quarta-feira, 17 de junho de 2026

Toy Story 5: tempo de tela

Uma geração inteira nos separa do primeiro Toy Story. Há 31 anos era lançado o primeiro longa-metragem de animação totalmente gerado por computação gráfica. Um curioso paralelo se estabelece entre a ficção e a realidade quando percebemos que as crianças que assistiram à produção de 1995, assim como os personagens humanos da narrativa, envelheceram no decorrer do tempo, conforme se sucediam os demais filmes da série. E, assim como ocorreu na ficção, os velhos brinquedos seguem morando no coração, e nunca são abandonados em uma caixa no depósito. A franquia Toy Story é justamente isto: um brinquedo cinematográfico que guardamos no lado esquerdo do peito. Então, é natural que de vez em quando um sentimento de nostalgia se manifeste, e para esses momentos uma solução foi providenciada. Chega às telas dos cinemas um novo episódio da saga. Toy Story 5 é aquela continuação que ninguém pediu, mas, claro, todo mundo descobriu que queria. 

O reencontro com Woody, Buzz e companhia vem cheio de saudosismo com uma nova aventura que traz de volta a magia dos melhores momentos da série, em especial nos três primeiros filmes. O quarto filme, de 2019, se mostrou um tanto derivativo, sem avançar substancialmente na história dos brinquedos à beira de um ataque de nervos, sempre assombrados pelo fantasma do abandono. O anúncio deste quinto filme acendeu o alerta dos fãs. Por qual caminho seguiria este episódio? A resposta surge em um roteiro que resgata a essência da franquia ao equilibrar a atualidade das novas tecnologias com o carisma dos personagens clássicos. Ao abraçar a maturidade de sua própria trajetória, a produção evita o desgaste de fórmulas repetitivas e faz jus ao legado iniciado três décadas atrás.


O grande tema de Toy Story 5 é a chegada inevitável dos dispositivos tecnológicos no universo dos brinquedos analógicos. Neste aspecto, o arco narrativo da franquia repercute com exatidão o tempo atual. Ao lado de bonecos e jogos tradicionais, com pouca interatividade além da imaginação, toda uma geração nova de recursos eletrônicos passa a disputar a atenção integral das crianças. As telas digitais de tablets e celulares capturaram o olhar e atraíram os pequenos, que descobrem todo um mundo de possibilidades, mas, como efeito colateral, conduzem ao isolamento e afastam a infância do convívio coletivo. 

Essa desconexão social ganha contornos dramáticos no cotidiano da pequena Bonnie, a menina que herdou o antigo grupo de brinquedos de Andy. Diante da dificuldade da filha em interagir com outras crianças no mundo real, os pais decidem presenteá-la com o ‘Lilypad’, um tablet de última geração projetado especificamente para o público infantil. A sedução da tela é imediata, e o quarto, antes um espaço de narrativas lúdicas guiadas pela imaginação, transforma-se em um ambiente destituído de criatividade. É sob o comando da caubói Jessie, agora líder do grupo na ausência temporária de Woody, que os velhos companheiros de jornada percebem o tamanho do desafio. A dinâmica clássica da franquia, caracterizada por aventuras de resgate ou fuga de perigos externos, é profundamente ressignificada. A missão da turma passa a ser uma disputa existencial pela atenção e pelo afeto da própria dona, forçando os brinquedos analógicos a reivindicar novamente seu espaço de direito. O inimigo a ser vencido é a lógica fria do algoritmo digital, em um esforço para devolver à infância o valor daquilo que é palpável e compartilhado.

A crítica de Toy Story 5 ao uso massivo e precoce das telas digitais por crianças em fase de alfabetização tem um endereço certo: os pais. Afinal, a introdução do dispositivo muitas vezes mascara o desejo dos adultos por conveniência, transformando a tecnologia em uma espécie de babá eletrônica de luxo. Em vez de mediar o ócio ou incentivar o tédio criativo, essa inserção antecipada ao universo digital na verdade está afastando os pequenos do exercício coletivo da interação com seus amigos, fundamental para o desenvolvimento social. Nesse ponto, o filme adentra um terreno curiosamente ambíguo: ao criticar com severidade a dependência desses gadgets, a Disney assume uma postura quase autofágica. Afinal, a própria corporação é uma das grandes beneficiárias desse ecossistema digital, lucrando massivamente com o consumo de seus conteúdos em telas cada vez mais onipresentes na rotina de todos. A busca por uma solução conciliadora nessa convivência entre o analógico e o digital é, no entanto, o que atenua o peso da crítica no desfecho da trama, sugerindo que o equilíbrio — e não a exclusão — é o caminho possível.

Mas que o espectador não se engane pelo peso desta crítica que o filme propõe em seu enredo. Não devemos nunca perder de vista que se trata, acima de tudo, de uma animação, fundamentalmente dirigida às crianças, e é com elas que deve dialogar e entreter em prioridade. Neste aspecto, Toy Story 5 cumpre esta tarefa com gosto e criatividade. A fórmula infalível da dobradinha Disney/Pixar deu certo mais uma vez, e funciona com todo tipo de público: tanto com os fãs nostálgicos dos primeiros filmes quanto com as crianças que estão conhecendo agora esta série dos bonecos animados mais divertidos do cinema. A propósito, os efeitos da passagem do tempo não deixam de ser reconhecidos pela própria franquia. O roteiro assume um flerte bem-humorado com o etarismo quando Woody retorna para o terceiro ato. Em passagens que servem como um ótimo alívio cômico antes do clímax, os velhos companheiros não hesitam em "pegar no pé" do líder veterano, ironizando os inevitáveis sinais da idade e até um início de calvície no caubói de pano que sempre foi vaidoso. No fim das contas, Toy Story 5 prova que, mesmo com algumas linhas de expressão a mais, a franquia não perdeu um único fio do seu carisma original.

Assista ao trailer: Toy Story 5


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Olhe o Mar: em busca do tempo perdido

 

As relações familiares, um tanto fragilizadas nos tempos atuais e reconfiguradas em outras dinâmicas sociais, fazem o pano de fundo da comédia dramática francesa Olhe o Mar (Regarde, 2025), dirigida por Emmanuel Poulain-Arnaud. A obra se debruça sobre a complexidade desses novos arranjos, onde o distanciamento cotidiano e as marcas do passado muitas vezes parecem não deixar espaço para o afeto. Sob essa perspectiva, o diretor propõe uma reflexão sobre a urgência do compartilhamento do tempo, investigando como o isolamento individualista da modernidade pode ser rompido quando os indivíduos são forçados a encarar situações-limite sobre as quais não têm nenhum controle.

Os personagens centrais, no caso um núcleo familiar formado por pai, mãe e filho, vivem exatamente essa realidade ao se depararem com um fato irreversível que altera profundamente o futuro de todos. Nos primeiros minutos de Olhe o Mar, já ficam estabelecidos os perfis de cada um. O espectador logo descobre que os pais são separados. A mãe, Chris, vivida por Audrey Fleurot, é impulsiva; o pai, Antoine, interpretado por Dany Boon, é centrado e focado no trabalho; e o filho, Milo, papel de Ewan Bourdelles, um jovem de 16 anos, está claramente em busca de atenção. Essa dinâmica se estabelece da maneira usual encontrada em inúmeros casais que compartilham a guarda e os cuidados de filhos menores de idade. Há também, implícito, o desejo dos pais em construir novos caminhos afetivos, visto que a mãe namora um homem mais jovem e o pai convive com uma noiva com a qual está prestes a se casar.

Nesta atmosfera de aparente normalidade, surge uma grave situação de saúde que coloca em xeque as relações familiares. Milo é portador de uma doença degenerativa incurável que causará a perda total de sua visão em pouco tempo. A revelação se mostra devastadora para todos, especialmente porque o jovem atravessa a fase complexa da adolescência, marcada pela busca por autonomia e espaço. O diagnóstico reescreve o destino de cada um deles, que agora precisam buscar forças internas para restabelecer conexões afetivas até então negligenciadas. A saída para acelerar esse processo de reaproximação e recuperar o tempo perdido surge na decisão impulsiva de viajarem todos juntos, durante as férias do garoto, para visitar o avô, que vive à beira-mar. Naquele espaço, distantes do ambiente doméstico, eles encontram a oportunidade para uma reconciliação emocional, ao mesmo tempo em que constroem memórias afetivas e visuais antes que a doença se manifeste totalmente.

É a partir desse cenário que, por razões intimamente distintas, cada um deles busca respostas próprias para empreender a jornada. Os pais, assombrados pelo sentimento de culpa devido à natureza hereditária da doença de Milo, assumem a viagem como um pedido de desculpas silencioso ao jovem, aceitando uma trégua mútua pelas mágoas passadas do casal. O garoto, por sua vez, tenta exercer ao máximo sua independência. Ele vê no passeio em família junto ao mar não apenas a última oportunidade para praticar mais algumas horas de surfe, mas também a chance de reencontrar uma antiga paixão juvenil nunca concretizada.

O realizador Emmanuel Poulain-Arnaud (também autor do roteiro) conduz a trama com sensibilidade e empatia por seus personagens. A direção, sempre leve e de modo geral num clima de alto astral, não pesa a mão na potencial carga dramática da história. A opção foi justamente pelo registro oposto, tornando sutil a abordagem de uma situação que teria todos os elementos para levar a plateia às lágrimas fáceis. Nesse sentido, nada é mais explícito do que a maneira descontraída e desencanada com que os amigos de Milo tratam a situação. Para eles, não há drama, apenas fatos da vida.

Olhe o Mar é aquele tipo de filme em que antecipamos sem muita dificuldade todos os passos do desenrolar da história. Nossa intuição já aponta os caminhos que a trama assume, sem muitas surpresas ou grandes reviravoltas. No entanto, isso não elimina o prazer de assisti-lo com atenção e interesse. A previsibilidade reconfortante faz parte da experiência, na qual nos deixamos conduzir sem grandes sobressaltos. Afinal, há momentos em que o cinema não precisa necessariamente se reinventar ou sequer surpreender, bastando apenas nos acolher com uma narrativa sincera e humanizada.

Assista ao trailer: Olhe o Mar


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Dia D: o dia em que a Terra mudou

 

Uma ótima notícia. O bom e velho Steven Spielberg de guerra está de volta, em excelente forma. Esse retorno também pode ser avaliado como uma retomada de suas origens como cineasta. Cinco décadas depois do monumental Contatos Imediatos do Terceiro Grau (que cresce a cada revisão), o diretor revisita o tema da existência de vida extraterrestre. A bem da verdade, a presença alienígena é um assunto recorrente na sua filmografia, surgido já em seus primeiros curtas-metragens caseiros, como Firelight (1964), e que prosseguiu em longas como E.T. – O Extraterrestre, A.I. – Inteligência Artificial e Guerra dos Mundos, além de inúmeras outras produções em que atuou apenas como produtor.

O lançamento de Dia D (Disclosure Day) marca mais um capítulo dessa saga pessoal de Spielberg, consolidando a exploração de um tema que fascina o realizador desde a juventude. Mais do que uma simples escolha de gênero, a busca pelo desconhecido e pelo cósmico se reflete na tela como um elemento central de sua própria identidade artística. Se o episódio histórico do Dia D na Segunda Guerra Mundial já foi retratado pelo diretor no clássico O Resgate do Soldado Ryan, momento em que o curso da história foi alterado para sempre, agora, em termos ficcionais, Spielberg projeta na tela um outro Dia D, articulando o potencial impacto de transformação da humanidade pela revelação da existência de seres de outros mundos que nos visitam desde sempre.


Houve uma coincidência histórica (intencional ou não, vai saber) no fato de o lançamento desse épico de ficção científica se dar justamente no momento em que o governo dos EUA libera uma série de vídeos sigilosos que registram fenômenos e supostas aparições de naves de origem desconhecida. Segredos revelados, a propósito, formam a base sobre a qual se constitui esse Dia D, que, na tradução literal do título, se refere ao dia da revelação.

Na abertura, Spielberg já diz a que veio. O filme inicia acelerado e tenso, mostrando uma operação da agência secreta do governo norte-americano, dirigida por Noah Scalon (Colin Firth), responsável por acobertar evidências de vida extraterrestre. O alvo da investida é o ex-funcionário Daniel Kellner (Josh O’Connor), acusado de roubar registros sigilosos que comprovam que há décadas somos visitados por seres de outros planetas. Em paralelo, o outro eixo narrativo da história acompanha a apresentadora de TV Margaret Fairchild (Emily Blunt, excelente), que, durante um boletim meteorológico ao vivo, começa a agir estranhamente ao emitir sons guturais, os quais, logo descobrimos, pertencem à linguagem dos alienígenas.


O filme antecipa com habilidade um momento bastante crível em um futuro incerto: aquele em que descobriremos que não estamos sós no universo. Sem dúvida, caso isso se confirme, estaremos diante de um irreversível ponto de inflexão para a humanidade, que será impactada por profundas transformações. Spielberg trata deste assunto com a devida reverência sem, no entanto, perder o sentido de espetáculo, transformando Dia D em uma obra grandiosa e ambiciosa, com amplo espectro temático. Ao mesmo tempo que discute o acobertamento governamental de assuntos delicados, o diretor reconhece que esses temas são capazes de subverter a ordem pública, reordenar a geopolítica e ressignificar as religiões. 

Fábulas infantis sempre foram inspirações seminais para Spielberg. Lembremos as citações de Peter Pan em E.T. e Hook, e também a fada em A.I. – Inteligência Artificial, apenas para citar algumas. Em Dia D também há menção às histórias infantis. No caso, a referência é ‘João e Maria’, que simbolicamente traz uma alegoria da dupla (no filme, Daniel e Margaret) que se perde na floresta e descobre, com inteligência, o caminho de volta para casa com um tesouro como recompensa. No longa, essa recompensa atende pelo nome de Verdade.


Em 1938, Orson Welles colocou em pânico os ouvintes de rádio nos Estados Unidos ao narrar uma suposta invasão da Terra por naves espaciais, inspirado na obra ‘A Guerra dos Mundos’, de H. G. Wells. Uma experiência fantasiosa que chocou a população da época. Em escala globalizada e potencializada, é isso que a ficção de Dia D propõe. Com as facilidades que a tecnologia atual permite, ao toque de um botão uma mesma informação pode ser transmitida simultaneamente para todo o mundo. É justamente nessa dinâmica que reside um dos grandes acertos do filme, apresentado como uma sequência final de alto impacto emocional, magistralmente dirigida por Spielberg.


Como thriller de conspiração, Dia D é uma experiência emocionante, que apresenta uma ampla gama de temas e provoca diferentes sensações. Há mistério, intriga, perseguição de carros, suspense, ficção científica e encantamento. O longa traz a marca indelével dos melhores momentos do realizador ao entregar para a audiência uma narrativa plena de otimismo, magia e esperança. Steven Spielberg segue como um cineasta cheio de ideias, motivado pela imaginação e pela curiosidade. Ainda é possível vislumbrar um jovem maravilhado com o cinema habitando seu corpo de quase 80 anos. Tudo isso está presente em Dia D, uma obra que resgata e consolida o talento de um realizador que reafirma seu legado como ícone vivo do cinema moderno.

Assista ao trailer: Dia D


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 9 de junho de 2026

O Afinador: a arte do crime

 

O famoso ditado popular "a ocasião faz o ladrão" sugere que, diante de condições favoráveis ou de uma avaliação moralmente flexível, pessoas comuns, até então distantes do delito, podem sucumbir à tentação. É precisamente nessa zona cinzenta da moralidade que se move o protagonista do longa-metragem O Afinador (Tuner), dirigido por Daniel Roher, cineasta canadense vencedor do Oscar pelo documentário Navalny.

O personagem-título, Niki (Leo Woodall, visto recentemente em Nuremberg e integrante do elenco da série The White Lotus), é um talentoso afinador de pianos que trabalha junto com seu mentor e eventual cupido, Harry Horowitz (Dustin Hoffman, em participação luxuosa), atendendo à clientela de alto padrão em Nova York. Graças a uma condição especial de sua audição — o ouvido absoluto —, Niki acaba descobrindo por acaso que seu talento pode ser utilizado também para atividades menos nobres. Sua capacidade aguçada de percepção sonora permite que ele se dê bem desvendando o segredo de cofres apenas com sua sensibilidade tátil e auditiva. Esses talentos secretos despertam a atenção de uma gangue de assaltantes, que passa a utilizá-lo como uma “arma infalível” em seus roubos.

O protagonista justifica intimamente sua adesão ao crime como uma forma de ajudar Harry, debilitado por uma doença e sufocado por dívidas. Estamos, então, diante daquela clássica situação em que, pelas razões corretas, alguém faz a coisa errada. Niki se conforta moralmente por estar agindo de forma válida e bem-intencionada, ainda que eticamente condenável e criminosa. 

Além do dilema moral, Niki luta contra seus próprios fantasmas internos. Por conta de sua condição peculiar de saúde (a hiperacusia), que exige proteção constante contra os ruídos cotidianos, ele vive uma forma de exclusão social que o afasta do convívio mais íntimo. O protagonista habita, fundamentalmente, uma bolha sonora controlada, utilizando fones de ouvido para abafar o mundo exterior. Essa hipersensibilidade não apenas dificulta seus relacionamentos, mas também sabotou seu grande sonho de seguir carreira como pianista. A vida o empurrou para o papel de técnico de afinação, uma posição invisível em que auxilia outros a praticarem sua arte, em vez de ele próprio ser o artista a executar as composições. Por incentivo do tio, um interesse amoroso eventualmente surge em sua vida quando conhece a também pianista Ruthie (Havana Rose Liu) durante um atendimento em um conservatório.


O desenvolvimento da trama acompanha de perto a degradação moral, os conflitos e as pressões sociais e familiares que levam o habilidoso afinador ao limite. Incapaz de se realizar como artista, após ter a carreira frustrada por limitações que fugiam ao seu controle, Niki encontra nos caminhos tortuosos da criminalidade uma espécie de palco alternativo, onde seu talento finalmente é reconhecido e valorizado. 

O Afinador é o que se poderia chamar de “filme menor”. Não como um juízo de valor sobre suas qualidades, mas em referência às suas condições de produção. Trata-se daquele tipo de obra com baixa taxa de sobrevivência nas salas de shopping, mas que encontra facilmente seu público no streaming. Que não haja engano: este é um longa-metragem que merece atenção e visibilidade, revelando-se muito mais afinado e envolvente do que uma primeira impressão pode sugerir. À sua maneira, é um drama intimista feito à moda antiga, construído com coração, afeto e arte minimalista. Uma composição rara nos tempos atuais, que exigem das plateias adesão total a espetáculos hipertrofiados de som, luzes e ação vertiginosa. Em contraposição a esse excesso, o filme nos oferece a beleza serena de notas musicais bem afinadas.

Assista ao trailer: O Afinador


Jorge Ghiorzi

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Backrooms – Um Não-Lugar: perdidos no labirinto

Os últimos anos, particularmente após o período da pandemia, têm sido pródigos para o cinema de terror e horror. Tradicionalmente relegados ao segundo plano em termos de prestígio, esses longas-metragens que se propõem a levar sustos às plateias têm recebido cada vez mais atenção do público, garantindo gordas bilheterias que sustentam a manutenção do ciclo. Raras são as semanas nas quais não temos um lançamento do gênero. Sem dúvida, eles são a bola da vez. Uma prova do alcance crescente dos filmes de terror se manifesta pela origem cada vez mais ampla dos argumentos das produções. 

Nos primeiros tempos, os filmes do gênero eram inspirados pela literatura, como o ciclo de monstros da Universal nas décadas de 1930 e 1940 (Frankenstein, Drácula, O Lobisomem). Depois, o modelo de representação foi influenciado por fatos reais, casos escabrosos e violência explícita, a exemplo de Psicose e dos assassinos em série em geral. Para os tempos mais recentes, essencialmente neste século XXI, uma das fontes de inspiração tem sido os fenômenos virais gerados pelo YouTube e pelas redes sociais. Para comprovar essa força recente do terror que se alimenta de conteúdos originalmente criados na internet, chega às telas dos cinemas Backrooms – Um Não-Lugar (Backrooms, 2026), dirigido por Kane Parsons.


O filme é baseado na websérie “The Backrooms”, que explora uma lenda urbana digital sobre a existência de uma dimensão paralela, composta por um labirinto infinito de salas vazias com paredes amareladas, carpete úmido e o zumbido incessante de luzes fluorescentes. O acesso a esse espaço alternativo ocorreria por meio de uma "porta" que representa, na verdade, uma falha na realidade. Quem acompanha a série Ruptura (Severance) já está familiarizado com este conceito. O criador desses vídeos é o próprio Kane Parsons, que tinha apenas 16 anos quando iniciou a produção. Os conteúdos viralizaram a ponto de chamar a atenção de grandes produtoras de Hollywood. Assim, com a bênção da produtora A24, Backrooms migrou do ambiente dos smartphones para as telas das salas de cinema. 

Mantendo a essência da websérie, o filme expande o fenômeno da internet ao inserir uma trama que estabelece um contexto narrativo para a exploração daquele perturbador mundo interdimensional. O enredo acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), o proprietário de uma loja de móveis que faz uma descoberta intrigante no subsolo do estabelecimento. Um portal permite que ele acesse outra dimensão, formada apenas por corredores infinitos em ambientes claustrofóbicos, repletos de mobiliário destruído, destroços, perspectivas distorcidas e figuras humanas aterrorizantes. A outra personagem da história é sua terapeuta, a doutora Mary Kline (Renate Reinsve, de Valor Sentimental), que toma conhecimento do fato por meio do relato do próprio paciente em uma das sessões de análise. Após o desaparecimento de Clark, ela assume a missão de resgatá-lo, precisando enfrentar os mistérios e os perigos que habitam esse não-lugar.


A cenografia de Backrooms é o grande trunfo do longa, e talvez seu único e verdadeiro destaque. Os ambientes sufocantes e opressivos, estruturados basicamente em uma paleta de cores de tons amarelo, âmbar e ocre, transmitem com muita eficiência o estranhamento angustiante vivido pelo personagem, pelo qual também somos impactados. Soma-se a isso a quebra das leis da física, na qual conceitos de "cima" e "baixo" deixam de fazer sentido, como se estivéssemos em uma nave espacial, mas sem os efeitos da ausência de gravidade. O problema surge quando o filme tenta arquitetar um enredo interessante para justificar tudo isso. A premissa tem lá seu apelo pela curiosidade que desperta ao abordar realidades paralelas, uma possibilidade, a propósito, prevista pela física na Teoria das Cordas. O ponto aqui é que a trama criada é por demais superficial, um tanto confusa e pouco envolvente. 

Não se trata de exigirmos explicações para tudo o que acontece, mas um mínimo de justificativa e coerência é necessário. E isso é tudo o que não temos aqui. O roteiro, que parece se perder diante das inúmeras possibilidades que promete, por uma analogia involuntária, acaba reproduzindo a trajetória do protagonista: perdido em caminhos infinitos.


A sensação geral que fica é que Backrooms funciona mais pelas partes isoladas do que pelo todo. Os personagens são mal delineados (para dizer o mínimo) e suas motivações são aleatórias e nada convincentes. O incômodo geral, ou melhor, a insatisfação do espectador, não se dá apenas pela ausência de explicações. Elas não são necessariamente essenciais em filmes que se propõem a trabalhar com enigmas e mistérios. A questão aqui é que, em dado momento, o filme se dispõe a dar algumas respostas. Pois então, o melhor seria não tê-las dado para a audiência, pois recorrem ao mais ordinário clichê, além de serem na verdade uma meia explicação. Ficaríamos melhor sem essa tentativa de explicação. O filme dá pistas de que há ali uma história a ser contada sobre o passado dos personagens (particularmente da terapeuta), mas o roteiro não dá conta. A opção é repetir-se, minutos e mais minutos intermináveis, por passeios naqueles corredores desolados e assustadores. Por essas e outras, Backrooms – Um Não-Lugar não passa de uma versão estendida dos microepisódios da websérie que fez sucesso na internet. Na verdade, este é um não-filme.

Assista ao trailer: Backrooms – Um Não-Lugar


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 26 de maio de 2026

Natal Amargo: os labirintos da criação

 

Na abertura, observamos no canto da tela o cursor de um editor de texto pulsando, à espera da próxima palavra a ser redigida. Está dado o início a mais uma obra de Pedro Almodóvar, com os créditos embalados pela bela trilha sonora de Alberto Iglesias, que traz ecos das composições de Bernard Herrmann para os filmes de Alfred Hitchcock. Uma sensação de expectativa e suspense moderado nos invade, parte pelo clima da trilha, parte pela constatação de que seremos testemunhas da gênese da criação artística de um filme compartilhada sem pudor. Estamos diante de Natal Amargo (Amarga Navidad), mais recente longa-metragem do realizador espanhol.

O enredo acompanha duas histórias paralelas. Na primeira delas, conhecemos Elsa, vivida por Bárbara Lennie, uma diretora de publicidade que sofre um ataque de pânico após a morte de sua mãe e viaja para a ilha de Lanzarote com sua amiga, Patricia. Na segunda narrativa, o diretor de cinema Raúl, interpretado por Leonardo Sbaraglia, tenta superar um bloqueio criativo e decide transformar os dramas de seus amigos próximos em matéria-prima para a ficção do roteiro que está escrevendo. As duas tramas se entrelaçam e evoluem em paralelo, criando conexões e espelhamentos fascinantes.

A estrutura de Natal Amargo opera em dois universos paralelos bem delineados por Almodóvar. Um deles reside na experiência da escrita, no desenvolvimento de um roteiro em construção. A outra camada, por sua vez, é a representação visual desse projeto ainda incompleto, limitando-se a reproduzir cenas e diálogos em pleno processo de criação. No entanto, há um terceiro nível no qual o espectador é convocado a preencher imageticamente essa lacuna, que se traduz na experiência viva da própria obra que se desenrola diante de nossos olhos, gerada pela fusão entre o texto literário e sua materialização cênica.

Neste exercício de metacinema, Natal Amargo é uma obra aberta, onde o filme assistido em tela não passa de um rascunho de um projeto futuro. Ao deixar as costuras do processo criativo expostas, Almodóvar abdica do controle absoluto e convida o público a atuar como coautor, completando mentalmente as lacunas de uma narrativa que se recusa a entregar respostas prontas.

À sua maneira, Pedro Almodóvar faz de Natal Amargo uma espécie de 8 ½ para chamar de seu. Assim como o italiano Federico Fellini, o diretor espanhol discute nesta autoficção os impasses que acompanham o ato de criar, aprisionando seu alter ego em um verdadeiro labirinto criativo que transita entre a realidade e a imaginação. Aqui, a base de inspiração do realizador protagonista são pessoas de seu convívio, emuladas como figuras fictícias de uma versão alternativa e idealizada de vivências particulares, o que abre margem, na própria encenação, para uma discussão sobre a ética de expor publicamente episódios da intimidade privada.

Na condição de modelo inspirador para o roteirista criativamente frustrado da ficção, Almodóvar se mostra um artista que não consegue evitar a busca de referências em sua própria vida. Ele vampiriza tanto as vivências alheias quanto suas próprias memórias pessoais em um ciclo perpétuo de experiências que se retroalimentam, razão pela qual este manifesto se torna uma confissão de culpa do cineasta.

A trama desenvolvida pelo roteirista resgata certos elementos fundamentais de O Quarto ao Lado, obra anterior do cineasta. Reencontramos duas amigas íntimas isoladas em uma casa distante, partilhando confidências e memórias sob a forte sombra da finitude e da morte. Esse cenário sugere que a centelha criativa para Natal Amargo pode ter sido, em grande medida, gestada durante a produção daquele filme de 2024.

Fiel à própria tradição, Pedro Almodóvar assume mais uma vez a vertente melodramática, território onde seu coração sempre bate mais forte. Dentro de sua extensa filmografia, no entanto, Natal Amargo surge como uma obra de transição e balanço. O caráter revisional e, em certo nível, confessional revela um realizador à beira de um ataque de angústia criativa. Trata-se de um projeto que expõe explicitamente o conflito íntimo do criador, assombrado por fantasmas do passado e tensionado pelas expectativas do futuro. Seria o esgotamento da fórmula do diretor? Não há como saber, mas o próprio cineasta dá sinais de que algo o incomoda nesse aspecto, incômodo que ele não faz questão de esconder.

O filme brinca com nossas expectativas voyeurísticas ao transformar vidas reais em matéria-prima para existências ficcionais, em um eco perfeito da realidade digital que se multiplica nas redes sociais. A sina das histórias criadas pelos roteiristas e, em sentido mais amplo, da própria vida em si, é a mesma, pois sabemos como começam, temos alguma ideia de como se desenvolvem, mas não temos controle absoluto sobre o final, que se autoimpõe seguindo as regras próprias do imponderável. Assim é o filme, e assim é no filme dentro do filme.

Natal Amargo traz uma narrativa simultaneamente complexa na profundidade e simples na superfície. Seja qual for o aspecto destacado, a certeza que fica é a de estarmos diante de uma produção superior. Não é o melhor Almodóvar, mas ainda assim é um Almodóvar que segue surpreendendo, instigando, provocando e merece nossa mais dedicada atenção.

Assista ao trailer: Natal Amargo


Jorge Ghiorzi

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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Obsessão: desejo perigoso

Desejar ardentemente algo costuma ocultar um alerta raramente percebido com clareza. Como cada escolha determina uma renúncia, o desejo nem sempre se revela compensador, pois a concretização de um anseio intenso pode desencadear consequências imprevistas e negativas. O drama vivido pelo protagonista de Obsessão, dirigido por Curry Barker, ilustra precisamente o perigo de desejar algo obsessivamente sem medir os riscos caso a realidade saia do controle. De modo geral, o gênero de horror não é um espaço para grandes inovações, apresentando usualmente um modelo de reprodução massivo com poucas variáveis. No entanto, este longa ousa quebrar tais regras ao injetar criatividade sem incorporar os clichês recorrentes das produções contemporâneas. 

A trama apresenta Bear (Michael Johnston), um jovem retraído que esconde uma paixão avassaladora por Nikki (Inde Navarrette), sua colega de trabalho. Incapaz de declarar seus sentimentos, ele encontra uma solução inesperada no One Wish Willow, um artefato sobrenatural que promete realizar um único desejo. O artifício utilizado para nos inserir no absurdo da situação possui uma simplicidade acachapante, mas acreditamos na premissa porque o truque funciona como um passe de mágica tanto no protagonista quanto em nós, espectadores. Isso se deve à inteligência com que Curry Barker conduz sua narrativa, que nunca oferece aos seus personagens uma saída fácil para uma situação que se torna cada vez mais diabólica.


Ao ter seu desejo atendido Bear percebe que o preço por manipular o livre-arbítrio é muito mais alto e sombrio do que o esperado. A partir desse ponto, ao ser afetada pela magia do artefato, a personagem de Nikki passa a agir de maneira errática, embaralhando seus sentimentos ao mesmo tempo em que sua relação com o colega de trabalho se torna verdadeiramente perturbadora. O filme gera um desconforto latente desde os primeiros instantes em um crescendo que se transforma em uma inquietação insuportável. Existe na obra um recurso perspicaz que pode passar despercebido. Contrariando a maioria dos filmes de horror que são focados na perspectiva da vítima, a narrativa aqui nos imerge no olhar de quem efetivamente causou o caos. A ação é conduzida a partir do ponto de vista do incrédulo Bear, que se vê simultaneamente como culpado e vítima da própria maldição.


Essa escolha coloca Obsessão em um patamar de complexidade superior ao que sua premissa minimalista sugere inicialmente. Genuinamente tenso, o longa sustenta um clima sufocante por dois terços da trama sem recorrer a uma única gota de sangue ou efeitos especiais excessivos. A obra revela-se exemplar ao segurar a explosão catártica para o terceiro ato, apresentando um desfecho ancorado em um roteiro construído com engenhosidade dramática. O final resolve o destino dos protagonistas de maneira coerente e surpreendente, fugindo das simplificações que costumam enfraquecer as resoluções do gênero.


O realizador Curry Barker confirma seu posto como o novo talento do horror em Hollywood por meio dessa precisão narrativa. Uma prova de sua rápida ascensão é a recente parceria com a produtora A24, pela qual deve comandar um projeto que se propõe a reimaginar a atmosfera visceral de O Massacre da Serra Elétrica sob uma nova perspectiva autoral. Com este trabalho, Barker consolida sua capacidade de transformar anseios simples em pesadelos psicológicos profundos e inevitáveis.

Assista ao trailer: Obsessão


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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