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quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Ainda Estou Aqui: memórias dos tempos de chumbo

O longa-metragem que marca o retorno de Walter Salles aos temas e cenários brasileiros é uma obra memorialista inspirada no livro de Marcelo Rubens Paiva. O filme aborda os episódios verídicos da tragédia familiar do desaparecimento e morte do engenheiro e ex-deputado federal Rubens Paiva (pai de Marcelo), no período da ditadura militar brasileira. Assim como em Central do Brasil, realizado há 26 anos, Ainda Estou Aqui novamente faz o relato de uma busca, de um resgate de memórias e histórias interrompidas. 

Brasil. Rio de Janeiro. Início dos anos 70. Uma primorosa recriação iconográfica, estética e sonora nos transporta para um país de contrastes. A alegria descontraída de uma praia carioca esconde os subterrâneos dos porões da repressão e tortura. É neste tempo e espaço que somos apresentados à família formada por Rubens Paiva (Selton Mello), Eunice (Fernanda Torres), cinco filhos e muitos amigos. Sinais de ameaça iminente surgem a todo momento. Helicópteros militares em voos rasantes sobre zonas residenciais. Movimentação de tropas em caminhões. Circulação de militares pelas ruas. As apreensões de Eunice se confirmam quando certo dia agentes das forças de repressão chegam à sua casa para conduzir Rubens Paiva para um breve depoimento nas dependências de um quartel militar. A promessa era de que ele voltaria para casa em poucas horas. Nunca mais retornou, sua detenção foi negada e seu corpo jamais localizado.

O motor da narrativa de Ainda Estou Aqui é a angustiante jornada de Eunice em busca do paradeiro do companheiro de vida, pai de seus filhos. Enquanto luta obstinadamente atrás de informações que expliquem o desaparecimento, Eunice precisa encontrar forças para manter a família unida e protegida, ainda que para isso tenha que ocultar grande parte da verdadeira história para seus filhos, ainda jovens e menores de idade. Uma aparência de normalidade controlada se instala naquela casa, ao mesmo tempo em que uma obstinada batalha consome os dias de Eunice, guardiã da paz e da integridade família em risco.

Medo e angústia são dois sentimentos muito presentes nos personagens de Ainda Estou Aqui, mesmo aqueles que não possuem pleno conhecimento do que está ocorrendo. Este é um registro muito bem trabalhado por Walter Salles, que se afastou de uma abordagem mais política e, digamos, abertamente panfletária daquele contexto histórico. A ditadura e a repressão está lá, suas consequências estão expostas, mas não é este objetivamente o ponto fulcral. O olhar do filme é todo direcionado para os nocivos e lamentáveis efeitos deletérios daquele período de chumbo na vida real de pessoas reais, com suas sequelas físicas e psicológicas que se perpetuaram ao longo dos anos.


Recriar aqueles episódios ocorrido há mais de 50 anos equivale a revisitar, com dor e pesar, um baú de memórias adormecidas. A elegante direção de Walter Salles torna esta jornada uma experiência guiada pela sensibilidade e emoção, sem excessos narrativos para conquistar a plateia. A história se conta por si só, sem artifícios ou truques, apenas levada pela interpretação e um roteiro enxuto. Ainda assim há uma sequência espetacular que reforça a capacidade da gramatica audiovisual transmitir emoção e contexto. Sem palavras. A chegada dos agentes na casa ensolarada dos Paiva – localizada a poucos metros da praia – transforma simbolicamente o destino daquela família quando começam a fechar todas as cortinas das janelas de casa, impedindo a entrada de luz. A partir daquele momento a vida daquela família estava definitivamente entrando em um período sombrio de trevas. 

Referimos a questão da interpretação e neste aspecto é impossível não destacar o maravilhoso trabalho de Fernanda Torres. Interpretando com muita entrega e emoção todos os momentos limites vivenciados por Eunice Paiva, Fernanda Torres cativa e comove com sua performance cheia de nuances e carga emocional. Aqui temos uma atriz com pleno domínio do seu ofício, que tem conquistado elogios e referências positivas pela crítica nacional e internacional. Há inegavelmente uma perspectiva real de que Fernanda Torres seja indicada ao Oscar em 2025, repetindo a façanha da mãe, Fernanda Montenegro, indicada em 1999 por Central do Brasil.


A expressão “Ainda estou aqui” representa um clamor de quem aguarda, de quem espera, de quem vive a eterna expectativa do retorno. O filme de Walter Salles deixa esta mensagem. Ao reativar nossas memórias, Ainda Estou Aqui resgata um episódio doloroso que fere a história do Brasil. Para não esquecer. Para não deixar passar em vão. Assistir Ainda Estou Aqui é um ato de resgate de um Brasil que não mais desejamos, mas não pode ser esquecido. Ainda que saiamos da sessão com o peito aberto e o coração dilacerado.

Assista ao trailer: Ainda Estou Aqui


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

“Eduardo & Mônica”: eclipse total do coração


Ele gosta de Bonnie Tyler. Ela gosta de David Bowie. Preferências e diferenças irreconciliáveis, só que não, como mostra Eduardo & Mônica. O drama romântico, dirigido por René Sampaio, é baseado na conhecida canção de sucesso do Legião Urbana, composta por Renato Russo. Realizada pela mesma equipe e diretor de Faroeste Caboclo de 2013 (também inspirado por uma canção do Legião Urbana), a produção enfrentou problemas para ser lançada. A pandemia e o fechamento das salas de cinema adiaram por duas vezes a estreia, inicialmente prevista para o primeiro semestre de 2020.

Frequentemente se diz que algumas composições de Renato Russo são praticamente roteiros prontos de filme, pois contemplam características de um bom storytelling ao narrar histórias envolventes e cativantes. Então, o caminho naturalmente esperado era esse mesmo, acabar nas telas de cinema. A boa receptividade com Faroeste Caboclo estimulou a repetição da fórmula. E, sim, deu muito certo, superando até mesmo a primeira experiência.


O filme (assim como a canção) conta uma história de amor que acompanha o relacionamento do estudante Eduardo (Gabriel Leone) e da artista plástica Mônica (Alice Braga), que precisam superar suas muitas diferenças, de idade, de personalidade, de criação familiar, de cultura, de perspectivas de vida, de gostos musicais e literários. O cenário dessa história de conquistas, descobertas e aprendizados é a Brasília dos anos 80, marcada pelo fim do regime militar em contraste com a ebulição do rock brasileiro.

Um tema ostensivamente presente em Eduardo & Mônica é a possibilidade da convivência e aceitação dos diferentes e opostos. Olhar condescendente e delicado do diretor René Sampaio torna perfeitamente aceitável e crível a construção de um relacionamento, seja amoroso ou apenas de amizade, baseado na compreensão e no respeito a quem pensa muito diferente.


A manutenção do tempo (anos 80) e espaço (capital federal), onde transcorre a “história” original da canção de Renato Russo, foi fundamental para preservar sua essência, um tanto ingênua e romântica, diga-se de passagem, o que garante que a narrativa fique de pé e flua com naturalidade. Seria praticamente uma impossibilidade adaptar a história para os tempos contemporâneos. Eduardo & Mônica se apresenta como um belo e nostálgico retrato de um tempo que já passou. Uma pequena joia arqueológica da cultura pop brasileira. Destaque-se, aliás, o roteiro enxuto e muito bem amarradinho escrito por Matheus Souza com a colaboração final de outros três roteiristas (Cláudia Souto, Jéssica Candal e Michele Frantz).

A dupla de protagonistas, Gabriel Leone e Alice Braga, funciona muito bem em cena. A interação entre eles é um dos pontos altos do filme e garantem momentos de grande sensibilidade e entrega emocional. A primeira declaração de amor de Eduardo para Mônica, por exemplo, é um daqueles momentos que capturam a plateia, que se deixa levar definitivamente por aquela improvável história de amor. Eduardo & Mônica demorou para chegar às telas dos cinemas, mas certamente vai ficar por muito tempo na memória do público que vai sair da sessão cantarolando: “Quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração...”. 

Assista ao trailer: Eduardo & Mônica


Jorge Ghiorzi / Membro da ACCIRS