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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Dia D: o dia em que a Terra mudou

 

Uma ótima notícia. O bom e velho Steven Spielberg de guerra está de volta, em excelente forma. Esse retorno também pode ser avaliado como uma retomada de suas origens como cineasta. Cinco décadas depois do monumental Contatos Imediatos do Terceiro Grau (que cresce a cada revisão), o diretor revisita o tema da existência de vida extraterrestre. A bem da verdade, a presença alienígena é um assunto recorrente na sua filmografia, surgido já em seus primeiros curtas-metragens caseiros, como Firelight (1964), e que prosseguiu em longas como E.T. – O Extraterrestre, A.I. – Inteligência Artificial e Guerra dos Mundos, além de inúmeras outras produções em que atuou apenas como produtor.

O lançamento de Dia D (Disclosure Day) marca mais um capítulo dessa saga pessoal de Spielberg, consolidando a exploração de um tema que fascina o realizador desde a juventude. Mais do que uma simples escolha de gênero, a busca pelo desconhecido e pelo cósmico se reflete na tela como um elemento central de sua própria identidade artística. Se o episódio histórico do Dia D na Segunda Guerra Mundial já foi retratado pelo diretor no clássico O Resgate do Soldado Ryan, momento em que o curso da história foi alterado para sempre, agora, em termos ficcionais, Spielberg projeta na tela um outro Dia D, articulando o potencial impacto de transformação da humanidade pela revelação da existência de seres de outros mundos que nos visitam desde sempre.


Houve uma coincidência histórica (intencional ou não, vai saber) no fato de o lançamento desse épico de ficção científica se dar justamente no momento em que o governo dos EUA libera uma série de vídeos sigilosos que registram fenômenos e supostas aparições de naves de origem desconhecida. Segredos revelados, a propósito, formam a base sobre a qual se constitui esse Dia D, que, na tradução literal do título, se refere ao dia da revelação.

Na abertura, Spielberg já diz a que veio. O filme inicia acelerado e tenso, mostrando uma operação da agência secreta do governo norte-americano, dirigida por Noah Scalon (Colin Firth), responsável por acobertar evidências de vida extraterrestre. O alvo da investida é o ex-funcionário Daniel Kellner (Josh O’Connor), acusado de roubar registros sigilosos que comprovam que há décadas somos visitados por seres de outros planetas. Em paralelo, o outro eixo narrativo da história acompanha a apresentadora de TV Margaret Fairchild (Emily Blunt, excelente), que, durante um boletim meteorológico ao vivo, começa a agir estranhamente ao emitir sons guturais, os quais, logo descobrimos, pertencem à linguagem dos alienígenas.


O filme antecipa com habilidade um momento bastante crível em um futuro incerto: aquele em que descobriremos que não estamos sós no universo. Sem dúvida, caso isso se confirme, estaremos diante de um irreversível ponto de inflexão para a humanidade, que será impactada por profundas transformações. Spielberg trata deste assunto com a devida reverência sem, no entanto, perder o sentido de espetáculo, transformando Dia D em uma obra grandiosa e ambiciosa, com amplo espectro temático. Ao mesmo tempo que discute o acobertamento governamental de assuntos delicados, o diretor reconhece que esses temas são capazes de subverter a ordem pública, reordenar a geopolítica e ressignificar as religiões. 

Fábulas infantis sempre foram inspirações seminais para Spielberg. Lembremos as citações de Peter Pan em E.T. e Hook, e também a fada em A.I. – Inteligência Artificial, apenas para citar algumas. Em Dia D também há menção às histórias infantis. No caso, a referência é ‘João e Maria’, que simbolicamente traz uma alegoria da dupla (no filme, Daniel e Margaret) que se perde na floresta e descobre, com inteligência, o caminho de volta para casa com um tesouro como recompensa. No longa, essa recompensa atende pelo nome de Verdade.


Em 1938, Orson Welles colocou em pânico os ouvintes de rádio nos Estados Unidos ao narrar uma suposta invasão da Terra por naves espaciais, inspirado na obra ‘A Guerra dos Mundos’, de H. G. Wells. Uma experiência fantasiosa que chocou a população da época. Em escala globalizada e potencializada, é isso que a ficção de Dia D propõe. Com as facilidades que a tecnologia atual permite, ao toque de um botão uma mesma informação pode ser transmitida simultaneamente para todo o mundo. É justamente nessa dinâmica que reside um dos grandes acertos do filme, apresentado como uma sequência final de alto impacto emocional, magistralmente dirigida por Spielberg.


Como thriller de conspiração, Dia D é uma experiência emocionante, que apresenta uma ampla gama de temas e provoca diferentes sensações. Há mistério, intriga, perseguição de carros, suspense, ficção científica e encantamento. O longa traz a marca indelével dos melhores momentos do realizador ao entregar para a audiência uma narrativa plena de otimismo, magia e esperança. Steven Spielberg segue como um cineasta cheio de ideias, motivado pela imaginação e pela curiosidade. Ainda é possível vislumbrar um jovem maravilhado com o cinema habitando seu corpo de quase 80 anos. Tudo isso está presente em Dia D, uma obra que resgata e consolida o talento de um realizador que reafirma seu legado como ícone vivo do cinema moderno.

Assista ao trailer: Dia D


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


terça-feira, 9 de junho de 2026

O Afinador: a arte do crime

 

O famoso ditado popular "a ocasião faz o ladrão" sugere que, diante de condições favoráveis ou de uma avaliação moralmente flexível, pessoas comuns, até então distantes do delito, podem sucumbir à tentação. É precisamente nessa zona cinzenta da moralidade que se move o protagonista do longa-metragem O Afinador (Tuner), dirigido por Daniel Roher, cineasta canadense vencedor do Oscar pelo documentário Navalny.

O personagem-título, Niki (Leo Woodall, visto recentemente em Nuremberg e integrante do elenco da série The White Lotus), é um talentoso afinador de pianos que trabalha junto com seu mentor e eventual cupido, Harry Horowitz (Dustin Hoffman, em participação luxuosa), atendendo à clientela de alto padrão em Nova York. Graças a uma condição especial de sua audição — o ouvido absoluto —, Niki acaba descobrindo por acaso que seu talento pode ser utilizado também para atividades menos nobres. Sua capacidade aguçada de percepção sonora permite que ele se dê bem desvendando o segredo de cofres apenas com sua sensibilidade tátil e auditiva. Esses talentos secretos despertam a atenção de uma gangue de assaltantes, que passa a utilizá-lo como uma “arma infalível” em seus roubos.

O protagonista justifica intimamente sua adesão ao crime como uma forma de ajudar Harry, debilitado por uma doença e sufocado por dívidas. Estamos, então, diante daquela clássica situação em que, pelas razões corretas, alguém faz a coisa errada. Niki se conforta moralmente por estar agindo de forma válida e bem-intencionada, ainda que eticamente condenável e criminosa. 

Além do dilema moral, Niki luta contra seus próprios fantasmas internos. Por conta de sua condição peculiar de saúde (a hiperacusia), que exige proteção constante contra os ruídos cotidianos, ele vive uma forma de exclusão social que o afasta do convívio mais íntimo. O protagonista habita, fundamentalmente, uma bolha sonora controlada, utilizando fones de ouvido para abafar o mundo exterior. Essa hipersensibilidade não apenas dificulta seus relacionamentos, mas também sabotou seu grande sonho de seguir carreira como pianista. A vida o empurrou para o papel de técnico de afinação, uma posição invisível em que auxilia outros a praticarem sua arte, em vez de ele próprio ser o artista a executar as composições. Por incentivo do tio, um interesse amoroso eventualmente surge em sua vida quando conhece a também pianista Ruthie (Havana Rose Liu) durante um atendimento em um conservatório.


O desenvolvimento da trama acompanha de perto a degradação moral, os conflitos e as pressões sociais e familiares que levam o habilidoso afinador ao limite. Incapaz de se realizar como artista, após ter a carreira frustrada por limitações que fugiam ao seu controle, Niki encontra nos caminhos tortuosos da criminalidade uma espécie de palco alternativo, onde seu talento finalmente é reconhecido e valorizado. 

O Afinador é o que se poderia chamar de “filme menor”. Não como um juízo de valor sobre suas qualidades, mas em referência às suas condições de produção. Trata-se daquele tipo de obra com baixa taxa de sobrevivência nas salas de shopping, mas que encontra facilmente seu público no streaming. Que não haja engano: este é um longa-metragem que merece atenção e visibilidade, revelando-se muito mais afinado e envolvente do que uma primeira impressão pode sugerir. À sua maneira, é um drama intimista feito à moda antiga, construído com coração, afeto e arte minimalista. Uma composição rara nos tempos atuais, que exigem das plateias adesão total a espetáculos hipertrofiados de som, luzes e ação vertiginosa. Em contraposição a esse excesso, o filme nos oferece a beleza serena de notas musicais bem afinadas.

Assista ao trailer: O Afinador


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Backrooms – Um Não-Lugar: perdidos no labirinto

Os últimos anos, particularmente após o período da pandemia, têm sido pródigos para o cinema de terror e horror. Tradicionalmente relegados ao segundo plano em termos de prestígio, esses longas-metragens que se propõem a levar sustos às plateias têm recebido cada vez mais atenção do público, garantindo gordas bilheterias que sustentam a manutenção do ciclo. Raras são as semanas nas quais não temos um lançamento do gênero. Sem dúvida, eles são a bola da vez. Uma prova do alcance crescente dos filmes de terror se manifesta pela origem cada vez mais ampla dos argumentos das produções. 

Nos primeiros tempos, os filmes do gênero eram inspirados pela literatura, como o ciclo de monstros da Universal nas décadas de 1930 e 1940 (Frankenstein, Drácula, O Lobisomem). Depois, o modelo de representação foi influenciado por fatos reais, casos escabrosos e violência explícita, a exemplo de Psicose e dos assassinos em série em geral. Para os tempos mais recentes, essencialmente neste século XXI, uma das fontes de inspiração tem sido os fenômenos virais gerados pelo YouTube e pelas redes sociais. Para comprovar essa força recente do terror que se alimenta de conteúdos originalmente criados na internet, chega às telas dos cinemas Backrooms – Um Não-Lugar (Backrooms, 2026), dirigido por Kane Parsons.


O filme é baseado na websérie “The Backrooms”, que explora uma lenda urbana digital sobre a existência de uma dimensão paralela, composta por um labirinto infinito de salas vazias com paredes amareladas, carpete úmido e o zumbido incessante de luzes fluorescentes. O acesso a esse espaço alternativo ocorreria por meio de uma "porta" que representa, na verdade, uma falha na realidade. Quem acompanha a série Ruptura (Severance) já está familiarizado com este conceito. O criador desses vídeos é o próprio Kane Parsons, que tinha apenas 16 anos quando iniciou a produção. Os conteúdos viralizaram a ponto de chamar a atenção de grandes produtoras de Hollywood. Assim, com a bênção da produtora A24, Backrooms migrou do ambiente dos smartphones para as telas das salas de cinema. 

Mantendo a essência da websérie, o filme expande o fenômeno da internet ao inserir uma trama que estabelece um contexto narrativo para a exploração daquele perturbador mundo interdimensional. O enredo acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), o proprietário de uma loja de móveis que faz uma descoberta intrigante no subsolo do estabelecimento. Um portal permite que ele acesse outra dimensão, formada apenas por corredores infinitos em ambientes claustrofóbicos, repletos de mobiliário destruído, destroços, perspectivas distorcidas e figuras humanas aterrorizantes. A outra personagem da história é sua terapeuta, a doutora Mary Kline (Renate Reinsve, de Valor Sentimental), que toma conhecimento do fato por meio do relato do próprio paciente em uma das sessões de análise. Após o desaparecimento de Clark, ela assume a missão de resgatá-lo, precisando enfrentar os mistérios e os perigos que habitam esse não-lugar.


A cenografia de Backrooms é o grande trunfo do longa, e talvez seu único e verdadeiro destaque. Os ambientes sufocantes e opressivos, estruturados basicamente em uma paleta de cores de tons amarelo, âmbar e ocre, transmitem com muita eficiência o estranhamento angustiante vivido pelo personagem, pelo qual também somos impactados. Soma-se a isso a quebra das leis da física, na qual conceitos de "cima" e "baixo" deixam de fazer sentido, como se estivéssemos em uma nave espacial, mas sem os efeitos da ausência de gravidade. O problema surge quando o filme tenta arquitetar um enredo interessante para justificar tudo isso. A premissa tem lá seu apelo pela curiosidade que desperta ao abordar realidades paralelas, uma possibilidade, a propósito, prevista pela física na Teoria das Cordas. O ponto aqui é que a trama criada é por demais superficial, um tanto confusa e pouco envolvente. 

Não se trata de exigirmos explicações para tudo o que acontece, mas um mínimo de justificativa e coerência é necessário. E isso é tudo o que não temos aqui. O roteiro, que parece se perder diante das inúmeras possibilidades que promete, por uma analogia involuntária, acaba reproduzindo a trajetória do protagonista: perdido em caminhos infinitos.


A sensação geral que fica é que Backrooms funciona mais pelas partes isoladas do que pelo todo. Os personagens são mal delineados (para dizer o mínimo) e suas motivações são aleatórias e nada convincentes. O incômodo geral, ou melhor, a insatisfação do espectador, não se dá apenas pela ausência de explicações. Elas não são necessariamente essenciais em filmes que se propõem a trabalhar com enigmas e mistérios. A questão aqui é que, em dado momento, o filme se dispõe a dar algumas respostas. Pois então, o melhor seria não tê-las dado para a audiência, pois recorrem ao mais ordinário clichê, além de serem na verdade uma meia explicação. Ficaríamos melhor sem essa tentativa de explicação. O filme dá pistas de que há ali uma história a ser contada sobre o passado dos personagens (particularmente da terapeuta), mas o roteiro não dá conta. A opção é repetir-se, minutos e mais minutos intermináveis, por passeios naqueles corredores desolados e assustadores. Por essas e outras, Backrooms – Um Não-Lugar não passa de uma versão estendida dos microepisódios da websérie que fez sucesso na internet. Na verdade, este é um não-filme.

Assista ao trailer: Backrooms – Um Não-Lugar


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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quarta-feira, 4 de março de 2026

Mother’s Baby: maternidade assombrada

O pesadelo da maternidade, quando o vínculo esperado com o recém-nascido se transforma em estranhamento e dúvida profunda, ganha contornos de thriller psicológico em Mother's Baby, dirigido pela cineasta austríaca Johanna Moder. Lançado em 2025 como coprodução entre Alemanha, Suíça e Áustria, o filme foi exibido na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim. A trama acompanha Julia (Marie Leuenberger), uma regente de orquestra de 40 anos, e seu parceiro Georg (Hans Löw), que recorrem a um procedimento experimental de fertilidade em uma clínica privada para realizar o sonho de ter um filho. Após um parto complicado, no entanto, Julia enfrenta uma incapacidade crescente de se conectar afetivamente com o bebê, o que a leva a uma espiral de suspeitas e paranoia que transforma sua experiência pós-parto em um autêntico horror psicológico.

Desde as sequências iniciais, o filme estabelece simbolicamente o tom que permeia toda a narrativa, caracterizada por suspense, estranhamento e desconforto sensorial. As imagens de corredores vazios e silenciosos na clínica transmitem uma sensação palpável de algo sinistro, contrastando com o momento sublime do parto vivido pela mãe. Essa atmosfera inicial prepara o terreno para o desenvolvimento da trama, convidando o espectador a compartilhar a inquietude crescente da protagonista.

O parto em si é retratado em um longo plano-sequência de cinco minutos, uma escolha que intensifica a angústia, permitindo que o público vivencie as dores e as emoções da mãe de forma imersiva. Esse momento crucial marca o início das aflições de Julia, que confronta um dos pavores mais angustiantes das parturientes: a possibilidade de troca do bebê, seja por erro ou intenção premeditada. Essa dúvida inicial evolui para suspeitas cada vez mais profundas, culminando em confirmações dolorosas que abalam sua realidade pós-parto.

É inevitável reconhecer paralelos com o clássico O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, outro thriller de horror centrado em uma mãe atormentada por ameaças invisíveis que minam sua sanidade. Há uma complementaridade entre as obras: enquanto Polanski explora o pré-parto, Mother's Baby mergulha nos abismos sombrios do pós-parto, ampliando o espectro do horror maternal. Além disso, a depressão pós-parto surge como uma metáfora assustadora e simbólica, onde os distúrbios psicológicos e as barreiras afetivas entre mãe e filho assumem contornos ao mesmo tempo metafóricos e explícitos, refletindo as complexidades reais da maternidade.

Outro elemento simbólico é a constante postergação da escolha do nome para o bebê recém-nascido, apesar da insistência do pai. Essa hesitação revela o sentimento profundo da mãe, que, por razões internas, questiona se aquela criança é realmente sua. Nomear o filho representaria uma aceitação definitiva, uma pacificação de suas dúvidas, e equivaleria a completar um parto que, para ela, permanece incompleto. Essa relutância reforça o tema da alienação maternal, tornando o filme ainda mais perturbador.

O terror da gravidez e da maternidade também ecoa em obras recentes, como Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, que aborda o tema de forma mais leve e divertida, em contraste com a abordagem assombrada e sombria do filme de Moder. Outro ponto em comum é o fato de que ambos são dirigidos por mulheres, o que enriquece a perspectiva feminina sobre esses medos. Além disso, Mother's Baby também se aproxima, por outros aspectos, do suspense Coma, dirigido por Michael Crichton em 1978, ao explorar o horror hospitalar. Ambos retratam instituições médicas como cenários de conspirações e violações éticas, onde procedimentos rotineiros se transformam em fontes de pavor, questionando a confiança no sistema de saúde e ampliando o suspense para além do âmbito pessoal.

Falado em alemão, o filme inicia e prossegue em um ritmo lento por muitos minutos, mas mantém o espectador engajado por meio de pequenas ocorrências e detalhes que constroem expectativa. Acompanhamos as angústias de Julia e suas descobertas graduais até o desfecho, que revela a última peça do quebra-cabeça. No entanto, algumas respostas permanecem suspensas, o que, embora contribua para o mistério, pode prejudicar um fechamento mais impactante, impedindo que se torne um thriller exemplar.

Em resumo, Mother's Baby se destaca como uma exploração visceral e inovadora da maternidade, mesclando horror psicológico com reflexões profundas sobre identidade e vínculo afetivo. Apesar de certas ambiguidades no final, o filme de Johanna Moder consegue capturar a essência do desconforto pós-parto, oferecendo uma narrativa que ressoa com medos universais e convida a uma reflexão sobre as sombras invisíveis da parentalidade. É uma obra que equilibra o suspense e o simbolismo, revelando as complexidades da experiência humana.

Assista ao trailer: Mother’s Baby


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Isso Ainda Está de Pé?: terapia do riso amargo

 

Após a consagração como ator e as múltiplas indicações ao Oscar por Nasce uma Estrela, Bradley Cooper retorna à direção com um projeto mais intimista, porém igualmente ambicioso em sua simplicidade. Em Isso Ainda Está de Pé? (Is This Thing On?), o cineasta parece menos interessado em grandes arroubos formais do que em explorar as pequenas fissuras da experiência humana. O resultado é um filme que respira pelos silêncios, pelos olhares e, sobretudo, pela palavra dita em cima de um palco, ainda que o título nacional ameace desviar a atenção do que realmente importa.

A trama acompanha Alex (Will Arnett), um homem em crise após o fim de um longo casamento com Tess (Laura Dern). Numa noite de depressão e bebida, ele entra em um bar que apresenta números de stand-up. Em um impulso, sobe ao palco e descobre um novo mundo, que o faz se reconectar com suas dores e reflexões. Em meio a uma crise amorosa, que se soma à crise da meia-idade, Alex se reconecta consigo mesmo ao assumir definitivamente sua nova carreira como comediante nos palcos noturnos de Nova York. Tess, por sua vez, também se redefine com a retomada da carreira profissional no esporte (ela foi uma famosa jogadora de vôlei). Bradley Cooper, em papel coadjuvante, surge como contraponto e apoio na trajetória do protagonista. É nesse delicado equilíbrio entre afeto e performance que o filme crava suas raízes.


A direção suave e orgânica de Bradley Cooper evoca, em certos momentos, o legado de cineastas como Mike Nichols e Rob Reiner, especialmente na maneira como articula conflitos íntimos sob a lente de um humor inteligente e por vezes cáustico. Sem pretender alcançar a mesma densidade de seus referenciais, o filme compartilha dessa tradição em que as tensões sociais e afetivas emergem com leveza aparente. Afinal, as verdades mais duras tendem a encontrar melhor acolhida quando atravessadas pela ironia.

Nesse contexto, o título adotado no Brasil é, no mínimo, infeliz. A tentativa de dialogar com o universo do stand-up soa artificial e pouco espirituosa, como se buscasse uma associação fácil com a expressão “Comédia em Pé”, popularizada por aqui como tradução livre do gênero cômico consagrado nos Estados Unidos. Em vez de captar a essência do original, a adaptação escorrega para um trocadilho simplório que evoca, ainda que involuntariamente, a tradição dos títulos de duplo sentido das pornochanchadas dos anos 1970. Algo que, convenhamos, está longe de fazer jus ao espírito do filme.


Há, contudo, uma questão mais estrutural a ser observada. O filme é conduzido por uma perspectiva essencialmente masculina, que orienta tanto o ponto de vista narrativo quanto a elaboração dramática. As experiências, angústias e transformações orbitam quase exclusivamente o universo do protagonista, enquanto as personagens femininas permanecem periféricas e secundárias, definidas mais pela relação que estabelecem com ele do que por conflitos próprios. É um traço que, embora não invalide a obra, revela os limites do alcance da obra.

Ainda assim, há beleza no modo como os números de stand-up funcionam como uma espécie de terapia. O palco se transforma em um divã improvisado, onde as confissões íntimas encontram a cumplicidade da plateia. O que poderia soar como mera exposição se converte em partilha. Naquele espaço, a vulnerabilidade é mediada pelo humor, e o riso coletivo legitima dores, fracassos e inseguranças. Nesse jogo entre franqueza e performance, o protagonista reelabora a própria narrativa, transformando experiências pessoais em espetáculo e, ao mesmo tempo, em mecanismo de autocompreensão.


É preciso lembrar ainda que, com a explosão midiática dos blockbusters e o incentivo permanente às superproduções, uma parcela significativa do público passou a demonstrar descontentamento com o esvaziamento das produções de pequeno e médio porte nas salas de cinema. Esses filmes, mais intimistas e centrados em personagens, pareciam destinados quase exclusivamente às plataformas de streaming. Eis, portanto, a boa notícia: Isso Ainda Está de Pé? ocupa com dignidade esse espaço rarefeito, resgatando um cinema menos espetacular e mais atento às nuances humanas. Um cinema calcado em personagens, conflitos cotidianos e boas histórias. Nada além disso. E, às vezes, nada é mais necessário do que simplesmente uma boa história bem contada.


É justamente nesse terreno fértil que a odisseia de autoconhecimento de Alex se desenvolve. Sua jornada percorre diferentes estágios que, por analogia, ecoam as fases emocionais vivenciadas em momentos de perda ou transformação profunda: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e, por fim, a aceitação. Essas etapas funcionam como alicerces para a evolução da narrativa, conduzindo a personagem por um processo gradual de redescoberta. Ao longo desse percurso, Alex recupera parte da autoestima que, sabe-se lá por qual razão, parecia ter se diluído em algum ponto da vida conjugal. O filme, no entanto, ao optar por um desfecho resolutivo e harmônico, típico da tradição hollywoodiana, parece suavizar os conflitos anteriores, conferindo um tom moralista à trajetória. Ainda assim, a jornada emocional construída até ali sustenta a força da personagem, mesmo que o arremate final deixe espaço para questionamentos sobre os caminhos escolhidos pela narrativa.

Assista ao trailer: Isso Ainda Está de Pé?


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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domingo, 11 de janeiro de 2026

O Beijo da Mulher Aranha: a arte como resistência

Quatro décadas após a impactante adaptação de Hector Babenco, O Beijo da Mulher Aranha ganha nova vida nas telas em 2025, dirigida por Bill Condon (Deuses e Monstros e Dreamgirls). Para o público brasileiro, a expectativa inicial poderia ser a de um simples remake hollywoodiano do clássico de 1985. Mas não é bem isso. Esta versão adapta o premiado musical da Broadway de 1993, que também se baseia no romance do argentino Manuel Puig. Essa origem teatral explica a predominância dos números musicais, que invadem a narrativa com exuberância, muitas vezes sacrificando a profundidade do contexto político central na obra original.

Em meio à violência e à degradação de uma prisão argentina durante a ditadura militar dos anos 1980, onde a tortura e a vigilância constante buscam aniquilar qualquer resquício de humanidade, Luis Molina (interpretado por Tonatiuh, com entrega, delicadeza e autonomia marcantes), um decorador de vitrines condenado por atentado ao pudor, divide a cela com o preso político Valentín Arregui (Diego Luna). Para escapar dos horrores cotidianos, Molina narra o enredo de seu musical hollywoodiano favorito, estrelado pela diva Ingrid Luna (Jennifer Lopez) no papel da sedutora Mulher-Aranha. Uma fantasia que, aos poucos, transforma a relação improvável entre os dois em um laço profundo de empatia, vulnerabilidade e amor.

Apesar do background já gravado no inconsciente coletivo daqueles que conhecem a adaptação icônica dos anos 1980, é preciso destacar que os protagonistas desta versão constroem personagens distintos e autônomos em relação ao trio clássico de Babenco (William Hurt, vencedor do Oscar por este papel, Raul Julia e Sonia Braga). As atuações de Tonatiuh e Diego Luna oferecem uma leitura fresca e contemporânea, especialmente sensível às nuances de gênero, identidade e vulnerabilidade emocional.

A nova adaptação abraça deliberadamente o escapismo e tangencia o pano de fundo sociopolítico. Há uma ousadia comedida ao privilegiar a beleza em detrimento da tragédia. Politicamente tímido, distante e pouco comprometido, o filme potencializa a ficção como forma de resistência, afirmando dignidade e humanidade apesar da ditadura. Uma perspectiva que, por fim, ainda ecoa no contexto atual.

O cerne emocional do filme reside na declaração de Molina, que diz ter descoberto a dignidade justamente no lugar mais indigno do mundo. Essa afirmação sintetiza a conexão improvável entre ele e Valentín, que nasce do escapismo compartilhado de filmes e musicais, evolui para uma empatia profunda e culmina em um amor que transcende rótulos de gênero, orientação sexual ou ideologia. Em meio à opressão da prisão, a fantasia deixa de ser simples evasão e se transforma no caminho para redescobrir a humanidade, o afeto e a autoestima.


O projeto conta com nomes de peso como Ben Affleck e Matt Damon, como produtores executivos, ao lado da própria Jennifer Lopez que também atua como produtora, tornando o longa um veículo pessoal para seu estrelismo. Os números musicais que protagoniza resgatam um glamour tardio dos grandes musicais da Metro-Goldwyn-Mayer, com produção luxuosa e coreografias elegantes, mas nenhum se destaca como memorável. Falta a grandiosidade visionária de um Busby Berkeley ou a inventividade revolucionária de Bob Fosse.

Visualmente suntuoso em algumas passagens, o filme de Condon celebra a beleza como ato de resistência, mas sua timidez política e os problemas narrativos impedem que alcance toda a potência trágica e subversiva do material original. Ao transitar entre os dois polos (a brutalidade opressiva da prisão e o brilho fantástico dos musicais), o diretor não consegue contornar por completo os tropeços de ritmo e narrativa decorrentes dessa alternância constante entre universos tão distintos, o que gera uma sensação de irregularidade no fluxo e deixa pairar no ar uma dúvida sobre o efetivo propósito da obra. Ainda assim, no geral, permanece uma celebração tocante do poder transformador da arte e da dignidade que ela consegue preservar mesmo nas sombras mais escuras. Aspectos que pertencem de fato à essência da obra original de Manuel Puig, e que esta nova versão tende a diluir em favor de um tom mais escapista e luminoso.

Assista ao trailer: O Beijo da Mulher Aranha

Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Hamnet – A Vida Antes de Hamlet: quando luto vira arte

A força motriz da criação artística provém de diversas fontes: a beleza efêmera da natureza, a euforia do amor, a indignação diante da injustiça social, até os abismos mais sombrios da experiência humana. Dentre elas, uma das mais poderosas é, sabidamente, a dor. Essa companheira inevitável transforma o sofrimento íntimo em manifestações que reverberam na alma coletiva. É exatamente essa premissa que ganha corpo no drama Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025), dirigido pela cineasta chinesa Chloé Zhao, vencedora do Oscar de Melhor Diretora e Melhor Filme por Nomadland (2020), e que já havia explorado um universo completamente distinto com o filme de super-heróis Eternos (2021), da Marvel. Esses três projetos, de gêneros e orçamentos tão díspares, revelam a versatilidade de Zhao, capaz de transitar com sensibilidade entre o intimismo poético, o épico coletivo e agora o drama histórico introspectivo.

Adaptado do romance homônimo de Maggie O’Farrell (publicado em 2020 e coadaptado para o roteiro pela própria autora em parceria com Zhao), o filme apresenta uma sinopse imaginativa e ficcional. Em meados do século XVI, na Inglaterra elisabetana, Agnes Hathaway (Jessie Buckley), uma curandeira ligada à natureza, casa-se com o jovem William Shakespeare (Paul Mescal). Juntos, vivem o amor, a paternidade e a tragédia da morte prematura do filho Hamnet, aos 11 anos, vítima da peste. O filme especula com delicadeza e profundidade que esse luto devastador tenha funcionado como catalisador emocional para a criação da peça Hamlet, uma das tragédias mais profundas da literatura. Embora a conexão direta entre o luto real do dramaturgo e a obra permaneça uma especulação histórica sem comprovação documental, a narrativa constrói um retrato comovente do amor, da perda, da superação e do poder redentor da arte. O espectador é convidado a refletir sobre como as feridas mais profundas podem, contraditoriamente, germinar as sementes de uma criação artística imortal.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não se vale do luto como artifício fácil para arrancar empatia do espectador. Em vez disso, a dor e a culpa introspectiva de Agnes e William Shakespeare recebem uma abordagem libertadora. O sofrimento se torna um gatilho emocional vigoroso, capaz de romper bloqueios internos e abrir caminho para uma superação genuína. Trata-se de uma evolução espiritual sutil, porém sublime, que se manifesta na reconfiguração radical da própria perspectiva diante dos inevitáveis desafios da vida e do mundo.

A sequência final do filme é devastadora ao tocar fundo na alma do espectador, ressoando cordas emocionais que vão muito além do luto individual. Na estreia da tragédia Hamlet no Globe Theatre, Chloé Zhao transforma a dor íntima de Agnes em um ato coletivo de catarse que ecoa pelo público ao redor, dissolvendo as barreiras entre o privado e o público, entre a tragédia pessoal e a arte universal. Naquele momento, somos todos um único organismo unificado. É como se, naquele instante sublime, o teatro permitisse uma forma de ressurreição simbólica. Pela magia do palco, o sofrimento de Agnes e Will encontra, por fim, um espaço para ser compartilhado e, de alguma forma, aliviado. Não há resolução fácil ou consolo barato. O que resta é a reconciliação delicada com a perda. A arte transforma o insuportável em algo eterno e, paradoxalmente, vivo. Essa cena não apenas fecha o filme. Ela o eleva, deixando o espectador com o peito apertado, mas também com uma estranha sensação de gratidão pela capacidade humana de converter dor em significado.

Com atuações avassaladoras de Jessie Buckley e Paul Mescal, que capturam a complexidade do amor e da perda de forma emocionalmente intensa e visualmente poética, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se consolida como uma das obras mais poderosas da temporada 2025/2026. Uma meditação profunda sobre como a dor familiar pode se transmutar em arte transcendental, representada por um filme construído com extrema sensibilidade e compreensão da alma humana.

Assista ao trailer: Hamnet – A Vida Antes de Hamlet


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Empregada: nada é o que parece

 

Dirigido por Paul Feig e baseado no best-seller homônimo de Freida McFadden, A Empregada (The Housemaid) exemplifica perfeitamente o estilo característico da autora. McFadden constrói thrillers psicológicos centrados em protagonistas femininas complexas, narradoras em primeira pessoa que oscilam entre vítima indefesa, heroína vingativa e vilã manipuladora, muitas vezes ocupando essas posições simultaneamente na trama. Seu traço mais marcante é a exploração da ambiguidade moral extrema dessas mulheres, gerando tensão através de reviravoltas que desafiam a empatia do leitor (ou espectador). A autora gosta de deixar o público desconfortável com o quanto acaba torcendo por personagens moralmente questionáveis. Tanto o livro quanto sua adaptação cinematográfica capturam essa essência, tornando-se exemplos icônicos do subgênero.

A trama principal acompanha Millie Calloway (Sydney Sweeney), uma jovem com um passado turbulento e um histórico criminal que busca desesperadamente um recomeço. Ela aceita o emprego como empregada doméstica na luxuosa mansão da família Winchester, residência da instável Nina (Amanda Seyfried), seu atraente e compreensivo marido Andrew (Brandon Sklenar) e a pequena filha do casal. O que começa como uma oportunidade dos sonhos logo revela camadas de segredos sombrios, manipulações psicológicas e dinâmicas de poder perigosas. À medida que Millie se integra à rotina da casa, percebe que nada é o que parece. A fachada de família perfeita esconde tensões profundas, abusos velados e intenções dissimuladas.

Por grande parte da narrativa o filme nos conduz a um grande novelão carregado de clichês clássicos do thriller doméstico. A saber, estão lá a esposa aparentemente desequilibrada que sente perder a atenção do marido, a jovem e bela empregada que chega como intrusa sedutora e esconde um passado misterioso, e o marido charmoso que surge como o único ponto de equilíbrio aparente. Estabelece-se um triângulo amoroso onde cada vértice tem propósitos ocultos, dissimulados como mandam as regras do suspense psicológico. No entanto, o filme cumpre fielmente outra premissa básica do gênero: nada é o que parece na superfície. Há camadas e mais camadas a serem desvendadas, e a narrativa ganha cada vez mais caos e imprevisibilidade conforme avança.

As reviravoltas, especialmente no terceiro ato, são vertiginosas e superam as expectativas iniciais, entregando o tipo de choque que os fãs de McFadden adoram. O crescente suspense, no entanto, nem sempre convence. O roteiro, assinado por Rebecca Sonnenshine (em parceria com a própria Freida McFadden), parece apressado em certos momentos, acelerando o ritmo onde poderia se demorar nas sutilezas psicológicas que fazem o livro brilhar. A construção da tensão perde força pela pressa em chegar aos grandes plot twists, o que compromete um pouco a imersão. Além disso, nenhum dos personagens centrais conquista plenamente a empatia do público. Millie, Nina e Andrew são figuras por demais ambíguas, manipuladoras e falhas, o que gera uma distância emocional.

Como resultado, o espectador não torce necessariamente pelos personagens, mas pelo caos em si. Queremos ver o circo pegar fogo, as máscaras caírem e as dinâmicas explodirem em violência e revelações. Isso transforma o filme em um guilty pleasure (prazer culposo) eficiente, um entretenimento trash e exagerado que diverte pelo absurdo das reviravoltas e pelo compromisso das atuações, especialmente Seyfried, que entrega uma performance intensa e sem freios.

As forças e fraquezas do filme se ancoram em sua ambivalência. Ele é ao mesmo tempo selvagemente divertido, provocador e cheio de uma energia perversa, mas também profundamente superficial. Essa dualidade evoca um retorno consciente aos thrillers eróticos e exagerados dos anos 90. A adaptação abraça esse espírito sem pudor, mas quando tenta ser mais contida ou realista, tropeça. Ao se entregar ao exagero, ao camp e ao absurdo das reviravoltas, o filme mostra afinal a que veio e até distrai como entretenimento fugaz. Nada mais.

No fim, A Empregada funciona como uma adaptação que respeita o espírito provocador de McFadden, mas sofre com as limitações de uma transposição para o cinema que não consegue capturar todas as nuances internas do livro. Ainda assim, é um thriller que cumpre seu papel por prender a atenção, chocar na medida certa e deixar o espectador debatendo as moralidades de seus personagens. Para quem gosta de histórias que brincam com a linha entre vítima e vilão, sem oferecer respostas fáceis, o filme entrega um pacote satisfatório de tensão e entretenimento.

Assista ao trailer: A Empregada


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Flow: uma jornada animal

A animação Flow (Straume, 2024) surpreendeu e fez história em sua terra natal, a Letônia — e também no mundo todo, diga-se de passagem. Com este filme, o país conquistou suas primeiras indicações ao Oscar desde a independência da União Soviética, em 1990. Um marco significativo não apenas para o cinema letão, mas também para a indústria cinematográfica internacional, que viu neste filme uma narrativa única e visualmente deslumbrante. A produção dirigida por Gints Zilbalodis foi indicada em duas categorias: Melhor Animação e Melhor Filme Internacional (portanto, é um concorrente do brasileiro Ainda Estou Aqui).

A realidade apresentada em Flow nos transporta para um cenário pós-apocalíptico, onde o ser humano está completamente ausente. As razões para esse desaparecimento permanecem incertas e não são explicitamente justificadas ao longo da narrativa. No entanto, essa falta de explicação não se torna um obstáculo para a experiência do espectador; pelo contrário, reforça o caráter universal e atemporal da fábula que o filme se propõe a contar. Em seu lugar, a natureza e os animais assumem o protagonismo, criando um mundo onde a vida flui de forma orgânica e desimpedida, livre das interferências humanas.


Quando as águas avançam como um dilúvio bíblico, engolindo a terra e apagando todos os vestígios da civilização humana, o cenário em que a história se desenrola reflete um planeta inteiramente transformado. Embora a ação se concentre em uma localidade específica, a sensação é de que o mundo todo foi redesenhado por essa catástrofe, restando apenas um vasto oceano e a incerteza do que ainda permanece. Nesse contexto, um gato solitário e confuso vê-se ameaçado pela elevação das águas. Em busca de abrigo, ele encontra um barco que serve de refúgio não apenas para si, mas também para um grupo de animais tão desorientados quanto ele: um cão, uma capivara, um lêmure e uma garça. Unidos pela necessidade de sobrevivência, cada um deles representa, de certa forma, um arquétipo humano ou papéis sociais que assumimos diante de uma coletividade. 

A sobrevivência, no entanto, exige mais do que encontrar um lugar seguro: é preciso superar medos, preconceitos e diferenças. Para o gato – real protagonista da história -, que sempre temeu a água, o desafio é duplo: enfrentar suas próprias fobias e aprender a conviver com seres tão diferentes. Nessa jornada imprevisível, eles descobrem que suas diferenças, longe de serem um obstáculo, podem se tornar sua maior força.


A animação Flow captura a essência da linguagem cinematográfica, remetendo ao primitivo cinema narrativo da transição do século XIX para o XX, quando a experiência mágica do cinema era construída sem a utilização de vozes ou diálogos. A história era contada apenas por meio da música e do poder sugestivo das imagens em sucessão, criando uma conexão única com o espectador. O filme é uma prova clara de que o grande trunfo para o sucesso de uma produção ainda reside em suas ideias e propósitos, e não em um orçamento milionário. Em Flow, os recursos de produção não foram o foco principal: o projeto foi realizado com uma fração do custo das grandes produções dos estúdios, contando com uma equipe reduzida, equipamentos quase domésticos e softwares de computação gratuitos e de código aberto.

Flow é uma fábula que transcende o mundo animal, servindo como um espelho reflexivo para nós, humanos racionais. Através de uma narrativa aparentemente simples, o filme mergulha em temas profundos e universais, como o valor da amizade, a força da compaixão e a importância de compreender e respeitar as diferenças. Em um mundo onde a divisão e o conflito parecem ser a norma, a história nos apresenta uma convivência improvável entre opostos, desafiando expectativas e mostrando que a harmonia pode surgir mesmo quando tudo indica o contrário.

O filme não apenas emociona, mas também provoca reflexões sobre como lidamos com o 'outro' em nossas vidas. A relação entre os personagens, marcada por desafios e superações, simboliza a possibilidade de união em meio à diversidade. É um lembrete poderoso de que, muitas vezes, são justamente as diferenças que nos tornam mais completos e capazes de evoluir. Flow é, portanto, uma obra que vai além do entretenimento, oferecendo uma mensagem urgente e necessária para os tempos atuais.

Os personagens centrais de Flow são animais, mas esqueça as versões antropomorfizadas que costumamos ver em produções da Disney, Pixar e afins. Aqui, um gato é simplesmente um gato, um cão é apenas um cão, e uma capivara não passa de uma capivara. O filme não humaniza seus personagens; em vez disso, ele os apresenta em sua natureza mais pura e instintiva. A trama se desenvolve a partir da interação de um pequeno grupo interracial, composto por espécies que, na natureza, estariam em lados opostos da cadeia alimentar. No entanto, diante de uma situação extrema, eles são forçados a encontrar maneiras de conviver — literalmente, todos estão no mesmo barco.


O que emerge dessa dinâmica é um retrato fascinante de como o instinto de sobrevivência e o senso de preservação da espécie podem falar mais alto do que as hierarquias naturais. O filme nos convida a refletir sobre como, em momentos de crise, as diferenças podem ser superadas em prol de um objetivo comum Flow é, portanto, uma narrativa que vai além do óbvio, explorando não apenas a luta pela vida, mas também a complexidade das relações, mesmo entre aqueles que, em outras circunstâncias, seriam inimigos naturais. A manifestação do instinto animal é retratada no enxuto roteiro da animação com graça e sensibilidade, elevando a história para um nível de comoção que não deixa o público indiferente. Seja ele adulto ou infantil, pois a mensagem é universal.

Flow é mais do que uma simples narrativa sobre sobrevivência; é uma meditação poética sobre resiliência, adaptação e a força da coletividade. Através de sua estética visual deslumbrante e de uma narrativa minimalista, o filme convida o espectador a refletir sobre a fragilidade da civilização humana e a capacidade da natureza de se regenerar.

Assista ao trailer: Flow


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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