
Há apenas uma maneira de mergulhar integralmente na história de Só Por Uma Noite (One Night Only), e ela passa necessariamente pela nossa capacidade de aceitar, sem restrições, o conceito que sustenta a trama. Qual seria esse conceito? No universo proposto pelo filme, uma lei governamental permite que os solteiros dos Estados Unidos façam sexo antes do casamento apenas em uma data específica, das 19h às 7h. Isso mesmo: 12 horas de sexo livre, sem culpa, sem compromisso, sem necessidade de ligar no dia seguinte e, graças ao uso obrigatório de preservativos, sem o risco de uma gravidez indesejada. Fora desse período, homens e mulheres não casados devem se submeter à castidade. Com uma premissa dessas, a abordagem se prestaria perfeitamente a uma distopia de ficção científica, algo na linha de É Proibido Procriar, produção cult britânica estrelada por Oliver Reed e Geraldine Chaplin em 1972. Mas não é o caso aqui: o tema foi tratado como uma comédia romântica.

Naquela noite de fornicação consentida, nossa atenção se concentra em dois personagens. Dono de uma pizzaria, Owen (Callum Turner) é um romântico apaixonado, prestes a brindar a futura esposa com um anel de brilhantes. Seu mundo vem abaixo quando a noiva pede licença para aproveitar aquela noite de sexo livre com outro homem. A outra personagem que acompanhamos é Allie (Monica Barbaro), uma cantora de jingles insatisfeita com a carreira e com a falta de relacionamentos afetivos verdadeiramente autênticos. É nesse clima de puro descompasso emocional que os dois terão que atravessar a noite, em que a euforia geral contrasta diretamente com a nuvem de frustração sobre suas cabeças. Ambos agem como se estivessem na festa errada, da qual preferiam escapar, mas o acaso acaba conduzindo seus passos até um inevitável encontro casual pelas ruas. Ao contrário do que prevê o manual das comédias românticas, a faísca inicial não é suficiente para acender o fogo de imediato. Em situações distintas e inesperadas, eles continuam se cruzando ao longo da madrugada, até que o óbvio se escancara quando o destino dá a resposta que ambos procuravam.
A direção é de Will Gluck, que em 2011 assinou Amizade Colorida, onde Mila Kunis e Justin Timberlake vivem dois amigos que decidem levar a parceria a outro nível, incluindo na relação o sexo sem compromisso. Como se percebe, o realizador revisita aqui a dinâmica dos desejos casuais e suas consequências. Assim, Só Por Uma Noite se constrói como uma fábula moral moderadamente satírica ao partir de uma premissa absurda para desenvolvê-la sob uma ótica humanizada e realista. Nessa caminhada, a narrativa evoca diretamente o espírito de Depois de Horas, de Martin Scorsese, ao lançar seus protagonistas em uma jornada noturna contínua.

Só Por Uma Noite é um conto romântico movido pela urgência implacável do relógio, que se passa em uma Nova York que se recusa a ser mero pano de fundo. Filmada em locações reais, a metrópole surge de forma pulsante e palpável, tornando-se um verdadeiro elemento narrativo. É através desse labirinto urbano cru, repleto de encontros bizarros e tipos excêntricos, que o caos da madrugada espelha o desconforto emocional e a aproximação inevitável da dupla até o amanhecer. Para além do mero recurso narrativo, essa inacreditável lei proposta pelo filme funciona como uma divertida provocação à clássica moral careta dos americanos. Só mesmo uma sociedade historicamente puritana para achar que a libertação dos corpos se resolve com hora marcada e agendamento prévio. Ao transformar a noitada em um compromisso de agenda, a comédia debocha dessa mania de querer burocratizar os afetos, mostrando que nenhum decreto governamental é capaz de organizar o verdadeiro caos da busca por intimidade genuína.

No fim das contas, a grande ironia do filme está em sua recusa deliberada de ser o manifesto que poderia ser, ainda que com viés de comédia. A narrativa aceita a imposição autoritária na norma legal como um dado inquestionável daquele universo, sem qualquer interesse em criticar ou debater o controle estatal sobre os corpos. Ao jogar seus personagens em uma realidade utópica sem reflexões políticas, Só Por Uma Noite reduz a lei bizarra a um mero pretexto narrativo cujo efeito colateral serve apenas para desencadear uma momentânea desordem urbana e nos lembrar de que o afeto genuíno ainda encontra brechas para acontecer. Contudo, para uma comédia amarrada em uma premissa tão absurda, o longa comete o pecado mortal de não ousar na transgressão, entregando protagonistas conformados que aceitam passivamente a situação sem qualquer gesto de insubmissão.
Assista ao trailer: Só Por Uma Noite
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
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