Primeiro, um drama esportivo
adolescente que aborda um doloroso processo de superação física e emocional. Na sequência, um documentário necessário que resgata a memória e o legado de um
grande cineasta brasileiro que nunca conquistou o merecido reconhecimento.

A GINASTA – Direção: Charlotte Glynn
A história deste drama esportivo se
passa nos anos 90, no ambiente de subúrbio da cidade industrial de Pittsburgh. Os
personagens vêm da classe trabalhadora, e o filme trata de aspiração social e
crise de identidade. O olhar da trama está no universo adolescente, naquele
momento de dúvidas, inquietações e medos que antecedem a passagem para o mundo
adulto.
A ginasta Monica, de 16 anos, sonha em
competir nas Olimpíadas. Ela mora com o pai, que a cria sozinho depois que a
mãe os abandonou. Durante um treino a jovem sofre grave lesão no joelho,
semanas antes de uma competição importante. De uma hora para outra, seu mundo
desmorona. Afastada dos treinos, ela se desestabiliza a ponto de colocar o
futuro em risco, e as certezas que ela e o pai tinham sobre o caminho para o
sucesso deixam de valer.
O acidente acontece num momento
crítico da vida da adolescente. Fora do ambiente seguro do esporte, o único que
conhecia e no qual estava completamente adaptada, Monica precisa encontrar novas
maneiras de socializar na escola e na vida social. Diante dessa mudança brusca
de realidade, tem que lidar com suas emoções internas. A Ginasta nos
traz uma jornada de amadurecimento.
O pai solo é uma figura fundamental
para organizar a estrutura dramática. Homem simples, ele tenta prover tudo de
que a filha precisa, de um jeito rude, mas sincero. No entanto, não consegue
suprir plenamente a ausência materna e é incapaz de compreender o impacto
psicológico da dolorosa recuperação da filha.
É justamente aí que o filme revela sua
fragilidade e mostra seus limites. A trama é bastante previsível e pouco se
diferencia de tantas outras histórias de superação no esporte. O roteiro
convencional deixa pouco espaço para aprofundar a crise de identidade
adolescente e opta por uma abordagem suavizada, sem correr grandes riscos.
Simples e correto, mas nada além disso, A Ginasta não consegue dar
respostas nem preencher a contento as brechas emocionais entre pai e filha que
o próprio enredo apresenta.

CAVALCANTI – Direção: Jairo Neto e Graubi Garcia
Este documentário é resultado de um
extenso trabalho de pesquisa que recupera a trajetória do grande cineasta
brasileiro Alberto Cavalcanti (1897 – 1982). Trata-se de uma obra preciosa por
recolocar em pauta um nome que nunca recebeu o devido reconhecimento popular, e
mesmo na academia costuma ficar aquém do lugar que merecia. Reconstituir sua
história e preservar seu legado são tarefas que o documentário Cavalcanti
cumpre com o valor que o personagem merece.
Alberto Cavalcanti, nascido no Rio de
Janeiro, viveu fora do Brasil nos anos 30 e 40, primeiro na França e depois na
Inglaterra. Na Europa, onde estudou Arquitetura, teve contato com o cinema e
começou como decorador e cenógrafo de algumas produções francesas. Desde o
início mostrou um olhar apurado e inovador para os aspectos visuais dos filmes,
em especial nos documentários. Por conta dessa desenvoltura, foi convidado a
dirigir alguns projetos. Assim, iniciou uma nova carreira, na qual conquistou
fama e prestígio no cinema de vanguarda europeu.
Depois da fase francesa, foi para a
Inglaterra, onde viveu seu período de maior destaque. Realizou grandes
produções e assumiu posições de liderança e gestão em produtoras locais, como a
Ealing, do famoso produtor Michael Balcon. Produziu e dirigiu filmes aclamados,
como Coal Face (1935), Went the Day Well? (1942) e o clássico
episódio do ventríloquo enlouquecido em Na Solidão da Noite (1945).
O sucesso do cineasta brasileiro
exilado na Europa começou a chamar a atenção também no Brasil. Em 1949
Cavalcanti retorna ao país pela primeira vez, a convite de Assis Chateaubriand,
para dar cursos e palestras sobre cinema no recém-criado MASP, em São Paulo. Ao
chegar, soube dos planos do empresário Franco Zampari de criar uma indústria
cinematográfica de ponta no Brasil. Cavalcanti, naquele momento, parecia o
homem ideal para estruturar um projeto tão ambicioso, e aceitou o convite para
implantar e conduzir a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, fundada naquele
mesmo ano.
Foi o início da última fase de sua
carreira, que, à luz da história, não foi exatamente a melhor. Em uma passagem
do documentário, ele mesmo declara de viva voz que aquela foi uma das piores
experiências da sua vida. Incapacidade técnica, problemas de distribuição,
megalomania, falta de verbas e prejuízos de bilheteria decretaram o fim precoce
da Vera Cruz, cerca de cinco anos depois de sua fundação.
Como principal nome artístico à frente
do projeto, Cavalcanti teve sua imagem pública associada ao fracasso. O
documentário repara em parte essa injustiça ao resgatar o contexto turbulento
da época, resultado de uma série de más decisões que não se limitaram a uma
única pessoa. Os depoimentos recuperados mostram o cineasta lamentando esse
traço da cultura brasileira, que costuma desdenhar de seus próprios talentos. Este
sentimento fica bem resumido na célebre frase de Tom Jobim: "No Brasil,
sucesso é ofensa pessoal”. No fim da vida, Alberto Cavalcanti foi vítima
dessa contradição. Fora do país, seu nome era celebrado e reverenciado. Na
própria terra, não passava de um famoso anônimo.
Do ponto de vista formal, o
documentário Cavalcanti tem uma proposta clara: deixar as imagens
falarem por si. Não há interferência externa, entrevistas atuais nem
comentários de contextualização. Os realizadores fizeram um exaustivo trabalho
de busca de registros, fragmentos e entrevistas de Cavalcanti em arquivos
públicos e privados e em cinematecas de vários países da Europa. A edição
constrói o relato a partir desses fragmentos de história, e o faz com muito
mérito e respeito pela figura retratada.
Jorge Ghiorzi
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