sábado, 9 de maio de 2026

Edifício Bonfim: o lado sombrio da Ilha da Magia

 

A cidade de Florianópolis é nacionalmente celebrada como a "Ilha da Magia", título justificado por suas praias exuberantes, geografia privilegiada e o sol generoso que atrai visitantes de todas as latitudes. No entanto, o longa-metragem Edifício Bonfim, inteiramente rodado na capital catarinense, propõe uma ressignificação instigante para o termo. Aqui, a "magia" abandona o sentido poético e turístico para abraçar o literal, o macabro e o aterrador. A direção é assinada por Lígia Walper, profissional com sólida carreira como produtora, montadora e roteirista de projetos televisivos, que faz aqui sua estreia na condução de um longa-metragem.

Como qualquer centro urbano, Florianópolis é guardiã de mitos e crenças populares que moldam o imaginário coletivo através das gerações. Os alicerces do fictício Edifício Bonfim erguem-se sobre essas narrativas (cuja veracidade histórica é secundária ao seu impacto cultural), apresentando contos ficcionais povoados por entidades malignas, bruxas e figuras sombrias como serial killers.

O filme estrutura-se como uma antologia composta por três histórias distintas, tendo como ponto de convergência o edifício que dá nome à obra. Nessa configuração, o prédio assume o status de um "personagem silencioso". Contudo, nota-se que esse potencial cenográfico não é plenamente explorado para amarrar as tramas. A narrativa, por vezes, parece navegar à deriva, carecendo de uma justificativa mais robusta que conecte organicamente os núcleos e valide a escolha do edifício como o grande catalisador dos eventos sobrenaturais.

As três narrativas se entrecruzam na abertura do filme, que apresenta uma reunião de condomínio onde o espectador é brevemente introduzido aos protagonistas. A partir deste ponto o cotidiano dá lugar ao macabro, e cada um deles passa a vivenciar sua própria experiência de horror.

No primeiro segmento, intitulado "Criatura", a urgência de um chamado de sequestro com reféns retira um policial do conforto de seu lar e da iminência do nascimento de seu filho. O clímax do episódio o coloca frente a frente com uma criatura demoníaca voraz. Um dos pontos altos do segmento é a excelente caracterização da entidade, graças à plasticidade da maquiagem.

Dando sequência à antologia, o segundo episódio, "Trilha da Costa", nos coloca no encalço de uma bruxa que teria sido avistada e registrada em vídeo por uma integrante de um grupo de trilha pelas matas de Florianópolis. A trama se desenvolve sob o signo da ambiguidade: o registro seria autêntico ou apenas uma farsa digital? O desfecho perturbador se encarrega de entregar as respostas, validando o folclore sombrio da ilha.

Já no terceiro e último segmento, intitulado "Formando", somos apresentados a um inusitado curso de especialização para serial killers, no qual um dos moradores do Edifício Bonfim destaca-se como aluno laureado. Na cerimônia de graduação, o dedicado estudante recebe aquela que será sua última e inesperada lição prática.


Um dos pontos de maior atrito na obra reside no descompasso entre o texto e a mise-en-scène. O roteiro, enxuto e dramaticamente bem construído a oito mãos por Tabajara Ruas, Cesar Alcázar, Christopher Kastensmidt e Duda Falcão, carrega em seus diálogos e situações uma carga de ironia e cinismo que a direção nem sempre consegue traduzir visualmente ou extrair da encenação do elenco. A obra oscila entre o horror visceral, o suspense moderado e flertes com a comédia. Embora tal hibridismo possa ser um exercício cênico válido, ele representa um risco alto para a fluidez entre os gêneros, resultando em um certo distanciamento do espectador, que encontra dificuldades em localizar os eixos necessários para uma imersão profunda.

Essa sensação de estranheza é acentuada pela trilha sonora. A inserção de certas canções destoa do contexto geral, interrompendo a construção da atmosfera e fragilizando a verossimilhança do universo que o filme tenta estabelecer.

Apesar das oscilações rítmicas, a premissa de concentrar figuras peculiares em um mesmo microcosmo geográfico é promissora. Edifício Bonfim planta uma semente fértil para futuras sequências, possuindo potencial para se tornar uma coletânea robusta que explore novos moradores e expanda o lado inusitado e sombrio da face oculta da ilha.

A obra de Lígia Walper abraça, sem preconceito, o cinema de gênero, exercitando um modelo de entretenimento honesto e sincero, com propósito bem definido. O longa se insere em um momento muito promissor do cinema catarinense, que atravessa sua fase de maior produção e visibilidade. Esforços isolados do passado estão ganhando consistência com uma produção mais estruturada e diversificada. Neste aspecto, destaca-se um nicho poderoso do atual cenário estadual: o terror e o fantástico regional. É exatamente nesta temática que se insere esta louvável produção, fortalecendo um movimento que merece atenção.

Da produção recente em Santa Catarina, vale destacar ainda o longa Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar, exibido na Première Brasil do Festival do Rio e vencedor do prêmio “Goes to Cannes” no Marché du Film. A obra conquistou também o 3º Prêmio Netflix na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, garantindo sua distribuição global via streaming. Outro destaque relevante é o lançamento, ainda este ano, do longa-metragem de terror Casarão (da mesma Cíntia Domit Bittar), ambientado na década de 1950, no interior rural do estado.

Assista ao trailer: Edifício Bonfim


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra: caótico, estranho e cheio de graça

 

O retorno de Gore Verbinski, conhecido pela franquia Piratas do Caribe, à sua melhor forma ocorre com este Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die, 2025). Após um período de afastamento de produções com grande visibilidade, o diretor entrega uma comédia de ficção científica que se mostra uma experiência caótica, intrigante e profundamente envolvente. O longa consegue equilibrar a leveza do humor com uma mensagem social urgente sobre os nossos tempos.

A trama utiliza um recurso narrativo familiar ao público que é a viagem temporal, mas o faz com uma abordagem urbana e direta. Na história, um homem (Sam Rockwell) vindo de um futuro apocalíptico desembarca em uma lanchonete comum de Los Angeles com uma missão clara e urgente. Ele precisa recrutar um grupo de clientes comuns que estão no local para auxiliá-lo a impedir uma catástrofe que determinará o destino da humanidade.

Embora o ponto de partida traga lembranças imediatas de clássicos sci-fi como O Exterminador do Futuro, onde um personagem vem do futuro para consertar no presente uma situação que será decisiva no amanhã, as semelhanças terminam na premissa. O filme abandona a tensão e a violência gráfica em favor de uma jornada vibrante e bem-humorada. No centro do conflito encontramos um vilão certeiro e onipresente na figura da Inteligência Artificial. A produção trata a influência decisiva do universo digital sobre os seres humanos como uma doença coletiva da qual a sociedade dificilmente consegue escapar. O roteiro ecoa a atmosfera da série Black Mirror ao mirar uma crítica contundente na forma como a tecnologia molda comportamentos sociais.

Nesse cenário surge um dos pontos mais fascinantes da obra que é o contraste geracional. A narrativa posiciona os adultos como os heróis da jornada pelo fato de terem experimentado a vida antes da hegemonia algorítmica. Eles funcionam como âncoras da realidade física e possuem a memória do que significa o contato humano genuíno sem a mediação de telas. Essa bagagem analógica é a única arma capaz de resgatar as gerações mais jovens de uma existência etérea e controlada que os multiversos prometem como se fosse plenitude existencial.

A assinatura visual de Gore Verbinski é fundamental para o sucesso dessa sátira tecnológica. O diretor utiliza sua habitual habilidade em criar cenários exagerados e situações absurdas para ridicularizar a nossa dependência digital. Sua estética transita entre o realismo palpável e o surrealismo vibrante, criando um contraste visual que traduz perfeitamente a desorientação causada pela IA.

Um exemplo pontual dessa abordagem ocorre na sequência onde surge um gigantesco ser híbrido gerado por um prompt inadequado. Essa cena é exemplar como crítica mordaz ao mostrar as deformidades do processo criativo automatizado. Diferente de realizadores que optam por um visual limpo e futurista, Verbinski entrega uma tecnologia que parece invasiva e desgastada. Essa escolha reforça a crítica ao mostrar como o digital consome o espaço do real e transforma a vida cotidiana em um espetáculo grotesco e manipulado.

O desempenho de Sam Rockwell é um espetáculo à parte na condução da história. Seja em papéis secundários ou como protagonista, o ator sempre entrega uma performance singular e explosiva que impede qualquer indiferença da audiência. Sua energia ajuda a sustentar uma trama intrincada e repleta de imaginação que remete à complexidade de, por exemplo, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

Entretanto, o longa de Verbinski supera o vencedor do Oscar de 2023 em um aspecto fundamental por não se tornar pretensioso ou maçante. O saldo é uma comédia com um recado sério que consegue ser inventiva sem sacrificar o entretenimento e prova que é possível discutir os perigos da tecnologia com originalidade, leveza e graça.

Assista ao trailer: Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 21 de abril de 2026

Michael: o legado de um mito

 

Um olhar íntimo e humanizado sobre a trajetória do Rei do Pop é o que temos em Michael, a cinebiografia que celebra o legado do artista que redefiniu a música global. Protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor e integrante legítimo do clã Jackson, o longa percorre desde o fenômeno juvenil do grupo Jackson 5 até sua consagração na carreira solo como uma das maiores referências culturais do planeta. Sob a direção de Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor), o filme transcende os palcos para revelar as ambições e a genialidade por trás do mito, destacando o processo criativo e a visão artística ímpar que transformaram Michael Jackson em um ícone histórico de impacto incalculável.

O desejo de superar a linha da pobreza e conquistar melhores condições de vida na pequena Gary, Indiana (EUA), era o sonho dourado da família Jackson. Sob a liderança de mão de ferro do pai, Joe (Colman Domingo, em desempenho impecável), os garotos foram lançados a uma rotina exaustiva de ensaios na sala de casa, ainda crianças. Em meio a uma disciplina pesada, eles mal tiveram a oportunidade de vivenciar a plenitude da infância e da adolescência como qualquer garoto da época na transição dos anos 60 para os 70. Naquele grupo moldado para o estrelato, quem mais sofreu as consequências dessa infância roubada foi o mais jovem deles, Michael.

A trajetória e a grandeza da história de Michael Jackson pediam há muitos anos uma versão cinematográfica que desse conta de narrar a construção de um dos maiores ídolos da música de todos os tempos. O público ansiava por bastidores que conferissem um sabor extra à apreciação do homem por trás do mito. Infelizmente, essa expectativa é parcialmente frustrada. A tão aguardada cinebiografia do astro é um projeto mais convencional do que se poderia desejar porque carece de criatividade na maior parte do tempo, justamente o traço mais destacado no perfil artístico do biografado. O que vemos em cena é de pouco brilho apesar das luzes intensas dos palcos. A magnitude da história está toda lá e se conta por si só, mas a forma de contá-la fica aquém da altura da figura representada.

O diretor Antoine Fuqua foi pouco ousado e limitou-se a uma condução didática, correta e reverente ao ídolo (convenhamos, não haveria de ser diferente). No entanto, o filme poderia ter expandido o olhar e arriscado mostrar algo além das manchetes que todos conhecemos sobre o astro. As sequências que retratam o artista no processo de composição das músicas do álbum Thriller e os bastidores da gravação do clássico videoclipe que revolucionou o gênero são os únicos momentos realmente inspirados e empolgantes. No mais, fica a sensação de que falta a magia e o imaginário que foram forças vitais na criação de Michael Jackson.

Representar na tela a vida de um mito dessa dimensão impõe uma série de obstáculos de ordem moral e de privacidade que raramente são expostos quando se trata de grandes estrelas. Falhas e passagens menos abonadoras costumam ser omitidas em cinebiografias de celebridades, como ocorreu em projetos sobre Elvis Presley, Elton John e Amy Winehouse, dentre outros. Podemos apenas imaginar os caminhos tortuosos pelos quais o roteiro precisou transitar sob o crivo de aprovações e vetos de familiares (alguns deles ligados diretamente à produção), empresários e outras figuras de relevância na trajetória do artista.

Com tantos filtros desidratando a chamada “verdadeira história”, o que resta é a clássica versão chapa-branca que não ousa ofender a memória do homenageado. O retrato resultante é o de um personagem gigantesco que se deixou levar por fraqueza ou por um comportamento hesitante ao não assumir os destinos de sua própria carreira em diversas passagens. Estaríamos, portanto, diante de um dos sintomas da chamada Síndrome de Peter Pan, que acomete indivíduos com dificuldade em amadurecer. A analogia aqui é evidente, dado que o personagem que não queria crescer e se refugiava na Terra do Nunca era um dos mais admirados por Jackson, o que justifica o nome dado à sua própria mansão, ‘Neverland Ranch’.

A obra de Fuqua parece ser menos um mergulho artístico e mais um exercício de gestão de marca no fim das contas. É um exemplo pedagógico de como a indústria do entretenimento lida com seus fantasmas mais famosos ao preferir o brilho inofensivo da representação iconográfica à complexidade humana e sombria do homem que um dia existiu.

Assista ao trailer: Michael


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 31 de março de 2026

O Drama: castelo de cartas ou porto seguro?

 

O casamento é um tema recorrente do cinema, pois funciona como ponto de partida, estudo sociológico ou simplesmente como o palco onde tudo acontece. De clássicos densos como o bergmaniano Cenas de um Casamento e o melancólico Foi Apenas um Sonho a fenômenos pop como Garota Exemplar e Casamento Grego, a sétima arte já explorou muitas facetas do "viver a dois". Entre comédias românticas, sátiras e tragédias, a instituição do matrimônio acabou se tornando, na prática, um subgênero temático com vida própria. É nesse terreno promissor, e com uma proposta que renova o fôlego do tema, que se habilita o mais novo integrante desse recorte: O Drama (The Drama), escrito e dirigido por Kristoffer Borgli.

O que torna a experiência de assistir a O Drama particularmente instigante é a forma como Borgli manipula as expectativas do público. Sob a superfície de uma narrativa que se apresenta descontraída e visualmente solar, o diretor injeta um elemento perturbador que retira gradualmente o espectador de sua zona de conforto. Um aforismo popular, imortalizado na música “Vaca Profana”, de Caetano Veloso, afirma que “de perto, ninguém é normal”. Em O Drama, essa premissa é colocada à prova quando uma verdade inconveniente abala os planos do casal de noivos, Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya), às vésperas das núpcias. O estopim ocorre em uma descontraída roda de amigos que, embalada por algumas taças de vinho laranja, decidem brincar de dizer a “pior coisa que já fizeram”. Se inicialmente o jogo transita entre relatos cômicos e embaraçosos, uma revelação de peso desmorona o clima da confraternização e altera o curso das relações. A partir desse ponto, o filme percorre os passos de um jogo perigoso, onde o casamento não é mais apenas uma festa, mas um campo minado que precisa ser desarmado a tempo.

As longas cenas dialogadas demonstram que o diretor bebeu na fonte de Woody Allen, recorrendo a uma extensa argumentação verbal pontuada por sentenças que transitam entre a sabedoria de vida e os clichês do nosso inconsciente coletivo. Há, no entanto, uma diferença fundamental nesse paralelo. Enquanto Allen lidava com adultos "analógicos" bem formados, os personagens deste filme são jovens adultos digitais, pressionados menos por valores morais do que pelas aparências performáticas exigidas em seus grupos sociais. Se Allen usava o diálogo para tentar resolver a neurose, Borgli parece usá-lo para sustentar uma máscara social que o casamento, ironicamente, deveria ser o único lugar capaz de remover. A união formal, para essa geração, tornou-se menos um refúgio emocional e mais uma “curadoria” de imagem instagramável.

Em certa medida, O Drama descontrói a mística do romantismo amoroso e a ideia de uma união plena de virtudes. O roteiro insere na equação o componente da racionalidade objetiva, que entra em rota de colisão com o idealismo dos apaixonados. Esse embate fica delimitado quando um personagem afirma que "amar é não ter ego". Ironicamente, em um mundo focado na autoconstrução digital, o "não ter ego" soa menos como um sacrifício romântico e mais como uma impossibilidade real. A desconstrução prossegue com outra sentença definitiva: "o casamento não resiste à realidade". Esta fala sugere que a manutenção do vínculo exige um pacto ficcional, ou uma necessária suspensão de descrença, onde as arestas são suavizadas. Sem o refúgio da fantasia, o que sobra é a aspereza do real, insuficiente para sustentar uma instituição que sempre dependeu de rituais e narrativas compartilhadas para não desmoronar.

A química entre Robert Pattinson e Zendaya transborda desde a primeira sequência, conferindo uma ótima verossimilhança ao casal. O magnetismo reside no contraste. Enquanto Pattinson imprime uma vulnerabilidade contida, Zendaya domina a cena com uma segurança explosiva. Curiosamente, a surdez parcial da protagonista atua como uma metáfora sutil para a comunicação daquela união, mesmo quando abertos ao diálogo. Há uma 'escuta seletiva' emocional, uma frequência onde o que não é dito (ou não 'escutado') acaba por gerar abismos. É uma ironia dramática que um romance nascido de uma pequena mentira (quando ele diz que já leu o livro que ela está lendo) venha a ser ameaçado por uma omissão de proporções devastadoras.

Embora o título sugira o contrário, não se engane, O Drama é conduzido com leveza e bom humor. O diretor opta por um olhar generoso e o resultado é uma obra que trata a angústia com um toque irresistível de ironia. Em última análise, a jornada dos personagens de Pattinson e Zendaya pelo labirinto de suas próprias falhas sugere que o desarmamento desse campo minado é o rito de passagem para a maturidade. Ao confrontarem a "escuta seletiva" e as mentiras que pavimentaram o início da relação, os protagonistas são forçados a encarar a realidade nua, sem idealismos. O Drama encerra o “drama” não com respostas fáceis, mas com uma provocação: o amor real só começa quando a fantasia termina? O filme projeta no espectador a dúvida fundamental. Até que ponto a nossa própria felicidade depende das mentiras que escolhemos contar e das verdades que decidimos esconder? No fim, O Drama mostra que é na coragem da permanência que descobrimos se o que foi construído é um castelo de cartas ou um porto seguro.

Assista ao trailer: O Drama


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 24 de março de 2026

Devoradores de Estrelas: uma jornada épica e íntima

 

Os livros de Andy Weir são conhecidos por reunir, com rara habilidade, precisão científica e entretenimento de primeira linha. Outro atrativo de sua escrita é a construção extremamente cinematográfica, o que facilita adaptações sem grandes traumas na transposição de mídia. Foi o caso de Perdido em Marte (2015) e agora se repete com Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, 2026), reafirmando a força de Weir na cultura pop. A adaptação de outro livro do autor, Artemis, segue em desenvolvimento há anos, sem previsão imediata de lançamento

A história acompanha Ryland Grace (Ryan Gosling), um professor de ciências e ex-biólogo que desperta a bordo de uma espaçonave sem qualquer memória de quem é ou de como chegou ali. Aos poucos, ele descobre que é o único sobrevivente de uma missão desesperada: salvar o Sol (e, por consequência, a Terra) de um organismo microscópico que está consumindo a energia da nossa estrela. O que começa como uma jornada solitária ganha novas nuances quando Grace encontra “Rocky”, um alienígena de outro sistema solar que enfrenta o mesmo problema. apocalíptico.

Mais do que um épico espacial, Devoradores de Estrelas fundamenta-se como uma jornada emocional, embora esse foco no "micro" jamais limite sua escala grandiloquente. A direção de Phil Lord e Christopher Miller (realizadores de Uma Aventura Lego e criadores do Aranhaverso) sustenta uma transição equilibrada entre o espetáculo e a introspecção. Ao mesmo tempo em que a narrativa mira a vastidão sublime e os perigos tecnológicos do espaço, o roteiro de Drew Goddard (de Perdido em Marte) ancora o espectador em dilemas morais e laços pessoais. Esse contraste entre a imensidão do vazio e a densidade dos afetos é o que confere ao filme sua ressonância dramática, evitando que ele se torne apenas mais um espetáculo de efeitos visuais.

As questões científicas abordadas apresentam complexidade considerável, mas são habilmente compensadas pelo roteiro, que abre mão de exposições verbais densas. Em vez disso, prefere exibir conceitos por meio de experimentos práticos e animações lúdicas. Nesse aspecto, o filme se distancia de abordagens cerebrais e áridas, optando por um tom mais amigável e acessível. Essa leveza é sustentada pelas atuações do elenco principal. Ryan Gosling entrega um protagonista extremamente carismático e totalmente à vontade, equilibrando o medo da morte com a curiosidade científica. Ele está perfeito como o herói involuntário e relutante. Já Sandra Hüller (de Anatomia de uma Queda) brilha em uma composição contida, com sua personagem durona apenas na superfície, revelando camadas de responsabilidade e sacrifício conforme a trama avança.

A relação amável e amistosa entre Grace e Rocky é, sem dúvida, o maior trunfo do longa. Rocky se mostra um personagem empático, evocando a pureza de clássicos como E.T. – O Extraterrestre. O filme, inclusive, abraça seu caráter autoconsciente ao referenciar a franquia Rocky, de Stallone (que inspirou o nome do alienígena), e ao homenagear as notas musicais de Contatos Imediatos do Terceiro Grau na interação inicial entre os seres. No Brasil, o título original Project Hail Mary (Projeto Ave Maria) foi deixado de lado em favor de Devoradores de Estrelas, possivelmente para evitar uma associação religiosa direta. No entanto, a essência do termo, que remete a uma última e desesperada missão de fé baseada na ciência e no imponderável, permanece pulsando no centro da narrativa.

O filme, embora por vezes exagere no humor em passagens que pediam maior gravidade, nunca perde seu caráter otimista. É essa leveza, ancorada pelo carisma magnético de Gosling e pela presença austera, porém vulnerável, de Hüller, que humaniza a frieza do espaço sideral. Em um gênero que frequentemente se perde entre o niilismo cerebral e o espetáculo vazio, Devoradores de Estrelas prova que a ficção científica mais eficaz é aquela que utiliza a vastidão do cosmos apenas como moldura para examinar a densidade dos laços que nos tornam humanos. O resultado deste acerto é mensurável nas bilheterias, que registraram nos primeiros dias de exibição mais de US$ 150 milhões, consolidando o longa como o maior êxito financeiro de 2026 até o momento. É a prova de que o público anseia por histórias que, além de nos fazer olhar para as estrelas, nos façam sentir o que significa ser humano.

Assista ao trailer: Devoradores de Estrelas


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 4 de março de 2026

Mother’s Baby: maternidade assombrada

O pesadelo da maternidade, quando o vínculo esperado com o recém-nascido se transforma em estranhamento e dúvida profunda, ganha contornos de thriller psicológico em Mother's Baby, dirigido pela cineasta austríaca Johanna Moder. Lançado em 2025 como coprodução entre Alemanha, Suíça e Áustria, o filme foi exibido na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim. A trama acompanha Julia (Marie Leuenberger), uma regente de orquestra de 40 anos, e seu parceiro Georg (Hans Löw), que recorrem a um procedimento experimental de fertilidade em uma clínica privada para realizar o sonho de ter um filho. Após um parto complicado, no entanto, Julia enfrenta uma incapacidade crescente de se conectar afetivamente com o bebê, o que a leva a uma espiral de suspeitas e paranoia que transforma sua experiência pós-parto em um autêntico horror psicológico.

Desde as sequências iniciais, o filme estabelece simbolicamente o tom que permeia toda a narrativa, caracterizada por suspense, estranhamento e desconforto sensorial. As imagens de corredores vazios e silenciosos na clínica transmitem uma sensação palpável de algo sinistro, contrastando com o momento sublime do parto vivido pela mãe. Essa atmosfera inicial prepara o terreno para o desenvolvimento da trama, convidando o espectador a compartilhar a inquietude crescente da protagonista.

O parto em si é retratado em um longo plano-sequência de cinco minutos, uma escolha que intensifica a angústia, permitindo que o público vivencie as dores e as emoções da mãe de forma imersiva. Esse momento crucial marca o início das aflições de Julia, que confronta um dos pavores mais angustiantes das parturientes: a possibilidade de troca do bebê, seja por erro ou intenção premeditada. Essa dúvida inicial evolui para suspeitas cada vez mais profundas, culminando em confirmações dolorosas que abalam sua realidade pós-parto.

É inevitável reconhecer paralelos com o clássico O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, outro thriller de horror centrado em uma mãe atormentada por ameaças invisíveis que minam sua sanidade. Há uma complementaridade entre as obras: enquanto Polanski explora o pré-parto, Mother's Baby mergulha nos abismos sombrios do pós-parto, ampliando o espectro do horror maternal. Além disso, a depressão pós-parto surge como uma metáfora assustadora e simbólica, onde os distúrbios psicológicos e as barreiras afetivas entre mãe e filho assumem contornos ao mesmo tempo metafóricos e explícitos, refletindo as complexidades reais da maternidade.

Outro elemento simbólico é a constante postergação da escolha do nome para o bebê recém-nascido, apesar da insistência do pai. Essa hesitação revela o sentimento profundo da mãe, que, por razões internas, questiona se aquela criança é realmente sua. Nomear o filho representaria uma aceitação definitiva, uma pacificação de suas dúvidas, e equivaleria a completar um parto que, para ela, permanece incompleto. Essa relutância reforça o tema da alienação maternal, tornando o filme ainda mais perturbador.

O terror da gravidez e da maternidade também ecoa em obras recentes, como Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, que aborda o tema de forma mais leve e divertida, em contraste com a abordagem assombrada e sombria do filme de Moder. Outro ponto em comum é o fato de que ambos são dirigidos por mulheres, o que enriquece a perspectiva feminina sobre esses medos. Além disso, Mother's Baby também se aproxima, por outros aspectos, do suspense Coma, dirigido por Michael Crichton em 1978, ao explorar o horror hospitalar. Ambos retratam instituições médicas como cenários de conspirações e violações éticas, onde procedimentos rotineiros se transformam em fontes de pavor, questionando a confiança no sistema de saúde e ampliando o suspense para além do âmbito pessoal.

Falado em alemão, o filme inicia e prossegue em um ritmo lento por muitos minutos, mas mantém o espectador engajado por meio de pequenas ocorrências e detalhes que constroem expectativa. Acompanhamos as angústias de Julia e suas descobertas graduais até o desfecho, que revela a última peça do quebra-cabeça. No entanto, algumas respostas permanecem suspensas, o que, embora contribua para o mistério, pode prejudicar um fechamento mais impactante, impedindo que se torne um thriller exemplar.

Em resumo, Mother's Baby se destaca como uma exploração visceral e inovadora da maternidade, mesclando horror psicológico com reflexões profundas sobre identidade e vínculo afetivo. Apesar de certas ambiguidades no final, o filme de Johanna Moder consegue capturar a essência do desconforto pós-parto, oferecendo uma narrativa que ressoa com medos universais e convida a uma reflexão sobre as sombras invisíveis da parentalidade. É uma obra que equilibra o suspense e o simbolismo, revelando as complexidades da experiência humana.

Assista ao trailer: Mother’s Baby


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Isso Ainda Está de Pé?: terapia do riso amargo

 

Após a consagração como ator e as múltiplas indicações ao Oscar por Nasce uma Estrela, Bradley Cooper retorna à direção com um projeto mais intimista, porém igualmente ambicioso em sua simplicidade. Em Isso Ainda Está de Pé? (Is This Thing On?), o cineasta parece menos interessado em grandes arroubos formais do que em explorar as pequenas fissuras da experiência humana. O resultado é um filme que respira pelos silêncios, pelos olhares e, sobretudo, pela palavra dita em cima de um palco, ainda que o título nacional ameace desviar a atenção do que realmente importa.

A trama acompanha Alex (Will Arnett), um homem em crise após o fim de um longo casamento com Tess (Laura Dern). Numa noite de depressão e bebida, ele entra em um bar que apresenta números de stand-up. Em um impulso, sobe ao palco e descobre um novo mundo, que o faz se reconectar com suas dores e reflexões. Em meio a uma crise amorosa, que se soma à crise da meia-idade, Alex se reconecta consigo mesmo ao assumir definitivamente sua nova carreira como comediante nos palcos noturnos de Nova York. Tess, por sua vez, também se redefine com a retomada da carreira profissional no esporte (ela foi uma famosa jogadora de vôlei). Bradley Cooper, em papel coadjuvante, surge como contraponto e apoio na trajetória do protagonista. É nesse delicado equilíbrio entre afeto e performance que o filme crava suas raízes.


A direção suave e orgânica de Bradley Cooper evoca, em certos momentos, o legado de cineastas como Mike Nichols e Rob Reiner, especialmente na maneira como articula conflitos íntimos sob a lente de um humor inteligente e por vezes cáustico. Sem pretender alcançar a mesma densidade de seus referenciais, o filme compartilha dessa tradição em que as tensões sociais e afetivas emergem com leveza aparente. Afinal, as verdades mais duras tendem a encontrar melhor acolhida quando atravessadas pela ironia.

Nesse contexto, o título adotado no Brasil é, no mínimo, infeliz. A tentativa de dialogar com o universo do stand-up soa artificial e pouco espirituosa, como se buscasse uma associação fácil com a expressão “Comédia em Pé”, popularizada por aqui como tradução livre do gênero cômico consagrado nos Estados Unidos. Em vez de captar a essência do original, a adaptação escorrega para um trocadilho simplório que evoca, ainda que involuntariamente, a tradição dos títulos de duplo sentido das pornochanchadas dos anos 1970. Algo que, convenhamos, está longe de fazer jus ao espírito do filme.


Há, contudo, uma questão mais estrutural a ser observada. O filme é conduzido por uma perspectiva essencialmente masculina, que orienta tanto o ponto de vista narrativo quanto a elaboração dramática. As experiências, angústias e transformações orbitam quase exclusivamente o universo do protagonista, enquanto as personagens femininas permanecem periféricas e secundárias, definidas mais pela relação que estabelecem com ele do que por conflitos próprios. É um traço que, embora não invalide a obra, revela os limites do alcance da obra.

Ainda assim, há beleza no modo como os números de stand-up funcionam como uma espécie de terapia. O palco se transforma em um divã improvisado, onde as confissões íntimas encontram a cumplicidade da plateia. O que poderia soar como mera exposição se converte em partilha. Naquele espaço, a vulnerabilidade é mediada pelo humor, e o riso coletivo legitima dores, fracassos e inseguranças. Nesse jogo entre franqueza e performance, o protagonista reelabora a própria narrativa, transformando experiências pessoais em espetáculo e, ao mesmo tempo, em mecanismo de autocompreensão.


É preciso lembrar ainda que, com a explosão midiática dos blockbusters e o incentivo permanente às superproduções, uma parcela significativa do público passou a demonstrar descontentamento com o esvaziamento das produções de pequeno e médio porte nas salas de cinema. Esses filmes, mais intimistas e centrados em personagens, pareciam destinados quase exclusivamente às plataformas de streaming. Eis, portanto, a boa notícia: Isso Ainda Está de Pé? ocupa com dignidade esse espaço rarefeito, resgatando um cinema menos espetacular e mais atento às nuances humanas. Um cinema calcado em personagens, conflitos cotidianos e boas histórias. Nada além disso. E, às vezes, nada é mais necessário do que simplesmente uma boa história bem contada.


É justamente nesse terreno fértil que a odisseia de autoconhecimento de Alex se desenvolve. Sua jornada percorre diferentes estágios que, por analogia, ecoam as fases emocionais vivenciadas em momentos de perda ou transformação profunda: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e, por fim, a aceitação. Essas etapas funcionam como alicerces para a evolução da narrativa, conduzindo a personagem por um processo gradual de redescoberta. Ao longo desse percurso, Alex recupera parte da autoestima que, sabe-se lá por qual razão, parecia ter se diluído em algum ponto da vida conjugal. O filme, no entanto, ao optar por um desfecho resolutivo e harmônico, típico da tradição hollywoodiana, parece suavizar os conflitos anteriores, conferindo um tom moralista à trajetória. Ainda assim, a jornada emocional construída até ali sustenta a força da personagem, mesmo que o arremate final deixe espaço para questionamentos sobre os caminhos escolhidos pela narrativa.

Assista ao trailer: Isso Ainda Está de Pé?


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela