domingo, 18 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 4

Hoje foi dia de sessão tripla reunindo um drama mezzo francês e russo premiado no Festival de Cannes, um documentário italiano sobre um dos maiores compositores de trilhas sonoras de todos os tempos e um drama sérvio sobre jovens envolvidos em protestos políticos.

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​MINOTAURO – Direção: Andrey Zvyagintsev

Depois de receber o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2026, Minotauro foi escolhido pela França para disputar uma vaga entre os indicados ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. O filme tem uma boa origem: é baseado no clássico A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol.

A premissa central é a mesma. Um homem poderoso da elite descobre a infidelidade da esposa e entra em uma espiral de obsessão, ciúme e violência. Mas a versão do cineasta russo radicado na França é mais uma releitura do que uma refilmagem. Chabrol criticava a moral vazia da burguesia rica francesa. Aqui, a história passa para a Rússia de hoje, em meio à guerra com a Ucrânia. A mudança de lugar permite uma analogia política, ao mostrar a decadência moral da oligarquia russa.

O protagonista, Gleb, é dono de uma próspera empresa do setor de transportes. Ele sofre pressão do governo para recrutar e alistar os próprios funcionários para lutarem no front da guerra. Ao mesmo tempo, enfrenta uma crise no casamento ao receber a confirmação de que a esposa, Galina, tem um amante. Diante dessas duas pressões, sua vida confortável desmorona. A instabilidade que invade sua intimidade se espalha também pelo ambiente público e corporativo. Em situação limite, Gleb cede aos impulsos mais primitivos: a violência e o crime.

Minotauro é uma alegoria sobre mecanismos de poder, corrupção política e autoridade moral. A violência do protagonista não é apenas física, é sobretudo simbólica. Ele entra em um verdadeiro labirinto ético e não tem para onde correr, a não ser seguir em frente em busca de uma saída. Esse é o sentido do título, que remete à figura da mitologia grega. A criatura devora quem entra no labirinto, mas é para sempre prisioneira dele. No filme, o labirinto está tanto no ambiente doméstico e social quanto nos corredores e gabinetes do poder.

O cinismo é uma marca forte do longa e se esconde atrás de uma narrativa que nunca perde a elegância e a sobriedade, mesmo ao tratar de assuntos tão sórdidos. Verdades inconvenientes são jogadas para debaixo do tapete, e as oligarquias seguem impunes. O longo plano final deixa poucas dúvidas. O voo da família feliz sobre um tapete de nuvens mostra que os poderosos estão lá em cima, inatingíveis, ainda que carreguem culpa por muito do que acontece abaixo das nuvens. 


​NINO: UM FILME SOBRE NINO ROTA – Direção: Walter Fasano

Nascido em uma família com muitos músicos, o compositor italiano Nino Rota foi um talento precoce na música. Compor para o cinema nunca foi sua escolha premeditada, nem sequer um desejo. Foi um acaso de vida que acabou por definir sua carreira e colocar seu nome na história. Desde o primeiro contato com a sétima arte, Rota compreendeu que a música é parte integrante da narrativa. Essa perspectiva moldou todas as suas obras para o cinema. Para ele, trilhas sonoras são música aplicada, feita com um propósito bem definido, e por isso devem vir do coração, sem se submeter a regras pré-estabelecidas ou a dogmas puristas. Por ser fiel a esse princípio, e por ser popular e acessível, foi considerado por muito tempo um compositor menor.

O documentário de Walter Fasano faz um resgate da vida e da obra do compositor e reavalia seu legado. Coloca Rota no panteão dos grandes nomes do cinema, ao lado, por exemplo, do conterrâneo italiano Ennio Morricone. A trajetória é contada com fotografias, material de arquivo e entrevistas, tanto de época quanto atuais. O roteiro investiga as dimensões pessoais, artísticas e espirituais da vida do artista. Rota compôs mais de 150 obras para cinema, televisão e teatro. Foi parceiro e irmão de alma de Federico Fellini, com quem desenvolveu uma forte amizade e uma lista de temas inesquecíveis. Já perto do fim da vida, escreveu a magnífica trilha de O Poderoso Chefão I e O Poderoso Chefão II, que lhe rendeu um Oscar e pela qual será sempre reverenciado. Ele morreu em 1979.

Há uma curiosidade pouco destacada neste documentário: a narração é feita pelo músico britânico Sting, ex-líder da banda The Police. A ligação dele com a Itália é antiga. Sting tem uma propriedade na Toscana e é grande amigo de Fasano. Por não ser um narrador profissional, ele acrescenta ao relato uma camada extra de humanidade e sensibilidade musical. Em termos técnicos e formais, Nino: Um Filme Sobre Nino Rota é um documentário bastante acadêmico e convencional. Seu grande brilho vem da grandeza do artista retratado, que é superior às qualidades objetivas do filme. Ainda assim, é uma boa porta de entrada para conhecer, ou reconhecer, um compositor que merecia esse resgate.


​ATÉ QUE O DIA TERMINE – Direção: Jelena Maksimovic

​Este drama sérvio traz uma representação da revolta da juventude em tempos de polarização política, com um elenco jovem formado principalmente por atores não profissionais. A história se passa durante os protestos anticorrupção na Sérvia, em 2024 e 2025. A protagonista é Lena, de 20 anos, envolvida no ativismo antigovernamental. O que torna o filme interessante é que ela e o outro jovem protagonista procuram seu lugar no mundo estando em lados opostos de seus grupos, e ainda assim não se excluem. Encontram, juntos, uma forma pragmática de sobreviver. No fundo, é um filme sobre amor, amizade, empatia e a possibilidade de superar diferenças políticas.

A narrativa é hiper-realista e despojada, no limite do documental. Em certos momentos, dialoga com o chamado "slow cinema", ao desacelerar a ação e deixar correr apenas o tempo. A imagem acompanha essa proposta. As cenas são, em geral, escuras, com sombras ameaçadoras por todos os lados e reflexos frequentes que a lente insiste em não corrigir. Isso reforça a experiência realista que a diretora pretende. Somos tentados a imaginar que essa liberdade de registro cru só foi possível com câmeras de celular, mas é apenas uma impressão, que carece de confirmação.

Apesar das boas intenções e da ousadia estética, o filme não parece ter uma visão clara sobre o que quer ser. Muitos aspectos narrativos soam desconexos e gratuitos, o que compromete o desenvolvimento e a profundidade dos personagens, essenciais para dar propósito à história. A sensação é de que as partes foram montadas na pós-produção sem uma organização adequada. Essa desconexão se estende a quase tudo, com exceção das atuações espontâneas, que sustentam o drama, particularmente no terceiro ato, quando a história se concentra nos dois protagonistas.

Jorge Ghiorzi

sábado, 17 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 3

O dia foi de documentários. Não, essa foi uma meia verdade. Sim, um dos títulos está perfeitamente enquadrado no gênero. O outro, porém, só por licença poética pode ser definido como documentário, pois se encaixa no que o podemos chamar de “docuficção”, que se apropria da liberdade da ficção, mas trabalha com a linguagem do registro factual.

 


​CRONOVISOR – Direção: Jack Auen e Kevin Walker

​Um mistério fascinante, um objeto bizarro, uma investigação. Esses são os ingredientes de Cronovisor, filme de baixo orçamento e poucos recursos materiais, mas realizado com extrema criatividade.

O ponto de partida é um boato com ares de conspiração e lenda urbana, do tipo que seduz quem gosta de mistérios e de histórias que circulam pelo submundo. O tal “cronovisor” seria um aparelho revolucionário, capaz de recuperar imagens do passado. A ideia é que tudo o que acontece deixa vestígios de vibração que continuam vagando pelo espaço, e a máquina conseguiria captar esses vestígios e transformá-los em imagem, como se fosse uma televisão que sintoniza o passado. O equipamento  seria capaz de “visualizar”, por exemplo, a Crucifixão de Cristo. O filme acompanha a investigação de uma pesquisadora dedicada em torno da existência desse mítico equipamento e das pessoas que teriam estado envolvidas com a sua criação.

Para contar isso o filme manipula o formato do “falso documentário” e apresenta uma verdade possível. A trama é, no fundo, uma grande farsa, mas elaborada com um verniz de erudição que dá aquele gostinho confortável de verossimilhança. O espectador sabe, em algum canto da cabeça, que está sendo conduzido, e mesmo assim quer acreditar.

Boa parte dessa eficácia vem do fato de Cronovisor ser um filme mais contado do que encenado. Textos, referências bibliográficas e registros de toda natureza aparecem o tempo todo na tela e sustentam a narrativa. Um mistério baseado em pesquisa e narrado principalmente por meio de texto poderia ser árido, mas o filme é quase sempre empolgante. É admirável o quanto ele entrega com tão poucos recursos cênicos, de trama e de dramaturgia. A tensão é constante e o poder de sugestão faz o trabalho que o dinheiro não fez.

A trilha sonora ajuda muito nisso. Imponente e impactante, soa como algo à la Bernard Herrmann, o que nos leva a Alfred Hitchcock, citado várias vezes ao longo do filme, que por sua vez nos traz até Brian De Palma. Cronovisor bebe muito na fonte desses dois mestres do suspense e assume a inspiração sem cerimônia.

Este é um filme de produção modesta, consciente do seu alcance de nicho, que sabe exatamente o que quer fazer e o faz com muita criatividade. Uma pequena joia a ser descoberta.



YO (O AMOR É UM PÁSSARO REBELDE) – Direção: Anna Fitch e Banker White

​Yolanda "Yo" Shea foi uma imigrante suíça de espírito livre, nascida na década de 1920. A realizadora Anna Fitch, junto com o marido Banker White, manteve com ela uma amizade muito próxima até a morte de Yo. O documentário nasce dessa relação e registra o fim da vida de uma pessoa anônima, mas de personalidade exuberante. Um espírito livre, que passou a vida toda tentando encontrar seu verdadeiro lugar no mundo.

O filme é marcado pela dor da perda, mas ainda assim transborda alegria e sorri para a vida humana. Yo conta sua história sem censura, sem vaidade e sem ego, apenas com sinceridade à flor da pele. A forma de organização do documentário ajuda a criar essa proximidade. Ele é montado como uma colagem artística, com episódios marcantes da vida de Yo dividindo espaço com lembranças pequenas, quase banais. Esse equilíbrio dá riqueza ao relato e gera empatia imediata no espectador.

Um dos recursos mais fortes é a miniatura da casa de Yo, construída pelos realizadores, com a amiga reproduzida em versão de boneca de marionete. É uma maneira radical de guardar a memória de alguém e de amenizar a dor da perda. Funciona como um memorial de tributo. Também chama a atenção o tempo de trabalho. A realização foi lenta e meticulosa, quase artesanal, e o filme só ficou pronto cerca de dez anos depois da morte da protagonista.

Por ser tão pessoal para o casal de realizadores, movido pelo luto, o filme parece ter sido terapêutico para os dois e revelador para o público. Yo (O Amor é um Pássaro Rebelde) reflete sobre as maneiras possíveis de manter alguém vivo através da memória. A proposta é ambiciosa, mas o filme a sustenta com sensibilidade, sinceridade e uma emoção contida.

Jorge Ghiorzi

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 2

O roteiro do dia inclui produções da Polônia e do Japão: ambos são filmes de época que têm a guerra como elemento central. Enquanto um se propõe a refletir o pós-guerra como um fantasma que permanece assombrando os sobreviventes, o outro examina as consequências das ações humanas submetidas a pressões no calor da batalha.

 


A TERRA DO MEU PAI - Direção: Pawel Pawlikowski

Vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2026, este longa-metragem biográfico conclui a trilogia de filmes históricos de Pawel Pawlikowski. Os projetos anteriores deste tríptico — todos fotografados em esplendoroso preto e branco — foram Ida (2013) e Guerra Fria (2018). As obras abordam temas de fundo político por meio de histórias humanas que resgatam o passado em busca de uma identidade perdida, dialogando intensamente com os tempos atuais.

Desta vez, o realizador retrata um episódio verídico: a viagem do escritor Thomas Mann e de sua filha, que retornam à Alemanha quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, depois de mais de uma década de exílio nos Estados Unidos. Acompanhamos o roteiro da dupla por uma Alemanha dividida entre norte-americanos e soviéticos em formato de road movie, em que o deslocamento não é apenas físico, mas essencialmente psicológico. Aquela seria uma revisita por vezes dolorosa, outras emotiva e amargurada, e quase sempre marcada pelo confronto com convicções pessoais que aparentavam estar pacificadas.

Uma espécie de herança maldita, marcada por omissões ou julgamentos morais equivocados, tortura a mente do intelectual — algo semelhante ao dilema (em outros termos, é verdade) do idoso professor de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. Ambos são submetidos ao desafio de confrontar suas falhas e fragilidades no ocaso da vida.

​ ​A Terra do Meu Pai trata de memória, resgate, legado e do acerto de contas de um homem com sua obra, sua família e sua postura diante do mundo, já que era constantemente assediado, cobrado e alvo de cooptação por seu posicionamento ideológico. Naquela altura da vida, Thomas Mann (magnificamente interpretado por Hanns Zischler) vivia as contradições do artista que percebe que a cultura e as palavras nem sempre são suficientes para mudar o estado das coisas; ações efetivas são necessárias. O fardo se torna ainda mais pesado quando resta tão pouco tempo e tanto a fazer — ou a consertar.

Por dever de justiça, vale abrir espaço para destacar o ótimo desempenho de Sandra Hüller como Erika Mann, a filha do escritor. A personalidade pendular da personagem, que oscila do sarcasmo ao recato, da fragilidade ao cômico, encontra na atriz uma intérprete extremamente capaz. Se Hanns Zischler representa a mente racional, Sandra Hüller é, simplesmente, o coração emocional de A Terra do Meu Pai.

 


O SAMURAI E O PRISIONEIRO – Direção: Kiyoshi Kurosawa

​Drama histórico situado no período do Japão feudal, no século XVI, o longa tem como base o romance de Honobu Yonezawa. A história relata a batalha particular que o nobre Murashige Araki trava contra a tirania de Oda Nobunaga. Refugiado em um castelo, Murashige resiste às investidas de Oda enquanto gerencia a tensão crescente entre os homens de seu próprio exército.

​O filme vai além de uma tradicional crônica de guerra. Kurosawa (não tem parentesco, apenas divide o mesmo sobrenome com o mestre Akira) coloca sua marca autoral ao transformar o que poderia ser apenas um cerco de guerra em um claustrofóbico exercício de suspense psicológico. Quando crimes inexplicáveis começam a ocorrer no interior da fortaleza sitiada, Murashige se vê encurralado por uma ameaça tão perigosa quanto aquela que o inimigo representa além dos muros do castelo. Mergulhamos então em uma trama de investigação criminal.

Não espere, no entanto, o ritmo de filme de suspense tradicional. Os crimes ocorrem em compassos lentos, um a cada estação do ano, que dividem o filme em capítulos. Aqui as coisas são mais sutis e desaceleradas. Para auxiliar na resolução dos casos e manter o controle de seus homens, ele é forçado a negociar, se aconselhar e dividir segredos com um prisioneiro mantido nas masmorras. Kurosawa constrói então, com precisão histórica e rigor narrativo, um jogo de gato e rato repleto de dilemas morais.

​Com quase duas horas e meia de duração, O Samurai e o Prisioneiro peca levemente ao estender algumas situações em demasia. Um pouco mais de concisão faria bem à fluidez da obra, embora esse excesso não chegue a comprometer sua qualidade superior. No fim, o que temos é um drama histórico fascinante que mescla com o suspense investigativo aos temas clássicos e profundos da cinematografia japonesa, como a honra, a tradição e o peso moral das escolhas.

Jorge Ghiorzi

 

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 1


Conheço, de ouvir falar e ler nos jornais, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo desde o início da minha cinefilia em meados dos anos 70. De lá pra cá nós dois, eu e a Mostra, fomos ficando mais crescidinhos, mas cada um no seu canto. Nunca nos tínhamos visto pessoalmente, apesar do desejo antigo e de algumas promessas não cumpridas.

O aguardado encontro (pelo menos da minha parte) calhou de acontecer justamente em uma edição tão simbólica, a de número 50. E assim foi. Aterrizei em São Paulo e, poucas horas depois, fui brindado com uma violenta tromba d'água, daquelas de ganhar manchete no Jornal Nacional.


A primeira tarefa, no dia que antecede o início da Mostra, foi tentar me programar e dar alguma ordem ao caos. O caos, aqui, é aquele do bem: afinal, são mais de 300 filmes à disposição, vindos das mais diversas cinematografias internacionais. Um verdadeiro “Woodstock” tribal dos filmes ou a Copa do Mundo das telas para os fãs de cinema. A proeza é organizar a agenda para tentar dar conta de tantas opções em sessões contínuas espalhadas por dezenas de salas pela cidade. O termo “maratona”, no sentido simbólico é totalmente adequado ao caso. A sensação é a de nunca ficar totalmente satisfeito, sempre fica aquele sentimento de que algum filme escapou da nossa atenção. Mas, fazer o que? Somos apenas um e eles (os filmes) são tantos.

Então, a sessão já vai começar. Acompanhe por aqui nossas impressões, sensações e comentários pelas próximas duas semanas.

Jorge Ghiorzi

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Zona Zero: colônia de zumbis

 

O cinema sul-coreano contemporâneo domina o hibridismo de gêneros com uma maestria exemplar, algo nitidamente visível em obras como Kingdom, #Alive e no recente Hope: O Primeiro Impacto. Essa reconhecida habilidade em unir o terror à ação desenfreada ganha um novo capítulo em Zona Zero (Colony), produção que reafirma a vitalidade do país no cinema de gênero ao oferecer uma instigante reinvenção da figura do zumbi. A direção é de Yeon Sang-ho, que já demonstrou sua habilidade para o terror apocalíptico em filmes como Invasão Zumbi e Invasão Zumbi 2.

A trama de Zona Zero acompanha um grupo de sobreviventes encurralado no interior de um grande shopping center após o eclodir de um surto biológico devastador. No centro dessa luta pela sobrevivência está uma protagonista determinada, movida por uma jornada de vingança contra os responsáveis pela tragédia. Conforme a ameaça se revela mais complexa do que um simples vírus incontrolável, os contaminados passam a agir como “zumbis” articulados sob o instinto de uma colônia de formigas em constante evolução. Todos funcionam como um organismo único, interligados por um comando central e por uma comunicação coletiva.

A figura do zumbi, estabelecida em seu conceito moderno a partir da visão seminal de George A. Romero no final dos anos 1960 em A Noite dos Mortos-Vivos (1968), é atualizada em Zona Zero para as ansiedades do século XXI. Aqui, o monstro deixa de ser apenas uma entidade fantástica e passa a se materializar como o resultado de falhas de contenção científica e militar. Essa abordagem dialoga diretamente com o trauma coletivo pós-COVID-19 e com a paranoia urbana diante da ameaça constante de bioterrorismo e surtos epidêmicos em metrópoles densamente povoadas.

A decisão de ambientar grande parte do primeiro ato em um shopping center remete diretamente ao clássico Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), também de Romero. O espaço do consumo funciona como um ecossistema simbólico para o zumbi moderno: corpos desprovidos de individualidade perambulando por corredores de lojas, movidos pelo impulso automatizado de devorar.

Ao transformar esse "templo da civilidade", que representa o ápice do conforto burguês e do capitalismo urbano, em um cenário de carnificina e confinamento, o filme expõe a fragilidade da ilusão de segurança vendida pelo consumo. Surge então uma ironia trágica ao observar os personagens lutando pela vida cercados por vitrines repletas de bens supérfluos, como roupas de grife, eletrônicos e cosméticos, que perdem instantaneamente todo o seu valor. Diante do colapso, a única mercadoria vital passa a ser a própria sobrevivência e o espaço seguro.

Para além de uma crítica subliminar ao consumo, Zona Zero insere ainda uma camada de comentário social ao retratar o exército de infectados. Os monstros não agem apenas por instinto cego, mas são comandados por uma única mente e uma única visão. Esse dispositivo espelha a prática do messianismo político e religioso. Trata-se de uma analogia que reflete, com ironia, o fenômeno da imunidade cognitiva recorrente na contemporaneidade, no qual a supressão do livre-arbítrio cede lugar ao controle absoluto das massas sob um único comando totalitário.

No aspecto estrutural e dramático, o longa se sustenta sobre a motivação da vingança, elemento que se tornou marca registrada do cinema asiático contemporâneo, funcionando com a mesma eficiência nos dramas autorais e nas superproduções comerciais. Em Zona Zero a liderança e a agenda feminina conduzem o motor da narrativa. As personagens femininas não ocupam a posição passiva de meras sobreviventes a serem resgatadas. Pelo contrário, situam-se no centro e na liderança da ação. A busca por justiça se conecta perfeitamente ao arco de vingança, transformando o protagonismo feminino na força ativa responsável por confrontar o caos e tomar as rédeas do destino frente ao colapso da sociedade.

Ao reinterpretar o mito dos zumbis para as novas gerações sob a ótica dos traumas sanitários e ideológicos do século XXI, Zona Zero oferece uma proposta vibrante e contemporânea. À sua maneira, o filme entrega uma espécie de versão apocalíptica de Duro de Matar, concentrando a narrativa no espaço confinado de um grande edifício isolado biologicamente pelo risco de contaminação do restante da população. Ainda que deixe a desejar em profundidade emocional e temática, a produção compensa satisfatoriamente ao apostar em um ritmo eletrizante e em sequências de ação constante e desenfreada. Zona Zero é um exemplar eficiente, divertido e satisfatório do cinema de gênero sul-coreano.

Assista ao trailer: Zona Zero


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Digger: o espetáculo do absurdo

Assistir aos filmes do mexicano Alejandro G. Iñárritu é quase sempre uma garantia de encarar histórias que fogem do caminho mais fácil. A recente sátira política Digger não foge à regra. O filme exibe uma ambição visual clara e uma técnica voltada a provocar constante desorientação, enquanto encara de frente os absurdos contemporâneos, da ganância sem freio às crises políticas e sociais. O maior desafio de uma obra como essa, contudo, não é apenas a forma de contar a história, mas o quanto ela colide com a realidade. Em um mundo onde o cotidiano já parece surreal, a ficção enfrenta o dilema de tentar retratar o absurdo sem ser engolida por ele.

Na trama acompanhamos Digger Rockwell, interpretado por Tom Cruise (sob pesada maquiagem), um magnata do petróleo considerado um dos homens mais poderosos do mundo, com livre acesso ao presidente dos Estados Unidos, Compson (John Goodman). Após suas operações deflagrarem um desastre ambiental de proporções catastróficas no Alasca, o bilionário se lança em uma missão de contenção de danos, se vendendo como o grande salvador da humanidade diante da própria crise que provocou. É a partir dessa premissa que o longa monta sua sátira sobre poder, corporativismo e o espetáculo da mídia.

O longa constrói o centro dessa engrenagem a partir do seu protagonista, mostrando um sujeito totalmente encastelado em seu mundo imaginário. Aqui vale uma comparação imediata com Charles Foster Kane e sua idealizada Xanadu, em Cidadão Kane. Rockwell cria uma bolha onde o mundo de fora simplesmente não consegue entrar, funcionando como um refúgio seguro contra as consequências dos seus próprios atos. O filme usa essa figura de poder para mostrar como se constrói uma narrativa conveniente sobre o passado, uma ficcionalização criada sob medida para justificar qualquer absurdo, e eles são muitos. A história deste magnata do petróleo escancara essa tendência quase obsessiva que certas pessoas e estruturas têm de inventar desculpas elaboradas para negar e fingir que não estão vendo o que está escancarado bem na nossa cara.

Essa contradição ganha seu ponto mais alto em uma ótima sequência de cerca de dez minutos que se impõe como um grande momento do filme. Trata-se de um verdadeiro tour de force de Tom Cruise, em uma atuação tão intensa que funciona quase como um passaporte carimbado para a corrida ao Oscar de melhor ator. Na cena, Rockwell assume a palavra em um auditório lotado de autoridades políticas, incluindo presidentes, primeiros-ministros e embaixadores. Sem pausas, ele faz um discurso implacável onde admite abertamente o rastro de destruição e os danos ambientais terríveis causados pela exploração desenfreada do petróleo. A grande sacada do personagem está na virada dos seus próprios argumentos iniciais. Ao mesmo tempo em que reconhece a devastação, ele usa todo o conforto da civilização moderna para justificar que os benefícios dessa exploração continuam valendo a pena. É o retrato chocante da hipocrisia de quem comanda o jogo.

Para costurar toda essa dinâmica, Iñárritu permanece fiel ao seu estilo barroco pós-moderno de contar histórias, apostando em um virtuosismo técnico e narrativo que não se envergonha de sua própria ambição, algo bem visível em obras como Babel (2006), Birdman (2014) e O Regresso (2015). A grande diferença aqui, quando comparamos com outras experiências megalômanas recentes, como a ego trip Megalópolis de Francis Ford Coppola, é que Digger se predispõe a correr riscos calculados e de maneira muito consciente. Falar sobre o filme sem entregar os rumos e certos aspectos da trama é um grande desafio em qualquer análise crítica neste momento de lançamento. Não porque a narrativa viva de reviravoltas mirabolantes ou plot twists baratos, mas porque em vários momentos a gente se vê forçado a fazer uma reorientação mental para entender para onde a história está nos levando. É um exercício constante de ajuste de rota para quem assiste.

Por isso mesmo, Digger passa longe de ser uma obra voltada para grandes públicos, que facilmente podem não entrar no jogo de sua sátira e acabar rejeitando o filme, ainda que a presença de Tom Cruise seja um tremendo chamariz. É verdade que o discurso crítico proposto muitas vezes flerta com a superficialidade, recorrendo a lugares-comuns sobre ganância, mídia e crise climática. No entanto, esse núcleo conceitual mais raso acaba compensado por uma estrutura narrativa altamente elaborada e instigante. Deste modo, o longa equilibra o resultado oferecendo talvez menos substância do que aparenta, mas compensando com um domínio de forma e espetáculo que exige total predisposição da plateia.

Olhando o quadro geral, Digger se mostra um exercício fascinante sobre os limites da própria sátira no cinema contemporâneo, dialogando, nesse aspecto, com o que Stanley Kubrick propôs em Dr. Fantástico (1964). A sátira depende fundamentalmente do exagero para expor o ridículo, como uma caricatura dos poderosos, mas a concepção de Iñárritu esbarra na ironia de um mundo real que já se tornou exagerado por si só, onde a ganância e a irresponsabilidade dos líderes globais frequentemente superam qualquer deboche criado pela ficção. Ainda assim, mesmo quando sua crítica social soa simplória e óbvia, a força da obra como um todo, somada à entrega visceral de Tom Cruise, garante o funcionamento do espetáculo. É uma obra imperfeita e pretensiosa na medida certa, que pode dividir opiniões, mas que se recusa a entregar o caminho mais fácil a quem se dispõe a assisti-la.

Assista ao trailer: Digger


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

A Queda 2 – No Limite: o prazer da vertigem

 

Lançado em 2022, em um período em que a pós-pandemia ainda provocava estragos nas bilheterias, A Queda recebeu pouco tempo de tela, teve baixa circulação nos cinemas e logo passou a frequentar os catálogos de streaming. Esta circunstância histórica acabou afastando o público de apreciar aquele thriller da maneira para a qual foi concebido, ou seja, na sala de cinema. Afinal, somente assim suas qualidades poderiam ser plenamente apreciadas, já que na telona a sensação de vertigem é potencializada e impacta a plateia com grande efeito. Agora, quando os filmes voltaram a reinar nas salas (mesmo que com menos relevância do que no passado recente), chega esta sequência que mais uma vez procura nos deixar à beira da poltrona, com o coração acelerado e a respiração em suspenso.

Passados quatro anos, nossos nervos voltam a ser testados em A Queda 2: No Limite (Fall 2: Deadpoint), que dá continuidade à franquia com uma nova aventura nas alturas. A direção ficou a cargo dos irmãos Spierig (Michael e Peter), que substituem o criador original, Scott Mann, desta vez atuando apenas como um dos produtores e roteirista. O medo de altura (acrofobia) passa longe de ser um problema para as protagonistas, seja no primeiro filme ou neste. O caso aqui é exatamente o oposto, pois para elas as alturas são desafios estimulantes enfrentados com coragem, movidos por uma busca incessante por adrenalina. Assim, a sensação de pavor e o medo de vertigem ficam restritos apenas ao espectador.

Se no longa original a escalada da antena de rádio abandonada representava um ritual de luto doloroso que terminou em tragédia, aqui o cenário e as motivações se expandem para novos rumos. Tempos após o incidente, somos apresentados a Jax (Harriet Slater), irmã de Shiloh, morta no primeiro filme. Vivendo um período de luto e reclusão, Jax é incentivada pela amiga Luce (Arsema Thomas) a enfrentar seu medo e encarar uma nova aventura radical como forma de homenagear a memória da irmã. Juntas, elas partem para um novo encontro com as alturas, decididas a escalar uma perigosa montanha na Tailândia por uma trilha proibida para turistas e exploradores. Porém, o que deveria ser apenas um desafio pessoal a ser vencido acaba se transformando em um novo pesadelo de sobrevivência. Após um deslizamento de pedras, as duas ficam isoladas em um pequeno trecho de uma passarela suspensa, a mais de 3.000 metros de altura e com pouquíssimas possibilidades de resgate.

O novo longa continua eficiente em disparar a adrenalina e provocar uma genuína sensação de vertigem. No entanto, perde pontos ao deixar evidente o uso demasiado de efeitos visuais digitais em diversos momentos. O filme original era uma produção mais modesta, que utilizava com muita criatividade seus recursos enxutos, decisão que contribuía de forma decisiva para sustentar a suspensão de descrença. Agora, com a clara proposta de consolidar uma franquia a partir de um orçamento sensivelmente mais generoso, a produção cede a certos excessos narrativos e estéticos que acabam por comprometer o impacto da aventura.


Outro ponto a destacar que fragiliza a experiência é a inclusão de temas externos e tramas paralelas. Esses elementos pouco contribuem para a evolução dramática, funcionando apenas como artifícios para estender a narrativa. A consequência dessa decisão do roteiro é o esvaziamento do suspense inerente à situação limite enfrentada pelas protagonistas. Há inclusive um aparente anticlímax em momento próximo ao desfecho, que se prolonga sem necessidade e desvia o foco para caminhos inesperados e pouco significativos para o arco narrativo da personagem Jax, que passa a ser a nova protagonista da franquia.

Aqui vale ressaltar uma escolha perspicaz do roteiro ao introduzir um objeto cênico que deixa evidente a intenção de dar continuidade à franquia. Muito além de um simples adereço, esse novo elemento carrega a simbologia de legado e memória, operando como um agente catalisador. Um elo material e afetivo entre a trajetória da protagonista e os novos caminhos (ou escaladas) a serem explorados nas futuras sequências. Como entretenimento ligeiro e descompromissado, A Queda 2: No Limite cumpre seu papel, mas não fica à altura(!) do filme anterior, que se mostrou um exercício de tensão bem mais eficiente na construção de emoções genuínas no espectador.

Assista ao trailer: A Queda 2: No Limite


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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