
O clássico Grenal é peça-chave na construção da identidade gaúcha moderna, erguida sobre uma sólida tradição de conflitos e rivalidades. A dualidade que nasce dessa matriz histórica encontra projeção inevitável no futebol, fazendo do confronto clubístico o símbolo da cultura do estado. É sob essa perspectiva sociológica que o documentário Grenal – O Maior Clássico das Américas se debruça sobre a rivalidade, resgatando a cronologia de alternância do domínio de Grêmio e Internacional no âmbito regional. O decantado bairrismo gaúcho, que, segundo os próprios gaúchos, é o maior do Brasil, já se manifesta no título, que decreta, como verdade indiscutível, a supremacia do confronto no continente. O filme é dirigido pela gaúcha Tatiana Sager em parceria com o carioca Belisário Franca, um “estrangeiro” na aldeia que agrega um olhar externo essencial ao projeto. Completa a equipe Renato Dornelles, que assina a direção adicional e foi o principal condutor das entrevistas.
A grandeza e o impacto emocional do confronto há muito mereciam ser registrados em uma obra de valor histórico. Afinal, ninguém fica imune a um Grenal, nem mesmo quem não aprecia futebol, pois seus efeitos são marcantes demais para serem ignorados. Há, contudo, um lamento inevitável: o momento de lançamento do filme. A dupla jamais enfrentou uma crise simultânea tão severa quanto a atual. Por ironia do futebol, talvez revisitar o passado glorioso sirva de alavanca moral para impulsionar os corações vermelhos e azuis rumo à superação, fazendo jus à história que construíram.

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No plano técnico, a produção destaca-se pelo dinamismo da montagem. A edição aposta em depoimentos enxutos, sem excessos, priorizando o ritmo narrativo e o resgate de figuras históricas e emblemáticas. Impressiona também o rigor no "empate técnico" fora dos gramados. O tempo de tela reservado a Grêmio e Internacional foi cronometrado com precisão cirúrgica, garantindo espaço rigorosamente igual a ambos os lados. Em termos gerais, trata-se de um documentário de linguagem clássica, que mescla contexto, história e depoimentos. Não se propõe a ser uma obra de tese destinada a provar algo predeterminado. Seu impacto ocorre, sobretudo, no plano emocional da audiência, aspecto em que o filme é amplamente bem-sucedido ao resgatar e organizar acontecimentos que, para as novas gerações, podem surgir como verdadeiras descobertas.

Há quase meio século, o fenômeno Grenal já inspirava o cinema regional. Em 1979, foi lançado o longa-metragem de ficção Domingo de Grenal, dirigido por Pereira Dias e estrelado por Paulo Santana (notório gremista) e Paulo Gigante (notório colorado). A obra abordava uma narrativa no estilo Romeu e Julieta, colocando em lados opostos famílias rivais cujos filhos se apaixonavam, para desespero dos pais fanáticos. Ou seja: nada de novo sob o sol gaúcho.

Ao longo do documentário, evidencia-se a interdependência entre os dois clubes: as conquistas de um lado servem continuamente de combustível para a evolução do outro. Uma coisa é certa: pelo menos 50% da plateia sai da sessão com 100% de aprovação. Afinal, torcedores na sala de cinema agem, acima de tudo, como plateias apaixonadas. Após a temporada nos cinemas, o documentário amplia seu alcance nacional com estreias no canal SporTV e no streaming Globoplay.
Assista ao trailer: Grenal – O Maior Clássico das
Américas
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela

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