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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Marty Supreme: mergulho no abismo da ambição

 

Quem já assistiu a Joias Brutas (Uncut Gems, 2019), codirigido por Josh e Benny Safdie, reconhecerá imediatamente o estilo autoral que Josh Safdie reafirma em Marty Supreme (2025), seu primeiro longa-metragem em direção solo desde a parceria com o irmão. Assim como no filme estrelado por Adam Sandler, um senso de urgência implacável atravessa toda a narrativa, instaurando uma atmosfera de caos meticulosamente orquestrado que arrasta o espectador para um estado de tensão quase contínua.

Esse modelo frenético reaparece em Marty Supreme por meio de uma sucessão de acontecimentos aparentemente aleatórios, que irrompem na trama como pequenos núcleos narrativos quase autônomos. Interlúdios caóticos envolvendo personagens secundários excêntricos e situações imprevisíveis parecem, à primeira vista, ligeiramente deslocados da linha central da história. Trata-se, no entanto, de uma ilusão cuidadosamente construída. Esses desvios não fragmentam o filme, mas ampliam seu alcance temático. O efeito é semelhante ao pânico existencial que atravessava o já citado Joias Brutas. O resultado é um filme explosivo e imprevisível, comparável a uma partida de tênis de mesa ágil, nervosa e definida por reviravoltas improvisadas, tratada como uma metáfora direta para o mundo instável que cerca seu protagonista.

Embora seja uma história ficcional, o personagem Marty Mauser, interpretado com intensidade por Timothée Chalamet, carrega ecos vagos do lendário jogador de tênis de mesa norte-americano Marty Reisman, ícone dos anos 1940 e 1950. Conhecido como “The Needle” (O Agulha) por sua magreza, Reisman elevou o esporte a um espetáculo de entretenimento participando de exibições promocionais, influenciando diretamente a construção de um anti-herói carismático, manipulador e performático.

Nesse contexto, os adjetivos que orbitam Marty Mauser (narcisista, arrogante, pretensioso, manipulador, oportunista e performático) deixam de funcionar como meros traços psicológicos e passam a operar como sintomas de uma lógica cultural mais ampla. Marty é menos um indivíduo singular do que a encarnação de um tipo reconhecível. O malandro contemporâneo, moldado por uma ética de autopromoção permanente, que confunde ambição com destino e carisma com legitimidade. Ao acompanhar sua trajetória quase ritualizada em direção ao sucesso, Marty Supreme constrói um retrato deliberadamente caótico e visceral dos mecanismos que produzem a fama, intrinsecamente instável e efêmera, alimentada pelo excesso e pela exposição, e que carrega, desde a origem, a semente inevitável da autodestruição.

Um dos destaques do elenco é a atriz Gwyneth Paltrow, que interpreta Kay Stone, uma estrela de cinema aposentada e socialite rica, casada, que se envolve com Marty. Sua presença marca um retorno às telas em produções de grande visibilidade, após anos afastada dos holofotes cinematográficos. Paltrow traz sofisticação, profundidade emocional e um toque de ironia refinada a Kay, revelando vulnerabilidades sutis, embora a complexidade da personagem não seja explorada em toda a sua extensão, já que o foco absoluto do filme permanece no protagonista e em sua jornada obsessiva.

Outro elemento marcante é a trilha sonora, que mescla hits clássicos dos anos 1980, com canções de Tears for Fears, Peter Gabriel e New Order. Essa escolha ousada, contrastando com o cenário dos anos 1950, amplifica a energia ansiosa de Marty, transformando a narrativa em uma experiência vibrante.

O interesse de Marty é um tanto ambíguo, não se limitando meramente ao dinheiro ou aos benefícios decorrentes do capitalismo. Sua luta interior revela algo mais profundo, ligado ao ego, à autoestima, ao reconhecimento social e aos desafios pessoais que o impulsionam no mundo do tênis de mesa. O filme estabelece, nesse sentido, um arco simbólico que evoca os cerca de nove meses da gestação, iniciado pelo ato sexual que resulta na gravidez indesejada da namorada Rachel (a ótima Odessa A’zion, uma atriz a ser acompanhada com atenção) e culminando no nascimento da criança ao final da jornada. Dentro desse recorte temporal, que funciona como metáfora central para o processo de transformação do protagonista, Marty alternadamente nasce, perece, renasce, vence e sucumbe, até alcançar seu momento de redenção e epifania pessoal, reconciliando-se com suas ambições e relações.

Em resumo, Marty Supreme é uma obra explosiva de Josh Safdie que captura o frenesi da ambição tóxica, transformando o tênis de mesa em metáfora perfeita para o caos da fama. O filme proporciona uma experiência cinematográfica emocionalmente intensa, reafirmando Safdie como um dos cineastas mais vibrantes de sua geração.

Assista ao trailer: Marty Supreme


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Um Completo Desconhecido: soprando no vento

 

O músico e compositor Bob Dylan já foi tema de um documentário de Martin Scorsese (No Direction Home, 2005) e também interpretado em versões distintas de sua vida por Cate Blanchett, Ben Whishaw, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger, Christian Bale e Richard Gere no filme biográfico estilizado Não Estou Lá (2007), dirigido por Todd Haynes. Agora, chega às telas a nova cinebiografia Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown, 2024), dirigida por James Mangold, que limita seu recorte aos primeiros anos do artista.

O jovem Robert Zimmerman, com 19 anos, chega a Nova York no início dos anos 1960 com seu violão e um talento revolucionário. Seu primeiro objetivo é mostrar uma de suas composições ao ídolo da juventude, o astro da folk music Woody Guthrie, internado em um hospital psiquiátrico. Assim, inicia-se a jornada do grande músico e compositor que passaria a ser conhecido pelo nome artístico de Bob Dylan (Timothée Chalamet). Na cidade, ele estabelece relações com a cena musical da época e dá os primeiros passos na carreira, ainda no gênero folk. Nesse período, conhece a cantora Joan Baez (Monica Barbaro), com quem viria a formar uma dupla nos primeiros tempos, dentro e fora dos palcos. Rapidamente, Dylan alcança o sucesso, mas sua ascensão à fama é marcada por muitos conflitos pessoais e artísticos. A culminância daquele primeiro período do artista acontece em 1965, com sua polêmica e transgressora apresentação no Festival Newport Folk, quando ousou utilizar elementos do rock elétrico em suas canções.

Bob Dylan, como retratado no filme, surge como um artista em constante transformação, um espírito inquieto em busca de sua verdadeira forma de expressão. Ao longo de sua trajetória, ele não se limita a um único gênero musical, transitando com maestria entre o folk, o blues e outros estilos, em uma jornada que reflete não apenas a evolução de sua música, mas também de sua identidade como criador. Essa busca incessante por uma voz autêntica vai além da mera experimentação sonora: é, antes de tudo, uma tentativa de dar forma musical à sua poesia, transformando palavras em melodias que ecoam a complexidade de suas reflexões e a profundidade de seu olhar sobre o mundo. Dylan não se contenta em repetir fórmulas ou seguir expectativas alheias. Ele desafia convenções, reinventa-se e, ao fazê-lo, redefine os limites da música popular, consolidando-se como um dos maiores ícones da cultura a partir dos anos 1960.

O desempenho de Timothée Chalamet é nada menos que especial e autêntico. O ator captura com talento a essência de um jovem Bob Dylan, transmitindo não apenas a postura e os maneirismos icônicos do artista, mas também a inquietude e a vulnerabilidade que definem sua busca por uma identidade artística. Chalamet mergulha profundamente no personagem, entregando uma interpretação que vai além da imitação superficial, revelando camadas emocionais que conectam o espectador à jornada introspectiva de Dylan.

Ao seu lado, Monica Barbaro (vista em Top Gun: Maverick) brilha como uma presença cativante e multifacetada. No papel de uma musa inspiradora, ela não só seduz Bob Dylan, mas também conquista a plateia com seu carisma e profundidade dramática. A química entre os dois funciona maravilhosamente bem, elevando a narrativa e adicionando um toque de humanidade e complexidade ao relacionamento tumultuado que viveram por um tempo. Barbaro, assim como Chalamet, demonstra uma entrega absoluta ao papel, tornando-se um dos grandes destaques da produção.

Juntos, Chalamet e Barbaro não apenas honram as figuras que representam, mas também elevam o filme a um patamar artístico superior, transformando a cinebiografia em uma experiência cinematográfica emocionalmente relevante. Seus desempenhos foram devidamente reconhecidos pela Academia, com indicações ao Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante.

Apesar de todas as boas intenções, Um Completo Desconhecido (título retirado de um verso de uma das canções de Dylan) é uma cinebiografia mais convencional do que poderíamos desejar. Até onde se sabe publicamente, não houve participação direta de Bob Dylan na aprovação do material, o que, de certa forma, explica a abordagem superficial e reverencial adotada pelo filme. James Mangold, que já retratou figuras complexas em obras como Copland, Johnny & June e Ford vs. Ferrari, opta aqui por um caminho seguro, avesso a controvérsias: em vez de mergulhar nas contradições e nuances do artista, escolhe celebrar o mito, evitando questionamentos mais profundos sobre a persona e a obra de Dylan.

O resultado é um filme tecnicamente competente e com momentos de brilho, mas que acaba reduzindo a complexidade de uma das figuras mais enigmáticas e influentes da música do século XX. A ausência de uma interpretação mais ousada ou crítica faz com que Um Completo Desconhecido se aproxime mais de um tributo clássico e rotineiro do que de uma exploração genuína do homem por trás do mito. Em um momento em que as cinebiografias têm se esforçado para desconstruir ícones em busca de veracidade, o projeto, gestado por Mangold por vários anos, deixa transparecer sua inequívoca admiração pelo artista retratado, invalidando uma eventual perspectiva distante e crítica. O diretor opta, portanto, por reforçar apenas a lenda, perdendo a oportunidade de oferecer uma visão mais reveladora e desafiadora.

Assista ao trailer: Um Completo Desconhecido


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela

 


quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Até os Ossos: amor e sangue

 


Na temporada 2022, onde o canibalismo já surgiu forte na série campeã de audiência sobre o serial killer Jeffrey Dahmer na Netflix, o cinema nos brinda com uma ousada, impactante e surpreendente história de amor que também tem como pano de fundo o canibalismo. Porém, diferente daquele produto do streaming, onde o tema aparece como um ritual escatológico de caráter criminoso, no drama de horror Até os Ossos (Bones and All), de Luca Guadagnino (Suspiria, 2018), o canibalismo recebe um tratamento mais metafórico e metafísico, como uma maldição mesmo, ainda que seja extremamente mais explícito na exibição do ato canibal em si.

Reconheçamos, de antemão, que este não é um tema fácil a ser explorado nas obras audiovisuais. É recorrente que o apelo sensacionalista venha sempre em primeiro lugar. Mas não é o caso aqui, ainda que, fosse apenas por este aspecto, Até os Ossos já mereceria nosso olhar mais atento. Mas o filme de Guadagnino vai muito além e não deixa de surpreender o espectador a todo o momento.


Baseado em livro de Camille DeAngelis, premiado em 2016, a adaptação cinematográfica traz a história de um casal de jovens, Maren (Taylor Russell) e Lee (Timothée Chalamet). Eles se encontram ao acaso em uma viagem pelo interior dos Estados Unidos. Ambos marginalizados, em fuga de seus traumas interiores. Uma particularidade os une em um misto de paixão, cumplicidade e sobrevivência: são canibais. O caráter da viagem – literal e simbólica – é um elemento muito presente nos livros da romancista DeAngelis, além de questões feministas e solidão. O filme de Guadagnino respeita estes conceitos e conduz sua narrativa como uma longa jornada de autoconhecimento, o combustível que conduz Maren e Lee até um destino incerto.

Até os Ossos é um road movie de horror e paixão. O guia onipresente da viagem/fuga é o pai de Maren, que deixa de legado uma extensa mensagem gravada em áudio, que a jovem vai ouvindo ao longo da estrada, como fossem capítulos de uma longa história de revelação de suas origens. Ela, assim como nós, é apresentada à verdadeira realidade da sua condição de “devoradora”, ou seja, consumidora de carne humana. Ainda assim, a história se revela incompleta. Falta a figura da mãe, que torna-se então o objeto de busca.


Nesta Via Crucis espiritual Maren encontra, além do parceiro de jornada, Lee (igualmente em processo de entendimento e aceitação da sua condição), outros personagens enigmáticos, que também compartilham o desejo pela carne humana. Em cada etapa da jornada, a cada parada, a cada cidade, o casal recebe novos aprendizados que dão pistas e informações vitais de sobrevivência para aqueles que vivem à margem da sociedade, amaldiçoados pelo desejo da carne.


Luca Guadagnino propõe uma experiência de realidade paralela ao espectador. Ao nos mergulhar no submundo dos chamados “seres devoradores”, somos imersos em um universo de regras próprias. São raras e pontuais as interações do mundo, digamos, corriqueiro e real. A quase totalidade da narrativa se dá em um registro alternativo. Até os Ossos é um relato de personagens marginais. Uma fábula de horror com devoradores de carne humana por necessidade, pois há uma ética e uma moral a ser respeitada. Neste arco narrativo tanto Maren quanto Lee confrontam seus fantasmas e a irreversibilidade de suas existências. Até os Ossos é um filme que permanece ecoando em nossas mentes após a sessão e já nasce predestinado a ser cultuado.


A escolha de Timothée Chalamet por Luca Guadagnino não deixa de revelar uma certa ironia do destino. Ambos já trabalharam juntos em Me Chame Pelo Seu Nome (2017), com Armie Hammer, o ator que teve a carreira destruída por acusações de cometer atos de... canibalismo! Outro destaque do elenco é a canadense Taylor Russell, que ganhou grande visibilidade ao participar da nova versão de Perdidos no Espaço (3 temporadas) da Netflix, no papel de Judy Robinson. Sua presença é o grande destaque e o melhor da série. Está aí uma atriz à beira do estrelato no primeiro time.

Assista ao trailer: Até os Ossos


Jorge Ghiorzi / Membro da ACCIRS

janeladatela@gmail.com