quarta-feira, 22 de abril de 2026

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra: caótico, estranho e cheio de graça

 

O retorno de Gore Verbinski, conhecido pela franquia Piratas do Caribe, à sua melhor forma ocorre com este Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die, 2025). Após um período de afastamento de produções com grande visibilidade, o diretor entrega uma comédia de ficção científica que se mostra uma experiência caótica, intrigante e profundamente envolvente. O longa consegue equilibrar a leveza do humor com uma mensagem social urgente sobre os nossos tempos.

A trama utiliza um recurso narrativo familiar ao público que é a viagem temporal, mas o faz com uma abordagem urbana e direta. Na história, um homem (Sam Rockwell) vindo de um futuro apocalíptico desembarca em uma lanchonete comum de Los Angeles com uma missão clara e urgente. Ele precisa recrutar um grupo de clientes comuns que estão no local para auxiliá-lo a impedir uma catástrofe que determinará o destino da humanidade.

Embora o ponto de partida traga lembranças imediatas de clássicos sci-fi como O Exterminador do Futuro, onde um personagem vem do futuro para consertar no presente uma situação que será decisiva no amanhã, as semelhanças terminam na premissa. O filme abandona a tensão e a violência gráfica em favor de uma jornada vibrante e bem-humorada. No centro do conflito encontramos um vilão certeiro e onipresente na figura da Inteligência Artificial. A produção trata a influência decisiva do universo digital sobre os seres humanos como uma doença coletiva da qual a sociedade dificilmente consegue escapar. O roteiro ecoa a atmosfera da série Black Mirror ao mirar uma crítica contundente na forma como a tecnologia molda comportamentos sociais.

Nesse cenário surge um dos pontos mais fascinantes da obra que é o contraste geracional. A narrativa posiciona os adultos como os heróis da jornada pelo fato de terem experimentado a vida antes da hegemonia algorítmica. Eles funcionam como âncoras da realidade física e possuem a memória do que significa o contato humano genuíno sem a mediação de telas. Essa bagagem analógica é a única arma capaz de resgatar as gerações mais jovens de uma existência etérea e controlada que os multiversos prometem como se fosse plenitude existencial.

A assinatura visual de Gore Verbinski é fundamental para o sucesso dessa sátira tecnológica. O diretor utiliza sua habitual habilidade em criar cenários exagerados e situações absurdas para ridicularizar a nossa dependência digital. Sua estética transita entre o realismo palpável e o surrealismo vibrante, criando um contraste visual que traduz perfeitamente a desorientação causada pela IA.

Um exemplo pontual dessa abordagem ocorre na sequência onde surge um gigantesco ser híbrido gerado por um prompt inadequado. Essa cena é exemplar como crítica mordaz ao mostrar as deformidades do processo criativo automatizado. Diferente de realizadores que optam por um visual limpo e futurista, Verbinski entrega uma tecnologia que parece invasiva e desgastada. Essa escolha reforça a crítica ao mostrar como o digital consome o espaço do real e transforma a vida cotidiana em um espetáculo grotesco e manipulado.

O desempenho de Sam Rockwell é um espetáculo à parte na condução da história. Seja em papéis secundários ou como protagonista, o ator sempre entrega uma performance singular e explosiva que impede qualquer indiferença da audiência. Sua energia ajuda a sustentar uma trama intrincada e repleta de imaginação que remete à complexidade de, por exemplo, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

Entretanto, o longa de Verbinski supera o vencedor do Oscar de 2023 em um aspecto fundamental por não se tornar pretensioso ou maçante. O saldo é uma comédia com um recado sério que consegue ser inventiva sem sacrificar o entretenimento e prova que é possível discutir os perigos da tecnologia com originalidade, leveza e graça.

Assista ao trailer: Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


terça-feira, 21 de abril de 2026

Michael: o legado de um mito

 

Um olhar íntimo e humanizado sobre a trajetória do Rei do Pop é o que temos em Michael, a cinebiografia que celebra o legado do artista que redefiniu a música global. Protagonizado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor e integrante legítimo do clã Jackson, o longa percorre desde o fenômeno juvenil do grupo Jackson 5 até sua consagração na carreira solo como uma das maiores referências culturais do planeta. Sob a direção de Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor), o filme transcende os palcos para revelar as ambições e a genialidade por trás do mito, destacando o processo criativo e a visão artística ímpar que transformaram Michael Jackson em um ícone histórico de impacto incalculável.

O desejo de superar a linha da pobreza e conquistar melhores condições de vida na pequena Gary, Indiana (EUA), era o sonho dourado da família Jackson. Sob a liderança de mão de ferro do pai, Joe (Colman Domingo, em desempenho impecável), os garotos foram lançados a uma rotina exaustiva de ensaios na sala de casa, ainda crianças. Em meio a uma disciplina pesada, eles mal tiveram a oportunidade de vivenciar a plenitude da infância e da adolescência como qualquer garoto da época na transição dos anos 60 para os 70. Naquele grupo moldado para o estrelato, quem mais sofreu as consequências dessa infância roubada foi o mais jovem deles, Michael.

A trajetória e a grandeza da história de Michael Jackson pediam há muitos anos uma versão cinematográfica que desse conta de narrar a construção de um dos maiores ídolos da música de todos os tempos. O público ansiava por bastidores que conferissem um sabor extra à apreciação do homem por trás do mito. Infelizmente, essa expectativa é parcialmente frustrada. A tão aguardada cinebiografia do astro é um projeto mais convencional do que se poderia desejar porque carece de criatividade na maior parte do tempo, justamente o traço mais destacado no perfil artístico do biografado. O que vemos em cena é de pouco brilho apesar das luzes intensas dos palcos. A magnitude da história está toda lá e se conta por si só, mas a forma de contá-la fica aquém da altura da figura representada.

O diretor Antoine Fuqua foi pouco ousado e limitou-se a uma condução didática, correta e reverente ao ídolo (convenhamos, não haveria de ser diferente). No entanto, o filme poderia ter expandido o olhar e arriscado mostrar algo além das manchetes que todos conhecemos sobre o astro. As sequências que retratam o artista no processo de composição das músicas do álbum Thriller e os bastidores da gravação do clássico videoclipe que revolucionou o gênero são os únicos momentos realmente inspirados e empolgantes. No mais, fica a sensação de que falta a magia e o imaginário que foram forças vitais na criação de Michael Jackson.

Representar na tela a vida de um mito dessa dimensão impõe uma série de obstáculos de ordem moral e de privacidade que raramente são expostos quando se trata de grandes estrelas. Falhas e passagens menos abonadoras costumam ser omitidas em cinebiografias de celebridades, como ocorreu em projetos sobre Elvis Presley, Elton John e Amy Winehouse, dentre outros. Podemos apenas imaginar os caminhos tortuosos pelos quais o roteiro precisou transitar sob o crivo de aprovações e vetos de familiares (alguns deles ligados diretamente à produção), empresários e outras figuras de relevância na trajetória do artista.

Com tantos filtros desidratando a chamada “verdadeira história”, o que resta é a clássica versão chapa-branca que não ousa ofender a memória do homenageado. O retrato resultante é o de um personagem gigantesco que se deixou levar por fraqueza ou por um comportamento hesitante ao não assumir os destinos de sua própria carreira em diversas passagens. Estaríamos, portanto, diante de um dos sintomas da chamada Síndrome de Peter Pan, que acomete indivíduos com dificuldade em amadurecer. A analogia aqui é evidente, dado que o personagem que não queria crescer e se refugiava na Terra do Nunca era um dos mais admirados por Jackson, o que justifica o nome dado à sua própria mansão, ‘Neverland Ranch’.

A obra de Fuqua parece ser menos um mergulho artístico e mais um exercício de gestão de marca no fim das contas. É um exemplo pedagógico de como a indústria do entretenimento lida com seus fantasmas mais famosos ao preferir o brilho inofensivo da representação iconográfica à complexidade humana e sombria do homem que um dia existiu.

Assista ao trailer: Michael


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela