, traz outro elemento fundamental para a lógica interna da narrativa ao homenagear um período ainda analógico. Sem computadores, wi-fi, dispositivos digitais ou telefones celulares, o isolamento daquele bairro e de seus moradores se estabelece também pelas limitações em compreender o que efetivamente está ocorrendo. Esse "desconhecimento", que em um mundo digital seria resolvido em poucos minutos, contribui decisivamente para potencializar a sensação de uma ameaça inexplicável. A bem da verdade, a ciência e a física teórica explicariam em tese o fenômeno, e a menção ao astrofísico e divulgador científico Carl Sagan, feita por uma das personagens, reforça o embasamento lógico dessa fantasia.

A exploração do medo do desconhecido, matriz primordial da ficção científica, ganha força ao focar nas consequências desse evento catastrófico sobre personagens específicos. A escala global da tragédia existe como pano de fundo, mas o filme acerta ao concentrar sua narrativa na dimensão humana e íntima do colapso. Ao privar o espectador de uma visão panorâmica do caos, a narrativa nos limita à mesma ignorância e vulnerabilidade dos protagonistas. O pavor não vem apenas do perigo iminente, mas da incerteza absoluta sobre o que sobrou do mundo além daquela rua.

Essa sensação de perigo constante ganha contornos físicos pela visceralidade das cenas gráficas, que dão o tom sem rodeios e elevam o impacto do suspense. Longe da espetacularização higienizada comum no gênero contemporâneo, o filme opta por uma violência mais crua e direta. As aparições das criaturas resgatam o peso, a ferocidade e a imprevisibilidade de predadores reais. Assim, devolve-se a essas feras monumentais o status de animais mais aterradores que já pisaram na Terra, recuperando a imponência perdida após as recentes e descartáveis sequências da franquia Jurassic World.

Essa atmosfera de brutalidade reflete-se diretamente no elenco, explorando, por exemplo, uma faceta física e intensa de Anne Hathaway ao colocá-la para correr, suar e portar armas. Esse registro contrasta com a imagem de glamour e leveza consolidada por ela em comédias românticas e dramas de época. Embora a atriz já tenha se aventurado pela ação e pelo sci-fi (como em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e Interestelar), ver sua figura, tão associada à elegância, imersa no caos da sobrevivência gera um estranhamento produtivo que joga a favor da tensão constante da narrativa.

Mesmo com sua violência brutal, por vezes escancarada e em outras apenas sugerida, O Fim da Rua é um filme que essencialmente diverte ao provocar a adrenalina do espectador em uma verdadeira montanha-russa de emoções, alternando momentos verdadeiramente tocantes com outros de pavor genuíno. A melhor maneira de apreciar este pesadelo suburbano é não procurar (nem esperar) respostas: apenas deixe-se levar pelas sensações e entre neste jogo que transita entre o bizarro e o mais puro escapismo.

Assista ao trailer: O Fim da Rua


Jorge Ghiorzi

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Odisseia: longo caminho de volta

A imponência poética do clássico de Homero, obra seminal da literatura ocidental, encontra uma equivalente magnitude visual nas imagens colossais da adaptação A Odisseia (The Odyssey), de Christopher Nolan. Logo na abertura, o diretor nos lança em um território cercado de presságios, pistas sutis e subtextos narrativos que preparam o terreno para o que está por vir. É uma imersão direta no desconhecido, na qual a imensidão física do cenário serve como metáfora para o vazio e a incerteza do próprio destino humano. Na condição de testemunhas, nos sentimos tão perdidos e desamparados quanto os antigos navegantes diante de um oceano sem mapas. 

A trama, em essência, reconta a milenar saga de Odisseu, vivido por Matt Damon como um líder calejado e assombrado pelas decisões do passado, cuja única obsessão é retornar para sua terra natal, a ilha de Ítaca, após o fim da guerra devastadora na conquista de Troia. Enquanto ele enfrenta uma verdadeira provação física e psicológica cruzando caminhos perigosos pelos mares, sua esposa Penélope, interpretada por Anne Hathaway, resiste como pode à pressão de pretendentes que tentam usurpar seu lar e seu reino. Completa o núcleo central o jovem Telêmaco, papel de Tom Holland, filho de Odisseu, que cresceu sem a figura paterna e agora tenta defender o legado da família. É a clássica história de Homero sobre família, lealdade, sobrevivência, destino e culpa. O elenco principal ainda conta com nomes como Robert Pattinson (Antinous), Lupita Nyong'o (Helena), Zendaya (Athena), Charlize Theron (Calypso), Elliot Page (Sinon), Mia Goth (Melantho) e John Leguizamo (Eumaeus).

Para traduzir toda essa carga dramática e a própria imensidão desse mundo mitológico em imagens, Nolan recorre a escolhas estéticas grandiosas. O diretor abriu mão do registro digital e rodou o filme inteiramente em película no formato IMAX de alta resolução. Essa decisão técnica não é mero capricho visual, pois a textura orgânica da película e a escala monumental das telas gigantes esmagam o espectador, transformando a sala de cinema em um templo de contemplação. É uma escolha que resgata a própria essência do cinema como uma experiência coletiva e sensorial de tirar o fôlego.

Os minutos iniciais da obra de Christopher Nolan desestabilizam temporariamente a compreensão do espectador, provocando uma desorientação pelo denso volume de informações apresentadas de imediato. No entanto, essa vertigem é calculada. Por volta dos 50 minutos de projeção, as engrenagens narrativas começam a entrar nos eixos e, em um passe de mágica, o filme domina completamente a nossa atenção, sem dar espaço para pausas ou fôlego restaurador. O resultado é surpreendente, pois os quase 160 minutos de duração fluem com tamanha organicidade que passam sem o peso arrastado comum a produções desse porte.

A conexão com o clássico milenar fica ainda mais fascinante pela maneira como a história é contada. Nolan, como é sua característica, aposta em uma narrativa não linear, em que o tempo se dobra e as cenas se misturam fora de ordem cronológica. Essa estrutura fragmentada, aliás, já estava de alguma forma presente na obra de Homero, que também começa no meio do caminho para só depois resgatar o passado através de lembranças. A montagem dinâmica desses diferentes planos narrativos funciona como um convite irresistível, prendendo a nossa atenção de um jeito tão forte que nos sentimos navegando lado a lado com o protagonista por aqueles reinos mitológicos.

No fundo, essa engrenagem temporal é o veículo perfeito para a receita clássica da Jornada do Herói. A viagem do protagonista por cenários gigantescos e perigosos serve como um espelho para o que acontece dentro dele. Cada monstro e obstáculo do mito grego ganha aqui uma roupagem psicológica. A fúria implacável de Poseidon se transforma no peso esmagador do destino, enquanto o magnetismo perigoso do canto das sereias e os feitiços de Circe passam a representar as distrações e tentações que nos desviam do caminho. Até mesmo o confronto cego com o Ciclope e a travessia tensa entre os redemoinhos de Caríbdis e as garras tentaculares de Cila encontram paralelo naquelas decisões limite onde qualquer erro é fatal. Ao passar por testes que quase o fazem perder o juízo, o herói é obrigado a deixar o orgulho e a vaidade de lado para finalmente conseguir voltar para casa. É a constatação de que vencer os perigos do caminho acaba sendo a parte mais fácil, porque o desafio de verdade é encarar os fantasmas que carregamos na nossa própria mente. Essa provação interna é ilustrada com perfeição no momento de epifania de Odisseu após contemplar a aniquilação completa de Troia, incluindo a destruição dos templos das divindades que, violados, desencadearam a fúria implacável de Poseidon.

Cercado de expectativas, o filme de Christopher Nolan se equilibra entre a grandiosidade de uma fantasia mítica, o dinamismo de uma aventura de ação e a escala íntima da jornada de um homem consumido pela culpa e por uma promessa. Tudo indica que A Odisseia já nasce clássico, embora só o teste do tempo possa, de fato, confirmar essa condição. Tomando de empréstimo o título da obra-prima de Dostoiévski, a narrativa se projeta como um verdadeiro 'crime e castigo' encenado no mitológico plano limite entre os homens e os deuses. Nessa fronteira espiritual e psicológica, Nolan transforma o peso do remorso humano em uma saga de proporções cósmicas, na qual a busca pela redenção se torna tão monumental quanto as próprias lendas que a cercam.

Assista ao trailer: A Odisseia


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Convite.: relações perigosas


A vizinhança no cinema raramente é um espaço de neutralidade, pois funciona, antes, como um espelho de neuroses, desejos ocultos e paranoias sociais. Bisbilhotar a vida de quem mora a poucos metros é um tema clássico que atravessa gêneros, servindo de premissa tanto para o terror de O Bebê de Rosemary e o suspense de Janela Indiscreta, quanto para a sátira de costumes em O Pecado Mora ao Lado e a comédia escrachada de Meus Vizinhos São um Terror. Afinal, a proximidade física com estranhos sempre flerta com o perigo, o inusitado, o mistério ou a sedução. É exatamente nessa linha tênue de convivência forçada que se baseia a comédia dramática O Convite. (The Invite, 2026), oferecendo mais um instigante exercício prático sobre os limites — ou a total falta deles — da boa vizinhança.

São justamente esses limites que testam o casamento desgastado de Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen). Embora dividam o mesmo teto, ambos se comportam como estranhos que levam vidas autônomas, estacionados naquele estágio precário em que a aparente comunicação apenas revela a mais absoluta incomunicabilidade. Uma oportunidade de romper esse círculo vicioso de anulação mútua surge com a chegada dos novos moradores do andar de cima, os descolados e desinibidos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton). Percebidos como o modelo idealizado de um relacionamento moderno que deu certo, eles são convidados por Angela para um jantar de boas-vindas, para a surpresa de Joe. Afinal, ele nutre certa antipatia pelos vizinhos devido aos ruídos escandalosos que eles fazem durante suas intensas noites de amor. É sob esse clima de expectativa e iminente acerto de contas que se inicia o que deveria ser um amistoso encontro de casais. Porém, o desdobramento da noite faz jus à clássica frase de Bette Davis em A Malvada: “Apertem os cintos, a noite vai ser turbulenta”.

As diferenças na dinâmica dos casais ficam evidentes no momento em que a porta se abre para recepcionar os convidados. A noite, que se inicia como uma comédia de erros, aos poucos muda de tom, sem nunca, porém, abrir mão do humor. Este, a propósito, é um dos grandes acertos de Olivia Wilde — aqui acumulando a função de diretora —, que conduz a narrativa de forma afiada, perspicaz e com pleno domínio de sua evolução

O Convite. é uma refilmagem da comédia espanhola Sentimental (2020), escrita e dirigida por Cesc Gay a partir de uma peça de sua autoria. O roteiro da versão estadunidense da obra espanhola foi escrito à quatro mãos por Will McCormack (“Toy Story 4”) e Rashida Jones. A origem teatral do texto fica evidente na tela pelo formato huis clos, no qual toda a ação se concentra em um único ambiente, “entre quatro paredes”. Contrariando a imensa maioria das adaptações de textos teatrais para o cinema, O Convite. jamais entedia o espectador por sua ausência de ação ou pelo cenário confinado. Pelo contrário: não há um minuto sequer de desperdício do interesse do público, graças a um texto sagaz, honesto e inteligente, somado a desempenhos inspirados e extremamente afinados, além de uma edição enxuta e orgânica que garante fluidez absoluta.

O encontro dos casais é regido, em seus momentos iniciais, pelas personas sociais que todos desempenham. Na superfície, todos se mostram idilicamente perfeitos, inteligentes e espirituosos, sem desvios de caráter e apresentados publicamente com as melhores versões de si mesmos, como em um filme de Woody Allen. Mas o teatro social dura pouco. Algumas taças de vinho depois as pequenas e inofensivas indiscrições privadas abrem caminho para pesadas confissões íntimas, abalando a amizade sincera que parecia surgir. Em certa medida, vimos algo semelhante no recente O Drama, quando verdades desconfortáveis vêm à tona. Ao descobrirem, de maneira hilária, o segredo por trás do estranho comportamento dos vizinhos barulhentos, Angela e Joe sofrem um choque de realidade que abala suas estruturas emocionais. O que descobrem os faz refletir sobre seus verdadeiros desejos reprimidos, provocando uma profunda análise sobre a própria história deles como um casal que um dia se amou, casou e pretendeu construir uma vida em comum.

Muito além de uma típica comédia romântica, O Convite. é um filme divertido sobre sexo, casamento e amores compartilhados. Um entretenimento para adultos, embalado pelo som aveludado de Sade: inteligentemente mordaz, delicadamente triste, genuinamente engraçado, confortavelmente moralista e sedutoramente inspirador.

Assista ao trailer: O Convite.


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

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