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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Só Por Uma Noite: sexo com hora marcada

 

Há apenas uma maneira de mergulhar integralmente na história de Só Por Uma Noite (One Night Only), e ela passa necessariamente pela nossa capacidade de aceitar, sem restrições, o conceito que sustenta a trama. Qual seria esse conceito? No universo proposto pelo filme, uma lei governamental permite que os solteiros dos Estados Unidos façam sexo antes do casamento apenas em uma data específica, das 19h às 7h. Isso mesmo: 12 horas de sexo livre, sem culpa, sem compromisso, sem necessidade de ligar no dia seguinte e, graças ao uso obrigatório de preservativos, sem o risco de uma gravidez indesejada. Fora desse período, homens e mulheres não casados devem se submeter à castidade. Com uma premissa dessas, a abordagem se prestaria perfeitamente a uma distopia de ficção científica, algo na linha de É Proibido Procriar, produção cult britânica estrelada por Oliver Reed e Geraldine Chaplin em 1972. Mas não é o caso aqui: o tema foi tratado como uma comédia romântica.

Naquela noite de fornicação consentida, nossa atenção se concentra em dois personagens. Dono de uma pizzaria, Owen (Callum Turner) é um romântico apaixonado, prestes a brindar a futura esposa com um anel de brilhantes. Seu mundo vem abaixo quando a noiva pede licença para aproveitar aquela noite de sexo livre com outro homem. A outra personagem que acompanhamos é Allie (Monica Barbaro), uma cantora de jingles insatisfeita com a carreira e com a falta de relacionamentos afetivos verdadeiramente autênticos. É nesse clima de puro descompasso emocional que os dois terão que atravessar a noite, em que a euforia geral contrasta diretamente com a nuvem de frustração sobre suas cabeças. Ambos agem como se estivessem na festa errada, da qual preferiam escapar, mas o acaso acaba conduzindo seus passos até um inevitável encontro casual pelas ruas. Ao contrário do que prevê o manual das comédias românticas, a faísca inicial não é suficiente para acender o fogo de imediato. Em situações distintas e inesperadas, eles continuam se cruzando ao longo da madrugada, até que o óbvio se escancara quando o destino dá a resposta que ambos procuravam.

A direção é de Will Gluck, que em 2011 assinou Amizade Colorida, onde Mila Kunis e Justin Timberlake vivem dois amigos que decidem levar a parceria a outro nível, incluindo na relação o sexo sem compromisso. Como se percebe, o realizador revisita aqui a dinâmica dos desejos casuais e suas consequências. Assim, Só Por Uma Noite se constrói como uma fábula moral moderadamente satírica ao partir de uma premissa absurda para desenvolvê-la sob uma ótica humanizada e realista. Nessa caminhada, a narrativa evoca diretamente o espírito de Depois de Horas, de Martin Scorsese, ao lançar seus protagonistas em uma jornada noturna contínua.

Só Por Uma Noite é um conto romântico movido pela urgência implacável do relógio, que se passa em uma Nova York que se recusa a ser mero pano de fundo. Filmada em locações reais, a metrópole surge de forma pulsante e palpável, tornando-se um verdadeiro elemento narrativo. É através desse labirinto urbano cru, repleto de encontros bizarros e tipos excêntricos, que o caos da madrugada espelha o desconforto emocional e a aproximação inevitável da dupla até o amanhecer. Para além do mero recurso narrativo, essa inacreditável lei proposta pelo filme funciona como uma divertida provocação à clássica moral careta dos americanos. Só mesmo uma sociedade historicamente puritana para achar que a libertação dos corpos se resolve com hora marcada e agendamento prévio. Ao transformar a noitada em um compromisso de agenda, a comédia debocha dessa mania de querer burocratizar os afetos, mostrando que nenhum decreto governamental é capaz de organizar o verdadeiro caos da busca por intimidade genuína.

No fim das contas, a grande ironia do filme está em sua recusa deliberada de ser o manifesto que poderia ser, ainda que com viés de comédia. A narrativa aceita a imposição autoritária na norma legal como um dado inquestionável daquele universo, sem qualquer interesse em criticar ou debater o controle estatal sobre os corpos. Ao jogar seus personagens em uma realidade utópica sem reflexões políticas, Só Por Uma Noite reduz a lei bizarra a um mero pretexto narrativo cujo efeito colateral serve apenas para desencadear uma momentânea desordem urbana e nos lembrar de que o afeto genuíno ainda encontra brechas para acontecer. Contudo, para uma comédia amarrada em uma premissa tão absurda, o longa comete o pecado mortal de não ousar na transgressão, entregando protagonistas conformados que aceitam passivamente a situação sem qualquer gesto de insubmissão.

Assista ao trailer: Só Por Uma Noite


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Um Completo Desconhecido: soprando no vento

 

O músico e compositor Bob Dylan já foi tema de um documentário de Martin Scorsese (No Direction Home, 2005) e também interpretado em versões distintas de sua vida por Cate Blanchett, Ben Whishaw, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger, Christian Bale e Richard Gere no filme biográfico estilizado Não Estou Lá (2007), dirigido por Todd Haynes. Agora, chega às telas a nova cinebiografia Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown, 2024), dirigida por James Mangold, que limita seu recorte aos primeiros anos do artista.

O jovem Robert Zimmerman, com 19 anos, chega a Nova York no início dos anos 1960 com seu violão e um talento revolucionário. Seu primeiro objetivo é mostrar uma de suas composições ao ídolo da juventude, o astro da folk music Woody Guthrie, internado em um hospital psiquiátrico. Assim, inicia-se a jornada do grande músico e compositor que passaria a ser conhecido pelo nome artístico de Bob Dylan (Timothée Chalamet). Na cidade, ele estabelece relações com a cena musical da época e dá os primeiros passos na carreira, ainda no gênero folk. Nesse período, conhece a cantora Joan Baez (Monica Barbaro), com quem viria a formar uma dupla nos primeiros tempos, dentro e fora dos palcos. Rapidamente, Dylan alcança o sucesso, mas sua ascensão à fama é marcada por muitos conflitos pessoais e artísticos. A culminância daquele primeiro período do artista acontece em 1965, com sua polêmica e transgressora apresentação no Festival Newport Folk, quando ousou utilizar elementos do rock elétrico em suas canções.

Bob Dylan, como retratado no filme, surge como um artista em constante transformação, um espírito inquieto em busca de sua verdadeira forma de expressão. Ao longo de sua trajetória, ele não se limita a um único gênero musical, transitando com maestria entre o folk, o blues e outros estilos, em uma jornada que reflete não apenas a evolução de sua música, mas também de sua identidade como criador. Essa busca incessante por uma voz autêntica vai além da mera experimentação sonora: é, antes de tudo, uma tentativa de dar forma musical à sua poesia, transformando palavras em melodias que ecoam a complexidade de suas reflexões e a profundidade de seu olhar sobre o mundo. Dylan não se contenta em repetir fórmulas ou seguir expectativas alheias. Ele desafia convenções, reinventa-se e, ao fazê-lo, redefine os limites da música popular, consolidando-se como um dos maiores ícones da cultura a partir dos anos 1960.

O desempenho de Timothée Chalamet é nada menos que especial e autêntico. O ator captura com talento a essência de um jovem Bob Dylan, transmitindo não apenas a postura e os maneirismos icônicos do artista, mas também a inquietude e a vulnerabilidade que definem sua busca por uma identidade artística. Chalamet mergulha profundamente no personagem, entregando uma interpretação que vai além da imitação superficial, revelando camadas emocionais que conectam o espectador à jornada introspectiva de Dylan.

Ao seu lado, Monica Barbaro (vista em Top Gun: Maverick) brilha como uma presença cativante e multifacetada. No papel de uma musa inspiradora, ela não só seduz Bob Dylan, mas também conquista a plateia com seu carisma e profundidade dramática. A química entre os dois funciona maravilhosamente bem, elevando a narrativa e adicionando um toque de humanidade e complexidade ao relacionamento tumultuado que viveram por um tempo. Barbaro, assim como Chalamet, demonstra uma entrega absoluta ao papel, tornando-se um dos grandes destaques da produção.

Juntos, Chalamet e Barbaro não apenas honram as figuras que representam, mas também elevam o filme a um patamar artístico superior, transformando a cinebiografia em uma experiência cinematográfica emocionalmente relevante. Seus desempenhos foram devidamente reconhecidos pela Academia, com indicações ao Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante.

Apesar de todas as boas intenções, Um Completo Desconhecido (título retirado de um verso de uma das canções de Dylan) é uma cinebiografia mais convencional do que poderíamos desejar. Até onde se sabe publicamente, não houve participação direta de Bob Dylan na aprovação do material, o que, de certa forma, explica a abordagem superficial e reverencial adotada pelo filme. James Mangold, que já retratou figuras complexas em obras como Copland, Johnny & June e Ford vs. Ferrari, opta aqui por um caminho seguro, avesso a controvérsias: em vez de mergulhar nas contradições e nuances do artista, escolhe celebrar o mito, evitando questionamentos mais profundos sobre a persona e a obra de Dylan.

O resultado é um filme tecnicamente competente e com momentos de brilho, mas que acaba reduzindo a complexidade de uma das figuras mais enigmáticas e influentes da música do século XX. A ausência de uma interpretação mais ousada ou crítica faz com que Um Completo Desconhecido se aproxime mais de um tributo clássico e rotineiro do que de uma exploração genuína do homem por trás do mito. Em um momento em que as cinebiografias têm se esforçado para desconstruir ícones em busca de veracidade, o projeto, gestado por Mangold por vários anos, deixa transparecer sua inequívoca admiração pelo artista retratado, invalidando uma eventual perspectiva distante e crítica. O diretor opta, portanto, por reforçar apenas a lenda, perdendo a oportunidade de oferecer uma visão mais reveladora e desafiadora.

Assista ao trailer: Um Completo Desconhecido


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela