
A
cidade de Florianópolis é nacionalmente celebrada como a "Ilha da
Magia", título justificado por suas praias exuberantes, geografia
privilegiada e o sol generoso que atrai visitantes de todas as latitudes. No
entanto, o longa-metragem Edifício Bonfim, inteiramente rodado na
capital catarinense, propõe uma ressignificação instigante para o termo. Aqui,
a "magia" abandona o sentido poético e turístico para abraçar o
literal, o macabro e o aterrador. A direção é assinada por Lígia Walper,
profissional com sólida carreira como produtora, montadora e roteirista de
projetos televisivos, que faz aqui sua estreia na condução de um
longa-metragem.
Como
qualquer centro urbano, Florianópolis é guardiã de mitos e crenças populares
que moldam o imaginário coletivo através das gerações. Os alicerces do fictício
Edifício Bonfim erguem-se sobre essas narrativas (cuja veracidade histórica é
secundária ao seu impacto cultural), apresentando contos ficcionais povoados
por entidades malignas, bruxas e figuras sombrias como serial killers.
O
filme estrutura-se como uma antologia composta por três histórias distintas,
tendo como ponto de convergência o edifício que dá nome à obra. Nessa
configuração, o prédio assume o status de um "personagem silencioso".
Contudo, nota-se que esse potencial cenográfico não é plenamente explorado para
amarrar as tramas. A narrativa, por vezes, parece navegar à deriva, carecendo
de uma justificativa mais robusta que conecte organicamente os núcleos e valide
a escolha do edifício como o grande catalisador dos eventos sobrenaturais.
As
três narrativas se entrecruzam na abertura do filme, que apresenta uma reunião
de condomínio onde o espectador é brevemente introduzido aos protagonistas. A
partir deste ponto o cotidiano dá lugar ao macabro, e cada um deles passa a
vivenciar sua própria experiência de horror.
No
primeiro segmento, intitulado "Criatura", a urgência de um chamado de
sequestro com reféns retira um policial do conforto de seu lar e da iminência
do nascimento de seu filho. O clímax do episódio o coloca frente a frente com
uma criatura demoníaca voraz. Um dos pontos altos do segmento é a excelente
caracterização da entidade, graças à plasticidade da maquiagem.
Dando
sequência à antologia, o segundo episódio, "Trilha da Costa", nos coloca
no encalço de uma bruxa que teria sido avistada e registrada em vídeo por uma
integrante de um grupo de trilha pelas matas de Florianópolis. A trama se
desenvolve sob o signo da ambiguidade: o registro seria autêntico ou apenas uma
farsa digital? O desfecho perturbador se encarrega de entregar as respostas,
validando o folclore sombrio da ilha.
Já
no terceiro e último segmento, intitulado "Formando", somos
apresentados a um inusitado curso de especialização para serial killers,
no qual um dos moradores do Edifício Bonfim destaca-se como aluno laureado. Na
cerimônia de graduação, o dedicado estudante recebe aquela que será sua última
e inesperada lição prática.

Um
dos pontos de maior atrito na obra reside no descompasso entre o texto e a mise-en-scène.
O roteiro, enxuto e dramaticamente bem construído a oito mãos por Tabajara
Ruas, Cesar Alcázar, Christopher Kastensmidt e Duda Falcão, carrega em seus
diálogos e situações uma carga de ironia e cinismo que a direção nem sempre
consegue traduzir visualmente ou extrair da encenação do elenco. A obra oscila
entre o horror visceral, o suspense moderado e flertes com a comédia. Embora
tal hibridismo possa ser um exercício cênico válido, ele representa um risco
alto para a fluidez entre os gêneros, resultando em um certo distanciamento do
espectador, que encontra dificuldades em localizar os eixos necessários para
uma imersão profunda.
Essa
sensação de estranheza é acentuada pela trilha sonora. A inserção de certas
canções destoa do contexto geral, interrompendo a construção da atmosfera e
fragilizando a verossimilhança do universo que o filme tenta estabelecer.
Apesar
das oscilações rítmicas, a premissa de concentrar figuras peculiares em um
mesmo microcosmo geográfico é promissora. Edifício Bonfim planta uma
semente fértil para futuras sequências, possuindo potencial para se tornar uma
coletânea robusta que explore novos moradores e expanda o lado inusitado e
sombrio da face oculta da ilha.
A
obra de Lígia Walper abraça, sem preconceito, o cinema de gênero, exercitando
um modelo de entretenimento honesto e sincero, com propósito bem definido. O
longa se insere em um momento muito promissor do cinema catarinense, que
atravessa sua fase de maior produção e visibilidade. Esforços isolados do
passado estão ganhando consistência com uma produção mais estruturada e
diversificada. Neste aspecto, destaca-se um nicho poderoso do atual cenário
estadual: o terror e o fantástico regional. É exatamente nesta temática que se
insere esta louvável produção, fortalecendo um movimento que merece atenção.

Da
produção recente em Santa Catarina, vale destacar ainda o longa Virtuosas,
de Cíntia Domit Bittar, exibido na Première Brasil do Festival do Rio e
vencedor do prêmio “Goes to Cannes” no Marché du Film. A obra conquistou
também o 3º Prêmio Netflix na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo,
garantindo sua distribuição global via streaming. Outro destaque relevante é o
lançamento, ainda este ano, do longa-metragem de terror Casarão (da
mesma Cíntia Domit Bittar), ambientado na década de 1950, no interior rural do
estado.
Assista ao trailer: Edifício Bonfim
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela