Em
um ano que testemunhou o cinema resistir às alterações do mercado e
reinventar-se com coragem rara, coroado pelo histórico primeiro Oscar do cinema
brasileiro com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, estes dez filmes
destacam-se não apenas pela excelência técnica ou pelas performances
inesquecíveis, mas pela forma como dialogam com o tempo em que vivemos. O
recorte temático é amplo e diverso, percorrendo da ferida ainda aberta das
ditaduras à solidão contemporânea, da celebração da cultura negra à denúncia
silenciosa da opressão, do revisionismo sertanejo à poesia do luto elisabetano.
São
obras que nos confrontam, consolam e, acima de tudo, nos lembram do poder único
do cinema de transformar o pessoal em universal, o efêmero em eterno. E que
orgulho ver o Brasil brilhar com força dupla nesta seleção, com dois títulos
nacionais entre os melhores do ano.
Aqui
está uma seleção eclética e apaixonada dos filmes que mais marcaram o ano. Não
se trata de um ranking, mas uma lista em ordem aleatória de obras que, cada uma
à sua maneira, expandiram os limites do cinema com ousadia, emoção e
inteligência. De vampiros blues ao sertão goiano, de espionagem conjugal a luto
shakespeariano, estes são os títulos que nos fizeram pensar, sentir e lembrar
por que amamos as salas escuras.
1)
PECADORES
(Sinners)
de Ryan Coogler
Uma
fusão audaciosa de horror vampiresco, blues e comentário social, que transforma
o filme de gênero em uma celebração vibrante da cultura negra, com performances
duplas hipnóticas de Michael B. Jordan e uma trilha sonora que eleva a
narrativa a um patamar épico e emocional.
2)
O AGENTE SECRETO
de Kleber Mendonça Filho
Thriller
político neo-noir ambientado no ano de 1977, em plena ditadura militar
brasileira, que explora memória, resistência e repressão com tensão palpável,
visual elegante e uma performance premiada de Wagner Moura como um homem
fugindo do passado em Recife.
3)
UMA BATALHA APÓS A OUTRA
(One Battle After Another)
de Paul Thomas Anderson
Um
thriller de ação visceral e oportuno sobre revolução, vingança e família,
impulsionado pela interpretação magnética de Leonardo DiCaprio e uma edição
precisa que captura o caos da história contemporânea com intensidade
inesquecível.
4)
OESTE OUTRA VEZ
de Erico Rassi
Uma
revisão poética e revisionista do western clássico, ambientada no sertão
goiano, que destaca a fragilidade da masculinidade tóxica, os valores do
orgulho destrutivo e uma narrativa contemplativa essencialmente masculina,
reinventando o gênero com profundidade emocional, ironia afiada e uma
perspectiva essencialmente brasileira.
5)
CÓDIGO PRETO
(Black Bag)
de Steven Soderbergh
Thriller
de espionagem cerebral e elegante, com Cate Blanchett e Michael Fassbender como
um casal de agentes em crise de lealdade, brilhando pela tensão conjugal,
diálogos afiados, reviravoltas inteligentes e uma abordagem sofisticada que
prioriza intriga psicológica sobre ação explosiva.
6)
SONHOS DE TREM
(Train Dreams)
de Clint Bentley
Um
luminoso retrato da América rural e do trabalho árduo de operários e
lenhadores, encenado com sensibilidade e delicadeza, que captura a beleza
melancólica da vida comum através de cinematografia hipnotizante e uma
performance comovente de Joel Edgerton, celebrando a dignidade dos invisíveis.
7)
FOI APENAS UM ACIDENTE (It
Was Just an Accident)
de Jafar Panahi
Um
drama iraniano poderoso que denuncia opressão com coragem feroz e humanidade
profunda, destacando-se pela narrativa impactante, autenticidade crua e uma
crítica social que transforma dor pessoal em resistência universal.
8)
MISERICÓRDIA (Miséricorde)
de Alain Guiraudie
Uma exploração
sensível e ambígua do perdão, da redenção e da fragilidade humana, que brilha
pela sutileza emocional, direções de atores impecáveis e temas de empatia que
tocam a alma, oferecendo uma visão provocadora e esperançosa em meio ao
sofrimento e aos segredos de uma pequena comunidade.
9)
FRANKENSTEIN
de Guillermo del Toro
Visão
gótica e comovente que humaniza o monstro clássico com visuais exuberantes,
performances arrebatadoras de Jacob Elordi e Oscar Isaac, e uma reflexão
profunda sobre criação, solidão e beleza na imperfeição.
10) HAMNET
– A VIDA ANTES DE HAMLET
de Chloé Zhao
Adaptação
devastadora, que transforma luto familiar em arte transcendental, com atuações
avassaladoras de Jessie Buckley e Paul Mescal, explorando amor, perda e o poder
curativo da criação shakespeariana de forma emocionalmente avassaladora e
visualmente poética.
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela