quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Zona Zero: colônia de zumbis

 

O cinema sul-coreano contemporâneo domina o hibridismo de gêneros com uma maestria exemplar, algo nitidamente visível em obras como Kingdom, #Alive e no recente Hope: O Primeiro Impacto. Essa reconhecida habilidade em unir o terror à ação desenfreada ganha um novo capítulo em Zona Zero (Colony), produção que reafirma a vitalidade do país no cinema de gênero ao oferecer uma instigante reinvenção da figura do zumbi. A direção é de Yeon Sang-ho, que já demonstrou sua habilidade para o terror apocalíptico em filmes como Invasão Zumbi e Invasão Zumbi 2.

A trama de Zona Zero acompanha um grupo de sobreviventes encurralado no interior de um grande shopping center após o eclodir de um surto biológico devastador. No centro dessa luta pela sobrevivência está uma protagonista determinada, movida por uma jornada de vingança contra os responsáveis pela tragédia. Conforme a ameaça se revela mais complexa do que um simples vírus incontrolável, os contaminados passam a agir como “zumbis” articulados sob o instinto de uma colônia de formigas em constante evolução. Todos funcionam como um organismo único, interligados por um comando central e por uma comunicação coletiva.

A figura do zumbi, estabelecida em seu conceito moderno a partir da visão seminal de George A. Romero no final dos anos 1960 em A Noite dos Mortos-Vivos (1968), é atualizada em Zona Zero para as ansiedades do século XXI. Aqui, o monstro deixa de ser apenas uma entidade fantástica e passa a se materializar como o resultado de falhas de contenção científica e militar. Essa abordagem dialoga diretamente com o trauma coletivo pós-COVID-19 e com a paranoia urbana diante da ameaça constante de bioterrorismo e surtos epidêmicos em metrópoles densamente povoadas.

A decisão de ambientar grande parte do primeiro ato em um shopping center remete diretamente ao clássico Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), também de Romero. O espaço do consumo funciona como um ecossistema simbólico para o zumbi moderno: corpos desprovidos de individualidade perambulando por corredores de lojas, movidos pelo impulso automatizado de devorar.

Ao transformar esse "templo da civilidade", que representa o ápice do conforto burguês e do capitalismo urbano, em um cenário de carnificina e confinamento, o filme expõe a fragilidade da ilusão de segurança vendida pelo consumo. Surge então uma ironia trágica ao observar os personagens lutando pela vida cercados por vitrines repletas de bens supérfluos, como roupas de grife, eletrônicos e cosméticos, que perdem instantaneamente todo o seu valor. Diante do colapso, a única mercadoria vital passa a ser a própria sobrevivência e o espaço seguro.

Para além de uma crítica subliminar ao consumo, Zona Zero insere ainda uma camada de comentário social ao retratar o exército de infectados. Os monstros não agem apenas por instinto cego, mas são comandados por uma única mente e uma única visão. Esse dispositivo espelha a prática do messianismo político e religioso. Trata-se de uma analogia que reflete, com ironia, o fenômeno da imunidade cognitiva recorrente na contemporaneidade, no qual a supressão do livre-arbítrio cede lugar ao controle absoluto das massas sob um único comando totalitário.

No aspecto estrutural e dramático, o longa se sustenta sobre a motivação da vingança, elemento que se tornou marca registrada do cinema asiático contemporâneo, funcionando com a mesma eficiência nos dramas autorais e nas superproduções comerciais. Em Zona Zero a liderança e a agenda feminina conduzem o motor da narrativa. As personagens femininas não ocupam a posição passiva de meras sobreviventes a serem resgatadas. Pelo contrário, situam-se no centro e na liderança da ação. A busca por justiça se conecta perfeitamente ao arco de vingança, transformando o protagonismo feminino na força ativa responsável por confrontar o caos e tomar as rédeas do destino frente ao colapso da sociedade.

Ao reinterpretar o mito dos zumbis para as novas gerações sob a ótica dos traumas sanitários e ideológicos do século XXI, Zona Zero oferece uma proposta vibrante e contemporânea. À sua maneira, o filme entrega uma espécie de versão apocalíptica de Duro de Matar, concentrando a narrativa no espaço confinado de um grande edifício isolado biologicamente pelo risco de contaminação do restante da população. Ainda que deixe a desejar em profundidade emocional e temática, a produção compensa satisfatoriamente ao apostar em um ritmo eletrizante e em sequências de ação constante e desenfreada. Zona Zero é um exemplar eficiente, divertido e satisfatório do cinema de gênero sul-coreano.

Assista ao trailer: Zona Zero


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Digger: o espetáculo do absurdo

Assistir aos filmes do mexicano Alejandro G. Iñárritu é quase sempre uma garantia de encarar histórias que fogem do caminho mais fácil. A recente sátira política Digger não foge à regra. O filme exibe uma ambição visual clara e uma técnica voltada a provocar constante desorientação, enquanto encara de frente os absurdos contemporâneos, da ganância sem freio às crises políticas e sociais. O maior desafio de uma obra como essa, contudo, não é apenas a forma de contar a história, mas o quanto ela colide com a realidade. Em um mundo onde o cotidiano já parece surreal, a ficção enfrenta o dilema de tentar retratar o absurdo sem ser engolida por ele.

Na trama acompanhamos Digger Rockwell, interpretado por Tom Cruise (sob pesada maquiagem), um magnata do petróleo considerado um dos homens mais poderosos do mundo, com livre acesso ao presidente dos Estados Unidos, Compson (John Goodman). Após suas operações deflagrarem um desastre ambiental de proporções catastróficas no Alasca, o bilionário se lança em uma missão de contenção de danos, se vendendo como o grande salvador da humanidade diante da própria crise que provocou. É a partir dessa premissa que o longa monta sua sátira sobre poder, corporativismo e o espetáculo da mídia.

O longa constrói o centro dessa engrenagem a partir do seu protagonista, mostrando um sujeito totalmente encastelado em seu mundo imaginário. Aqui vale uma comparação imediata com Charles Foster Kane e sua idealizada Xanadu, em Cidadão Kane. Rockwell cria uma bolha onde o mundo de fora simplesmente não consegue entrar, funcionando como um refúgio seguro contra as consequências dos seus próprios atos. O filme usa essa figura de poder para mostrar como se constrói uma narrativa conveniente sobre o passado, uma ficcionalização criada sob medida para justificar qualquer absurdo, e eles são muitos. A história deste magnata do petróleo escancara essa tendência quase obsessiva que certas pessoas e estruturas têm de inventar desculpas elaboradas para negar e fingir que não estão vendo o que está escancarado bem na nossa cara.

Essa contradição ganha seu ponto mais alto em uma ótima sequência de cerca de dez minutos que se impõe como um grande momento do filme. Trata-se de um verdadeiro tour de force de Tom Cruise, em uma atuação tão intensa que funciona quase como um passaporte carimbado para a corrida ao Oscar de melhor ator. Na cena, Rockwell assume a palavra em um auditório lotado de autoridades políticas, incluindo presidentes, primeiros-ministros e embaixadores. Sem pausas, ele faz um discurso implacável onde admite abertamente o rastro de destruição e os danos ambientais terríveis causados pela exploração desenfreada do petróleo. A grande sacada do personagem está na virada dos seus próprios argumentos iniciais. Ao mesmo tempo em que reconhece a devastação, ele usa todo o conforto da civilização moderna para justificar que os benefícios dessa exploração continuam valendo a pena. É o retrato chocante da hipocrisia de quem comanda o jogo.

Para costurar toda essa dinâmica, Iñárritu permanece fiel ao seu estilo barroco pós-moderno de contar histórias, apostando em um virtuosismo técnico e narrativo que não se envergonha de sua própria ambição, algo bem visível em obras como Babel (2006), Birdman (2014) e O Regresso (2015). A grande diferença aqui, quando comparamos com outras experiências megalômanas recentes, como a ego trip Megalópolis de Francis Ford Coppola, é que Digger se predispõe a correr riscos calculados e de maneira muito consciente. Falar sobre o filme sem entregar os rumos e certos aspectos da trama é um grande desafio em qualquer análise crítica neste momento de lançamento. Não porque a narrativa viva de reviravoltas mirabolantes ou plot twists baratos, mas porque em vários momentos a gente se vê forçado a fazer uma reorientação mental para entender para onde a história está nos levando. É um exercício constante de ajuste de rota para quem assiste.

Por isso mesmo, Digger passa longe de ser uma obra voltada para grandes públicos, que facilmente podem não entrar no jogo de sua sátira e acabar rejeitando o filme, ainda que a presença de Tom Cruise seja um tremendo chamariz. É verdade que o discurso crítico proposto muitas vezes flerta com a superficialidade, recorrendo a lugares-comuns sobre ganância, mídia e crise climática. No entanto, esse núcleo conceitual mais raso acaba compensado por uma estrutura narrativa altamente elaborada e instigante. Deste modo, o longa equilibra o resultado oferecendo talvez menos substância do que aparenta, mas compensando com um domínio de forma e espetáculo que exige total predisposição da plateia.

Olhando o quadro geral, Digger se mostra um exercício fascinante sobre os limites da própria sátira no cinema contemporâneo, dialogando, nesse aspecto, com o que Stanley Kubrick propôs em Dr. Fantástico (1964). A sátira depende fundamentalmente do exagero para expor o ridículo, como uma caricatura dos poderosos, mas a concepção de Iñárritu esbarra na ironia de um mundo real que já se tornou exagerado por si só, onde a ganância e a irresponsabilidade dos líderes globais frequentemente superam qualquer deboche criado pela ficção. Ainda assim, mesmo quando sua crítica social soa simplória e óbvia, a força da obra como um todo, somada à entrega visceral de Tom Cruise, garante o funcionamento do espetáculo. É uma obra imperfeita e pretensiosa na medida certa, que pode dividir opiniões, mas que se recusa a entregar o caminho mais fácil a quem se dispõe a assisti-la.

Assista ao trailer: Digger


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

A Queda 2 – No Limite: o prazer da vertigem

 

Lançado em 2022, em um período em que a pós-pandemia ainda provocava estragos nas bilheterias, A Queda recebeu pouco tempo de tela, teve baixa circulação nos cinemas e logo passou a frequentar os catálogos de streaming. Esta circunstância histórica acabou afastando o público de apreciar aquele thriller da maneira para a qual foi concebido, ou seja, na sala de cinema. Afinal, somente assim suas qualidades poderiam ser plenamente apreciadas, já que na telona a sensação de vertigem é potencializada e impacta a plateia com grande efeito. Agora, quando os filmes voltaram a reinar nas salas (mesmo que com menos relevância do que no passado recente), chega esta sequência que mais uma vez procura nos deixar à beira da poltrona, com o coração acelerado e a respiração em suspenso.

Passados quatro anos, nossos nervos voltam a ser testados em A Queda 2: No Limite (Fall 2: Deadpoint), que dá continuidade à franquia com uma nova aventura nas alturas. A direção ficou a cargo dos irmãos Spierig (Michael e Peter), que substituem o criador original, Scott Mann, desta vez atuando apenas como um dos produtores e roteirista. O medo de altura (acrofobia) passa longe de ser um problema para as protagonistas, seja no primeiro filme ou neste. O caso aqui é exatamente o oposto, pois para elas as alturas são desafios estimulantes enfrentados com coragem, movidos por uma busca incessante por adrenalina. Assim, a sensação de pavor e o medo de vertigem ficam restritos apenas ao espectador.

Se no longa original a escalada da antena de rádio abandonada representava um ritual de luto doloroso que terminou em tragédia, aqui o cenário e as motivações se expandem para novos rumos. Tempos após o incidente, somos apresentados a Jax (Harriet Slater), irmã de Shiloh, morta no primeiro filme. Vivendo um período de luto e reclusão, Jax é incentivada pela amiga Luce (Arsema Thomas) a enfrentar seu medo e encarar uma nova aventura radical como forma de homenagear a memória da irmã. Juntas, elas partem para um novo encontro com as alturas, decididas a escalar uma perigosa montanha na Tailândia por uma trilha proibida para turistas e exploradores. Porém, o que deveria ser apenas um desafio pessoal a ser vencido acaba se transformando em um novo pesadelo de sobrevivência. Após um deslizamento de pedras, as duas ficam isoladas em um pequeno trecho de uma passarela suspensa, a mais de 3.000 metros de altura e com pouquíssimas possibilidades de resgate.

O novo longa continua eficiente em disparar a adrenalina e provocar uma genuína sensação de vertigem. No entanto, perde pontos ao deixar evidente o uso demasiado de efeitos visuais digitais em diversos momentos. O filme original era uma produção mais modesta, que utilizava com muita criatividade seus recursos enxutos, decisão que contribuía de forma decisiva para sustentar a suspensão de descrença. Agora, com a clara proposta de consolidar uma franquia a partir de um orçamento sensivelmente mais generoso, a produção cede a certos excessos narrativos e estéticos que acabam por comprometer o impacto da aventura.


Outro ponto a destacar que fragiliza a experiência é a inclusão de temas externos e tramas paralelas. Esses elementos pouco contribuem para a evolução dramática, funcionando apenas como artifícios para estender a narrativa. A consequência dessa decisão do roteiro é o esvaziamento do suspense inerente à situação limite enfrentada pelas protagonistas. Há inclusive um aparente anticlímax em momento próximo ao desfecho, que se prolonga sem necessidade e desvia o foco para caminhos inesperados e pouco significativos para o arco narrativo da personagem Jax, que passa a ser a nova protagonista da franquia.

Aqui vale ressaltar uma escolha perspicaz do roteiro ao introduzir um objeto cênico que deixa evidente a intenção de dar continuidade à franquia. Muito além de um simples adereço, esse novo elemento carrega a simbologia de legado e memória, operando como um agente catalisador. Um elo material e afetivo entre a trajetória da protagonista e os novos caminhos (ou escaladas) a serem explorados nas futuras sequências. Como entretenimento ligeiro e descompromissado, A Queda 2: No Limite cumpre seu papel, mas não fica à altura(!) do filme anterior, que se mostrou um exercício de tensão bem mais eficiente na construção de emoções genuínas no espectador.

Assista ao trailer: A Queda 2: No Limite


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Grenal – O Maior Clássico das Américas: dois gigantes imortais

 

O clássico Grenal é peça-chave na construção da identidade gaúcha moderna, erguida sobre uma sólida tradição de conflitos e rivalidades. A dualidade que nasce dessa matriz histórica encontra projeção inevitável no futebol, fazendo do confronto clubístico o símbolo da cultura do estado. É sob essa perspectiva sociológica que o documentário Grenal – O Maior Clássico das Américas se debruça sobre a rivalidade, resgatando a cronologia de alternância do domínio de Grêmio e Internacional no âmbito regional. O decantado bairrismo gaúcho, que, segundo os próprios gaúchos, é o maior do Brasil, já se manifesta no título, que decreta, como verdade indiscutível, a supremacia do confronto no continente. O filme é dirigido pela gaúcha Tatiana Sager em parceria com o carioca Belisário Franca, um “estrangeiro” na aldeia que agrega um olhar externo essencial ao projeto. Completa a equipe Renato Dornelles, que assina a direção adicional e foi o principal condutor das entrevistas.

A grandeza e o impacto emocional do confronto há muito mereciam ser registrados em uma obra de valor histórico. Afinal, ninguém fica imune a um Grenal, nem mesmo quem não aprecia futebol, pois seus efeitos são marcantes demais para serem ignorados. Há, contudo, um lamento inevitável: o momento de lançamento do filme. A dupla jamais enfrentou uma crise simultânea tão severa quanto a atual. Por ironia do futebol, talvez revisitar o passado glorioso sirva de alavanca moral para impulsionar os corações vermelhos e azuis rumo à superação, fazendo jus à história que construíram.

No plano técnico, a produção destaca-se pelo dinamismo da montagem. A edição aposta em depoimentos enxutos, sem excessos, priorizando o ritmo narrativo e o resgate de figuras históricas e emblemáticas. Impressiona também o rigor no "empate técnico" fora dos gramados. O tempo de tela reservado a Grêmio e Internacional foi cronometrado com precisão cirúrgica, garantindo espaço rigorosamente igual a ambos os lados. Em termos gerais, trata-se de um documentário de linguagem clássica, que mescla contexto, história e depoimentos. Não se propõe a ser uma obra de tese destinada a provar algo predeterminado. Seu impacto ocorre, sobretudo, no plano emocional da audiência, aspecto em que o filme é amplamente bem-sucedido ao resgatar e organizar acontecimentos que, para as novas gerações, podem surgir como verdadeiras descobertas.

Há quase meio século, o fenômeno Grenal já inspirava o cinema regional. Em 1979, foi lançado o longa-metragem de ficção Domingo de Grenal, dirigido por Pereira Dias e estrelado por Paulo Santana (notório gremista) e Paulo Gigante (notório colorado). A obra abordava uma narrativa no estilo Romeu e Julieta, colocando em lados opostos famílias rivais cujos filhos se apaixonavam, para desespero dos pais fanáticos. Ou seja: nada de novo sob o sol gaúcho.

Ao longo do documentário, evidencia-se a interdependência entre os dois clubes: as conquistas de um lado servem continuamente de combustível para a evolução do outro. Uma coisa é certa: pelo menos 50% da plateia sai da sessão com 100% de aprovação. Afinal, torcedores na sala de cinema agem, acima de tudo, como plateias apaixonadas. Após a temporada nos cinemas, o documentário amplia seu alcance nacional com estreias no canal SporTV e no streaming Globoplay.

Assista ao trailer: Grenal – O Maior Clássico das Américas


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Antártida: desastre glacial

 

Dirigido por Bruno Safadi, Antártida chega às salas de cinema brasileiras precedido por grande expectativa. O orçamento expressivo, o elenco de apelo popular, o aparato técnico de ponta e a promessa de entregar um cinema de gênero assumido desenhavam um panorama inicial dos mais promissores. Trata-se de uma escala de produção pouco usual no circuito nacional. No entanto, a esmerada composição visual não é suficiente para sustentar o longa-metragem. A frieza estéril que caracteriza a ambientação geográfica acaba por contaminar a própria narrativa, resultando em uma experiência distante, calculada e, em última análise, profundamente frustrante para o espectador.

A premissa, em termos conceituais, carrega força e apelo imediato. A trama se passa em uma estação de pesquisa brasileira no continente gelado que fica isolada do resto do mundo durante o rigor do inverno polar. O gatilho dramático dispara quando a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa), recém-chegada ao local, sofre uma violência sexual. A partir deste ponto, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) assume a condução do caso, transformando todos os homens do contingente em suspeitos imediatos, incluindo figuras de autoridade como o Comandante Barros (Antonio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos). Cercadas pela ameaça contida dentro da própria base e subjugadas pelo clima inóspito do exterior, as mulheres do grupo veem-se forçadas a estabelecer uma aliança tácita em meio ao silêncio e ao medo constante.

O problema central da obra reside no desenho da sua estrutura dramática. Ao abordar a investigação de um crime sob confinamento, o roteiro opta por uma dinâmica narrativa que mais se assemelha à de uma minissérie televisiva fragmentada. A tentativa de comprimir múltiplos personagens, tramas secundárias e arcos individuais complexos em uma duração que mal ultrapassa os noventa minutos compromete irremediavelmente o ritmo. A montagem trabalha em ritmo acelerado para tentar amarrar o excesso de pontas soltas que o próprio texto cria, mas o preço pago por essa sobrecarga é o enfraquecimento da lógica interna do mistério e o esvaziamento psicológico dos personagens.

Em tese, a produção reunia todos os predicados de um suspense clássico de confinamento, o tradicional whodunit ("quem fez isso?"). Estão lá o espaço claustrofóbico, o crime perturbador, a lista de suspeitos e a urgência da investigação. O erro crucial de Antártida foi tentar expandir e elaborar uma fórmula narrativa que funciona justamente pela economia de meios, simplicidade estrutural e precisão de foco. A título de comparação, obras fundamentais do gênero com proposta semelhante, como O Enigma do Outro Mundo, de John Carpenter, sustentam sua eficiência ao manter a tensão constante. No clássico de 1982, pouco importa o passado dos indivíduos ou seus traumas e dores pregressas. Para que a engrenagem do suspense imediato funcione, qualquer desvio psicológico excessivo atua apenas como ruído dispensável.

Em Antártida, contudo, a linha investigativa principal é frequentemente interrompida e diluída pela sobreposição de pautas sociais e ambientais. Tópicos como violência doméstica, masculinidade tóxica, relacionamentos homoafetivos e as mudanças climáticas globais surgem de forma pontual, didática e pouco integrada ao tecido dramático. Como o roteiro insiste em cobrir diversas frentes temáticas de maneira simultânea, nenhuma delas alcança a densidade que exigiria, e a atmosfera de ameaça constante que deveria mover o mistério evapora.

Essa dispersão conceitual reflete-se diretamente na construção dos diálogos, que soam frequentemente expositivos. As falas assumem uma função explicativa e redundante, que retira a fluidez da condução cênica e distancia o público do conflito principal. O que resta na tela é a composição superficial de alguns papéis, a dependência quase total dos recursos de computação gráfica para criar a imponência dos cenários externos e descuidos marcantes de verossimilhança. Um exemplo deste problema está sintetizado na figura da protagonista vivida por Marina Ruy Barbosa, que frequentemente enfrenta tempestades e nevascas extremas com os cabelos ao vento, sem jamais cobrir a cabeça com o capuz do casaco térmico.

Movido por intenções válidas e por um aparente desejo de relevância temática, Antártida acaba por se perder na própria falta de medida. O filme recusa o rigor do gênero em nome de um acúmulo de discursos que não se consolidam em cena. O resultado é um projeto impecável em sua superfície técnica, mas dramaticamente inerte. Assistir a um boneco de neve derreter é mais emocionante do que assistir a Antártida.

Assista ao trailer: Antártida


Jorge Ghiorzi

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Três Vezes Adeus: acerto de contas com a vida

 

A incomunicabilidade e o desgaste silencioso das relações afetivas costumam encontrar no cinema um terreno fértil para investigações profundas. No drama Três Vezes Adeus (Tre ciotole), a diretora Isabel Coixet escolhe justamente o desgaste sutil para expor o estrago acumulado de anos em um relacionamento. A história não precisa de grandes tragédias externas, pois parte do cotidiano banal para mapear as ruínas de uma vida a dois, investigando a dor do término, o luto emocional e os atalhos estranhos que a mente inventa para não sucumbir ao vazio.

Tudo começa com uma briga boba entre Marta (Alba Rohrwacher), professora de Educação Física, e Antonio (Elio Germano), dono de uma pizzaria. É um atrito desencadeado por uma bobagem menor do dia a dia, mas funciona como a fagulha que faltava. Em questão de minutos, a discussão ganha uma escala desproporcional e explode anos de sentimentos sufocados e pequenas mágoas guardadas. O desfecho verbal é devastador e inevitável com a separação definitiva do casal. A cena captura essa mecânica das grandes brigas domésticas, onde o motivo original é mero pretexto para que as barreiras venham abaixo. O que realmente vem à tona são as verdades incômodas e aquele ressentimento antigo, amadurecido em silêncio ao longo de anos de convivência.

Consumado o rompimento, o filme passa a expor o retrato doloroso de uma solidão consentida. Incapaz de processar o fim de imediato, Marta simplesmente nega o mundo exterior, fecha as portas e mergulha em uma introspecção profunda. Esse recolhimento funciona como um luto necessário, mas também opera como uma armadura de proteção contra o ambiente externo e as cobranças sociais que exigem uma superação rápida e performática.

É no meio desse cenário de isolamento que surge um dos elementos mais simbólicos do longa. Para dar conta do silêncio da casa, Marta passa a buscar alento e conforto na figura inanimada de um display de papelão em tamanho real de um ídolo do K-pop, recolhido do lixo. O que a princípio parece uma excentricidade bizarra logo ganha uma função terapêutica crucial. O totem vira um interlocutor silencioso para suas angústias, sendo uma companhia que não julga, não cobra e, acima de tudo, não vai embora. É difícil não lembrar de Náufrago, onde o personagem de Tom Hanks projeta humanidade na bola de vôlei Wilson para manter a sanidade na ilha deserta. O display de papelão é, para todos os efeitos, o “Wilson” de Marta, funcionando como uma âncora simbólica para não afundar no oceano da desolação.


Conforme a narrativa avança, a dor do término esbarra em uma camada ainda mais sutil, que é a presença da finitude. A morte não aparece como um evento espetacular, mas como uma sombra existencial que acompanha seus passos. Ver o amor ruir espelha a própria finitude da vida e obriga Marta a confrontar a impermanência de tudo o que a cerca. Nesse ponto, o filme amarra seu tema central focado no desapego. Despedir-se aqui não é só ver o outro ir embora, mas envolve abrir mão das expectativas frustradas e daquela versão de si mesma que só existia dentro do casamento. A aceitação surge não como resignação passiva, mas como um processo doloroso e indispensável para tornar o presente suportável outra vez.


Três Vezes Adeus pode exigir alguma paciência por conta do ritmo lento e contemplativo do início, e vez ou outra esbarra em convenções do melodrama. No entanto, o filme supera esses clichês ao retratar um retrato íntimo, maduro e sincero dos sentimentos da sua protagonista. A mensagem do desfecho mostra que só nos encontramos quando nos permitimos estar perdidos. Ao fazer esse balanço honesto e redescobrir sua soberania como mulher, a obra lembra que encarar a própria sombra, sem atalhos, costuma ser o único jeito de se reencontrar.

Assista ao trailer: Três Vezes Adeus


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Da Magia à Sedução – Feitiço de Amor: maldição de família

 

Quase três décadas após o lançamento do título que se tornou um clássico cult das locadoras no final dos anos 1990, Hollywood resolveu reacender o caldeirão da família Owens. Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2) chega aos cinemas impulsionado pela tendência contemporânea de resgatar franquias do passado, apoiando-se no apelo aconchegante da memória afetiva para tentar reengajar o público.

Trata-se de uma continuação tardia e dispensável. O longa original, de 1998, passou longe de ser memorável. Uma produção mediana cujo sucesso se fortaleceu principalmente no mercado de locadoras e na grade da TV aberta. Embora tenha cultivado um nicho de fãs fiéis ao longo do tempo, a ideia de uma sequência parecia improvável. A onda de resgates nostálgicos acabou falando mais alto, reelaborando e recolocando no mercado produtos audiovisuais com os quais as plateias já tem alguma familiaridade.

Nesta sequência reencontramos as irmãs Sally (Sandra Bullock) e Gillian (Nicole Kidman) anos após os eventos do primeiro longa. No desfecho da produção original, parecia que a dupla havia finalmente quebrado a antiga maldição ancestral que condenava à morte qualquer homem por quem uma mulher da família se apaixonasse. Contudo, descobre-se aqui que a superação dessa sombria sina foi apenas parcial. A brecha permite que o estigma alcance a nova geração, representada pelas filhas de Sally, Kylie (Joey King) e Antonia (Maisie Williams), que até então ignoravam a própria descendência de uma linhagem milenar. Para tentar preservá-las, a mãe (Sally) manteve as origens ocultas, transformando um legado que deveria ser de potência em um fardo silencioso.

Há uma simetria curiosa na estrutura do universo criado pela franquia. A bruxaria aqui parece operar sempre em duplas. O poder, a cumplicidade e a própria maldição familiar se manifestam em pares sucessivos que espelham gerações: duas tias, duas irmãs, duas filhas. Essa dinâmica de espelhamento não apenas reforça os laços de hereditariedade, mas consolida a ideia de que a magia das Owens depende fundamentalmente do contraponto e do equilíbrio entre dois polos femininos.

Para que essa engrenagem funcione, o melhor conselho ao espectador é nem tentar fazer conexões totalmente lógicas com a linha do tempo do filme original. Apenas aceite a história como lhe é apresentada. O roteiro toma diversas liberdades e faz ajustes forçados para encaixar as peças e simular coerência. A trama se situa cronologicamente no início dos anos 2000, o que funciona bem para ajustar a idade das filhas, algo fundamental para a lógica da narrativa, e, por consequência, das próprias protagonistas. Hoje na vida real, Sandra Bullock, com 62 anos, e Nicole Kidman, com 59, já superaram a faixa etária que Stockard Channing, então com 54, e Dianne Wiest, com 50, tinham quando interpretaram as tias no longa de 1998. No fim das contas, são truques de magia típicos de Hollywood.

Em termos de temática e abordagem, esta sequência carrega um paradoxo instigante. O filme original, dirigido por Griffin Dunne, priorizava a jornada de autonomia, solidariedade feminina e emancipação das irmãs. Curiosamente, esta continuação sob o comando de Susanne Bier (de Bird Box – Caixa de Pássaros) retoma um formato mais convencional e próximo de uma comédia romântica. Em vez de expandir a independência de suas protagonistas, o arco narrativo reduz a plenitude emocional e o destino de mãe e filha ao sucesso de um par afetivo. Sob essa perspectiva, a produção aparenta dar um passo atrás ao submeter a potência da irmandade bruxa a convenções narrativas tradicionais onde a validação pessoal depende da figura masculina. No entanto, a realizadora contorna essa armadilha ao deixar estabelecido que o afeto romântico não é o único pelo qual vale a pena entregar o coração, mostrando que as relações afetuosas e os legados familiares também são capazes de suprir esse desejo.

Ainda que não seja totalmente satisfatório (o que o coloca em pé de igualdade com o filme de 1998), Da Magia à Sedução – Feitiço de Amor funciona como uma revisita simpática a um tempo que traz lembranças agradáveis. Nada muito além disso. Uma sequência que chega com o peso e o carisma de duas grandes estrelas, mas que, passados os créditos finais, deixa muito pouco de memorável.

Assista ao trailer: Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor


Jorge Ghiorzi

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