
Na
abertura, observamos no canto da tela o cursor de um editor de texto pulsando,
à espera da próxima palavra a ser redigida. Está dado o início a mais uma obra
de Pedro Almodóvar, com os créditos embalados pela bela trilha sonora de
Alberto Iglesias, que traz ecos das composições de Bernard Herrmann para os
filmes de Alfred Hitchcock. Uma sensação de expectativa e suspense moderado nos
invade, parte pelo clima da trilha, parte pela constatação de que seremos
testemunhas da gênese da criação artística de um filme compartilhada sem pudor.
Estamos diante de Natal Amargo (Amarga Navidad), mais recente longa-metragem
do realizador espanhol.
O
enredo acompanha duas histórias paralelas. Na primeira delas, conhecemos Elsa,
vivida por Bárbara Lennie, uma diretora de publicidade que sofre um ataque de
pânico após a morte de sua mãe e viaja para a ilha de Lanzarote com sua amiga,
Patricia. Na segunda narrativa, o diretor de cinema Raúl, interpretado por
Leonardo Sbaraglia, tenta superar um bloqueio criativo e decide transformar os
dramas de seus amigos próximos em matéria-prima para a ficção do roteiro que
está escrevendo. As duas tramas se entrelaçam e evoluem em paralelo, criando
conexões e espelhamentos fascinantes.

A
estrutura de Natal Amargo opera em dois universos paralelos bem
delineados por Almodóvar. Um deles reside na experiência da escrita, no
desenvolvimento de um roteiro em construção. A outra camada, por sua vez, é a
representação visual desse projeto ainda incompleto, limitando-se a reproduzir
cenas e diálogos em pleno processo de criação. No entanto, há um terceiro nível
no qual o espectador é convocado a preencher imageticamente essa lacuna, que se
traduz na experiência viva da própria obra que se desenrola diante de nossos
olhos, gerada pela fusão entre o texto literário e sua materialização cênica.
Neste
exercício de metacinema, Natal Amargo é uma obra aberta, onde o filme
assistido em tela não passa de um rascunho de um projeto futuro. Ao deixar as
costuras do processo criativo expostas, Almodóvar abdica do controle absoluto e
convida o público a atuar como coautor, completando mentalmente as lacunas de
uma narrativa que se recusa a entregar respostas prontas.

À
sua maneira, Pedro Almodóvar faz de Natal Amargo uma espécie de 8 ½
para chamar de seu. Assim como o italiano Federico Fellini, o diretor espanhol
discute nesta autoficção os impasses que acompanham o ato de criar,
aprisionando seu alter ego em um verdadeiro labirinto criativo que transita
entre a realidade e a imaginação. Aqui, a base de inspiração do realizador
protagonista são pessoas de seu convívio, emuladas como figuras fictícias de
uma versão alternativa e idealizada de vivências particulares, o que abre
margem, na própria encenação, para uma discussão sobre a ética de expor
publicamente episódios da intimidade privada.
Na
condição de modelo inspirador para o roteirista criativamente frustrado da
ficção, Almodóvar se mostra um artista que não consegue evitar a busca de
referências em sua própria vida. Ele vampiriza tanto as vivências alheias quanto
suas próprias memórias pessoais em um ciclo perpétuo de experiências que se
retroalimentam, razão pela qual este manifesto se torna uma confissão de culpa
do cineasta.
A
trama desenvolvida pelo roteirista resgata certos elementos fundamentais de O
Quarto ao Lado, obra anterior do cineasta. Reencontramos duas amigas
íntimas isoladas em uma casa distante, partilhando confidências e memórias sob
a forte sombra da finitude e da morte. Esse cenário sugere que a centelha
criativa para Natal Amargo pode ter sido, em grande medida, gestada
durante a produção daquele filme de 2024.
Fiel
à própria tradição, Pedro Almodóvar assume mais uma vez a vertente
melodramática, território onde seu coração sempre bate mais forte. Dentro de
sua extensa filmografia, no entanto, Natal Amargo surge como uma obra de
transição e balanço. O caráter revisional e, em certo nível, confessional
revela um realizador à beira de um ataque de angústia criativa. Trata-se de um
projeto que expõe explicitamente o conflito íntimo do criador, assombrado por
fantasmas do passado e tensionado pelas expectativas do futuro. Seria o
esgotamento da fórmula do diretor? Não há como saber, mas o próprio cineasta dá
sinais de que algo o incomoda nesse aspecto, incômodo que ele não faz questão
de esconder.

O
filme brinca com nossas expectativas voyeurísticas ao transformar vidas reais
em matéria-prima para existências ficcionais, em um eco perfeito da realidade
digital que se multiplica nas redes sociais. A sina das histórias criadas pelos
roteiristas e, em sentido mais amplo, da própria vida em si, é a mesma, pois
sabemos como começam, temos alguma ideia de como se desenvolvem, mas não temos
controle absoluto sobre o final, que se autoimpõe seguindo as regras próprias
do imponderável. Assim é o filme, e assim é no filme dentro do filme.
Natal
Amargo traz uma narrativa simultaneamente complexa na
profundidade e simples na superfície. Seja qual for o aspecto destacado, a
certeza que fica é a de estarmos diante de uma produção superior. Não é o
melhor Almodóvar, mas ainda assim é um Almodóvar que segue surpreendendo,
instigando, provocando e merece nossa mais dedicada atenção.
Assista ao trailer: Natal Amargo
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela