
Embora seja uma produção norte-americana em coprodução com a Alemanha, O Frio da Morte (Dead of Winter), dirigido por Brian Kirk, possui, em espírito, um coração europeu, ao menos no estilo e na ambiência. Nesse aspecto, o suspense estrelado por Emma Thompson se insere, de maneira enviesada, no modelo do chamado "suspense nórdico", inspirado em thrillers literários sombrios, atmosféricos e de cenários gélidos. Autores celebrados desse estilo, como Jo Nesbo, Lars Kepler e Stefan Ahnhem, entre outros, narram tramas focadas em mistérios intrincados, violência explícita e frieza emocional, aspectos todos muito presentes no longa. O roteiro, por sua vez, traz uma assinatura curiosa, pois foi coescrito pelo compositor de trilhas sonoras Nicholas Jacobson-Larson, aqui em sua primeira experiência como roteirista.
A trama acompanha Barb (Emma Thompson), uma viúva britânica que se mudou para uma remota região gelada dos Estados Unidos. Durante uma tempestade de neve, ela se perde e acaba chegando em uma casa isolada, onde faz uma descoberta aterrorizante: uma jovem é mantida em cativeiro. A partir desse momento, Barb se vê diante de um dilema que rapidamente se transforma em luta pela sobrevivência, pois os sequestradores percebem que foram descobertos.

A descoberta acidental de Barb desperta um alerta imediato na audiência. Diante da escassez de informações sobre aquela situação inesperada e aterrorizante, chegamos a cogitar estar diante de uma versão invernal dos caipiras psicopatas de O Massacre da Serra Elétrica. Contudo, o filme de Brian Kirk não tem esse alcance, e muito menos essa ambição. A referência ao clássico dos anos 1970 acaba restrita apenas à nossa imaginação, pois o longa definitivamente não entrega nada que se aproxime da crueza brutal daquela obra-prima do terror.
Sem avançar em direção a um indesejável spoiler, há um paralelismo entre a garota sequestrada e a filha da protagonista, o que desperta inevitavelmente seus instintos maternos de proteção e acolhimento. São esses mecanismos fundamentais que justificam por que uma senhora de idade assume o papel heroico que se impõe diante do risco da morte. Ao longo da história, somos gradualmente apresentados ao passado da personagem, aos fatos pretéritos que movem suas ações e sentimentos no presente. A construção desse passado é fragmentada, revelada em pequenos flashbacks e diálogos esparsos, como peças de um quebra-cabeça que o filme insiste em montar lentamente.

A personagem de Emma Thompson demonstra uma tenacidade extremada em seus propósitos, como se impusesse a si própria uma missão de vida, missão cujas respostas estão enraizadas em algum lugar do passado, marcado por um amor que transcendeu a morte. Apenas esses vislumbres do passado, compartilhados com a audiência, tornam aceitável sua transformação de uma dócil senhora em uma justiceira durona. As respostas estão no passado, e a ideia de um presente sem propósito revela-se, para ela, pior que a morte.
O problema é que, enquanto aguardamos o encaixe da última peça, a revelação integral das motivações do sequestro, o filme parece deliberadamente estender o percurso. Sem muitos elementos novos a oferecer ao espectador, a trama protela o desfecho até os momentos finais do terceiro ato. Esse adiamento, a princípio, poderia ser uma estratégia legítima de suspense, comum no chamado "suspense nórdico" que o filme evoca. Nas páginas dos livros a atmosfera e o mergulho psicológico muitas vezes importam mais do que a ação imediata. No entanto, em O Frio da Morte, a espera não é preenchida por tensão crescente ou por camadas adicionais de complexidade. Pelo contrário, as sequências intermediárias pouco contribuem para o andamento da narrativa. As situações se repetem e os diálogos giram em círculos, como se o único propósito fosse testar a paciência do espectador até a grande revelação.

O resultado é um descompasso entre a construção psicológica da protagonista e a condução do mistério. A história pessoal de Barb até oferece lastro emocional para suas escolhas, mas ela é dosada de forma tão parcimoniosa que, quando finalmente compreendemos o quadro completo, a surpresa chega enfraquecida pelo cansaço da espera. Em vez de um clímax explosivo ou de uma reviravolta de fato impactante, temos a sensação de que o filme poderia ter contado a mesma história em menos tempo (ainda que a duração seja relativamente curta) ou, quem sabe, deveria ter investido mais em desenvolver o presente enquanto nos fazia aguardar o passado.
A carreira de Emma Thompson inclui filmes de diversos gêneros, do drama à comédia, do romance à fantasia. No entanto, o thriller de suspense não marca presença significativa em sua filmografia. Em 1991 ela participou de Voltar a Morrer, dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, então seu companheiro. O retorno da atriz ao gênero só ocorre agora, 35 anos depois, com este papel, que exigiu muito de ação e dinamismo para uma atriz de 66 anos de idade. A propósito, neste aspecto há que se fazer justiça: a atriz está convincente e dá muito bem conta do recado, ao viver uma personagem que não esconde a idade que tem.

Diante disso, podemos até relevar os furos e as conveniências fáceis do roteiro para nos atermos ao deleite inusitado de ver Emma Thompson sangrando, tremendo de frio, lutando e atirando nos vilões. O filme, frio e pouco envolvente no geral, encontra sua razão de ser na presença calorosa de uma grande atriz em uma obra pouco memorável.
Assista ao trailer: O Frio da Morte
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela



































