
O retorno de Gore Verbinski, conhecido pela franquia Piratas do Caribe, à sua melhor forma ocorre com este Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (Good Luck, Have Fun, Don't Die, 2025). Após um período de afastamento de produções com grande visibilidade, o diretor entrega uma comédia de ficção científica que se mostra uma experiência caótica, intrigante e profundamente envolvente. O longa consegue equilibrar a leveza do humor com uma mensagem social urgente sobre os nossos tempos.
A trama utiliza um recurso narrativo familiar ao público que é a viagem temporal, mas o faz com uma abordagem urbana e direta. Na história, um homem (Sam Rockwell) vindo de um futuro apocalíptico desembarca em uma lanchonete comum de Los Angeles com uma missão clara e urgente. Ele precisa recrutar um grupo de clientes comuns que estão no local para auxiliá-lo a impedir uma catástrofe que determinará o destino da humanidade.

Embora o ponto de partida traga lembranças imediatas de clássicos sci-fi como O Exterminador do Futuro, onde um personagem vem do futuro para consertar no presente uma situação que será decisiva no amanhã, as semelhanças terminam na premissa. O filme abandona a tensão e a violência gráfica em favor de uma jornada vibrante e bem-humorada. No centro do conflito encontramos um vilão certeiro e onipresente na figura da Inteligência Artificial. A produção trata a influência decisiva do universo digital sobre os seres humanos como uma doença coletiva da qual a sociedade dificilmente consegue escapar. O roteiro ecoa a atmosfera da série Black Mirror ao mirar uma crítica contundente na forma como a tecnologia molda comportamentos sociais.
Nesse cenário surge um dos pontos mais fascinantes da obra que é o contraste geracional. A narrativa posiciona os adultos como os heróis da jornada pelo fato de terem experimentado a vida antes da hegemonia algorítmica. Eles funcionam como âncoras da realidade física e possuem a memória do que significa o contato humano genuíno sem a mediação de telas. Essa bagagem analógica é a única arma capaz de resgatar as gerações mais jovens de uma existência etérea e controlada que os multiversos prometem como se fosse plenitude existencial.

A assinatura visual de Gore Verbinski é fundamental para o sucesso dessa sátira tecnológica. O diretor utiliza sua habitual habilidade em criar cenários exagerados e situações absurdas para ridicularizar a nossa dependência digital. Sua estética transita entre o realismo palpável e o surrealismo vibrante, criando um contraste visual que traduz perfeitamente a desorientação causada pela IA.
Um exemplo pontual dessa abordagem ocorre na sequência onde surge um gigantesco ser híbrido gerado por um prompt inadequado. Essa cena é exemplar como crítica mordaz ao mostrar as deformidades do processo criativo automatizado. Diferente de realizadores que optam por um visual limpo e futurista, Verbinski entrega uma tecnologia que parece invasiva e desgastada. Essa escolha reforça a crítica ao mostrar como o digital consome o espaço do real e transforma a vida cotidiana em um espetáculo grotesco e manipulado.

O desempenho de Sam Rockwell é um espetáculo à parte na condução da história. Seja em papéis secundários ou como protagonista, o ator sempre entrega uma performance singular e explosiva que impede qualquer indiferença da audiência. Sua energia ajuda a sustentar uma trama intrincada e repleta de imaginação que remete à complexidade de, por exemplo, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

Entretanto, o longa de Verbinski supera o vencedor do Oscar de 2023 em um aspecto fundamental por não se tornar pretensioso ou maçante. O saldo é uma comédia com um recado sério que consegue ser inventiva sem sacrificar o entretenimento e prova que é possível discutir os perigos da tecnologia com originalidade, leveza e graça.
Assista ao trailer: Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
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