domingo, 25 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 11

Uma sessão dupla com muita História para contar. O mesmo cinema que viajou um século para o passado para emocionar, é aquele que recua meio século para lembrar.


AURORA – Direção: F. W. Murnau

Produção vi. ​Uma sessão de cinema muito especial nos transportou para o passado. Retornamos um século, quando as películas de celulóide eram projetadas em enormes telas brancas. Sem som, mas nunca silenciosas, pois a música de acompanhamento era executada ao vivo para pontuar a ação na tela. Esta foi a experiência reproduzida nesta exibição especial, que celebrou a magia do cinema em seu esplendor com uma das maiores obras-primas da história.

​A cópia restaurada em 4K de Aurora (1927), dirigido pelo alemão F. W. Murnau, foi exibida com a apresentação ao vivo de uma nova trilha sonora composta por Timothy Brock e executada pela Orquestra Jazz Sinfônica.

​Aurora (Sunrise) é a primeira produção hollywoodiana de Murnau, diretor de outra obra-prima do cinema mundial, Nosferatu (1922). A história é simples: uma mulher da cidade grande (Margaret Livingston) vai passar férias no interior, onde conhece um fazendeiro (George O’Brien). Ela tenta convencê-lo a matar sua esposa (Janet Gaynor) para que possam viver juntos. O cineasta usa habilmente a emoção e o talento dos atores para tratar de culpa e perdão.

​Murnau ganhou um orçamento generoso de William Fox, fundador da Fox Film Corporation, para realizar um filme de prestígio para o estúdio, que era mais conhecido por produções populares. Aurora não foi um sucesso de bilheteria, mas entrou para a história do cinema devido às suas qualidades artísticas, ao uso da emoção e às inovações técnicas. O longa avançou a linguagem cinematográfica e influenciou diretores como John Ford, Howard Hawks e Raoul Walsh, mudando a cara de Hollywood para sempre. Na primeira cerimônia do Oscar, em 1929, levou três estatuetas: melhor direção de fotografia (Charles Rosher e Karl Struss), melhor atriz (Janet Gaynor) e o prêmio de melhor produção artística e única, uma categoria especial que nunca mais foi repetida pela Academia.

​Em seu lançamento nos Estados Unidos, Aurora foi exibido em duas versões: a muda, com formato 4:3, e a sonorizada pelo processo Movietone, com proporção 1.19:1 e trilha e efeitos de som sincronizados, mas sem diálogos. O filme foi um dos últimos da era muda e um dos primeiros da era sonora, sendo lançado quase simultaneamente a O Cantor de Jazz, da Warner, que entrou para a história como o primeiro longa com diálogos sincronizados, transformando o cinema mundial.

​Em 1937, o negativo original de Aurora foi destruído em um incêndio na Fox. O filme só sobreviveu graças a cópias armazenadas em vários lugares do mundo. Para a cuidadosa restauração em 4K, a San Francisco Film Preserve liderou o projeto em conjunto com outras instituições de peso, como o BFI National Archive, o The Museum of Modern Art, a Cinémathèque Royale de Belgique e o George Eastman Museum.

​Assistir a essa joia restaurada nos lembra que a força do cinema mudo permanece atemporal, provando que as imagens em movimento continuam pulsando com a mesma intensidade de um século atrás.

RETORNO À BUENOS AIRES – Direção: Marco Bechis

​​​Ambientada nos dias atuais e pontuado por frequentes flashbacks, esta coprodução da Argentina, Brasil e Itália acompanha a trajetória de um médico italiano envolvido na resistência argentina durante a década de 1970. Ele retorna a Buenos Aires a contragosto para depor sobre o período em que passou preso e torturado pelo regime militar. O protagonista, Mariano, é um homem psicologicamente devastado, profundamente atormentado pela culpa do sobrevivente e pelas cicatrizes físicas e emocionais que carregou por toda a vida.

​A narrativa se desenrola em uma alternância constante entre passado e presente, acompanhando as revelações do julgamento e o estado cada vez mais tenso do ex-prisioneiro. Para quem acompanha o cinema do diretor Marco Bechis, a obra funciona, na prática, como uma continuação de seu clássico Garage Olimpo, lançado em 1999, retomando o horror daquele centro clandestino de detenção que funcionava em uma antiga garagem da capital argentina. Há, ainda, uma forte marca biográfica na condução da história, considerando que o próprio cineasta foi sequestrado e preso em 1977 na Argentina, antes de ser exilado na Itália.

Um detalhe curioso de interesse para o público porto-alegrense é que parte das gravações foi realizada na capital gaúcha. Além de vantagens logísticas e de custos para a coprodução, a semelhança arquitetônica e urbanística de Porto Alegre serviu estrategicamente como cenário para representar Buenos Aires.

​Apesar de lidar com um tema tão pesado e de o diretor ser uma testemunha real dos fatos retratados, a condução de Marco Bechis é particularmente sóbria e contida. O filme tenta lidar com o trauma e a culpa da sobrevivência evitando julgamentos simplistas, preferindo expor os fatos sem apontar dedos ou recorrer a excessos dramáticos. No entanto, essa contenção gera um efeito curioso no desfecho. Quando a trama finalmente se transforma em um filme de tribunal, parece faltar o grande momento de catarse para Mariano, mesmo após a libertação trazida pelo ato de revelar publicamente todo o horror sofrido. Mesmo com estas ressalvas, a urgência temática e política garante a relevância da produção, lembrando que olhar para esse período doloroso da história da América Latina continua sendo um exercício essencial.

Jorge Ghiorzi


sábado, 24 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 10

Hoje foi dia de um filme georgiano na tela do cinema e cem filmes brasileiros nas páginas de um livro.

PAPEL COADJUVANTE – Direção: Ana Urushadze


Produção vinda da Geórgia, este longa retrata a odisseia particular de um ator à procura de si próprio. A história acompanha Niaz, um astro de cinema muito famoso no passado que, após fazer um teste com uma jovem diretora, entra em crise pessoal e embarca em uma trajetória profunda de reflexão. Acostumado a interpretar apenas protagonistas charmosos e heroicos, ele se sente profundamente insultado ao receber a oferta de um papel menor, de coadjuvante. No entanto, de forma lenta e gradual, ele começa a perceber que aquele papel que desprezou é tudo que ele necessita naquele momento, como se o universo estivesse enviando sinais.


Nesse processo de autoconhecimento, o protagonista vivencia em tempo real o luto pelo fim de sua carreira. Seus dias de glória ficaram irremediavelmente no passado. Se nas telas ele foi uma estrela de primeira grandeza, na vida pessoal não passava de um figurante mal resolvido. O filme Papel Coadjuvante acompanha Niaz enquanto ele vagueia por ruas desertas e por antigos lugares que costumava frequentar, entregando-se a um tom melancólico e marcado por divagações existenciais. Nessa jornada de punição, destruição e tentativa de redenção, Niaz revisita várias pessoas do passado, com destaque para algumas mulheres que deixou pelo caminho e para o necessário acerto de contas com seus próprios fantasmas.


​Apesar de sua duração um pouco excessiva, o filme finalmente encontra seu eixo emocional no sensível e comovente encontro com o filho especial, que o ator havia abandonado quando criança. É uma sequência noturna, sob um céu estrelado, conduzida com diálogos sinceros e momentos genuínos de reconexão entre pai e filho. Ali, Niaz percebe que o grande papel de sua vida sempre esteve bem à sua frente.



Livro 100 FILMES BRASILEIROS ESSENCIAIS


​​​Na sexta-feira (23/10), o Solar Fábio Prado, em São Paulo (SP), foi palco do lançamento do livro “100 Filmes Brasileiros Essenciais”, que chega para atualizar e expandir a primeira versão lançada há dez anos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). O lançamento fez parte da programação oficial da 50ª. Mostra de Cinema de São Paulo.


​A grande novidade desta edição está na sua própria filosofia da obra. Desta vez foi decretado o fim do ranking classificatório. Não há mais a lógica de "melhores filmes”. Nesta releitura, o que guiou a seleção foi o peso histórico e a relevância artística de cada obra para a nossa filmografia, avaliada por critérios como temática, ousadia na abordagem, além de valores sociológicos e etnológicos, dentre outros balizadores.


​Fruto de uma votação democrática entre os críticos associados da Abraccine, o livro também se destaca pela ampla diversidade na linha do tempo dos filmes selecionados. A curadoria fez questão de ampliar o escopo, garantindo um olhar generoso e aprofundado também sobre as produções das primeiras décadas do cinema nacional.


​Do seminal Limite ao sucesso internacional de Agente Secreto, a publicação — realizada pela editora Literíssima em parceria com a Abraccine — mapeia a nossa cinematografia em 100 títulos fundamentais. Mais do que uma mera lista, o volume reúne uma fortuna crítica com resenhas e ensaios dedicados a cada filme, assinados por 100 autores diferentes (entre críticos e especialistas do Brasil e do exterior), costurados por ricos artigos históricos e analíticos.


​Comparar o resultado desta nova relação de filmes com a pioneira pesquisa realizada em 2016 revela muito mais do que o passar dos anos e o amadurecimento dos critérios de seleção. A obra abre portas para novos olhares, vozes plurais e um entendimento renovado da nossa rica e pulsante história no audiovisual.

Jorge Ghiorzi

Recortes da Mostra SP - Dia 9

Três vezes mulher. Uma mulher vivendo a culpa pelo passado nazista, uma mulher compartilhando o mesmo sonho da filha e uma mulher vampira milenar circulando por Viena.


MULHER DESCONHECIDA – Direção: May el-Toukhy


Dirigido por uma cineasta dinamarquesa de ascendência egípcia (conhecida por seu trabalho na série The Crown), este drama histórico conquistou o Leão de Ouro de Melhor Filme e o prêmio Coppa Volpi de Melhor Atriz no Festival de Veneza de 2026. A obra mergulha em um período delicado da história europeia sob uma perspectiva humana, crua e incômoda.


​Na Dinamarca do pós-Segunda Guerra Mundial, a empregada doméstica Marie (Mathilde Arcel) trabalha na residência de um rico empresário viúvo. Após envolver-se romanticamente com o patrão, ela está prestes a se casar com ele, vislumbrando a chance perfeita de ascensão social e de deixar uma vida de dificuldades para trás. No entanto, seus planos desabam quando segredos de seu passado nazista ameaçam vir à tona. Atormentada pelo medo da revelação, Marie desenvolve um forte sentimento materno em relação à filha do empresário, tentando de alguma forma ocupar o lugar da esposa falecida, ao mesmo tempo em que mergulha em uma perigosa espiral de mentiras e atos desesperados para esconder sua verdadeira identidade.


​Conforme o cerco social e psicológico se fecha, a busca de Marie pela sobrevivência a conduz por um caminho sem volta de medidas extremas. O roteiro aproveita essa trajetória para abordar temas pesados, como a violência contra o corpo feminino, a vergonha e o trauma. O longa evidencia o cruel duplo julgamento sofrido por algumas mulheres daquele período: elas foram duplamente condenadas, primeiro ao serem submetidas a relações sexuais não consentidas durante a ocupação e, em seguida, estigmatizadas, punidas publicamente e encarceradas quando esses envolvimentos vem à tona.


​Para traduzir visualmente esse conflito, a diretora aposta em um simbolismo bastante ostensivo. O vermelho da suástica pintada na fachada do prédio da família se conecta diretamente ao tom vermelho do vestido de Marie no momento máximo de sua celebração, a consagração de sua inserção na elite de Copenhague. Mais do que um mero recurso estético, a cor funciona como um elemento vivo da jornada psicológica da protagonista, representando o passado implacável do qual ela jamais consegue se libertar de verdade.


​Assim, May el-Toukhy sintetiza na figura de Marie a complexa narrativa da colaboracionismo sob o regime nazista, retratando como esta cicatriz moral marcou a vida de centenas de mulheres na Europa do pós-guerra. A grande questão que o filme levanta reside justamente na ambiguidade moral da sobrevivência. A noiva vestida de branco foi perdoada ou apenas submetida às regras do jogo? O final conciliatório serve como um espelho revelador das aparências de uma classe dominante que sempre permanece protegida e no poder, independentemente de quem vença os conflitos da história.



TALISMÃ – Direção: Thais Fujinaga


Premiado como Melhor Direção no Festival do Rio 2026, Talismã surge como um sensível e delicado retrato das pressões do mundo moderno, particularmente junto às crianças. Dirigido por Thais Fujinaga e com roteiro assinado pela própria diretora em parceria com a atriz Fernanda Chicolet, o longa aborda a influência da mídia e os efeitos da exposição pública no universo infantil.


​A trama acompanha Tereza (Fernanda Chicolet), uma mãe solo que vive no Rio Grande do Sul e se divide entre dar aulas de dança e cuidar da filha, Pina (Sophia Fuggacy). A rotina da família, que conta apenas com a ajuda do avô (Stepan Nercessian), ganha novos contornos quando a menina entra em um reality show de talentos mirins. Disposta a viajar para disputar a grande final no Rio de Janeiro, Pina é seduzida por uma engrenagem que expõe diretamente a adultização precoce, um fenômeno em que crianças são estimuladas a adotar comportamentos adultos em busca de engajamento nas redes sociais e de apelo de audiência.


​O roteiro observa como o estilo de vida contemporâneo impõe a lógica de que apenas a existência validada e admirada nas telas merece ser vivida, o que se torna particularmente danoso para a formação das crianças. Ao mesmo tempo, o filme escancara os mecanismos de manipulação e exposição que sustentam os programas de auditório e espetáculos televisivos.


​Apesar de lidar com uma questão social espinhosa na educação infantil, a temática é tratada em Talismã com uma apropriada singeleza. Os conflitos não carregam o peso dramático que o tema poderia sugerir, pois a proposta da diretora Thais Fujinaga não é sufocar o espectador com tragédias sociais. O objetivo é suavizar a discussão, usando-a como o motor da história sem transformar o filme em um fardo pesado, garantindo que ele consiga dialogar de forma leve com o público.


​Grande parte dessa leveza e força narrativa vem de sua jovem estrela. A garota Sophia Fuggacy, intérprete de Pina, é uma verdadeira explosão de talento e espontaneidade. Ela carrega com muita graça um papel bastante exigente para a sua idade, e os melhores momentos da história acontecem justamente quando ela divide a cena com Fernanda Chicolet, cuja química em tela sustenta o coração emocional da obra.


Ao equilibrar crítica social, afeto familiar e a lucidez de olhar para o universo infantil sem julgamentos fáceis, Talismã mostra-se divertido, sensível e cumpre sua função como bom entretenimento.



A CONDESSA SANGRENTA – Direção: Ulrike Ottinger

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Um delirante filme de vampiros que acompanha a fictícia célebre nobre húngara e assassina em série Erzsébet Báthory. Na história, após um longo período nas sombras, a implacável condessa (Isabelle Huppert) retorna à Viena moderna ao lado de sua devotada criada e de seu sobrinho, um vampiro vegetariano. O objetivo do grupo é recuperar um livro perigoso que ameaça todo o reino das criaturas da noite. Enquanto deixam um rastro de caos e excentricidades pela cidade, passando por terapeutas, vampirologistas e autoridades policiais que estão à sua caça, o longa mergulha em uma atmosfera de fantasia e humor ácido e debochado.


​O tema do vampirismo já recebeu centenas de abordagens ao longo da história do cinema, mas poucas delas assumem um tom tão abertamente queer quanto esta. O filme funciona como uma comédia excêntrica e peculiar, embora nunca se complete totalmente como humor tradicional. O tom da narrativa é bastante vacilante, girando entre a piada mais óbvia e a sátira erudita, sem conseguir arrancar gargalhadas genuínas do público. Há uma sensação constante de que a proposta soa muito mais divertida na teoria do que na prática.


​Apesar dessas hesitações no ritmo, a obra conta com uma presença magnética em cena. Isabelle Huppert assume o papel principal com a imposição de uma legítima dama do cinema contemporâneo em plena atividade, ancorando com firmeza o tom exótico da produção. Por trás das câmeras está a realizadora Ulrike Ottinger, que aos 83 anos carrega um histórico importante como parte da vanguarda do Novo Cinema Alemão desde os anos 1970. Embora seu nome nunca tenha alcançado grande circulação popular, ela possui um reconhecimento sólido nos circuitos alternativos de cinema de arte. A Condessa Sangrenta foi um projeto de longa gestação, desenvolvido ao longo de mais de duas décadas antes de finalmente chegar às telas.


No entanto, desta vez sua liberdade criativa esbarra em excessos visuais. O filme aposta em tanta informação e exuberância na direção de arte e no figurino que o resultado acaba parecendo afetado demais, perdendo um pouco da força e do significado para a dramaturgia da obra. No geral, o longa sofre com uma trama frágil e simplória, que pouco condiz com a ambição do projeto. Os minutos vão se acumulando sem que aconteça nada realmente substancial, fazendo com que a história fique girando em torno de si mesma ao longo de duas penosas horas de projeção. O resultado é uma experiência visualmente chamativa, mas que tem dificuldades para sustentar seu próprio peso.


Jorge Ghiorzi


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 8

Um passeio cinematográfico pelos Estados Unidos, Japão e Áustria. Sessão tripla reunindo uma comédia pop, uma comédia de terror e um registro biográfico que flerta com a ficção.


I LOVE BOOSTERS – Direção: Boots Riley


Aqui somos apresentados ao universo dos boosters: pessoas especializadas em furtar roupas e acessórios em grandes lojas de luxo para revendê-los em pequenos brechós clandestinos por preços populares. Esta comédia tem direção e o roteiro de Boots Riley, cineasta e músico conhecido por sua visão anticapitalista e por misturar sátira social afiada com elementos surreais. Com essa marca registrada, o longa mergulha fundo nas margens da sociedade de consumo.

 

​Na trama acompanhamos Corvette, vivida por Keke Palmer. Ela é uma estilista frustrada por ter suas criações roubadas pela magnata da moda Christie Smith, interpretada por Demi Moore. Transformada em líder de um grupo de boosters, Corvette direciona sua revolta criativa em um plano de vingança contra a indústria. O que começa como um acerto de contas pessoal rapidamente se transforma em uma sátira social surreal, expondo as engrenagens podres da alta-costura.

 

​Embora a motivação financeira seja o objetivo principal do grupo, a operação caminha lado a lado com um marketing certeiro. Aos olhos do público, as criminosas acabam exercendo um papel quase social, viabilizando o acesso a bens de consumo por valores reduzidos, tal qual um Robin Hood moderno que transforma o furto em benesse. O filme é divertido e surpreendente, muito graças a uma produção com um design incrivelmente criativo, apostando em uma explosão de cores que faz jus a obras de pop-art. Em certos momentos as sequências de ação e humor parecem inspiradas nas animações alucinadas dos desenhos animados do Pernalonga, especialmente quando subvertem abertamente a lógica das leis da física.

 

​Tudo isso ganha força com um elenco afiado, destacando Demi Moore totalmente à vontade no papel de vilã caricata e descontrolada. O roteiro parece ter sido escrito sob forte efeito de substâncias estimulantes, indo do cômico convencional ao mais completo nonsense sem pedir licença. Por trás dessa energia toda, existe uma comédia satírica de conteúdo político revolucionário, que traz uma crítica debochada ao universo da moda e aos seus apelos consumistas.

 

​Nesse sentido, I Love Boosters vai muito além da zoação que produções anteriores, como Zoolander por exemplo, já haviam feito desse mundo fashion movido por vaidade, ostentação e individualismo. A comédia acerta ao ficar neste debate, lembrando a frase da estilista Christie Smith de que “as pessoas não querem arte, querem ser artistas”. Unindo ritmo frenético, inteligência e muito humor ácido, o filme diverte e faz pensar.



ANYMART – Direção: Yusuke Iwasaki


Este filme japonês funciona como uma parábola surreal que transforma uma inocente loja de conveniência em um símbolo da decadência da civilização moderna. O longa obra marca a estreia estreia do cineasta publicitário Yusuke Iwasaki, que conhece bem o tema por ser filho de um antigo dono desse tipo de estabelecimento. AnyMart acompanha o dia a dia de quem trabalha nessas redes, focando nas tensões dos relacionamentos interpessoais e nos bastidores dessas operações.

 

​Na Ásia as lojas de conveniência não são apenas pontos de parada para pequenas compras. Elas funcionam como verdadeiros ecossistemas com vida própria e fazem parte da cultura local. O ponto é que esses espaços frios e impessoais escondem uma realidade dura. O enredo utiliza essas regras rígidas para expor a pressão psicológica que a busca pela perfeição e pela performance absoluta acaba provocando nos funcionários, gerando muita ansiedade e desconforto.

 

​Para contar essa história o filme lança mão de uma mistura peculiar de drama, crítica social, comédia absurda e terror. O tema de fundo aborda os medos relacionados ao trabalho e os sentimentos de impotência e conformismo com os quais as gerações mais jovens são confrontadas ao ingressarem no mercado profissional.

 

​O roteiro discute e critica os processos de automação no mercado de trabalho, focando em tarefas rotineiras e repetitivas que não deixam margem alguma para a humanização. Essa crítica vai muito além das paredes da loja de conveniência, alcançando a sociedade em geral. O filme serve como um contraponto à propaganda sobre a eficiência desses comércios, destacando que aquelas lojas reluzentes, bem abastecidas e com funcionários impecáveis só atingem a perfeição a um custo muito alto na saúde mental das equipes.

 

​Apesar da carga dramática e dos temas pesados, AnyMart mantém sempre um humor afiado. Mesmo quando uma explosão de violência e sangue jorra na tela, o espectador estranhamente continua com um sorriso amargo no rosto.



O HOMEM MAIS SOLITÁRIO DA CIDADE – Direção: Rainer Frimmel e Tizza Covi

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Um longa-metragem que ousa se colocar naquela zona cinzenta que borra os limites entre a ficção e o documentário. Comovente e singelo, o longa é interpretado por não-atores e registra os últimos anos de vida do artista de blues austríaco Alois Koch, conhecido como Al Cook. Aos oitenta anos, ele era amigo pessoal da dupla de realizadores e acabou eternizado nessa obra que mistura registro documental e dramatização.

 

​O filme nos mostra o músico já idoso, como o último morador de um prédio antigo que está prestes a ser demolido. Ele resiste firmemente às propostas para deixar o local, em uma situação que lembra muito àquela vivida pela personagem de Sônia Braga em Aquarius. Cook não pretende sair de lá, onde vive desde que nasceu. O apartamento guarda suas memórias mais caras, seus objetos, uma vasta coleção de recortes sobre Elvis Presley e os discos de jazz e blues que ele continua escutando em um velho toca-discos. Chegado àquela altura da vida, resta apenas um grande sonho que o motiva a seguir adiante: visitar os Estados Unidos, o berço da música que ele tanto ama.

 

​O Homem Mais Solitário da Cidade se revela uma obra profundamente melancólica e sentimental. Trata-se de um retrato humano e minimalista, que observa a rotina do protagonista com um fascínio evidente, celebrando a nostalgia e o apego ao passado. No fundo, Al Cook surge como uma figura excêntrica e anacrônica que parece já não encontrar mais seu lugar no mundo moderno.

 

​O ritmo da narrativa é lento e, à primeira vista, pouca coisa acontece. Ainda assim, aquele relato captura nossa atenção. Acompanhamos com interesse e certo pesar o desenrolar daquela pequena tragédia cotidiana. A história de um homem preso ao passado, deslocado e descartável no avanço do mundo moderno.

 

​Quando o filme termina, as dúvidas permanecem na nossa mente. Tudo o que vimos aconteceu de fato? Os eventos correspondem à realidade legítima da vida de Al Cook, ou há uma camada de fábula construída pelas câmeras? O quanto de fantasia e manipulação foi agregado ao roteiro para intensificar o drama? O grande mérito da obra está justamente em provocar esse estado de incerteza. Ao borrar as fronteiras do real e nos deixar sem respostas definitivas, o filme alcança seu verdadeiro lugar.

Jorge Ghiorzi


quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 7

Sessão dupla com coproduções que trazem a marca existencialista do cinema francês. Um drama feminino com uma personagem à beira do abismo e um drama juvenil com um personagem às portas da prisão.

 

​MAIS UM DIA – Direção: Jeanne Henry

A história acompanha Garance, uma jovem atriz talentosa que lida com a frustração de não ver sua carreira decolar. Enquanto aguarda a grande chance nos palcos, ela se divide entre peças infantis, para pagar as contas, e noitadas longas regadas a muito álcool.

​A vida de Garance é um acúmulo de pressões. Além da carreira estagnada, ela enfrenta a superficialidade dos relacionamentos ao seu redor e, o mais grave, a doença terminal da irmã. É justamente para suportar essa carga que o álcool ganha espaço na sua rotina. O que começa como um refúgio vira um vício pesado, levando a protagonista a um caminho de autodestruição que ameaça sua vida antes mesmo dos quarenta anos. O filme trata o vício sem glamour, mostrando como a fuga pela bebida apenas cria um novo e profundo abismo.

​A instabilidade emocional ganha um breve respiro quando Garance conhece Pauline, uma cenógrafa com quem inicia um romance. Ela surge como um ponto de apoio fundamental na tentativa da atriz de se reerguer. Esse vínculo traz alguma humanidade para a narrativa, embora o filme não tente vender soluções fáceis para feridas tão profundas.

​Em termos de referências, a diretora Jeanne Henry constrói uma obra original que conversa abertamente com o cinema de John Cassavetes, especialmente com Uma Mulher Sob Influência (1974) e Noite de Estreia (1977). A conexão faz todo sentido, já que ambos filmes exploram mulheres vulneráveis à beira do colapso psicológico. Não por acaso, a atriz Adèle Exarchopoulos declarou ter buscado inspiração na entrega física e emocional de Gena Rowlands para compor sua personagem.

​A estrutura Mais Um Dia se divide em duas partes bem marcadas. A projeção começa com a voz em off de Garance fazendo confissões a uma mulher que o espectador nunca chega a ver. Esse recurso serve para introduzir flashbacks na primeira metade da história, explicando a origem das fragilidades da protagonista. Já na segunda parte, a narrativa abandona o passado e se concentra no presente, acompanhando de perto a derrocada psicológica de Garance enquanto ela tenta lutar contra seus próprios demônios.

O ponto que certamente incomoda no conjunto da obra é a sua conclusão acolhedora em excesso. Depois de construir uma trajetória densa, realista e dolorosa sobre o alcoolismo e a luta contra os dilemas internos da personagem, a resolução escolhida pelo roteiro acaba soando otimista demais. É um desfecho que busca o conforto do público, mas que contrasta com a complexidade e a força que o filme vinha mantendo até então.

 

​O CALOR – Direção: Stéphane Demoustier


Esta produção francesa constrói uma narrativa elegante e envolvente, que captura nosso interesse do início ao fim. A história acompanha uma família de origem norte-africana durante as férias de verão em um camping no litoral francês. É naquele cenário ensolarado conhecemos Marouane, o filho mais velho. Ele é um adolescente tímido, inseguro e levemente depressivo, com poucos amigos, que se sente deslocado diante da energia e das festas dos jovens da sua idade.

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A aparente leveza de um drama juvenil, no entanto, sofre uma reviravolta abrupta. Após uma discussão com outro garoto, Marouane se envolve em uma morte acidental. Tomado pelo pânico, ele esconde o corpo e passa as horas seguintes consumido por um sentimento de culpa avassalador e pelo medo constante de ser descoberto, antes que sua família decida ir embora do camping. A partir desse momento, o longa se transforma em uma narrativa tensa que explora com muita sutileza os elementos de um suspense investigativo, no melhor estilo de uma tragédia de uma noite de verão.

 

​O roteiro de O Calor dialoga de forma muito interessante com O Estrangeiro, de Albert Camus. Enquanto na obra literária a vítima do francês Meursault é um árabe, aqui a lógica se inverte: a vítima do jovem de descendência norte-africana é um francês. Há, porém, algumas semelhanças marcantes entre as duas histórias, como a praia servindo de cenário para o crime, o calor sufocante atuando quase como um agente catalisador e a presença de uma paixão amorosa que se fortalece justamente após a tragédia.

 

​Apesar das aproximações, existe uma diferença fundamental entre os universos. O personagem de Camus é famoso pela indiferença e frieza ao cometer um assassinato deliberado. Marouane é exatamente o oposto. Ele é um garoto vulnerável e o ato acidental que comete gera um efeito devastador em seu comportamento e em sua consciência, intensificando o clima de crime e castigo que domina a segunda metade da projeção.

 

​Além da carga dramática e do suspense, o filme encontra espaço para abordar temas profundos sem cair no panfletarismo. A xenofobia atravessa as interações dos personagens, mas raramente se manifesta de forma escancarada ou agressiva. O preconceito se esconde nos pequenos desconfortos do convívio, nos olhares tortos, nos silêncios calculados e nos tratamentos desiguais aplicados a pessoas que, em tese, possuem os mesmos direitos. É justamente essa sutileza que torna a hostilidade tão difícil de combater e confrontar, mas que não a torna menos condenável.

 

​O Calor entrega muito mais do que promete em seus minutos iniciais. Ao unir uma atmosfera sufocante, dilemas morais profundos e um espelhamento literário inteligente, a obra se apresenta como um drama humano inteligente e bem resolvido. A forma como o filme equilibra a delicadeza dos conflitos da adolescência com o peso de um segredo trágico faz dele uma experiência cinematográfica plenamente satisfatória, que permanece na cabeça do espectador depois que as luzes da sala se acendem.

 

Jorge Ghiorzi


terça-feira, 20 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 6

Uma mulher e quatro sementes foram as protagonistas do dia. Todas tentando (re)construir uma existência alternativa em território totalmente desconhecido. Histórias de descobertas e esperança. Neste planeta ou além das estrelas.

 

​ADMIRÁVEL NOVO AMOR – Direção: Maria Bäck

Esta coprodução da Dinamarca, Suécia e Grécia fala essencialmente de escolhas. Explora as formas de desejo e os limites do comportamento de quem ousa sair dos modelos sociais tradicionais. A narrativa é construída integralmente pela ótica feminina.

A história gira em torno de Kate, uma terapeuta que vive com o marido e a filha adolescente e mantém em segredo, há três anos, um caso fora do casamento. A base do filme é o típico romance proibido da infidelidade. O dilema dela é descobrir se é realmente capaz de amar dois homens ao mesmo tempo ou se, no fundo, ama apenas a liberdade que essa condição proporciona. Kate se vê forçada a escolher entre um casamento estável, mas não totalmente satisfatório, e um mergulho mais fundo na relação com um homem que despertou uma paixão que parecia adormecida. Mesmo que não haja sexo entre os amantes.

De início, o filme parece apontar para uma história de amor moderna e liberal. Depois muda o tom e assume um caminho absolutamente convencional, ainda que pretenda demonstrar o tempo todo uma profundidade que não alcança.

Isso fica claro no excesso de referências e sinais espalhados pela narrativa: um balão azul, a banana, o pássaro, o novelo de lã, o cavalo-marinho e até a mitologia grega, já que tudo se passa na Grécia. O espectador percebe esses elementos e fica na expectativa de que, em algum momento, tudo faça sentido em favor da história. Mas isso não acontece. A maior parte deles não passa de pequenos truques narrativos, de pouca ou nenhuma importância efetiva.

O desfecho segue a mesma linha. Há uma certa ambiguidade conformista no final dessa aventura de transformação e descoberta de uma mulher que deseja ir além do papel de mãe e esposa. O filme sugere uma ousadia que, no fim, não sustenta.

 

A ODISSEIA DOS DENTES-DE-LEÃO – Direção: Momoko Seto

Esta animação impressiona de imediato pela qualidade da técnica. Em termos visuais, o filme pouco fica a dever às grandes produções da Pixar ao criar um universo deslumbrante, concebido a partir de diversas técnicas de animação.

 

​O filme acompanha a trajetória de quatro sementes de dente-de-leão que sobrevivem à destruição apocalíptica da Terra (guerra nuclear?) e ficam vagando pelo espaço sideral até encontrarem um novo planeta para viver. Esta é uma história de sobrevivência simples e direta, de fácil compreensão, inclusive pelas crianças. No entanto, os pequenos espectadores talvez não encontrem muitos motivos para se identificarem emocionalmente com as quatro protagonistas. As criaturinhas desta odisseia não são exatamente fofas como aquelas habituais das produções da Disney.

 

​Apesar disso, é surpreendente como coisinhas tão pequenas e frágeis podem ganhar tanta personalidade e protagonismo. Ao assumirem o papel principal, essas sementes conduzem a história com habilidades insuspeitas. Sem emitir um som sequer, e com recursos de movimentação bastante limitados, elas se mostram capazes de expressar uma ampla gama de sentimentos.

 

Em certa medida esta animação se situa no limite entre uma narrativa de ficção e um documentário sobre a natureza. O filme funciona como uma verdadeira aula de vida e de ecologia, que acaba por se converter em uma fábula de forte vocação ecológica. Sob a perspetiva da biodiversidade do planeta ocupado, as sementes são, na verdade, criaturas invasoras. Elas buscam apenas um lar onde possam criar raízes e constituir uma nova vida. Temos diante dos olhos, portanto, uma espécie de diáspora do reino vegetal terrestre.

 

​A cada novo desafio de aniquilamento ou risco de extinção, as sementes resistem com bravura e sagacidade. Elas acumulam conhecimento sobre aquele mundo desconhecido e hostil, tornando-se um exemplo vivo de resiliência. O objetivo é cumprir a missão primordial no ciclo da existência: germinar e gerar novas vidas. Além disso, a obra transmite o conceito da hipótese de Gaia. O filme ilustra com clareza a ideia de que um planeta funciona como um único sistema integrado, onde todos os elementos naturais interagem e se relacionam de forma profunda.

 

A Odisseia dos Dentes-de-leão proporciona momentos genuinamente inspiradores e comoventes, orientados sempre pela bússola firme da esperança. É um filme emocionante e tocante que transforma a fragilidade da natureza em um espetáculo grandioso, inesquecível e esteticamente impecável.

Jorge Ghiorzi


segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 5

Primeiro, um drama esportivo adolescente que aborda um doloroso processo de superação física e emocional. Na sequência, um documentário necessário que resgata a memória e o legado de um grande cineasta brasileiro que nunca conquistou o merecido reconhecimento.

 

​A GINASTA – Direção: Charlotte Glynn

A história deste drama esportivo se passa nos anos 90, no ambiente de subúrbio da cidade industrial de Pittsburgh. Os personagens vêm da classe trabalhadora, e o filme trata de aspiração social e crise de identidade. O olhar da trama está no universo adolescente, naquele momento de dúvidas, inquietações e medos que antecedem a passagem para o mundo adulto.

A ginasta Monica, de 16 anos, sonha em competir nas Olimpíadas. Ela mora com o pai, que a cria sozinho depois que a mãe os abandonou. Durante um treino a jovem sofre grave lesão no joelho, semanas antes de uma competição importante. De uma hora para outra, seu mundo desmorona. Afastada dos treinos, ela se desestabiliza a ponto de colocar o futuro em risco, e as certezas que ela e o pai tinham sobre o caminho para o sucesso deixam de valer.

O acidente acontece num momento crítico da vida da adolescente. Fora do ambiente seguro do esporte, o único que conhecia e no qual estava completamente adaptada, Monica precisa encontrar novas maneiras de socializar na escola e na vida social. Diante dessa mudança brusca de realidade, tem que lidar com suas emoções internas. A Ginasta nos traz uma jornada de amadurecimento.

O pai solo é uma figura fundamental para organizar a estrutura dramática. Homem simples, ele tenta prover tudo de que a filha precisa, de um jeito rude, mas sincero. No entanto, não consegue suprir plenamente a ausência materna e é incapaz de compreender o impacto psicológico da dolorosa recuperação da filha.

É justamente aí que o filme revela sua fragilidade e mostra seus limites. A trama é bastante previsível e pouco se diferencia de tantas outras histórias de superação no esporte. O roteiro convencional deixa pouco espaço para aprofundar a crise de identidade adolescente e opta por uma abordagem suavizada, sem correr grandes riscos. Simples e correto, mas nada além disso, A Ginasta não consegue dar respostas nem preencher a contento as brechas emocionais entre pai e filha que o próprio enredo apresenta.


​CAVALCANTI – Direção: Jairo Neto e Graubi Garcia

Este documentário é resultado de um extenso trabalho de pesquisa que recupera a trajetória do grande cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti (1897 – 1982). Trata-se de uma obra preciosa por recolocar em pauta um nome que nunca recebeu o devido reconhecimento popular, e mesmo na academia costuma ficar aquém do lugar que merecia. Reconstituir sua história e preservar seu legado são tarefas que o documentário Cavalcanti cumpre com o valor que o personagem merece.

Alberto Cavalcanti, nascido no Rio de Janeiro, viveu fora do Brasil nos anos 30 e 40, primeiro na França e depois na Inglaterra. Na Europa, onde estudou Arquitetura, teve contato com o cinema e começou como decorador e cenógrafo de algumas produções francesas. Desde o início mostrou um olhar apurado e inovador para os aspectos visuais dos filmes, em especial nos documentários. Por conta dessa desenvoltura, foi convidado a dirigir alguns projetos. Assim, iniciou uma nova carreira, na qual conquistou fama e prestígio no cinema de vanguarda europeu.

Depois da fase francesa, foi para a Inglaterra, onde viveu seu período de maior destaque. Realizou grandes produções e assumiu posições de liderança e gestão em produtoras locais, como a Ealing, do famoso produtor Michael Balcon. Produziu e dirigiu filmes aclamados, como Coal Face (1935), Went the Day Well? (1942) e o clássico episódio do ventríloquo enlouquecido em Na Solidão da Noite (1945).

O sucesso do cineasta brasileiro exilado na Europa começou a chamar a atenção também no Brasil. Em 1949 Cavalcanti retorna ao país pela primeira vez, a convite de Assis Chateaubriand, para dar cursos e palestras sobre cinema no recém-criado MASP, em São Paulo. Ao chegar, soube dos planos do empresário Franco Zampari de criar uma indústria cinematográfica de ponta no Brasil. Cavalcanti, naquele momento, parecia o homem ideal para estruturar um projeto tão ambicioso, e aceitou o convite para implantar e conduzir a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada naquele mesmo ano.

Foi o início da última fase de sua carreira, que, à luz da história, não foi exatamente a melhor. Em uma passagem do documentário, ele mesmo declara de viva voz que aquela foi uma das piores experiências da sua vida. Incapacidade técnica, problemas de distribuição, megalomania, falta de verbas e prejuízos de bilheteria decretaram o fim precoce da Vera Cruz, cerca de cinco anos depois de sua fundação.

Como principal nome artístico à frente do projeto, Cavalcanti teve sua imagem pública associada ao fracasso. O documentário repara em parte essa injustiça ao resgatar o contexto turbulento da época, resultado de uma série de más decisões que não se limitaram a uma única pessoa. Os depoimentos recuperados mostram o cineasta lamentando esse traço da cultura brasileira, que costuma desdenhar de seus próprios talentos. Este sentimento fica bem resumido na célebre frase de Tom Jobim: "No Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. No fim da vida, Alberto Cavalcanti foi vítima dessa contradição. Fora do país, seu nome era celebrado e reverenciado. Na própria terra, não passava de um famoso anônimo.

Do ponto de vista formal, o documentário Cavalcanti tem uma proposta clara: deixar as imagens falarem por si. Não há interferência externa, entrevistas atuais nem comentários de contextualização. Os realizadores fizeram um exaustivo trabalho de busca de registros, fragmentos e entrevistas de Cavalcanti em arquivos públicos e privados e em cinematecas de vários países da Europa. A edição constrói o relato a partir desses fragmentos de história, e o faz com muito mérito e respeito pela figura retratada.

Jorge Ghiorzi