Mostrando postagens com marcador Luca Guadagnino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luca Guadagnino. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Queer: uma odisseia existencial

 

A temporada de 2024 assinala duas produções dirigidas pelo prolífico diretor italiano Luca Guadagnino. Acredite, ele está com outros 6 (!) projetos em andamento. No primeiro semestre tivemos a estreia do ótimo Rivais, um drama esportivo de poliamor com um trisal de tenistas liderado por Zendaya. Agora, no fechamento do ano, é lançado Queer, estrelado por Daniel Craig, em sua fase pós-007, abandonando definitivamente a persona de James Bond que encarnou por 15 anos. Um ponto comum aproxima estas duas obras de Guadagnino: o sexo utilizado como artifício de sedução, manipulação e poder.

Inspirado no livro homônimo de William S. Burroughs, Queer é um drama histórico, parcialmente biográfico, com alta carga erótica, protagonizado pelo personagem alter ego William Lee, presente em outras obras do autor. Em Mistérios e Paixões (Naked Lunch, 1991), de David Cronenberg, o mesmo personagem William (Bill) Lee foi interpretado por Peter Weller. Em Queer o alter ego de Burroughs ganha o corpo e a alma de um provocativo Daniel Craig, que entrega uma atuação ousada e desprendida como você nunca viu em nenhum de seus trabalhos anteriores.


A história se passa no México dos anos 50. É lá que vive o expatriado americano William Lee. O filme passa ao largo de uma explicação mais clara da verdadeira razão que o levou a sair dos Estados Unidos. No livro este passado é esclarecido: ele foi dispensado da Marinha, dentre outras razões, por ser usuário de drogas. A trama de Queer segue a vida de Lee que percorre, de bar em bar, os ambientes da comunidade homossexual masculina da cidade, sempre em busca de novas aventuras e parceiros para uma noitada. A vida boêmia de Lee ganha novos contornos quando conhece o jovem Eugene Allerton (Drew Starkey), de orientação sexual inicialmente ambígua, porém abertamente disponível para outras possibilidades. Juntos vivem uma intensa paixão que os levará para uma reveladora viagem pelas florestas equatorianas em busca de experiências sensoriais com drogas alucinógenas. 


A origem literária do material de Queer fica explicitado logo nas sequências iniciais com a exibição de páginas de manuscrito datilografado com trechos da obra. A referência de origem nas letras fica ainda mais explícita quando o roteiro é construído como capítulos intitulados de um livro, recurso utilizado com frequência em muitas produções, a propósito. Esta divisão em capítulos contribui para a construção da trama em dois grandes blocos narrativos, como volumes separados da mesma obra, distintos entre si pela alteração de cenário, cores e significados. O primeiro deles, marcado pela descoberta do corpo, mostra o cotidiano de William Lee em suas interações com a cidade e seus personagens. Aqui a perspectiva é absolutamente hedonista, com uma busca incessante pelo prazer acima de qualquer outro estímulo vital. No segundo bloco, com a viagem de experiências místicas e transcendentais sob os efeitos de erva alucinógena (que não faz parte do livro de Burroughs), Queer assume uma perspectiva existencial. A busca passa a ser a liberação da mente. O arco da jornada de William Lee percorre então os dois princípios básicos e opostos da existência humana, os arquétipos de Eros e Thanatos, as pulsões de Vida e Morte.

Sob o comando de um inspirado Guadagnino, claramente interessado no universo que retrata, um insuspeito Daniel Craig passeia em cena com seu indefectível terno de linho branco, chapéu e óculos de sol em busca de aventuras amorosas. Completando a construção de um personagem descontruído, Lee carrega no coldre junto ao corpo uma pistola onipresente, um objeto de conotação fálica, que não passa de símbolo aleatório de representatividade de poder, reminiscência de um passado do qual não se liberta na totalidade. Em um diálogo confessional e revelador conta que, de alguma maneira, é portador de uma “maldição” hereditária que predestinou sua orientação. 


A viagem por terras estranhas na América do Sul profunda assume contornos bizarros pelos reais propósitos. Os alegados poderes telepáticos do “yage”, ou ayahuasca, é a verdadeira motivação de Lee que deseja ardentemente penetrar na mente de Eugene para descobrir o que ele realmente pensa e sente, pois suspeita que seu amor profundo não é correspondido. A “viagem” proporcionada pelo chá da erva conduz às inquietantes sequências de alucinação, uma experiência psicodélica de transformação que unificam, fundem e distorcem os limites de seus corpos. Tempo e espaço voltam a ser subvertidos no desfecho de Queer. A imagem de William Lee na velhice nos remete ao astronauta solitário de Stanley Kubrick no final de 2001, que mira a si mesmo e sua história derradeira enquanto encara a morte inelutável. O destino dos protagonistas parece comprovar que o mesmo amor que salva pode ser o amor que condena.


Com sua usual ousadia estilística Luca Guadagnino explora com sensibilidade temas fundamentais do ser humano como amor-próprio, solidão e identidade. Estranho e incomum, Queer é um filme inquietante com uma pungente história de amor e luxúria, embriagada de tequila em terras tropicais.

Assista ao trailer: Queer


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Até os Ossos: amor e sangue

 


Na temporada 2022, onde o canibalismo já surgiu forte na série campeã de audiência sobre o serial killer Jeffrey Dahmer na Netflix, o cinema nos brinda com uma ousada, impactante e surpreendente história de amor que também tem como pano de fundo o canibalismo. Porém, diferente daquele produto do streaming, onde o tema aparece como um ritual escatológico de caráter criminoso, no drama de horror Até os Ossos (Bones and All), de Luca Guadagnino (Suspiria, 2018), o canibalismo recebe um tratamento mais metafórico e metafísico, como uma maldição mesmo, ainda que seja extremamente mais explícito na exibição do ato canibal em si.

Reconheçamos, de antemão, que este não é um tema fácil a ser explorado nas obras audiovisuais. É recorrente que o apelo sensacionalista venha sempre em primeiro lugar. Mas não é o caso aqui, ainda que, fosse apenas por este aspecto, Até os Ossos já mereceria nosso olhar mais atento. Mas o filme de Guadagnino vai muito além e não deixa de surpreender o espectador a todo o momento.


Baseado em livro de Camille DeAngelis, premiado em 2016, a adaptação cinematográfica traz a história de um casal de jovens, Maren (Taylor Russell) e Lee (Timothée Chalamet). Eles se encontram ao acaso em uma viagem pelo interior dos Estados Unidos. Ambos marginalizados, em fuga de seus traumas interiores. Uma particularidade os une em um misto de paixão, cumplicidade e sobrevivência: são canibais. O caráter da viagem – literal e simbólica – é um elemento muito presente nos livros da romancista DeAngelis, além de questões feministas e solidão. O filme de Guadagnino respeita estes conceitos e conduz sua narrativa como uma longa jornada de autoconhecimento, o combustível que conduz Maren e Lee até um destino incerto.

Até os Ossos é um road movie de horror e paixão. O guia onipresente da viagem/fuga é o pai de Maren, que deixa de legado uma extensa mensagem gravada em áudio, que a jovem vai ouvindo ao longo da estrada, como fossem capítulos de uma longa história de revelação de suas origens. Ela, assim como nós, é apresentada à verdadeira realidade da sua condição de “devoradora”, ou seja, consumidora de carne humana. Ainda assim, a história se revela incompleta. Falta a figura da mãe, que torna-se então o objeto de busca.


Nesta Via Crucis espiritual Maren encontra, além do parceiro de jornada, Lee (igualmente em processo de entendimento e aceitação da sua condição), outros personagens enigmáticos, que também compartilham o desejo pela carne humana. Em cada etapa da jornada, a cada parada, a cada cidade, o casal recebe novos aprendizados que dão pistas e informações vitais de sobrevivência para aqueles que vivem à margem da sociedade, amaldiçoados pelo desejo da carne.


Luca Guadagnino propõe uma experiência de realidade paralela ao espectador. Ao nos mergulhar no submundo dos chamados “seres devoradores”, somos imersos em um universo de regras próprias. São raras e pontuais as interações do mundo, digamos, corriqueiro e real. A quase totalidade da narrativa se dá em um registro alternativo. Até os Ossos é um relato de personagens marginais. Uma fábula de horror com devoradores de carne humana por necessidade, pois há uma ética e uma moral a ser respeitada. Neste arco narrativo tanto Maren quanto Lee confrontam seus fantasmas e a irreversibilidade de suas existências. Até os Ossos é um filme que permanece ecoando em nossas mentes após a sessão e já nasce predestinado a ser cultuado.


A escolha de Timothée Chalamet por Luca Guadagnino não deixa de revelar uma certa ironia do destino. Ambos já trabalharam juntos em Me Chame Pelo Seu Nome (2017), com Armie Hammer, o ator que teve a carreira destruída por acusações de cometer atos de... canibalismo! Outro destaque do elenco é a canadense Taylor Russell, que ganhou grande visibilidade ao participar da nova versão de Perdidos no Espaço (3 temporadas) da Netflix, no papel de Judy Robinson. Sua presença é o grande destaque e o melhor da série. Está aí uma atriz à beira do estrelato no primeiro time.

Assista ao trailer: Até os Ossos


Jorge Ghiorzi / Membro da ACCIRS

janeladatela@gmail.com