quarta-feira, 24 de junho de 2026

Supergirl: jovem, rebelde e “humana”

 

Quatro décadas após o fracasso do longa de 1984, estrelado por Helen Slater, e da breve aparição em The Flash (2023), interpretada por Sasha Calle, a prima do Superman ganha finalmente uma nova oportunidade para um merecido protagonismo. A personagem agora ressurge em grande estilo para consolidar de vez o seu espaço no Universo DC. No período de produção do longa Supergirl, dirigido por Craig Gillespie (Cruella e Eu, Tonya), a revelação do nome da protagonista foi motivo de polêmica e críticas junto à base de fãs. A alegação era de que a selecionada Milly Alcock destoava muito do perfil que os quadrinhos apresentavam. Passado o burburinho de pré-lançamento, pode-se afirmar agora que a escolha da atriz foi um dos grandes acertos da produção. Ela possui o carisma e a energia necessários para encarnar uma figura alinhada aos tempos atuais, distante de estereótipos previsíveis de uma heroína tradicional, justamente por se revelar mais impulsiva e vulnerável, características que Milly acrescenta com naturalidade ao filme.

Ainda que Supergirl não seja, na prática, um filme de origem, o longa revisita os fatos que explicam o passado da heroína e sua chegada à Terra. O recorte proposto pela obra foca essencialmente na jornada pessoal da personagem em busca de respostas sobre seu lugar nesse novo mundo. Diferente de seu primo Kal-El / Clark Kent, a jovem Kara Zor-El não parece muito interessada em fazer do nosso planeta a sua morada, ainda que aqui, banhada pelo Sol amarelo, tenha os benefícios de superpoderes quase ilimitados. Enquanto passa por esse dilema tipicamente juvenil de insatisfação com tudo e com todos, Kara vive um período de rebeldia, entregue à bebida, noitadas em bares interplanetários e à total falta de perspectiva. Enfim, à beira de uma crise existencial. É nesse contexto que começa a ação de Supergirl, justamente no dia em que ela comemora seus 23 anos de idade, solitária e isolada em um planeta qualquer, ao lado apenas do cão Krypto, seu fiel companheiro.


Quando menos espera, o destino cruza o caminho de Kara, conduzindo-a para sua verdadeira jornada de autodescoberta e para o início de seu arco dramático. Como qualquer personagem rebelde, a princípio ela renega o chamado para a ação, que surge na figura de uma garota órfã disposta a tudo para convencer a heroína a ajudá-la em sua missão de vingança pelo assassinato dos pais. O antagonista da história é o mercenário Krem das Colinas Amarelas, que, juntamente com seu grupo de bandoleiros, age como pirata espacial. A hesitação da heroína chega ao fim quando o perigo se torna pessoal demais para ser ignorado, atingindo Krypto, o cão que representa seu último elo com o planeta natal. 

Ao longo da narrativa o Superman (David Corenswet) surge algumas vezes sem efeito direto no desenrolar da história, meio que fazendo o papel de mentor da prima, sempre demonstrando preocupação com seu bem-estar. Nessas pequenas participações o filme não perde a oportunidade de reforçar a diferença de personalidade entre os dois. Enquanto o herói de Metrópolis encarna uma espécie de "tiozão careta", a jovem Supergirl é retratada como a garota descolada e independente.


Nesta aventura solo da heroína o vilão, Krem, é por demais mundano, sem a dimensão épica comum nas HQs e em suas adaptações cinematográficas. Em Supergirl o adversário é um bandoleiro espacial cujos objetivos não passam do banditismo predatório e da subjugação de jovens que mantém aprisionadas. Convenhamos, uma pequenez moral que contrasta com a grandiosidade cósmica que costuma cercar os grandes antagonistas do gênero. Para completar a galeria de coadjuvantes pouco memoráveis, há ainda o Lobo, interpretado por Jason Momoa. Mistura de caçador de recompensas intergaláctico bruto, debochado, canastrão e motoqueiro espacial, o autêntico anti-herói acaba se mostrando pouco significativo para a narrativa. Sua função parece ser apenas garantir um nome de peso no pôster e, de quebra, dividir o protagonismo com a Supergirl no desfecho. Talvez sua existência se justifique melhor nas sequências que certamente estão a caminho.

Além do vilão Krem e do anti-herói Lobo, cujos visuais remetem diretamente aos personagens de Mad Max, Supergirl emula, de modo geral, a estética das aventuras de Max Rockatansky e Furiosa nos desertos australianos. Essa escolha visual não ocorre por acaso, visto que o diretor Craig Gillespie é australiano e inclusive reconhece a influência direta. No entanto, a semelhança com a saga de George Miller para por aí. Enquanto a franquia Mad Max extrai sua força de um deserto solar e de uma luminosidade quase incômoda, que realça a crueza da ação, Supergirl ironicamente caminha no sentido oposto ao adotar uma fotografia sombria e escura demais. Essa escolha estética reduz a energia da produção e sabota a visualização plena das sequências de combate. Em vez do impacto visceral do sol do deserto, o espectador é entregue a uma penumbra digital que transforma momentos de grande adrenalina em borrões confusos, onde a própria coreografia das lutas se perde na falta de contraste.

No saldo final, Supergirl se sustenta muito mais pela força magnética de sua protagonista do que pelo conjunto de suas escolhas estéticas e narrativas. Se o roteiro derrapa ao entregar antagonistas desinteressantes e a direção erra a mão ao sufocar a ação sob uma penumbra digital desnecessária, a performance vulnerável e enérgica de Milly Alcock garante o coração da obra. Ao humanizar Kara Zor-El através de suas crises e rebeldias juvenis, o filme consegue atingir seu principal objetivo, provando que a Garota de Aço não precisa mais viver à sombra do primo famoso ao fincar, com autoridade, os seus pés no futuro do Universo DC.

Assista ao trailer: Supergirl


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

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domingo, 21 de junho de 2026

Segredo Obscuro: faltou substância

 

A obsessão pela juventude e pela beleza serve de inspiração, há muito tempo, para a ficção, tanto na literatura quanto no cinema. Obras como o romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e a animação clássica da Disney Branca de Neve e os Sete Anões, são apenas dois exemplos que ilustram essa busca idealizada. Há, no entanto, um pecado original nessa jornada: o preço da vaidade é invariavelmente a ruína. Nessas narrativas, a promessa da perfeição estética quase sempre culmina em tragédia, loucura ou na própria deformidade de quem a almeja. Esse desejo obstinado ganha contornos ainda mais sinistros quando transposto para a modernidade, onde a promessa de milagres estéticos imediatos esconde segredos perturbadores. 

Este é justamente o cenário no qual se desenvolve a trama de Segredo Obscuro (Shell), dirigido por Max Minghella. O longa acompanha o dilema de Samantha Lake (Elisabeth Moss, que também assina a produção), uma atriz em declínio na carreira que já não recebe oportunidades de trabalho em virtude de sua idade e do desleixo com a aparência. No glamoroso mundo dos holofotes, das capas de revistas e dos papéis de destaque nas telas, estes são considerados dois pecados mortais. A saída que ela encontra é se submeter a tratamentos estéticos revolucionários que prometem rejuvenescimento e o resgate da autoestima. Samantha acaba atraída para a ‘Shell’, um poderoso império da saúde e do bem-estar comandado pela ambiciosa Zoe Shannon (Kate Hudson), que desenvolveu um procedimento baseado no sistema reprodutivo dos crustáceos. O que parecia o início de um sonho dourado logo se transforma em pesadelo quando a atriz passa a notar sintomas estranhos em seu próprio corpo e descobre que pacientes da clínica estão desaparecendo misteriosamente. Enredada em uma perigosa teia de conspirações, ela precisa lutar pela verdade contra uma corporação implacável.


A estética de Segredo Obscuro espelha a própria matéria-prima de sua crítica. Em sua primeira metade, antes da virada narrativa (que não chega a ser exatamente um plot twist), o filme adota uma abordagem polida e idealizada, mimetizando a própria lógica superficial da indústria da beleza. No entanto, quando a trama assume o lado sombrio da ditadura estética, o longa recorre à paródia satírica de horror para revelar as entranhas monstruosas que se escondem sob a vaidade obsessiva. Durante dois terços de sua projeção, o filme parece limpo e inofensivo demais, com uma mensagem bem clichê que critica o etarismo e o culto à beleza jovem no meio midiático. Então, em dado momento, como se estivesse exausto de ser bem-comportado e higienizado, o roteiro se entrega totalmente ao caricato e diz finalmente a que veio.


O filme de Max Minghella dialoga tematicamente com duas outras obras, obtendo resultados distintos. Ambas abordam, em essência, o mesmo mote: o desejo de reverter os efeitos do envelhecimento e a recuperação da beleza perdida — em resumo, a busca por uma eternidade utópica. A primeira correlação possível é com a comédia de humor macabro A Morte Lhe Cai Bem (1992), dirigida por Robert Zemeckis e estrelada por Bruce Willis, Meryl Streep e Goldie Hawn (mãe da atriz Kate Hudson). A outra obra de identificação imediata é o recente terror corporal A Substância (2024), de Coralie Fargeat. Fica evidente, portanto, a linhagem clara que alimenta o longa de Minghella. O ponto a ressaltar — e lamentar — é que Segredo Obscuro fica preso em um limbo difuso ao não se assumir plenamente como uma comédia ácida e farsesca, nem incorporar, em sua totalidade, a vocação para abraçar o grotesco sem limites.


Tudo o que Segredo Obscuro deseja refletir sobre a indústria da beleza já foi tratado com mais complexidade em outros trabalhos no cinema. O objetivo do filme não está aí, já que ele passa ao largo de uma discussão significativa sobre o tema. O coração da obra reside, na verdade, na apropriação dessa temática para se divertir com uma narrativa que inicia como drama, transforma-se em suspense e finaliza como um autêntico body horror, jogando todas as suas fichas no choque visual e no desconforto. A questão é que a imersão profunda no cinema camp de terror, que visava a perturbar a audiência, acaba provocando o efeito contrário, transformando o pavor em comédia involuntária.


Na maior parte do tempo, a direção demonstra indecisão sobre qual caminho seguir. Com isso, o longa perde a coragem de mergulhar na escuridão e no drama psicológico. Da forma como foi concebida, a obra entrega um resultado muito aquém do potencial que a premissa sugeria e contenta-se com sua própria falta de ambição. Segredo Obscuro parece ser aquele tipo de produção que hoje olhamos com desconfiança e desapontamento, mas que no futuro poderá ser redescoberto como uma pérola do cinema trash, daquelas que faziam as delícias dos cinéfilos nos tempos das videolocadoras.

Assista ao trailer: Segredo Obscuro


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Toy Story 5: tempo de tela

Uma geração inteira nos separa do primeiro Toy Story. Há 31 anos era lançado o primeiro longa-metragem de animação totalmente gerado por computação gráfica. Um curioso paralelo se estabelece entre a ficção e a realidade quando percebemos que as crianças que assistiram à produção de 1995, assim como os personagens humanos da narrativa, envelheceram no decorrer do tempo, conforme se sucediam os demais filmes da série. E, assim como ocorreu na ficção, os velhos brinquedos seguem morando no coração, e nunca são abandonados em uma caixa no depósito. A franquia Toy Story é justamente isto: um brinquedo cinematográfico que guardamos no lado esquerdo do peito. Então, é natural que de vez em quando um sentimento de nostalgia se manifeste, e para esses momentos uma solução foi providenciada. Chega às telas dos cinemas um novo episódio da saga. Toy Story 5 é aquela continuação que ninguém pediu, mas, claro, todo mundo descobriu que queria. 

O reencontro com Woody, Buzz e companhia vem cheio de saudosismo com uma nova aventura que traz de volta a magia dos melhores momentos da série, em especial nos três primeiros filmes. O quarto filme, de 2019, se mostrou um tanto derivativo, sem avançar substancialmente na história dos brinquedos à beira de um ataque de nervos, sempre assombrados pelo fantasma do abandono. O anúncio deste quinto filme acendeu o alerta dos fãs. Por qual caminho seguiria este episódio? A resposta surge em um roteiro que resgata a essência da franquia ao equilibrar a atualidade das novas tecnologias com o carisma dos personagens clássicos. Ao abraçar a maturidade de sua própria trajetória, a produção evita o desgaste de fórmulas repetitivas e faz jus ao legado iniciado três décadas atrás.


O grande tema de Toy Story 5 é a chegada inevitável dos dispositivos tecnológicos no universo dos brinquedos analógicos. Neste aspecto, o arco narrativo da franquia repercute com exatidão o tempo atual. Ao lado de bonecos e jogos tradicionais, com pouca interatividade além da imaginação, toda uma geração nova de recursos eletrônicos passa a disputar a atenção integral das crianças. As telas digitais de tablets e celulares capturaram o olhar e atraíram os pequenos, que descobrem todo um mundo de possibilidades, mas, como efeito colateral, conduzem ao isolamento e afastam a infância do convívio coletivo. 

Essa desconexão social ganha contornos dramáticos no cotidiano da pequena Bonnie, a menina que herdou o antigo grupo de brinquedos de Andy. Diante da dificuldade da filha em interagir com outras crianças no mundo real, os pais decidem presenteá-la com o ‘Lilypad’, um tablet de última geração projetado especificamente para o público infantil. A sedução da tela é imediata, e o quarto, antes um espaço de narrativas lúdicas guiadas pela imaginação, transforma-se em um ambiente destituído de criatividade. É sob o comando da caubói Jessie, agora líder do grupo na ausência temporária de Woody, que os velhos companheiros de jornada percebem o tamanho do desafio. A dinâmica clássica da franquia, caracterizada por aventuras de resgate ou fuga de perigos externos, é profundamente ressignificada. A missão da turma passa a ser uma disputa existencial pela atenção e pelo afeto da própria dona, forçando os brinquedos analógicos a reivindicar novamente seu espaço de direito. O inimigo a ser vencido é a lógica fria do algoritmo digital, em um esforço para devolver à infância o valor daquilo que é palpável e compartilhado.

A crítica de Toy Story 5 ao uso massivo e precoce das telas digitais por crianças em fase de alfabetização tem um endereço certo: os pais. Afinal, a introdução do dispositivo muitas vezes mascara o desejo dos adultos por conveniência, transformando a tecnologia em uma espécie de babá eletrônica de luxo. Em vez de mediar o ócio ou incentivar o tédio criativo, essa inserção antecipada ao universo digital na verdade está afastando os pequenos do exercício coletivo da interação com seus amigos, fundamental para o desenvolvimento social. Nesse ponto, o filme adentra um terreno curiosamente ambíguo: ao criticar com severidade a dependência desses gadgets, a Disney assume uma postura quase autofágica. Afinal, a própria corporação é uma das grandes beneficiárias desse ecossistema digital, lucrando massivamente com o consumo de seus conteúdos em telas cada vez mais onipresentes na rotina de todos. A busca por uma solução conciliadora nessa convivência entre o analógico e o digital é, no entanto, o que atenua o peso da crítica no desfecho da trama, sugerindo que o equilíbrio — e não a exclusão — é o caminho possível.

Mas que o espectador não se engane pelo peso desta crítica que o filme propõe em seu enredo. Não devemos nunca perder de vista que se trata, acima de tudo, de uma animação, fundamentalmente dirigida às crianças, e é com elas que deve dialogar e entreter em prioridade. Neste aspecto, Toy Story 5 cumpre esta tarefa com gosto e criatividade. A fórmula infalível da dobradinha Disney/Pixar deu certo mais uma vez, e funciona com todo tipo de público: tanto com os fãs nostálgicos dos primeiros filmes quanto com as crianças que estão conhecendo agora esta série dos bonecos animados mais divertidos do cinema. A propósito, os efeitos da passagem do tempo não deixam de ser reconhecidos pela própria franquia. O roteiro assume um flerte bem-humorado com o etarismo quando Woody retorna para o terceiro ato. Em passagens que servem como um ótimo alívio cômico antes do clímax, os velhos companheiros não hesitam em "pegar no pé" do líder veterano, ironizando os inevitáveis sinais da idade e até um início de calvície no caubói de pano que sempre foi vaidoso. No fim das contas, Toy Story 5 prova que, mesmo com algumas linhas de expressão a mais, a franquia não perdeu um único fio do seu carisma original.

Assista ao trailer: Toy Story 5


Jorge Ghiorzi

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Olhe o Mar: em busca do tempo perdido

 

As relações familiares, um tanto fragilizadas nos tempos atuais e reconfiguradas em outras dinâmicas sociais, fazem o pano de fundo da comédia dramática francesa Olhe o Mar (Regarde, 2025), dirigida por Emmanuel Poulain-Arnaud. A obra se debruça sobre a complexidade desses novos arranjos, onde o distanciamento cotidiano e as marcas do passado muitas vezes parecem não deixar espaço para o afeto. Sob essa perspectiva, o diretor propõe uma reflexão sobre a urgência do compartilhamento do tempo, investigando como o isolamento individualista da modernidade pode ser rompido quando os indivíduos são forçados a encarar situações-limite sobre as quais não têm nenhum controle.

Os personagens centrais, no caso um núcleo familiar formado por pai, mãe e filho, vivem exatamente essa realidade ao se depararem com um fato irreversível que altera profundamente o futuro de todos. Nos primeiros minutos de Olhe o Mar, já ficam estabelecidos os perfis de cada um. O espectador logo descobre que os pais são separados. A mãe, Chris, vivida por Audrey Fleurot, é impulsiva; o pai, Antoine, interpretado por Dany Boon, é centrado e focado no trabalho; e o filho, Milo, papel de Ewan Bourdelles, um jovem de 16 anos, está claramente em busca de atenção. Essa dinâmica se estabelece da maneira usual encontrada em inúmeros casais que compartilham a guarda e os cuidados de filhos menores de idade. Há também, implícito, o desejo dos pais em construir novos caminhos afetivos, visto que a mãe namora um homem mais jovem e o pai convive com uma noiva com a qual está prestes a se casar.

Nesta atmosfera de aparente normalidade, surge uma grave situação de saúde que coloca em xeque as relações familiares. Milo é portador de uma doença degenerativa incurável que causará a perda total de sua visão em pouco tempo. A revelação se mostra devastadora para todos, especialmente porque o jovem atravessa a fase complexa da adolescência, marcada pela busca por autonomia e espaço. O diagnóstico reescreve o destino de cada um deles, que agora precisam buscar forças internas para restabelecer conexões afetivas até então negligenciadas. A saída para acelerar esse processo de reaproximação e recuperar o tempo perdido surge na decisão impulsiva de viajarem todos juntos, durante as férias do garoto, para visitar o avô, que vive à beira-mar. Naquele espaço, distantes do ambiente doméstico, eles encontram a oportunidade para uma reconciliação emocional, ao mesmo tempo em que constroem memórias afetivas e visuais antes que a doença se manifeste totalmente.

É a partir desse cenário que, por razões intimamente distintas, cada um deles busca respostas próprias para empreender a jornada. Os pais, assombrados pelo sentimento de culpa devido à natureza hereditária da doença de Milo, assumem a viagem como um pedido de desculpas silencioso ao jovem, aceitando uma trégua mútua pelas mágoas passadas do casal. O garoto, por sua vez, tenta exercer ao máximo sua independência. Ele vê no passeio em família junto ao mar não apenas a última oportunidade para praticar mais algumas horas de surfe, mas também a chance de reencontrar uma antiga paixão juvenil nunca concretizada.

O realizador Emmanuel Poulain-Arnaud (também autor do roteiro) conduz a trama com sensibilidade e empatia por seus personagens. A direção, sempre leve e de modo geral num clima de alto astral, não pesa a mão na potencial carga dramática da história. A opção foi justamente pelo registro oposto, tornando sutil a abordagem de uma situação que teria todos os elementos para levar a plateia às lágrimas fáceis. Nesse sentido, nada é mais explícito do que a maneira descontraída e desencanada com que os amigos de Milo tratam a situação. Para eles, não há drama, apenas fatos da vida.

Olhe o Mar é aquele tipo de filme em que antecipamos sem muita dificuldade todos os passos do desenrolar da história. Nossa intuição já aponta os caminhos que a trama assume, sem muitas surpresas ou grandes reviravoltas. No entanto, isso não elimina o prazer de assisti-lo com atenção e interesse. A previsibilidade reconfortante faz parte da experiência, na qual nos deixamos conduzir sem grandes sobressaltos. Afinal, há momentos em que o cinema não precisa necessariamente se reinventar ou sequer surpreender, bastando apenas nos acolher com uma narrativa sincera e humanizada.

Assista ao trailer: Olhe o Mar


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Dia D: o dia em que a Terra mudou

 

Uma ótima notícia. O bom e velho Steven Spielberg de guerra está de volta, em excelente forma. Esse retorno também pode ser avaliado como uma retomada de suas origens como cineasta. Cinco décadas depois do monumental Contatos Imediatos do Terceiro Grau (que cresce a cada revisão), o diretor revisita o tema da existência de vida extraterrestre. A bem da verdade, a presença alienígena é um assunto recorrente na sua filmografia, surgido já em seus primeiros curtas-metragens caseiros, como Firelight (1964), e que prosseguiu em longas como E.T. – O Extraterrestre, A.I. – Inteligência Artificial e Guerra dos Mundos, além de inúmeras outras produções em que atuou apenas como produtor.

O lançamento de Dia D (Disclosure Day) marca mais um capítulo dessa saga pessoal de Spielberg, consolidando a exploração de um tema que fascina o realizador desde a juventude. Mais do que uma simples escolha de gênero, a busca pelo desconhecido e pelo cósmico se reflete na tela como um elemento central de sua própria identidade artística. Se o episódio histórico do Dia D na Segunda Guerra Mundial já foi retratado pelo diretor no clássico O Resgate do Soldado Ryan, momento em que o curso da história foi alterado para sempre, agora, em termos ficcionais, Spielberg projeta na tela um outro Dia D, articulando o potencial impacto de transformação da humanidade pela revelação da existência de seres de outros mundos que nos visitam desde sempre.


Houve uma coincidência histórica (intencional ou não, vai saber) no fato de o lançamento desse épico de ficção científica se dar justamente no momento em que o governo dos EUA libera uma série de vídeos sigilosos que registram fenômenos e supostas aparições de naves de origem desconhecida. Segredos revelados, a propósito, formam a base sobre a qual se constitui esse Dia D, que, na tradução literal do título, se refere ao dia da revelação.

Na abertura, Spielberg já diz a que veio. O filme inicia acelerado e tenso, mostrando uma operação da agência secreta do governo norte-americano, dirigida por Noah Scalon (Colin Firth), responsável por acobertar evidências de vida extraterrestre. O alvo da investida é o ex-funcionário Daniel Kellner (Josh O’Connor), acusado de roubar registros sigilosos que comprovam que há décadas somos visitados por seres de outros planetas. Em paralelo, o outro eixo narrativo da história acompanha a apresentadora de TV Margaret Fairchild (Emily Blunt, excelente), que, durante um boletim meteorológico ao vivo, começa a agir estranhamente ao emitir sons guturais, os quais, logo descobrimos, pertencem à linguagem dos alienígenas.


O filme antecipa com habilidade um momento bastante crível em um futuro incerto: aquele em que descobriremos que não estamos sós no universo. Sem dúvida, caso isso se confirme, estaremos diante de um irreversível ponto de inflexão para a humanidade, que será impactada por profundas transformações. Spielberg trata deste assunto com a devida reverência sem, no entanto, perder o sentido de espetáculo, transformando Dia D em uma obra grandiosa e ambiciosa, com amplo espectro temático. Ao mesmo tempo que discute o acobertamento governamental de assuntos delicados, o diretor reconhece que esses temas são capazes de subverter a ordem pública, reordenar a geopolítica e ressignificar as religiões. 

Fábulas infantis sempre foram inspirações seminais para Spielberg. Lembremos as citações de Peter Pan em E.T. e Hook, e também a fada em A.I. – Inteligência Artificial, apenas para citar algumas. Em Dia D também há menção às histórias infantis. No caso, a referência é ‘João e Maria’, que simbolicamente traz uma alegoria da dupla (no filme, Daniel e Margaret) que se perde na floresta e descobre, com inteligência, o caminho de volta para casa com um tesouro como recompensa. No longa, essa recompensa atende pelo nome de Verdade.


Em 1938, Orson Welles colocou em pânico os ouvintes de rádio nos Estados Unidos ao narrar uma suposta invasão da Terra por naves espaciais, inspirado na obra ‘A Guerra dos Mundos’, de H. G. Wells. Uma experiência fantasiosa que chocou a população da época. Em escala globalizada e potencializada, é isso que a ficção de Dia D propõe. Com as facilidades que a tecnologia atual permite, ao toque de um botão uma mesma informação pode ser transmitida simultaneamente para todo o mundo. É justamente nessa dinâmica que reside um dos grandes acertos do filme, apresentado como uma sequência final de alto impacto emocional, magistralmente dirigida por Spielberg.


Como thriller de conspiração, Dia D é uma experiência emocionante, que apresenta uma ampla gama de temas e provoca diferentes sensações. Há mistério, intriga, perseguição de carros, suspense, ficção científica e encantamento. O longa traz a marca indelével dos melhores momentos do realizador ao entregar para a audiência uma narrativa plena de otimismo, magia e esperança. Steven Spielberg segue como um cineasta cheio de ideias, motivado pela imaginação e pela curiosidade. Ainda é possível vislumbrar um jovem maravilhado com o cinema habitando seu corpo de quase 80 anos. Tudo isso está presente em Dia D, uma obra que resgata e consolida o talento de um realizador que reafirma seu legado como ícone vivo do cinema moderno.

Assista ao trailer: Dia D


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 9 de junho de 2026

O Afinador: a arte do crime

 

O famoso ditado popular "a ocasião faz o ladrão" sugere que, diante de condições favoráveis ou de uma avaliação moralmente flexível, pessoas comuns, até então distantes do delito, podem sucumbir à tentação. É precisamente nessa zona cinzenta da moralidade que se move o protagonista do longa-metragem O Afinador (Tuner), dirigido por Daniel Roher, cineasta canadense vencedor do Oscar pelo documentário Navalny.

O personagem-título, Niki (Leo Woodall, visto recentemente em Nuremberg e integrante do elenco da série The White Lotus), é um talentoso afinador de pianos que trabalha junto com seu mentor e eventual cupido, Harry Horowitz (Dustin Hoffman, em participação luxuosa), atendendo à clientela de alto padrão em Nova York. Graças a uma condição especial de sua audição — o ouvido absoluto —, Niki acaba descobrindo por acaso que seu talento pode ser utilizado também para atividades menos nobres. Sua capacidade aguçada de percepção sonora permite que ele se dê bem desvendando o segredo de cofres apenas com sua sensibilidade tátil e auditiva. Esses talentos secretos despertam a atenção de uma gangue de assaltantes, que passa a utilizá-lo como uma “arma infalível” em seus roubos.

O protagonista justifica intimamente sua adesão ao crime como uma forma de ajudar Harry, debilitado por uma doença e sufocado por dívidas. Estamos, então, diante daquela clássica situação em que, pelas razões corretas, alguém faz a coisa errada. Niki se conforta moralmente por estar agindo de forma válida e bem-intencionada, ainda que eticamente condenável e criminosa. 

Além do dilema moral, Niki luta contra seus próprios fantasmas internos. Por conta de sua condição peculiar de saúde (a hiperacusia), que exige proteção constante contra os ruídos cotidianos, ele vive uma forma de exclusão social que o afasta do convívio mais íntimo. O protagonista habita, fundamentalmente, uma bolha sonora controlada, utilizando fones de ouvido para abafar o mundo exterior. Essa hipersensibilidade não apenas dificulta seus relacionamentos, mas também sabotou seu grande sonho de seguir carreira como pianista. A vida o empurrou para o papel de técnico de afinação, uma posição invisível em que auxilia outros a praticarem sua arte, em vez de ele próprio ser o artista a executar as composições. Por incentivo do tio, um interesse amoroso eventualmente surge em sua vida quando conhece a também pianista Ruthie (Havana Rose Liu) durante um atendimento em um conservatório.


O desenvolvimento da trama acompanha de perto a degradação moral, os conflitos e as pressões sociais e familiares que levam o habilidoso afinador ao limite. Incapaz de se realizar como artista, após ter a carreira frustrada por limitações que fugiam ao seu controle, Niki encontra nos caminhos tortuosos da criminalidade uma espécie de palco alternativo, onde seu talento finalmente é reconhecido e valorizado. 

O Afinador é o que se poderia chamar de “filme menor”. Não como um juízo de valor sobre suas qualidades, mas em referência às suas condições de produção. Trata-se daquele tipo de obra com baixa taxa de sobrevivência nas salas de shopping, mas que encontra facilmente seu público no streaming. Que não haja engano: este é um longa-metragem que merece atenção e visibilidade, revelando-se muito mais afinado e envolvente do que uma primeira impressão pode sugerir. À sua maneira, é um drama intimista feito à moda antiga, construído com coração, afeto e arte minimalista. Uma composição rara nos tempos atuais, que exigem das plateias adesão total a espetáculos hipertrofiados de som, luzes e ação vertiginosa. Em contraposição a esse excesso, o filme nos oferece a beleza serena de notas musicais bem afinadas.

Assista ao trailer: O Afinador


Jorge Ghiorzi

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Backrooms – Um Não-Lugar: perdidos no labirinto

Os últimos anos, particularmente após o período da pandemia, têm sido pródigos para o cinema de terror e horror. Tradicionalmente relegados ao segundo plano em termos de prestígio, esses longas-metragens que se propõem a levar sustos às plateias têm recebido cada vez mais atenção do público, garantindo gordas bilheterias que sustentam a manutenção do ciclo. Raras são as semanas nas quais não temos um lançamento do gênero. Sem dúvida, eles são a bola da vez. Uma prova do alcance crescente dos filmes de terror se manifesta pela origem cada vez mais ampla dos argumentos das produções. 

Nos primeiros tempos, os filmes do gênero eram inspirados pela literatura, como o ciclo de monstros da Universal nas décadas de 1930 e 1940 (Frankenstein, Drácula, O Lobisomem). Depois, o modelo de representação foi influenciado por fatos reais, casos escabrosos e violência explícita, a exemplo de Psicose e dos assassinos em série em geral. Para os tempos mais recentes, essencialmente neste século XXI, uma das fontes de inspiração tem sido os fenômenos virais gerados pelo YouTube e pelas redes sociais. Para comprovar essa força recente do terror que se alimenta de conteúdos originalmente criados na internet, chega às telas dos cinemas Backrooms – Um Não-Lugar (Backrooms, 2026), dirigido por Kane Parsons.


O filme é baseado na websérie “The Backrooms”, que explora uma lenda urbana digital sobre a existência de uma dimensão paralela, composta por um labirinto infinito de salas vazias com paredes amareladas, carpete úmido e o zumbido incessante de luzes fluorescentes. O acesso a esse espaço alternativo ocorreria por meio de uma "porta" que representa, na verdade, uma falha na realidade. Quem acompanha a série Ruptura (Severance) já está familiarizado com este conceito. O criador desses vídeos é o próprio Kane Parsons, que tinha apenas 16 anos quando iniciou a produção. Os conteúdos viralizaram a ponto de chamar a atenção de grandes produtoras de Hollywood. Assim, com a bênção da produtora A24, Backrooms migrou do ambiente dos smartphones para as telas das salas de cinema. 

Mantendo a essência da websérie, o filme expande o fenômeno da internet ao inserir uma trama que estabelece um contexto narrativo para a exploração daquele perturbador mundo interdimensional. O enredo acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), o proprietário de uma loja de móveis que faz uma descoberta intrigante no subsolo do estabelecimento. Um portal permite que ele acesse outra dimensão, formada apenas por corredores infinitos em ambientes claustrofóbicos, repletos de mobiliário destruído, destroços, perspectivas distorcidas e figuras humanas aterrorizantes. A outra personagem da história é sua terapeuta, a doutora Mary Kline (Renate Reinsve, de Valor Sentimental), que toma conhecimento do fato por meio do relato do próprio paciente em uma das sessões de análise. Após o desaparecimento de Clark, ela assume a missão de resgatá-lo, precisando enfrentar os mistérios e os perigos que habitam esse não-lugar.


A cenografia de Backrooms é o grande trunfo do longa, e talvez seu único e verdadeiro destaque. Os ambientes sufocantes e opressivos, estruturados basicamente em uma paleta de cores de tons amarelo, âmbar e ocre, transmitem com muita eficiência o estranhamento angustiante vivido pelo personagem, pelo qual também somos impactados. Soma-se a isso a quebra das leis da física, na qual conceitos de "cima" e "baixo" deixam de fazer sentido, como se estivéssemos em uma nave espacial, mas sem os efeitos da ausência de gravidade. O problema surge quando o filme tenta arquitetar um enredo interessante para justificar tudo isso. A premissa tem lá seu apelo pela curiosidade que desperta ao abordar realidades paralelas, uma possibilidade, a propósito, prevista pela física na Teoria das Cordas. O ponto aqui é que a trama criada é por demais superficial, um tanto confusa e pouco envolvente. 

Não se trata de exigirmos explicações para tudo o que acontece, mas um mínimo de justificativa e coerência é necessário. E isso é tudo o que não temos aqui. O roteiro, que parece se perder diante das inúmeras possibilidades que promete, por uma analogia involuntária, acaba reproduzindo a trajetória do protagonista: perdido em caminhos infinitos.


A sensação geral que fica é que Backrooms funciona mais pelas partes isoladas do que pelo todo. Os personagens são mal delineados (para dizer o mínimo) e suas motivações são aleatórias e nada convincentes. O incômodo geral, ou melhor, a insatisfação do espectador, não se dá apenas pela ausência de explicações. Elas não são necessariamente essenciais em filmes que se propõem a trabalhar com enigmas e mistérios. A questão aqui é que, em dado momento, o filme se dispõe a dar algumas respostas. Pois então, o melhor seria não tê-las dado para a audiência, pois recorrem ao mais ordinário clichê, além de serem na verdade uma meia explicação. Ficaríamos melhor sem essa tentativa de explicação. O filme dá pistas de que há ali uma história a ser contada sobre o passado dos personagens (particularmente da terapeuta), mas o roteiro não dá conta. A opção é repetir-se, minutos e mais minutos intermináveis, por passeios naqueles corredores desolados e assustadores. Por essas e outras, Backrooms – Um Não-Lugar não passa de uma versão estendida dos microepisódios da websérie que fez sucesso na internet. Na verdade, este é um não-filme.

Assista ao trailer: Backrooms – Um Não-Lugar


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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