Sessão dupla com coproduções que trazem a marca existencialista do cinema francês. Um drama feminino com uma personagem à beira do abismo e um drama juvenil com um personagem às portas da prisão.
MAIS UM DIA – Direção: Jeanne Henry
A história
acompanha Garance, uma jovem atriz talentosa que lida com a frustração de não
ver sua carreira decolar. Enquanto aguarda a grande chance nos palcos, ela se
divide entre peças infantis, para pagar as contas, e noitadas longas regadas a
muito álcool.
A vida de Garance é um acúmulo de pressões.
Além da carreira estagnada, ela enfrenta a superficialidade dos relacionamentos
ao seu redor e, o mais grave, a doença terminal da irmã. É justamente para
suportar essa carga que o álcool ganha espaço na sua rotina. O que começa como
um refúgio vira um vício pesado, levando a protagonista a um caminho de
autodestruição que ameaça sua vida antes mesmo dos quarenta anos. O filme trata
o vício sem glamour, mostrando como a fuga pela bebida apenas cria um novo e
profundo abismo.
A instabilidade emocional ganha um
breve respiro quando Garance conhece Pauline, uma cenógrafa com quem inicia um
romance. Ela surge como um ponto de apoio fundamental na tentativa da atriz de
se reerguer. Esse vínculo traz alguma humanidade para a narrativa, embora o
filme não tente vender soluções fáceis para feridas tão profundas.
Em termos de referências, a diretora
Jeanne Henry constrói uma obra original que conversa abertamente com o cinema
de John Cassavetes, especialmente com Uma Mulher Sob Influência (1974) e
Noite de Estreia (1977). A conexão faz todo sentido, já que ambos filmes
exploram mulheres vulneráveis à beira do colapso psicológico. Não por acaso, a
atriz Adèle Exarchopoulos declarou ter buscado inspiração na entrega física e
emocional de Gena Rowlands para compor sua personagem.
A estrutura Mais Um Dia se
divide em duas partes bem marcadas. A projeção começa com a voz em off
de Garance fazendo confissões a uma mulher que o espectador nunca chega a ver.
Esse recurso serve para introduzir flashbacks na primeira metade da história,
explicando a origem das fragilidades da protagonista. Já na segunda parte, a
narrativa abandona o passado e se concentra no presente, acompanhando de perto
a derrocada psicológica de Garance enquanto ela tenta lutar contra seus
próprios demônios.
O ponto que
certamente incomoda no conjunto da obra é a sua conclusão acolhedora em
excesso. Depois de construir uma trajetória densa, realista e dolorosa sobre o
alcoolismo e a luta contra os dilemas internos da personagem, a resolução
escolhida pelo roteiro acaba soando otimista demais. É um desfecho que busca o
conforto do público, mas que contrasta com a complexidade e a força que o filme
vinha mantendo até então.
O CALOR – Direção: Stéphane Demoustier
Esta produção
francesa constrói uma narrativa elegante e envolvente, que captura nosso interesse
do início ao fim. A história acompanha uma família de origem norte-africana
durante as férias de verão em um camping no litoral francês. É naquele cenário
ensolarado conhecemos Marouane, o filho mais velho. Ele é um adolescente tímido,
inseguro e levemente depressivo, com poucos amigos, que se sente deslocado
diante da energia e das festas dos jovens da sua idade.
A aparente
leveza de um drama juvenil, no entanto, sofre uma reviravolta abrupta. Após uma
discussão com outro garoto, Marouane se envolve em uma morte acidental. Tomado
pelo pânico, ele esconde o corpo e passa as horas seguintes consumido por um
sentimento de culpa avassalador e pelo medo constante de ser descoberto, antes
que sua família decida ir embora do camping. A partir desse momento, o longa se
transforma em uma narrativa tensa que explora com muita sutileza os elementos
de um suspense investigativo, no melhor estilo de uma tragédia de uma noite de
verão.
O roteiro de O Calor dialoga de
forma muito interessante com O Estrangeiro, de Albert Camus. Enquanto na
obra literária a vítima do francês Meursault é um árabe, aqui a lógica se
inverte: a vítima do jovem de descendência norte-africana é um francês. Há,
porém, algumas semelhanças marcantes entre as duas histórias, como a praia
servindo de cenário para o crime, o calor sufocante atuando quase como um
agente catalisador e a presença de uma paixão amorosa que se fortalece
justamente após a tragédia.
Apesar das aproximações, existe uma
diferença fundamental entre os universos. O personagem de Camus é famoso pela
indiferença e frieza ao cometer um assassinato deliberado. Marouane é exatamente
o oposto. Ele é um garoto vulnerável e o ato acidental que comete gera um
efeito devastador em seu comportamento e em sua consciência, intensificando o
clima de crime e castigo que domina a segunda metade da projeção.
Além da carga dramática e do suspense,
o filme encontra espaço para abordar temas profundos sem cair no panfletarismo.
A xenofobia atravessa as interações dos personagens, mas raramente se manifesta
de forma escancarada ou agressiva. O preconceito se esconde nos pequenos
desconfortos do convívio, nos olhares tortos, nos silêncios calculados e nos
tratamentos desiguais aplicados a pessoas que, em tese, possuem os mesmos direitos.
É justamente essa sutileza que torna a hostilidade tão difícil de combater e
confrontar, mas que não a torna menos condenável.
O Calor entrega muito mais do que promete em
seus minutos iniciais. Ao unir uma atmosfera sufocante, dilemas morais
profundos e um espelhamento literário inteligente, a obra se apresenta como um
drama humano inteligente e bem resolvido. A forma como o filme equilibra a
delicadeza dos conflitos da adolescência com o peso de um segredo trágico faz
dele uma experiência cinematográfica plenamente satisfatória, que permanece na
cabeça do espectador depois que as luzes da sala se acendem.
Jorge Ghiorzi






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