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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Flow: uma jornada animal

A animação Flow (Straume, 2024) surpreendeu e fez história em sua terra natal, a Letônia — e também no mundo todo, diga-se de passagem. Com este filme, o país conquistou suas primeiras indicações ao Oscar desde a independência da União Soviética, em 1990. Um marco significativo não apenas para o cinema letão, mas também para a indústria cinematográfica internacional, que viu neste filme uma narrativa única e visualmente deslumbrante. A produção dirigida por Gints Zilbalodis foi indicada em duas categorias: Melhor Animação e Melhor Filme Internacional (portanto, é um concorrente do brasileiro Ainda Estou Aqui).

A realidade apresentada em Flow nos transporta para um cenário pós-apocalíptico, onde o ser humano está completamente ausente. As razões para esse desaparecimento permanecem incertas e não são explicitamente justificadas ao longo da narrativa. No entanto, essa falta de explicação não se torna um obstáculo para a experiência do espectador; pelo contrário, reforça o caráter universal e atemporal da fábula que o filme se propõe a contar. Em seu lugar, a natureza e os animais assumem o protagonismo, criando um mundo onde a vida flui de forma orgânica e desimpedida, livre das interferências humanas.


Quando as águas avançam como um dilúvio bíblico, engolindo a terra e apagando todos os vestígios da civilização humana, o cenário em que a história se desenrola reflete um planeta inteiramente transformado. Embora a ação se concentre em uma localidade específica, a sensação é de que o mundo todo foi redesenhado por essa catástrofe, restando apenas um vasto oceano e a incerteza do que ainda permanece. Nesse contexto, um gato solitário e confuso vê-se ameaçado pela elevação das águas. Em busca de abrigo, ele encontra um barco que serve de refúgio não apenas para si, mas também para um grupo de animais tão desorientados quanto ele: um cão, uma capivara, um lêmure e uma garça. Unidos pela necessidade de sobrevivência, cada um deles representa, de certa forma, um arquétipo humano ou papéis sociais que assumimos diante de uma coletividade. 

A sobrevivência, no entanto, exige mais do que encontrar um lugar seguro: é preciso superar medos, preconceitos e diferenças. Para o gato – real protagonista da história -, que sempre temeu a água, o desafio é duplo: enfrentar suas próprias fobias e aprender a conviver com seres tão diferentes. Nessa jornada imprevisível, eles descobrem que suas diferenças, longe de serem um obstáculo, podem se tornar sua maior força.


A animação Flow captura a essência da linguagem cinematográfica, remetendo ao primitivo cinema narrativo da transição do século XIX para o XX, quando a experiência mágica do cinema era construída sem a utilização de vozes ou diálogos. A história era contada apenas por meio da música e do poder sugestivo das imagens em sucessão, criando uma conexão única com o espectador. O filme é uma prova clara de que o grande trunfo para o sucesso de uma produção ainda reside em suas ideias e propósitos, e não em um orçamento milionário. Em Flow, os recursos de produção não foram o foco principal: o projeto foi realizado com uma fração do custo das grandes produções dos estúdios, contando com uma equipe reduzida, equipamentos quase domésticos e softwares de computação gratuitos e de código aberto.

Flow é uma fábula que transcende o mundo animal, servindo como um espelho reflexivo para nós, humanos racionais. Através de uma narrativa aparentemente simples, o filme mergulha em temas profundos e universais, como o valor da amizade, a força da compaixão e a importância de compreender e respeitar as diferenças. Em um mundo onde a divisão e o conflito parecem ser a norma, a história nos apresenta uma convivência improvável entre opostos, desafiando expectativas e mostrando que a harmonia pode surgir mesmo quando tudo indica o contrário.

O filme não apenas emociona, mas também provoca reflexões sobre como lidamos com o 'outro' em nossas vidas. A relação entre os personagens, marcada por desafios e superações, simboliza a possibilidade de união em meio à diversidade. É um lembrete poderoso de que, muitas vezes, são justamente as diferenças que nos tornam mais completos e capazes de evoluir. Flow é, portanto, uma obra que vai além do entretenimento, oferecendo uma mensagem urgente e necessária para os tempos atuais.

Os personagens centrais de Flow são animais, mas esqueça as versões antropomorfizadas que costumamos ver em produções da Disney, Pixar e afins. Aqui, um gato é simplesmente um gato, um cão é apenas um cão, e uma capivara não passa de uma capivara. O filme não humaniza seus personagens; em vez disso, ele os apresenta em sua natureza mais pura e instintiva. A trama se desenvolve a partir da interação de um pequeno grupo interracial, composto por espécies que, na natureza, estariam em lados opostos da cadeia alimentar. No entanto, diante de uma situação extrema, eles são forçados a encontrar maneiras de conviver — literalmente, todos estão no mesmo barco.


O que emerge dessa dinâmica é um retrato fascinante de como o instinto de sobrevivência e o senso de preservação da espécie podem falar mais alto do que as hierarquias naturais. O filme nos convida a refletir sobre como, em momentos de crise, as diferenças podem ser superadas em prol de um objetivo comum Flow é, portanto, uma narrativa que vai além do óbvio, explorando não apenas a luta pela vida, mas também a complexidade das relações, mesmo entre aqueles que, em outras circunstâncias, seriam inimigos naturais. A manifestação do instinto animal é retratada no enxuto roteiro da animação com graça e sensibilidade, elevando a história para um nível de comoção que não deixa o público indiferente. Seja ele adulto ou infantil, pois a mensagem é universal.

Flow é mais do que uma simples narrativa sobre sobrevivência; é uma meditação poética sobre resiliência, adaptação e a força da coletividade. Através de sua estética visual deslumbrante e de uma narrativa minimalista, o filme convida o espectador a refletir sobre a fragilidade da civilização humana e a capacidade da natureza de se regenerar.

Assista ao trailer: Flow


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

Conclave: habemus papam

 

O poder de imaginação proporcionado pelo cinema permite criar mundos inexistentes, reproduzir mundos conhecidos e, acima de tudo, especular sobre mundos inacessíveis, ainda que reais. Neste último caso entra em cena a especulação, baseada em fatos parciais, cujas lacunas são preenchidas pelo o que chamamos de ficção. Um ótimo exemplo desta capacidade especulativa da sétima arte é o thriller dramático Conclave que se passa inteiramente no ambiente intramuros do Vaticano durante o processo de votação dos cardeais para a escolha do novo papa para liderar a Igreja Católica. Sabe-se que este processo é extremamente sigiloso, realizado sob rígidas regras de compliance que proíbem a divulgação pública de alguns de seus ritos secretos. Portanto, resta ao cinema – e também à literatura - conjecturar com o salvo-conduto da liberdade criativa. Baseado no livro de Robert Harris lançado em 2016, Conclave foi dirigido pelo alemão Edward Berger, que ganhou destaque mundial há três anos com o drama de guerra Nada de Novo no Front.

A vacância do trono papal se dá imediatamente na primeira sequência de Conclave. A partir da morte do sumo pontífice iniciam todos os procedimentos para o funeral e posterior organização do encontro dos cardeais, vindos de diversas partes do mundo diretamente para o Vaticano, com o objetivo de promover a votação para a escolha de um novo papa. O responsável pela organização e supervisão do conclave é o cardeal Thomas Lawrence (Ralph Fiennes). Isolados do mundo exterior os cardeais ficam confinados na Capela Sistina, submetidos a várias rodadas de votação, até que se defina por unanimidade o eleito para assumir o trono.

O que em tese seria enfadonho como narrativa cinematográfica, ganha contornos de uma emocionante trama de suspense e thriller de investigação quando os disputantes ao pleito entram no jogo pesado e obscuro de mentiras, segredos comprometedores e destruição de reputações dos favoritos. No centro das ações está a figura do cardeal Lawrence que deve conduzir um desgastante processo eleitoral com serenidade e justiça, ainda que segredos inconfessáveis tenham chegado ao seu conhecimento. Dividido entre verdades inconvenientes e a defesa da credibilidade da Igreja Católica perante os fiéis, ele carrega o peso de uma decisão que tortura sua consciência.

Como seria de se esperar, o filme tem sido criticado pelo Vaticano por mostrar uma face negativa da Igreja Católica, marcada por corrupção, vaidade e ambição. O mais provável é que o que realmente incomodou as lideranças religiosas foi a inserção de uma visão progressista em oposição ao conservadorismo, representados por dois cardeais postulantes ao cargo de papa que abertamente apresentam ideias antagônicas. Sabidamente esta é uma pauta que a Igreja Católica não deseja enfrentar. Há ainda lançadas ao longo do roteiro – enxuto e brilhante – outras questões que costumam forçar os limites tradicionais dos dogmas da igreja, como diversidade, inclusão e sacerdócio feminino.

Conclave é um filme contido, de pouca ação, e surpreendente ao incluir em dado momento um inesperado momento explosivo. Toda a construção dramática se dá mediante diálogos precisos e contextualizados acompanhados por uma edição ao mesmo tempo elegante e dinâmica. O desenvolvimento da trama mantém o permanente interesse ao trabalhar a tensão do mistério como um elemento catalizador.

O personagem do cardeal Lawrence, ao investigar um segredo que se esconde nas sombras do Vaticano, em certa medida emula um misto de Hercule Poirot (o clássico investigador criado por Agatha Christie) e Robert Langdon, o professor especialista em simbologia criado por Dan Brown (O Código Da Vinci), interpretado nas telas por Tom Hanks. A propósito, uma das aventuras de Langdon, Anjos e Demônios, se passa justamente no Vaticano com suas tramas palacianas. O desempenho de Ralph Fiennes como o cardeal “detetive” é um dos destaques incontestáveis do filme de Edward Berger. Após alguns anos fora do radar das grandes produções de destaque, aqui Fiennes entrega uma das melhores interpretações da sua carreira.

Conclave é uma realização deslumbrante que trata com ousadia e rigor temas pertinentes de uma Igreja Católica que se debate entre a tradição e a modernidade. Um empolgante thriller de suspense religioso que se movimenta sinuosamente pelos espaços do confinamento com provações que questionam a fé, a justiça e a verdade.

Assista ao trailer: Conclave


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Queer: uma odisseia existencial

 

A temporada de 2024 assinala duas produções dirigidas pelo prolífico diretor italiano Luca Guadagnino. Acredite, ele está com outros 6 (!) projetos em andamento. No primeiro semestre tivemos a estreia do ótimo Rivais, um drama esportivo de poliamor com um trisal de tenistas liderado por Zendaya. Agora, no fechamento do ano, é lançado Queer, estrelado por Daniel Craig, em sua fase pós-007, abandonando definitivamente a persona de James Bond que encarnou por 15 anos. Um ponto comum aproxima estas duas obras de Guadagnino: o sexo utilizado como artifício de sedução, manipulação e poder.

Inspirado no livro homônimo de William S. Burroughs, Queer é um drama histórico, parcialmente biográfico, com alta carga erótica, protagonizado pelo personagem alter ego William Lee, presente em outras obras do autor. Em Mistérios e Paixões (Naked Lunch, 1991), de David Cronenberg, o mesmo personagem William (Bill) Lee foi interpretado por Peter Weller. Em Queer o alter ego de Burroughs ganha o corpo e a alma de um provocativo Daniel Craig, que entrega uma atuação ousada e desprendida como você nunca viu em nenhum de seus trabalhos anteriores.


A história se passa no México dos anos 50. É lá que vive o expatriado americano William Lee. O filme passa ao largo de uma explicação mais clara da verdadeira razão que o levou a sair dos Estados Unidos. No livro este passado é esclarecido: ele foi dispensado da Marinha, dentre outras razões, por ser usuário de drogas. A trama de Queer segue a vida de Lee que percorre, de bar em bar, os ambientes da comunidade homossexual masculina da cidade, sempre em busca de novas aventuras e parceiros para uma noitada. A vida boêmia de Lee ganha novos contornos quando conhece o jovem Eugene Allerton (Drew Starkey), de orientação sexual inicialmente ambígua, porém abertamente disponível para outras possibilidades. Juntos vivem uma intensa paixão que os levará para uma reveladora viagem pelas florestas equatorianas em busca de experiências sensoriais com drogas alucinógenas. 


A origem literária do material de Queer fica explicitado logo nas sequências iniciais com a exibição de páginas de manuscrito datilografado com trechos da obra. A referência de origem nas letras fica ainda mais explícita quando o roteiro é construído como capítulos intitulados de um livro, recurso utilizado com frequência em muitas produções, a propósito. Esta divisão em capítulos contribui para a construção da trama em dois grandes blocos narrativos, como volumes separados da mesma obra, distintos entre si pela alteração de cenário, cores e significados. O primeiro deles, marcado pela descoberta do corpo, mostra o cotidiano de William Lee em suas interações com a cidade e seus personagens. Aqui a perspectiva é absolutamente hedonista, com uma busca incessante pelo prazer acima de qualquer outro estímulo vital. No segundo bloco, com a viagem de experiências místicas e transcendentais sob os efeitos de erva alucinógena (que não faz parte do livro de Burroughs), Queer assume uma perspectiva existencial. A busca passa a ser a liberação da mente. O arco da jornada de William Lee percorre então os dois princípios básicos e opostos da existência humana, os arquétipos de Eros e Thanatos, as pulsões de Vida e Morte.

Sob o comando de um inspirado Guadagnino, claramente interessado no universo que retrata, um insuspeito Daniel Craig passeia em cena com seu indefectível terno de linho branco, chapéu e óculos de sol em busca de aventuras amorosas. Completando a construção de um personagem descontruído, Lee carrega no coldre junto ao corpo uma pistola onipresente, um objeto de conotação fálica, que não passa de símbolo aleatório de representatividade de poder, reminiscência de um passado do qual não se liberta na totalidade. Em um diálogo confessional e revelador conta que, de alguma maneira, é portador de uma “maldição” hereditária que predestinou sua orientação. 


A viagem por terras estranhas na América do Sul profunda assume contornos bizarros pelos reais propósitos. Os alegados poderes telepáticos do “yage”, ou ayahuasca, é a verdadeira motivação de Lee que deseja ardentemente penetrar na mente de Eugene para descobrir o que ele realmente pensa e sente, pois suspeita que seu amor profundo não é correspondido. A “viagem” proporcionada pelo chá da erva conduz às inquietantes sequências de alucinação, uma experiência psicodélica de transformação que unificam, fundem e distorcem os limites de seus corpos. Tempo e espaço voltam a ser subvertidos no desfecho de Queer. A imagem de William Lee na velhice nos remete ao astronauta solitário de Stanley Kubrick no final de 2001, que mira a si mesmo e sua história derradeira enquanto encara a morte inelutável. O destino dos protagonistas parece comprovar que o mesmo amor que salva pode ser o amor que condena.


Com sua usual ousadia estilística Luca Guadagnino explora com sensibilidade temas fundamentais do ser humano como amor-próprio, solidão e identidade. Estranho e incomum, Queer é um filme inquietante com uma pungente história de amor e luxúria, embriagada de tequila em terras tropicais.

Assista ao trailer: Queer


Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A Linha da Extinção: proibido ultrapassar

 

Nos últimos anos o título de uma leva de filmes de gênero (suspense, terror e até comédia), em sua versão brasileira, tem adotado a prática de dar ordens de comando aos personagens / espectadores, tipo “não olhe”, “não conte”, “não fale”, “não case”, “não abra”, “não se mexa” e “não solte”. O thriller de ação e ficção científica A Linha da Extinção (Elevation, 2024) não se enquadra exatamente nesta moda, mas muito bem poderia se chamar “Não Desça”. Na premissa do filme as populações de um mundo pós-apocalíptico se refugiam nas zonas altas das montanhas. A recomendação é de que não se desça abaixo dos 2.400 metros de altura, a chamada linha da extinção. Ao ultrapassarem este limite as pessoas são atacadas por criaturas monstruosas de origem desconhecida.

Em uma desta comunidades, uma pequena vila na verdade, moram os protagonistas: Will (Anthony Mackie), com seu filho Hunter que sofre de problemas respiratórios, Nina (Morena Baccarin) e Katie (Maddie Hasson). A localidade foi criada há três anos, após os acontecimentos que marcaram o surgimento dos “ceifadores”, os seres que emergiram misteriosamente do subsolo para ocupar e dominar o planeta. A origem do êxodo das pessoas para as montanhas é narrada com muita síntese durante os créditos de abertura. Pressionados pela crescente escassez de alimentos e pela necessidade de suprimentos médicos para Hunter, o trio decide empreender uma perigosa missão em busca de recursos em um hospital abandonado, localizado bem abaixo da linha da extinção de 2.400 metros.


A jornada de sobrevivência do grupo em meio hostil é o mote da trama central da ação de A Linha da Extinção, que tem a direção de George Nolfi (de Os Agentes do Destino). Outro ingrediente que tempera a aventura é a relação de antagonismo que existe entre os integrantes do trio. Todos possuem um passado comum cujas consequências, de alguma maneira, se refletem no presente causando um tensionamento nas relações, que explodem justamente no momento menos apropriado: quando embarcaram em uma perigosa viagem. 

Os cenários naturais das montanhas do Colorado são muito bem utilizados contribuindo para o dinamismo de boas tomadas com drones. Uma das sequências a se destacar é a do teleférico que garante bons momentos de suspense e tensão, onde o cenário natural assume importante papel narrativo. Neste aspecto relacionado ao ambiente, onde a ameaça da trama surge da natureza, o filme A Linha da Extinção se aproxima – ou ao menos lembra demais - do universo dos filmes da franquia Um Lugar Silencioso, que também lida com as ameaças do desconhecido que destroem o mundo que conhecemos.


A produção do filme traz os nomes de Anthony Mackie e Morena Baccarin, o que lhes garante o protagonismo compartilhado, porém com resultados diversos. Enquanto Mackie (o novo Capitão-América), que faz o papel de um pai dedicado que arrisca a vida para salvar a vida do filho, possui poucos momentos para brilhar de verdade, a brasileira Morena Baccarin (de Deadpool) ganha bastante espaço para desenvolver uma personagem com uma pesada carga emocional interior e também uma missão pessoal de descobrir uma maneira de eliminar as criaturas.


A ação de A Linha da Extinção é bastante convencional, com soluções previsíveis e situações clichê. Um pecado mortal é o excesso de diálogos expositivos, como que a prestar contas ao espectador sobre os fatos que estão acontecendo. A bem da verdade o filme não possui grandes ambições justamente por reconhecer sua dimensão, pois é a típica produção com o perfil de grande circulação nas plataformas de streaming, onde possivelmente possa ter vida longa. A propósito, o gancho para a provável sequência é apresentado na cena pós-créditos.

Apesar de estar longe de ser filme do qual lembremos por muito tempo, A Linha da Extinção é um entretenimento que não ofende a inteligência do espectador. É rápido e conciso, para assistir com o cérebro desligado. 

Assista ao trailer: A Linha da Extinção


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 19 de novembro de 2024

Herege: questão de fé

 


Duas garotas sentadas em um banco de rua conversam amenidades até que o assunto inesperadamente passa para temas explicitamente sexuais. Completando o quadro, a câmera se afasta e exibe uma propaganda de preservativo no encosto do banco. Uma ironia contraditória se estabelece nos primeiros minutos de Herege (Heretic, 2024) quando descobrimos que as duas garotas em conversa tão liberal são na verdade missionárias católicas que tem como tarefa conquistar novos fiéis através da palavra. A missão do dia é visitar um homem descrente para convertê-lo para a religião. O homem em questão é o misterioso e recluso Sr. Reed (Hugh Grant) que vive isolado em um casarão. 

O thriller de horror psicológico Herege é uma produção da A24, dirigido pela dupla Scott Beck e Bryan Woods, que tem como destaque o protagonista: Hugh Grant. Conhecido por uma série de comédias românticas como Quatro Casamentos e Um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill e Simplesmente Amor, aqui Hugh Grant está em registro sombrio e maligno, completamente oposto à persona que criou no cinema, ainda que preserve parcialmente alguns trejeitos de seus papéis mais cômicos, quando faz o cara legal e simpático. O que, a propósito, muito contribui para a construção do sarcasmo deste personagem complexo.


Ao receber a visita das duas jovens o Sr. Reed manifesta interesse em ouvir as palavras de fé trazidas pelas missionárias. A contragosto elas aceitam entrar na casa com um homem que vive só. A pregação começa amigável e descontraída, até que em dado ponto Reed passa a dominar a conversa e conduz as ações. Ele debocha e deprecia todos os aspectos dogmáticos das religiões segundo sua interpretação torta e distorcida. Seu principal propósito é contestar e destruir verdades estabelecidas, contradizendo todo o discurso das missionárias. Segundo sua tese todas as ideias religiosas existentes são plágios reelaborados de histórias passadas. Chega inclusive a fazer uma analogia muito esperta e bem sacada com o mercado da música, que eventualmente é acusada de fazer plágio, deliberadamente ou não, de canções ou acordes já existentes. Há ainda outra metáfora quando compara as preferências das jovens para os sanduíches mais conhecidos das famosas franquias de fast food, para concluir que no final das contas são todos iguais. Segundo ele o mesmo ocorre com as religiões: são fast foods da fé para rápido consumo.


Fica claro que as garotas entraram em uma cilada. Reed pretende subjugar suas presas com argumentos pretensamente inteligentes e coerentes, visando despertar suas consciências capturadas pela crença religiosa. Quando a situação fica por demais incomoda, as garotas sinalizam a intenção de abandonar o local. Então o terror começa. A visita de cortesia para evangelização se transforma em uma armadilha sem chance de fuga. Sem poderem sair da casa inicia-se uma espécie de jogo macabro de manipulação mental. A tese defendida pelo personagem de Hugh é de que a construção das grandes religiões – cristianismo, islamismo e judaísmo – se dá como forma de controle social e conquista de seguidores. A origem da profissão de fé, em tese, é a mesma. Apenas seguem por caminhos diferentes. 

As missionárias possuem histórias pessoais e origens muito diferentes, razões que justificam as maneiras distintas que reagem às ameaças que sofrem no interior da casa. Mas as aparências enganam, como diz a máxima. Herege possui uma proposta de narrativa tipo huis clos, circunscrita em um ambiente único, restrito e confinado. O casarão de Reed faz as vezes de um imenso parque de diversões macabro onde brinca com seus jogos de poder sobre o destino de suas vítimas.



Herege se apropria de discussões sobre temas de fé misturadas com reflexões filosóficas rasas. Questiona os dogmas religiosos e o poder transformador da crença no livre arbítrio das pessoas, pois não passam de utilização mercadológica da religião ao longo dos séculos. Mais do que terror, Herege se coloca como uma experiência de suspense e tensão. A necessidade de provocar reviravoltas apressa e prejudica a experiência final do filme. A meticulosa construção do clima de tensão é destruída no terço final por uma série de acontecimentos fortuitos que quebram completamente a proposta inicial, tão bem conduzida até então. Herege passa 110 minutos pregando o ateísmo para, ao fim, plantar sementes da dúvida.

Assista ao trailer: Herege

 

Jorge Ghiorzi

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quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Gladiador II: força e honra

O tempo decorrido entre o primeiro Gladiador (2000) e sua sequência Gladiador II (2024) é de praticamente 25 anos, o mesmo período de tempo real que separa o enredo da continuação da história original. Não é surpresa para ninguém, portanto não se trata de spoiler, pois está no trailer, o novo filme de Ridley Scott é centrado na figura do filho do ex-general e gladiador Maximus (Russell Crowe), que por circunstâncias análogas retorna à Roma na condição de prisioneiro de guerra e também se torna gladiador nos jogos do Coliseu. 

O filme abre com um prólogo que narra uma épica batalha entre o exército romano, comandado pelo general Marcus Acacius (Pedro Pascal) contra as forças de defesa da Numídia (território no norte da África, onde hoje se localiza a Argélia e Tunísia). A campanha expansionista conquista mais um território para o poderoso Império Romano. No espólio da guerra centenas de prisioneiros são enviados para trabalho escravo nas redondezas de Roma. Dentre estes prisioneiros está Hanno / Lucius (Paul Mescal, de Aftersun) que acaba sendo comprado pelo influente mercador e negociante Macrinus (Denzel Washington) para ser utilizado como gladiador.


Estes primeiros momentos de Gladiador II nos fazem pensar estarmos diante de uma mera refilmagem do filme original, e não propriamente de uma continuação. As sagas dos protagonistas são muito semelhantes. Porém, logo Ridley Scott mostra a que veio. A saga de uma vingança pessoal é apenas um ponto de partida. Outras camadas são acrescentadas à trama central e o enredo se transfigura em uma narrativa de conspirações, tramas palacianas e luta pelo poder supremo do Império. Neste aspecto o eixo da trama sai da figura do gladiador, que reprisa a trajetória do pai, e se concentra na personagem de Macrinus, em uma poderosa interpretação de Denzel Washington. 

Assim como o gladiador Hanno / Lucius luta com seus demônios internos para honrar e merecer o legado da história de seu pai, Gladiador II vem à luz com a tarefa de fazer jus ao legado do Gladiador I, que foi o filme sensação do início dos anos 2000, sucesso de bilheteria e crítica. Ridley Scott comanda essa retomada do projeto (muitas vezes adiado) sempre de olho no retrovisor, prestando tributo àquela produção fundamental que restituiu seu prestígio como realizador. Vale lembrar que o primeiro Gladiador conquistou cinco prêmios no Oscar de 2001, incluindo Melhor Filme e Ator, além de garantir uma indicação pela direção de Ridley Scott.


Nestas duas décadas e meia que separam os dois filmes houve uma significativa evolução técnica da computação gráfica, ainda um tanto incipiente no uso em larga escala naquele período de produção de Gladiador I. Os cenários gerados por bits e bytes comprovaram a viabilidade e verossimilhança da técnica e marcou época, abrindo caminho para uma série de filmes históricos e séries de fantasia, incluindo produções como Game of Thrones e similares. Hoje não há mais novidade neste campo, há inclusive um certo enfado pelo uso recorrente e não criativo da técnica, que virou um recurso antinatural que frequentemente incomoda as plateias. O uso massivo de computação gráfica pode irritar muita gente, mas certamente não irrita Ridley Scott. Nesta nova produção ele vai fundo na utilização deste recurso técnico em busca de uma monumentalidade forçada em sua obra, a ponto de sufocar visualmente a narrativa que tem lá seu interesse como exercício de jogos de poder. 

Ridley Scott é um cineasta de contradições, por vezes extremas. Costuma errar e acertar com uma frequência consistente, sempre alternando filmes de qualidade e impecável produção com outros tantos equívocos imperdoáveis e frustrantes. Sua ambição estética costuma se sobrepor ao conceito narrativo de seus projetos. Sua opção primeira costuma ser pelo épico monumental, depois, em segundo plano vem o storytelling, os arcos narrativos e suas decorrências. Ridley é o cineasta do espetáculo, não do personagem. Posto isso, Gladiador II é um exemplo típico da marca padrão de seu realizador. A busca pela grandiosidade está presente em muitos momentos, incluindo sequências exageradas com rinoceronte, babuínos e .... tubarões, em plena arena do Coliseu.


No entanto, além da relevância dos aspectos estéticos, há uma história a ser contada. O conflito em Gladiador II coloca em oposição a visão de mundo de Maximus e seus descendente Lucius. O pai possuía uma visão otimista do Império, antes de ser sacrificado por seus ideais. Já o seu filho nutre um pessimismo profundo sobre o destino do Império e dos líderes que o comandam. Sua luta não é para manter uma utopia visionária de um reino de justiça e paz, como seu pai. Sua ira se manifesta para justamente restituir os ideais de uma sociedade que sucumbe pelo hedonismo, ganancia, corrupção e tirania. O que Gladiador I possuía de heroico foi substituído pelo ceticismo sombrio em Gladiador II. Ou seja, o que era ruim no passado fica ainda pior e decadente 25 anos depois.


“O que fazemos em vida ecoa por toda a eternidade”. Parafraseando esta frase icônica de Gladiador I poderíamos afirmar que Gladiador II será um filme memorável no futuro? Dificilmente. A mescla de ação e drama é um tanto rasa e óbvia, não acertando a mão plenamente em nenhum dos caminhos. Cumpre apenas a promessa de entregar um épico de entretenimento com excelência técnica. Há, no entanto, um ponto que o coloca em destaque. A simples participação de Denzel Washington em cena eleva necessariamente a qualidade de qualquer filme onde esteja presente. Seu desempenho aqui é nada menos que primoroso e garante o interesse do público para uma sequência que, se não supera o legado do filme anterior, tem seus méritos por ousar um rumo próprio para além de uma simples reprodução do modelo original.

Assista ao trailer: Gladiador II


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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quarta-feira, 9 de março de 2022

“Belfast”: crônica irlandesa


A utilização das cores, ou sua ausência, é uma decisão estética que prenuncia a proposta memorialista de Belfast (Belfast, 2022) de Kenneth Branagh. O exercício de estilo se evidencia já na abertura com os planos aéreos da colorida capital da Irlanda do Norte nos dias atuais. Na sequência ocorre uma transição, as cores desbotam e retornam ao básico preto e branco. Num passe de mágica da edição somos transportados para o passado. Mais precisamente a Belfast de 1969, quando o realizador tinha apenas nove anos. A cidade passa a ser então apenas cenário, pois o protagonismo será do seu pequeno alter ego, Buddy (Jude Hill). Será sob seus olhos que seremos testemunhas de um doce e singelo acerto de contas com as memórias afetivas de Branagh. E que maneira melhor para um artista do audiovisual fazer isto senão através de um filme de recorte nostálgico?

À sua maneira Kenneth Branagh faz de Belfast um Amarcord (Fellini), um Roma (Cuarón), um Os Esquecidos (Truffaut) para chamar de seu. A referência não é gratuita, pois o cinema, de modo geral, está muito presente na crônica por meio das memórias dos filmes que Buddy assiste na TV (sempre em preto e branco) ou nas salas de exibição (sempre coloridos). Naquela época Belfast – e a Irlanda de modo geral – vivia tempos de guerra civil com os constantes embates entre protestantes e católicos.



No meio deste conflito encontramos pela primeira vez o pequeno Buddy. No caso específico, literalmente. Enquanto brincava na até então tranquila rua na frente de casa, em um bairro proletário dos subúrbios da cidade, o garoto vê, para seu espanto genuíno, uma guerra ser deflagrada bem na frente dos seus olhos. Em um elegante giro de 360º (tipo Cidade de Deus) a câmera identifica todo o entorno do personagem até assumirmos seu ponto de vista. Um bando de ativistas protestantes invade a rua e barbariza geral com bombas e tiros a quietude daquela gente, exigindo a retirada imediata de todos os católicos da região. Este episódio de violência vai afetar e determinar os destinos de Buddy e sua família a partir de então.


Para o garoto o conflito é apenas um acontecimento chato, que atrapalha as brincadeiras de rua devido às barricadas que os vizinhos do bairro montam nas esquinas para não serem novamente surpreendidos pelos ataques. Parcialmente alheio, ou ao menos sem a compreensão total do que está ocorrendo, Buddy na verdade está mais interessado nos filmes, no despertar do olhar para as garotas, nos chocolates surrupiados do armazém da esquina e nos papos com seus amorosos avós (Ciarán Hinds e Judi Dench, espetaculares). Em casa vive num lar com pais separados – não pelo casamento - mas pelas condições de trabalho. O pai (Jamie Dornan) trabalha em outra cidade e passa longas temporadas longe de casa. A mãe (Caitriona Balfe) assume a gestão da família, dos filhos, da sobrevivência em meio aos conflitos e das dívidas com o banco. Tudo isto leva a um ponto de inflexão que exigirá uma difícil decisão para a família: mudar de cidade para buscar melhores condições de vida, deixando para trás suas raízes culturais e afetivas, ou ficar lutando para tentar mudar uma realidade que ameaça o futuro dos filhos.


Tudo é narrado por Branagh de forma sincera, honesta e afetuosa, sem revelar dor excessiva. A guerra, o desemprego e as lutas religiosas são meros panos de fundo quando vistos pelos olhos inocentes de uma criança. O roteiro (do próprio diretor) opta por captar apenas o lado alegre da vida, apesar da realidade circundante eventualmente não ser um mar de rosas. Não é exatamente uma fuga da realidade, mas uma forma humanizada de resgatar o passado, como a nos dizer que, apesar de tudo, “éramos felizes e não sabíamos”.


Formalmente belo e sedutor, Belfast propõe uma visão humanizada – mas idealizada e romântica - de um momento decisivo da história da Irlanda. Não é assim que funcionam nossas reminiscências? Contamos as melhores partes e deixamos as dores para trás.  O longa representa também uma bem-vinda retomada de Kenneth Branagh aos filmes mais autorais. Nos últimos tempos ele vinha se especializando em ser um artesão de luxo de Hollywood realizando uma série de projetos grandiosos sob encomenda para os grandes estúdios, que procuram o verniz de um diretor de prestígio para comandar grandes filmes populares (Thor, Cinderela, Artemis Fowl). No início de carreira chegou a ser chamado de “novo Laurence Olivier” por dirigir e estrelar com grande sucesso uma versão de Henrique V em 1989. Que este reencontro de Branagh com o passado em Belfast sirva para reorientar sua carreira para novos rumos.

Assista ao trailer: Belfast

 

Jorge Ghiorzi

Membro da ACCIRS


quarta-feira, 2 de março de 2022

“Batman”: mais herói, menos super


O Halloween, o Carnaval dos países anglo-saxônicos, é aquela celebração pública onde somos autorizados a vestir uma fantasia e colocar uma máscara para interpretar um papel diferente daquele que vivemos no cotidiano. Não é a toa que o novo Batman (The Batman), recriado por Matt Reeves (Cloverfield – Monstro, Deixe-me Entrar e Planeta dos Macacos – O Confronto), inicie justamente em um dia 31 de outubro, Dia das Bruxas. Os mascarados, heróis e vilões, saem das sombras e barbarizam numa soturna Gotham City. Os primeiros minutos da nova aventura do cavaleiro das trevas já dão a senha: esqueça tudo que você já viu do Batman. Inicia aqui uma Nova Era para as adaptações cinematográficas do personagem.

Após uma dezena de encarnações em diferentes filmes, com diversas interpretações e distintas estéticas, tudo leva a crer que o Batman de 2022 tenha enfim chegado ao tão desejado estado da arte almejado pela Warner / DC. Com direito a bônus. O filme ainda possui potencial para disputar as estatuetas do Oscar no ano que vem, ainda que tenha sido lançado cedo demais, pois as indicações só começam a esquentar e definir-se a partir de outubro. Portanto, a Warner terá que manter o hype por vários meses.


Quando o novo projeto de uma adaptação de Batman foi anunciado há poucos anos, houve forte manifestação contrária dos fãs mais radicais, essencialmente preconceituosa, que criticaram a escolha de Robert Pattinson para substituir Christian Bale no papel de Bruce Wayne / Batman. O receio era que o forte recall de Pattinson como o frágil e insosso vampiro da franquia Crepúsculo poderia comprometer a credibilidade do personagem. Mas, com o filme na tela, a desconfiança evaporou, como se nunca tivesse existido. Pattinson encontrou o tom adequado para interpretar o Batman fatalista e amargurado proposto por Matt Reeves.

Isto no leva a outro ponto de observação. Desta vez Batman é efetivamente o protagonista que conduz a história, acompanhamos essencialmente o ponto de vista do herói, e não dos vilões, como estava se tornando certa tendência nas encarnações anteriores. Mas do que se trata este novo Batman sob o comando de Reeves? Basicamente o que temos é uma história de caça ao assassino, o mote elementar das histórias policiais de investigação. O que, convenhamos, faz total sentido com o cânone original do herói mascarado. Afinal, o homem-morcego surgiu no mundo dos quadrinhos em uma publicação chamada “Detective Comics” em 1939, e logo passou a ser conhecido como o “Melhor Detetive do Mundo” no universo das HQs. Portanto, estamos diante de um retorno à essência do personagem, um resgate de identidade.


Localizado no segundo ano após o surgimento de Batman como vigilante das ruas de Gotham City, o filme nos mostra um Bruce Wayne recluso, refugiado em sua gótica mansão. Seus poucos contatos são o ajudante de ordens, Alfred Pennyworth (Andy Serkis), e o Tenente James Gordon (Jeffrey Wright). Quando um sádico assassino serial tem como alvo a elite política da cidade, uma série de mensagens enigmáticas leva o “maior detetive do mundo” para o centro das investigações no submundo corrupto da cidade. Na jornada ele encontra personagens como Selina Kyle, também conhecida como Mulher-Gato (Zoë Kravitz), Oswald Cobblepot / Pinguim (Colin Farrell), Carmine Falcone (John Turturro) e Edward Nashton, conhecido como o Charada (Paul Dano). Batman precisa desmascarar o(s) culpado(s) e fazer justiça ao abuso de poder e à corrupção que há muito tempo assola Gotham.

Um fato flagrante que salta aos olhos neste novo Batman é a utilização comedida do CGI, o que resulta em um personagem e uma narrativa mais orgânica. O conceito de low tech também se manifesta nas bat-gadgets. O carro do Batman está mais para um Mustang tunado e a moto é praticamente convencional, bem distante da visão altamente tecnológica que Christopher Nolan mostrou na sua trilogia com naves sofisticadas, supercarros e motos com design inovador. Então, estamos diante de um Batman mais pé no chão. O contato com o chamado mundo real que vivemos é ainda espertamente reforçada com a utilização de uma canção do Nirvana que pontua o filme e cujas primeiras notas (rearranjadas pelo autor da trilha sonora, Michael Giacchino) são acordes que assinam a presença do herói mascarado. Por fim, um destaque para a maravilhosa paleta de cores do fotógrafo Greig Fraser (do recente Duna) que inclui o vermelho neon, sem comprometer o aspecto soturno e pesado da direção de arte, que por vezes nos remete a Seven de David Fincher, não por acaso um filme sobre um assassino serial.


Diferente da imensa maioria dos filmes inspirados em quadrinhos o Batman de Reeves não sucumbe à urgência de uma narrativa de caráter pop, pois tem sempre algo um tanto mais consistente a nos contar. O andamento é ritmado, pausado, expandido. Dá o tempo necessário de reflexão ao expectador e assegura robustez à construção do protagonista, com suas motivações, seus vacilos, sua ação cerebral e suas interações pessoais. Claro, sem abrir de das necessárias sequências pontuais de ação (sem excesso), afinal, trata-se de uma adaptação de quadrinhos para o cinema, e a base de fãs precisa ser contemplada com o espetáculo.


Estamos diante de um ponto de virada nas adaptações de quadrinhos? Difícil afirmar, mas a amostra é promissora. O que podemos sim reconhecer é que houve uma dose de ousadia da DC em explorar novas possibilidades e finalmente dar uma cara própria para seus filmes de (super) heróis. Com Batman (cujo título no Brasil não leva o artigo “O”) a DC ganha autoridade e personalidade com uma muito bem sucedida reinterpretação do morcego mascarado.

Assista ao trailer: Batman


Jorge Ghiorzi

Membro da ACCIRS


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

“Uncharted – Fora do Mapa”: corrida do ouro

A caça aos tesouros de ouro, base de muitas aventuras da literatura clássica e filmes de matinê da primeira metade do século XX, segue inspirando a imaginação dos roteiristas. Há, sem dúvida, um toque de nostalgia ao se resgatar este tipo de temática para o cinema do novo milênio. Um mundo onde o ouro, objeto cobiçado por 10 entre 10 exploradores de tesouros, já nem representa mais a melhor forma de conquistar fortunas no limite da ilegalidade. Um golpe com moedas criptografadas, ou saques virtuais de contas bancárias, por exemplo, seria bem mais fácil, rápido e “seguro”. Mas, reconheçamos, é um tanto sem graça. Onde ficaria a adrenalina da aventura?

Dito isto, chegamos a Uncharted – Fora do Mapa (Uncharted), dirigido por Ruben Fleischer (de Zumbilândia 1 e 2, Caça aos Gângsteres e Venom), uma aventura de ação que pretende reviver o clima dos antigos filmes de sessão da tarde, com a roupagem, a estética e o ritmo acelerado do cinema contemporâneo. A origem de Uncharted é bem menos nobre, pois não vem da literatura tradicional, mas sim do universo dos videogames. Trata-se de uma versão live action de uma série de muito êxito da Sony / PlayStation.


O esperto barman Nathan “Nate” Drake (Tom Holland), perito em pequenos golpes, é recrutado pelo caçador de tesouros Victor “Sully” Sullivan (Mark Wahlberg) para recuperar uma fortuna em ouro perdida há 500 anos, que valeria alguns bilhões de dólares. O que começa como um golpe, acaba se tornando uma aventura épica que se estende pela Europa e Ásia para alcançar o tesouro antes do implacável vilão espanhol, Santiago Moncada (Antonio Banderas), que acredita que é o herdeiro legítimo da fortuna. Se Nate e Sully forem capazes de decifrar as pistas para resolver um dos mistérios mais cobiçados do mundo, eles podem encontrar o tesouro e talvez até o paradeiro do irmão de Nathan, há muito tempo desaparecido.

A série Uncharted já conta com quatro volumes de jogos para as plataformas digitais. Para a adaptação a opção dos produtores foi não realizar um filme de origem, mas uma aventura que trouxesse elementos de vários dos jogos e expandisse seu contexto para a mídia cinematográfica. A preocupação era assegurar que o público não tivesse a necessidade de conhecer os jogos para acessar o universo do filme. Outra importante decisão do diretor Ruben Fleischer foi filmar preferencialmente (tanto quanto possível) em locações e sets construídos, ao invés de gerar tudo por computação gráfica, como é bastante comum. Cenários reais efetivamente trazem vida para a tela e tornam mais tangível o mundo da narrativa. Então, ponto para Uncharted neste quesito.


A dupla central Holland – Wahlberg funciona muito bem, deu liga como se diz. Já o mesmo não se pode dizer da coprotagonista Sophia Taylor Ali, que fica muitos pontos abaixo, destoa do clima geral e fica muito a desejar. Sua personagem, Chloe Frazer, é praticamente nula e irrelevante para o andamento da trama. No quesito participação de prestígio, Antonio Banderas tenta dar um ar de sofisticação ao vilão espanhol, mas parece estar em cena apenas para garantir um nome forte no pôster do filme, já que sua presença também pouco se justifica, não diz a que veio e pouco (ou nada) acrescenta à aventura de caça ao tesouro.

Exploradores em busca de relíquias históricas remetem inevitavelmente à figura icônica de Indiana Jones, a quem Uncharted reverencia e bebe na fonte em algumas sequências. Inclusive com uma breve citação literal ao nome do clássico personagem criado pela dupla Spielberg – Lucas há 40 anos (!), criando um momento curioso onde a ficção invade a ficção. Outra referência que o filme traz à memória é a aventura estrela por Nicolas Cage em 2004, A Lenda do Tesouro Perdido.


Uncharted – Fora do Mapa sofre da sina que costuma assolar a imensa maioria dos filmes adaptados de videogames. A sensação imersiva de um jogo digital costuma se perder quando reproduzida na tela grande. E não foi diferente aqui. A solução encontrada pelos roteiristas (a já citada utilização de partes de histórias de jogos diferentes) fragmenta por demais a narrativa e compromete a coesão. Parece estarmos diante de um roteiro escrito por inteligência artificial através de algoritmos. Está tudo ali, os personagens, a trama, o conflito, mas, algo não funciona em plenitude nesta experiência de gamificação. O saldo, não mais que mediano, talvez assegure uma sequência. Uma cena pós-crédito sugere isto. Que tenha mais sorte, ou competência, na próxima vez. Caso contrário, game over.

Assista ao trailer: Uncharted – Fora do Mapa


Jorge Ghiorzi

Membro da ACCIRS