quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 7

Sessão dupla com coproduções que trazem a marca existencialista do cinema francês. Um drama feminino com uma personagem à beira do abismo e um drama juvenil com um personagem às portas da prisão.

 

​MAIS UM DIA – Direção: Jeanne Henry

A história acompanha Garance, uma jovem atriz talentosa que lida com a frustração de não ver sua carreira decolar. Enquanto aguarda a grande chance nos palcos, ela se divide entre peças infantis, para pagar as contas, e noitadas longas regadas a muito álcool.

​A vida de Garance é um acúmulo de pressões. Além da carreira estagnada, ela enfrenta a superficialidade dos relacionamentos ao seu redor e, o mais grave, a doença terminal da irmã. É justamente para suportar essa carga que o álcool ganha espaço na sua rotina. O que começa como um refúgio vira um vício pesado, levando a protagonista a um caminho de autodestruição que ameaça sua vida antes mesmo dos quarenta anos. O filme trata o vício sem glamour, mostrando como a fuga pela bebida apenas cria um novo e profundo abismo.

​A instabilidade emocional ganha um breve respiro quando Garance conhece Pauline, uma cenógrafa com quem inicia um romance. Ela surge como um ponto de apoio fundamental na tentativa da atriz de se reerguer. Esse vínculo traz alguma humanidade para a narrativa, embora o filme não tente vender soluções fáceis para feridas tão profundas.

​Em termos de referências, a diretora Jeanne Henry constrói uma obra original que conversa abertamente com o cinema de John Cassavetes, especialmente com Uma Mulher Sob Influência (1974) e Noite de Estreia (1977). A conexão faz todo sentido, já que ambos filmes exploram mulheres vulneráveis à beira do colapso psicológico. Não por acaso, a atriz Adèle Exarchopoulos declarou ter buscado inspiração na entrega física e emocional de Gena Rowlands para compor sua personagem.

​A estrutura Mais Um Dia se divide em duas partes bem marcadas. A projeção começa com a voz em off de Garance fazendo confissões a uma mulher que o espectador nunca chega a ver. Esse recurso serve para introduzir flashbacks na primeira metade da história, explicando a origem das fragilidades da protagonista. Já na segunda parte, a narrativa abandona o passado e se concentra no presente, acompanhando de perto a derrocada psicológica de Garance enquanto ela tenta lutar contra seus próprios demônios.

O ponto que certamente incomoda no conjunto da obra é a sua conclusão acolhedora em excesso. Depois de construir uma trajetória densa, realista e dolorosa sobre o alcoolismo e a luta contra os dilemas internos da personagem, a resolução escolhida pelo roteiro acaba soando otimista demais. É um desfecho que busca o conforto do público, mas que contrasta com a complexidade e a força que o filme vinha mantendo até então.

 

​O CALOR – Direção: Stéphane Demoustier


Esta produção francesa constrói uma narrativa elegante e envolvente, que captura nosso interesse do início ao fim. A história acompanha uma família de origem norte-africana durante as férias de verão em um camping no litoral francês. É naquele cenário ensolarado conhecemos Marouane, o filho mais velho. Ele é um adolescente tímido, inseguro e levemente depressivo, com poucos amigos, que se sente deslocado diante da energia e das festas dos jovens da sua idade.

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A aparente leveza de um drama juvenil, no entanto, sofre uma reviravolta abrupta. Após uma discussão com outro garoto, Marouane se envolve em uma morte acidental. Tomado pelo pânico, ele esconde o corpo e passa as horas seguintes consumido por um sentimento de culpa avassalador e pelo medo constante de ser descoberto, antes que sua família decida ir embora do camping. A partir desse momento, o longa se transforma em uma narrativa tensa que explora com muita sutileza os elementos de um suspense investigativo, no melhor estilo de uma tragédia de uma noite de verão.

 

​O roteiro de O Calor dialoga de forma muito interessante com O Estrangeiro, de Albert Camus. Enquanto na obra literária a vítima do francês Meursault é um árabe, aqui a lógica se inverte: a vítima do jovem de descendência norte-africana é um francês. Há, porém, algumas semelhanças marcantes entre as duas histórias, como a praia servindo de cenário para o crime, o calor sufocante atuando quase como um agente catalisador e a presença de uma paixão amorosa que se fortalece justamente após a tragédia.

 

​Apesar das aproximações, existe uma diferença fundamental entre os universos. O personagem de Camus é famoso pela indiferença e frieza ao cometer um assassinato deliberado. Marouane é exatamente o oposto. Ele é um garoto vulnerável e o ato acidental que comete gera um efeito devastador em seu comportamento e em sua consciência, intensificando o clima de crime e castigo que domina a segunda metade da projeção.

 

​Além da carga dramática e do suspense, o filme encontra espaço para abordar temas profundos sem cair no panfletarismo. A xenofobia atravessa as interações dos personagens, mas raramente se manifesta de forma escancarada ou agressiva. O preconceito se esconde nos pequenos desconfortos do convívio, nos olhares tortos, nos silêncios calculados e nos tratamentos desiguais aplicados a pessoas que, em tese, possuem os mesmos direitos. É justamente essa sutileza que torna a hostilidade tão difícil de combater e confrontar, mas que não a torna menos condenável.

 

​O Calor entrega muito mais do que promete em seus minutos iniciais. Ao unir uma atmosfera sufocante, dilemas morais profundos e um espelhamento literário inteligente, a obra se apresenta como um drama humano inteligente e bem resolvido. A forma como o filme equilibra a delicadeza dos conflitos da adolescência com o peso de um segredo trágico faz dele uma experiência cinematográfica plenamente satisfatória, que permanece na cabeça do espectador depois que as luzes da sala se acendem.

 

Jorge Ghiorzi


terça-feira, 20 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 6

Uma mulher e quatro sementes foram as protagonistas do dia. Todas tentando (re)construir uma existência alternativa em território totalmente desconhecido. Histórias de descobertas e esperança. Neste planeta ou além das estrelas.

 

​ADMIRÁVEL NOVO AMOR – Direção: Maria Bäck

Esta coprodução da Dinamarca, Suécia e Grécia fala essencialmente de escolhas. Explora as formas de desejo e os limites do comportamento de quem ousa sair dos modelos sociais tradicionais. A narrativa é construída integralmente pela ótica feminina.

A história gira em torno de Kate, uma terapeuta que vive com o marido e a filha adolescente e mantém em segredo, há três anos, um caso fora do casamento. A base do filme é o típico romance proibido da infidelidade. O dilema dela é descobrir se é realmente capaz de amar dois homens ao mesmo tempo ou se, no fundo, ama apenas a liberdade que essa condição proporciona. Kate se vê forçada a escolher entre um casamento estável, mas não totalmente satisfatório, e um mergulho mais fundo na relação com um homem que despertou uma paixão que parecia adormecida. Mesmo que não haja sexo entre os amantes.

De início, o filme parece apontar para uma história de amor moderna e liberal. Depois muda o tom e assume um caminho absolutamente convencional, ainda que pretenda demonstrar o tempo todo uma profundidade que não alcança.

Isso fica claro no excesso de referências e sinais espalhados pela narrativa: um balão azul, a banana, o pássaro, o novelo de lã, o cavalo-marinho e até a mitologia grega, já que tudo se passa na Grécia. O espectador percebe esses elementos e fica na expectativa de que, em algum momento, tudo faça sentido em favor da história. Mas isso não acontece. A maior parte deles não passa de pequenos truques narrativos, de pouca ou nenhuma importância efetiva.

O desfecho segue a mesma linha. Há uma certa ambiguidade conformista no final dessa aventura de transformação e descoberta de uma mulher que deseja ir além do papel de mãe e esposa. O filme sugere uma ousadia que, no fim, não sustenta.

 

A ODISSEIA DOS DENTES-DE-LEÃO – Direção: Momoko Seto

Esta animação impressiona de imediato pela qualidade da técnica. Em termos visuais, o filme pouco fica a dever às grandes produções da Pixar ao criar um universo deslumbrante, concebido a partir de diversas técnicas de animação.

 

​O filme acompanha a trajetória de quatro sementes de dente-de-leão que sobrevivem à destruição apocalíptica da Terra (guerra nuclear?) e ficam vagando pelo espaço sideral até encontrarem um novo planeta para viver. Esta é uma história de sobrevivência simples e direta, de fácil compreensão, inclusive pelas crianças. No entanto, os pequenos espectadores talvez não encontrem muitos motivos para se identificarem emocionalmente com as quatro protagonistas. As criaturinhas desta odisseia não são exatamente fofas como aquelas habituais das produções da Disney.

 

​Apesar disso, é surpreendente como coisinhas tão pequenas e frágeis podem ganhar tanta personalidade e protagonismo. Ao assumirem o papel principal, essas sementes conduzem a história com habilidades insuspeitas. Sem emitir um som sequer, e com recursos de movimentação bastante limitados, elas se mostram capazes de expressar uma ampla gama de sentimentos.

 

Em certa medida esta animação se situa no limite entre uma narrativa de ficção e um documentário sobre a natureza. O filme funciona como uma verdadeira aula de vida e de ecologia, que acaba por se converter em uma fábula de forte vocação ecológica. Sob a perspetiva da biodiversidade do planeta ocupado, as sementes são, na verdade, criaturas invasoras. Elas buscam apenas um lar onde possam criar raízes e constituir uma nova vida. Temos diante dos olhos, portanto, uma espécie de diáspora do reino vegetal terrestre.

 

​A cada novo desafio de aniquilamento ou risco de extinção, as sementes resistem com bravura e sagacidade. Elas acumulam conhecimento sobre aquele mundo desconhecido e hostil, tornando-se um exemplo vivo de resiliência. O objetivo é cumprir a missão primordial no ciclo da existência: germinar e gerar novas vidas. Além disso, a obra transmite o conceito da hipótese de Gaia. O filme ilustra com clareza a ideia de que um planeta funciona como um único sistema integrado, onde todos os elementos naturais interagem e se relacionam de forma profunda.

 

A Odisseia dos Dentes-de-leão proporciona momentos genuinamente inspiradores e comoventes, orientados sempre pela bússola firme da esperança. É um filme emocionante e tocante que transforma a fragilidade da natureza em um espetáculo grandioso, inesquecível e esteticamente impecável.

Jorge Ghiorzi


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 5

Primeiro, um drama esportivo adolescente que aborda um doloroso processo de superação física e emocional. Na sequência, um documentário necessário que resgata a memória e o legado de um grande cineasta brasileiro que nunca conquistou o merecido reconhecimento.

 

​A GINASTA – Direção: Charlotte Glynn

A história deste drama esportivo se passa nos anos 90, no ambiente de subúrbio da cidade industrial de Pittsburgh. Os personagens vêm da classe trabalhadora, e o filme trata de aspiração social e crise de identidade. O olhar da trama está no universo adolescente, naquele momento de dúvidas, inquietações e medos que antecedem a passagem para o mundo adulto.

A ginasta Monica, de 16 anos, sonha em competir nas Olimpíadas. Ela mora com o pai, que a cria sozinho depois que a mãe os abandonou. Durante um treino a jovem sofre grave lesão no joelho, semanas antes de uma competição importante. De uma hora para outra, seu mundo desmorona. Afastada dos treinos, ela se desestabiliza a ponto de colocar o futuro em risco, e as certezas que ela e o pai tinham sobre o caminho para o sucesso deixam de valer.

O acidente acontece num momento crítico da vida da adolescente. Fora do ambiente seguro do esporte, o único que conhecia e no qual estava completamente adaptada, Monica precisa encontrar novas maneiras de socializar na escola e na vida social. Diante dessa mudança brusca de realidade, tem que lidar com suas emoções internas. A Ginasta nos traz uma jornada de amadurecimento.

O pai solo é uma figura fundamental para organizar a estrutura dramática. Homem simples, ele tenta prover tudo de que a filha precisa, de um jeito rude, mas sincero. No entanto, não consegue suprir plenamente a ausência materna e é incapaz de compreender o impacto psicológico da dolorosa recuperação da filha.

É justamente aí que o filme revela sua fragilidade e mostra seus limites. A trama é bastante previsível e pouco se diferencia de tantas outras histórias de superação no esporte. O roteiro convencional deixa pouco espaço para aprofundar a crise de identidade adolescente e opta por uma abordagem suavizada, sem correr grandes riscos. Simples e correto, mas nada além disso, A Ginasta não consegue dar respostas nem preencher a contento as brechas emocionais entre pai e filha que o próprio enredo apresenta.


​CAVALCANTI – Direção: Jairo Neto e Graubi Garcia

Este documentário é resultado de um extenso trabalho de pesquisa que recupera a trajetória do grande cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti (1897 – 1982). Trata-se de uma obra preciosa por recolocar em pauta um nome que nunca recebeu o devido reconhecimento popular, e mesmo na academia costuma ficar aquém do lugar que merecia. Reconstituir sua história e preservar seu legado são tarefas que o documentário Cavalcanti cumpre com o valor que o personagem merece.

Alberto Cavalcanti, nascido no Rio de Janeiro, viveu fora do Brasil nos anos 30 e 40, primeiro na França e depois na Inglaterra. Na Europa, onde estudou Arquitetura, teve contato com o cinema e começou como decorador e cenógrafo de algumas produções francesas. Desde o início mostrou um olhar apurado e inovador para os aspectos visuais dos filmes, em especial nos documentários. Por conta dessa desenvoltura, foi convidado a dirigir alguns projetos. Assim, iniciou uma nova carreira, na qual conquistou fama e prestígio no cinema de vanguarda europeu.

Depois da fase francesa, foi para a Inglaterra, onde viveu seu período de maior destaque. Realizou grandes produções e assumiu posições de liderança e gestão em produtoras locais, como a Ealing, do famoso produtor Michael Balcon. Produziu e dirigiu filmes aclamados, como Coal Face (1935), Went the Day Well? (1942) e o clássico episódio do ventríloquo enlouquecido em Na Solidão da Noite (1945).

O sucesso do cineasta brasileiro exilado na Europa começou a chamar a atenção também no Brasil. Em 1949 Cavalcanti retorna ao país pela primeira vez, a convite de Assis Chateaubriand, para dar cursos e palestras sobre cinema no recém-criado MASP, em São Paulo. Ao chegar, soube dos planos do empresário Franco Zampari de criar uma indústria cinematográfica de ponta no Brasil. Cavalcanti, naquele momento, parecia o homem ideal para estruturar um projeto tão ambicioso, e aceitou o convite para implantar e conduzir a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada naquele mesmo ano.

Foi o início da última fase de sua carreira, que, à luz da história, não foi exatamente a melhor. Em uma passagem do documentário, ele mesmo declara de viva voz que aquela foi uma das piores experiências da sua vida. Incapacidade técnica, problemas de distribuição, megalomania, falta de verbas e prejuízos de bilheteria decretaram o fim precoce da Vera Cruz, cerca de cinco anos depois de sua fundação.

Como principal nome artístico à frente do projeto, Cavalcanti teve sua imagem pública associada ao fracasso. O documentário repara em parte essa injustiça ao resgatar o contexto turbulento da época, resultado de uma série de más decisões que não se limitaram a uma única pessoa. Os depoimentos recuperados mostram o cineasta lamentando esse traço da cultura brasileira, que costuma desdenhar de seus próprios talentos. Este sentimento fica bem resumido na célebre frase de Tom Jobim: "No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. No fim da vida, Alberto Cavalcanti foi vítima dessa contradição. Fora do país, seu nome era celebrado e reverenciado. Na própria terra, não passava de um famoso anônimo.

Do ponto de vista formal, o documentário Cavalcanti tem uma proposta clara: deixar as imagens falarem por si. Não há interferência externa, entrevistas atuais nem comentários de contextualização. Os realizadores fizeram um exaustivo trabalho de busca de registros, fragmentos e entrevistas de Cavalcanti em arquivos públicos e privados e em cinematecas de vários países da Europa. A edição constrói o relato a partir desses fragmentos de história, e o faz com muito mérito e respeito pela figura retratada.

Jorge Ghiorzi

domingo, 18 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 4

Hoje foi dia de sessão tripla reunindo um drama mezzo francês e russo premiado no Festival de Cannes, um documentário italiano sobre um dos maiores compositores de trilhas sonoras de todos os tempos e um drama sérvio sobre jovens envolvidos em protestos políticos.

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​MINOTAURO – Direção: Andrey Zvyagintsev

Depois de receber o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2026, Minotauro foi escolhido pela França para disputar uma vaga entre os indicados ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. O filme tem uma boa origem: é baseado no clássico A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol.

A premissa central é a mesma. Um homem poderoso da elite descobre a infidelidade da esposa e entra em uma espiral de obsessão, ciúme e violência. Mas a versão do cineasta russo radicado na França é mais uma releitura do que uma refilmagem. Chabrol criticava a moral vazia da burguesia rica francesa. Aqui, a história passa para a Rússia de hoje, em meio à guerra com a Ucrânia. A mudança de lugar permite uma analogia política, ao mostrar a decadência moral da oligarquia russa.

O protagonista, Gleb, é dono de uma próspera empresa do setor de transportes. Ele sofre pressão do governo para recrutar e alistar os próprios funcionários para lutarem no front da guerra. Ao mesmo tempo, enfrenta uma crise no casamento ao receber a confirmação de que a esposa, Galina, tem um amante. Diante dessas duas pressões, sua vida confortável desmorona. A instabilidade que invade sua intimidade se espalha também pelo ambiente público e corporativo. Em situação limite, Gleb cede aos impulsos mais primitivos: a violência e o crime.

Minotauro é uma alegoria sobre mecanismos de poder, corrupção política e autoridade moral. A violência do protagonista não é apenas física, é sobretudo simbólica. Ele entra em um verdadeiro labirinto ético e não tem para onde correr, a não ser seguir em frente em busca de uma saída. Esse é o sentido do título, que remete à figura da mitologia grega. A criatura devora quem entra no labirinto, mas é para sempre prisioneira dele. No filme, o labirinto está tanto no ambiente doméstico e social quanto nos corredores e gabinetes do poder.

O cinismo é uma marca forte do longa e se esconde atrás de uma narrativa que nunca perde a elegância e a sobriedade, mesmo ao tratar de assuntos tão sórdidos. Verdades inconvenientes são jogadas para debaixo do tapete, e as oligarquias seguem impunes. O longo plano final deixa poucas dúvidas. O voo da família feliz sobre um tapete de nuvens mostra que os poderosos estão lá em cima, inatingíveis, ainda que carreguem culpa por muito do que acontece abaixo das nuvens. 


​NINO: UM FILME SOBRE NINO ROTA – Direção: Walter Fasano

Nascido em uma família com muitos músicos, o compositor italiano Nino Rota foi um talento precoce na música. Compor para o cinema nunca foi sua escolha premeditada, nem sequer um desejo. Foi um acaso de vida que acabou por definir sua carreira e colocar seu nome na história. Desde o primeiro contato com a sétima arte, Rota compreendeu que a música é parte integrante da narrativa. Essa perspectiva moldou todas as suas obras para o cinema. Para ele, trilhas sonoras são música aplicada, feita com um propósito bem definido, e por isso devem vir do coração, sem se submeter a regras pré-estabelecidas ou a dogmas puristas. Por ser fiel a esse princípio, e por ser popular e acessível, foi considerado por muito tempo um compositor menor.

O documentário de Walter Fasano faz um resgate da vida e da obra do compositor e reavalia seu legado. Coloca Rota no panteão dos grandes nomes do cinema, ao lado, por exemplo, do conterrâneo italiano Ennio Morricone. A trajetória é contada com fotografias, material de arquivo e entrevistas, tanto de época quanto atuais. O roteiro investiga as dimensões pessoais, artísticas e espirituais da vida do artista. Rota compôs mais de 150 obras para cinema, televisão e teatro. Foi parceiro e irmão de alma de Federico Fellini, com quem desenvolveu uma forte amizade e uma lista de temas inesquecíveis. Já perto do fim da vida, escreveu a magnífica trilha de O Poderoso Chefão I e O Poderoso Chefão II, que lhe rendeu um Oscar e pela qual será sempre reverenciado. Ele morreu em 1979.

Há uma curiosidade pouco destacada neste documentário: a narração é feita pelo músico britânico Sting, ex-líder da banda The Police. A ligação dele com a Itália é antiga. Sting tem uma propriedade na Toscana e é grande amigo de Fasano. Por não ser um narrador profissional, ele acrescenta ao relato uma camada extra de humanidade e sensibilidade musical. Em termos técnicos e formais, Nino: Um Filme Sobre Nino Rota é um documentário bastante acadêmico e convencional. Seu grande brilho vem da grandeza do artista retratado, que é superior às qualidades objetivas do filme. Ainda assim, é uma boa porta de entrada para conhecer, ou reconhecer, um compositor que merecia esse resgate.


​ATÉ QUE O DIA TERMINE – Direção: Jelena Maksimovic

​Este drama sérvio traz uma representação da revolta da juventude em tempos de polarização política, com um elenco jovem formado principalmente por atores não profissionais. A história se passa durante os protestos anticorrupção na Sérvia, em 2024 e 2025. A protagonista é Lena, de 20 anos, envolvida no ativismo antigovernamental. O que torna o filme interessante é que ela e o outro jovem protagonista procuram seu lugar no mundo estando em lados opostos de seus grupos, e ainda assim não se excluem. Encontram, juntos, uma forma pragmática de sobreviver. No fundo, é um filme sobre amor, amizade, empatia e a possibilidade de superar diferenças políticas.

A narrativa é hiper-realista e despojada, no limite do documental. Em certos momentos, dialoga com o chamado "slow cinema", ao desacelerar a ação e deixar correr apenas o tempo. A imagem acompanha essa proposta. As cenas são, em geral, escuras, com sombras ameaçadoras por todos os lados e reflexos frequentes que a lente insiste em não corrigir. Isso reforça a experiência realista que a diretora pretende. Somos tentados a imaginar que essa liberdade de registro cru só foi possível com câmeras de celular, mas é apenas uma impressão, que carece de confirmação.

Apesar das boas intenções e da ousadia estética, o filme não parece ter uma visão clara sobre o que quer ser. Muitos aspectos narrativos soam desconexos e gratuitos, o que compromete o desenvolvimento e a profundidade dos personagens, essenciais para dar propósito à história. A sensação é de que as partes foram montadas na pós-produção sem uma organização adequada. Essa desconexão se estende a quase tudo, com exceção das atuações espontâneas, que sustentam o drama, particularmente no terceiro ato, quando a história se concentra nos dois protagonistas.

Jorge Ghiorzi

sábado, 17 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 3

O dia foi de documentários. Não, essa foi uma meia verdade. Sim, um dos títulos está perfeitamente enquadrado no gênero. O outro, porém, só por licença poética pode ser definido como documentário, pois se encaixa no que o podemos chamar de “docuficção”, que se apropria da liberdade da ficção, mas trabalha com a linguagem do registro factual.

 


​CRONOVISOR – Direção: Jack Auen e Kevin Walker

​Um mistério fascinante, um objeto bizarro, uma investigação. Esses são os ingredientes de Cronovisor, filme de baixo orçamento e poucos recursos materiais, mas realizado com extrema criatividade.

O ponto de partida é um boato com ares de conspiração e lenda urbana, do tipo que seduz quem gosta de mistérios e de histórias que circulam pelo submundo. O tal “cronovisor” seria um aparelho revolucionário, capaz de recuperar imagens do passado. A ideia é que tudo o que acontece deixa vestígios de vibração que continuam vagando pelo espaço, e a máquina conseguiria captar esses vestígios e transformá-los em imagem, como se fosse uma televisão que sintoniza o passado. O equipamento  seria capaz de “visualizar”, por exemplo, a Crucifixão de Cristo. O filme acompanha a investigação de uma pesquisadora dedicada em torno da existência desse mítico equipamento e das pessoas que teriam estado envolvidas com a sua criação.

Para contar isso o filme manipula o formato do “falso documentário” e apresenta uma verdade possível. A trama é, no fundo, uma grande farsa, mas elaborada com um verniz de erudição que dá aquele gostinho confortável de verossimilhança. O espectador sabe, em algum canto da cabeça, que está sendo conduzido, e mesmo assim quer acreditar.

Boa parte dessa eficácia vem do fato de Cronovisor ser um filme mais contado do que encenado. Textos, referências bibliográficas e registros de toda natureza aparecem o tempo todo na tela e sustentam a narrativa. Um mistério baseado em pesquisa e narrado principalmente por meio de texto poderia ser árido, mas o filme é quase sempre empolgante. É admirável o quanto ele entrega com tão poucos recursos cênicos, de trama e de dramaturgia. A tensão é constante e o poder de sugestão faz o trabalho que o dinheiro não fez.

A trilha sonora ajuda muito nisso. Imponente e impactante, soa como algo à la Bernard Herrmann, o que nos leva a Alfred Hitchcock, citado várias vezes ao longo do filme, que por sua vez nos traz até Brian De Palma. Cronovisor bebe muito na fonte desses dois mestres do suspense e assume a inspiração sem cerimônia.

Este é um filme de produção modesta, consciente do seu alcance de nicho, que sabe exatamente o que quer fazer e o faz com muita criatividade. Uma pequena joia a ser descoberta.



YO (O AMOR É UM PÁSSARO REBELDE) – Direção: Anna Fitch e Banker White

​Yolanda "Yo" Shea foi uma imigrante suíça de espírito livre, nascida na década de 1920. A realizadora Anna Fitch, junto com o marido Banker White, manteve com ela uma amizade muito próxima até a morte de Yo. O documentário nasce dessa relação e registra o fim da vida de uma pessoa anônima, mas de personalidade exuberante. Um espírito livre, que passou a vida toda tentando encontrar seu verdadeiro lugar no mundo.

O filme é marcado pela dor da perda, mas ainda assim transborda alegria e sorri para a vida humana. Yo conta sua história sem censura, sem vaidade e sem ego, apenas com sinceridade à flor da pele. A forma de organização do documentário ajuda a criar essa proximidade. Ele é montado como uma colagem artística, com episódios marcantes da vida de Yo dividindo espaço com lembranças pequenas, quase banais. Esse equilíbrio dá riqueza ao relato e gera empatia imediata no espectador.

Um dos recursos mais fortes é a miniatura da casa de Yo, construída pelos realizadores, com a amiga reproduzida em versão de boneca de marionete. É uma maneira radical de guardar a memória de alguém e de amenizar a dor da perda. Funciona como um memorial de tributo. Também chama a atenção o tempo de trabalho. A realização foi lenta e meticulosa, quase artesanal, e o filme só ficou pronto cerca de dez anos depois da morte da protagonista.

Por ser tão pessoal para o casal de realizadores, movido pelo luto, o filme parece ter sido terapêutico para os dois e revelador para o público. Yo (O Amor é um Pássaro Rebelde) reflete sobre as maneiras possíveis de manter alguém vivo através da memória. A proposta é ambiciosa, mas o filme a sustenta com sensibilidade, sinceridade e uma emoção contida.

Jorge Ghiorzi

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 2

O roteiro do dia inclui produções da Polônia e do Japão: ambos são filmes de época que têm a guerra como elemento central. Enquanto um se propõe a refletir o pós-guerra como um fantasma que permanece assombrando os sobreviventes, o outro examina as consequências das ações humanas submetidas a pressões no calor da batalha.

 


A TERRA DO MEU PAI - Direção: Pawel Pawlikowski

Vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2026, este longa-metragem biográfico conclui a trilogia de filmes históricos de Pawel Pawlikowski. Os projetos anteriores deste tríptico — todos fotografados em esplendoroso preto e branco — foram Ida (2013) e Guerra Fria (2018). As obras abordam temas de fundo político por meio de histórias humanas que resgatam o passado em busca de uma identidade perdida, dialogando intensamente com os tempos atuais.

Desta vez, o realizador retrata um episódio verídico: a viagem do escritor Thomas Mann e de sua filha, que retornam à Alemanha quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, depois de mais de uma década de exílio nos Estados Unidos. Acompanhamos o roteiro da dupla por uma Alemanha dividida entre norte-americanos e soviéticos em formato de road movie, em que o deslocamento não é apenas físico, mas essencialmente psicológico. Aquela seria uma revisita por vezes dolorosa, outras emotiva e amargurada, e quase sempre marcada pelo confronto com convicções pessoais que aparentavam estar pacificadas.

Uma espécie de herança maldita, marcada por omissões ou julgamentos morais equivocados, tortura a mente do intelectual — algo semelhante ao dilema (em outros termos, é verdade) do idoso professor de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. Ambos são submetidos ao desafio de confrontar suas falhas e fragilidades no ocaso da vida.

​ ​A Terra do Meu Pai trata de memória, resgate, legado e do acerto de contas de um homem com sua obra, sua família e sua postura diante do mundo, já que era constantemente assediado, cobrado e alvo de cooptação por seu posicionamento ideológico. Naquela altura da vida, Thomas Mann (magnificamente interpretado por Hanns Zischler) vivia as contradições do artista que percebe que a cultura e as palavras nem sempre são suficientes para mudar o estado das coisas; ações efetivas são necessárias. O fardo se torna ainda mais pesado quando resta tão pouco tempo e tanto a fazer — ou a consertar.

Por dever de justiça, vale abrir espaço para destacar o ótimo desempenho de Sandra Hüller como Erika Mann, a filha do escritor. A personalidade pendular da personagem, que oscila do sarcasmo ao recato, da fragilidade ao cômico, encontra na atriz uma intérprete extremamente capaz. Se Hanns Zischler representa a mente racional, Sandra Hüller é, simplesmente, o coração emocional de A Terra do Meu Pai.

 


O SAMURAI E O PRISIONEIRO – Direção: Kiyoshi Kurosawa

​Drama histórico situado no período do Japão feudal, no século XVI, o longa tem como base o romance de Honobu Yonezawa. A história relata a batalha particular que o nobre Murashige Araki trava contra a tirania de Oda Nobunaga. Refugiado em um castelo, Murashige resiste às investidas de Oda enquanto gerencia a tensão crescente entre os homens de seu próprio exército.

​O filme vai além de uma tradicional crônica de guerra. Kurosawa (não tem parentesco, apenas divide o mesmo sobrenome com o mestre Akira) coloca sua marca autoral ao transformar o que poderia ser apenas um cerco de guerra em um claustrofóbico exercício de suspense psicológico. Quando crimes inexplicáveis começam a ocorrer no interior da fortaleza sitiada, Murashige se vê encurralado por uma ameaça tão perigosa quanto aquela que o inimigo representa além dos muros do castelo. Mergulhamos então em uma trama de investigação criminal.

Não espere, no entanto, o ritmo de filme de suspense tradicional. Os crimes ocorrem em compassos lentos, um a cada estação do ano, que dividem o filme em capítulos. Aqui as coisas são mais sutis e desaceleradas. Para auxiliar na resolução dos casos e manter o controle de seus homens, ele é forçado a negociar, se aconselhar e dividir segredos com um prisioneiro mantido nas masmorras. Kurosawa constrói então, com precisão histórica e rigor narrativo, um jogo de gato e rato repleto de dilemas morais.

​Com quase duas horas e meia de duração, O Samurai e o Prisioneiro peca levemente ao estender algumas situações em demasia. Um pouco mais de concisão faria bem à fluidez da obra, embora esse excesso não chegue a comprometer sua qualidade superior. No fim, o que temos é um drama histórico fascinante que mescla com o suspense investigativo aos temas clássicos e profundos da cinematografia japonesa, como a honra, a tradição e o peso moral das escolhas.

Jorge Ghiorzi

 

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 1


Conheço, de ouvir falar e ler nos jornais, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo desde o início da minha cinefilia em meados dos anos 70. De lá pra cá nós dois, eu e a Mostra, fomos ficando mais crescidinhos, mas cada um no seu canto. Nunca nos tínhamos visto pessoalmente, apesar do desejo antigo e de algumas promessas não cumpridas.

O aguardado encontro (pelo menos da minha parte) calhou de acontecer justamente em uma edição tão simbólica, a de número 50. E assim foi. Aterrizei em São Paulo e, poucas horas depois, fui brindado com uma violenta tromba d'água, daquelas de ganhar manchete no Jornal Nacional.


A primeira tarefa, no dia que antecede o início da Mostra, foi tentar me programar e dar alguma ordem ao caos. O caos, aqui, é aquele do bem: afinal, são mais de 300 filmes à disposição, vindos das mais diversas cinematografias internacionais. Um verdadeiro “Woodstock” tribal dos filmes ou a Copa do Mundo das telas para os fãs de cinema. A proeza é organizar a agenda para tentar dar conta de tantas opções em sessões contínuas espalhadas por dezenas de salas pela cidade. O termo “maratona”, no sentido simbólico é totalmente adequado ao caso. A sensação é a de nunca ficar totalmente satisfeito, sempre fica aquele sentimento de que algum filme escapou da nossa atenção. Mas, fazer o que? Somos apenas um e eles (os filmes) são tantos.

Então, a sessão já vai começar. Acompanhe por aqui nossas impressões, sensações e comentários pelas próximas duas semanas.

Jorge Ghiorzi