sábado, 9 de maio de 2026

Edifício Bonfim: o lado sombrio da Ilha da Magia

 

A cidade de Florianópolis é nacionalmente celebrada como a "Ilha da Magia", título justificado por suas praias exuberantes, geografia privilegiada e o sol generoso que atrai visitantes de todas as latitudes. No entanto, o longa-metragem Edifício Bonfim, inteiramente rodado na capital catarinense, propõe uma ressignificação instigante para o termo. Aqui, a "magia" abandona o sentido poético e turístico para abraçar o literal, o macabro e o aterrador. A direção é assinada por Lígia Walper, profissional com sólida carreira como produtora, montadora e roteirista de projetos televisivos, que faz aqui sua estreia na condução de um longa-metragem.

Como qualquer centro urbano, Florianópolis é guardiã de mitos e crenças populares que moldam o imaginário coletivo através das gerações. Os alicerces do fictício Edifício Bonfim erguem-se sobre essas narrativas (cuja veracidade histórica é secundária ao seu impacto cultural), apresentando contos ficcionais povoados por entidades malignas, bruxas e figuras sombrias como serial killers.

O filme estrutura-se como uma antologia composta por três histórias distintas, tendo como ponto de convergência o edifício que dá nome à obra. Nessa configuração, o prédio assume o status de um "personagem silencioso". Contudo, nota-se que esse potencial cenográfico não é plenamente explorado para amarrar as tramas. A narrativa, por vezes, parece navegar à deriva, carecendo de uma justificativa mais robusta que conecte organicamente os núcleos e valide a escolha do edifício como o grande catalisador dos eventos sobrenaturais.

As três narrativas se entrecruzam na abertura do filme, que apresenta uma reunião de condomínio onde o espectador é brevemente introduzido aos protagonistas. A partir deste ponto o cotidiano dá lugar ao macabro, e cada um deles passa a vivenciar sua própria experiência de horror.

No primeiro segmento, intitulado "Criatura", a urgência de um chamado de sequestro com reféns retira um policial do conforto de seu lar e da iminência do nascimento de seu filho. O clímax do episódio o coloca frente a frente com uma criatura demoníaca voraz. Um dos pontos altos do segmento é a excelente caracterização da entidade, graças à plasticidade da maquiagem.

Dando sequência à antologia, o segundo episódio, "Trilha da Costa", nos coloca no encalço de uma bruxa que teria sido avistada e registrada em vídeo por uma integrante de um grupo de trilha pelas matas de Florianópolis. A trama se desenvolve sob o signo da ambiguidade: o registro seria autêntico ou apenas uma farsa digital? O desfecho perturbador se encarrega de entregar as respostas, validando o folclore sombrio da ilha.

Já no terceiro e último segmento, intitulado "Formando", somos apresentados a um inusitado curso de especialização para serial killers, no qual um dos moradores do Edifício Bonfim destaca-se como aluno laureado. Na cerimônia de graduação, o dedicado estudante recebe aquela que será sua última e inesperada lição prática.


Um dos pontos de maior atrito na obra reside no descompasso entre o texto e a mise-en-scène. O roteiro, enxuto e dramaticamente bem construído a oito mãos por Tabajara Ruas, Cesar Alcázar, Christopher Kastensmidt e Duda Falcão, carrega em seus diálogos e situações uma carga de ironia e cinismo que a direção nem sempre consegue traduzir visualmente ou extrair da encenação do elenco. A obra oscila entre o horror visceral, o suspense moderado e flertes com a comédia. Embora tal hibridismo possa ser um exercício cênico válido, ele representa um risco alto para a fluidez entre os gêneros, resultando em um certo distanciamento do espectador, que encontra dificuldades em localizar os eixos necessários para uma imersão profunda.

Essa sensação de estranheza é acentuada pela trilha sonora. A inserção de certas canções destoa do contexto geral, interrompendo a construção da atmosfera e fragilizando a verossimilhança do universo que o filme tenta estabelecer.

Apesar das oscilações rítmicas, a premissa de concentrar figuras peculiares em um mesmo microcosmo geográfico é promissora. Edifício Bonfim planta uma semente fértil para futuras sequências, possuindo potencial para se tornar uma coletânea robusta que explore novos moradores e expanda o lado inusitado e sombrio da face oculta da ilha.

A obra de Lígia Walper abraça, sem preconceito, o cinema de gênero, exercitando um modelo de entretenimento honesto e sincero, com propósito bem definido. O longa se insere em um momento muito promissor do cinema catarinense, que atravessa sua fase de maior produção e visibilidade. Esforços isolados do passado estão ganhando consistência com uma produção mais estruturada e diversificada. Neste aspecto, destaca-se um nicho poderoso do atual cenário estadual: o terror e o fantástico regional. É exatamente nesta temática que se insere esta louvável produção, fortalecendo um movimento que merece atenção.

Da produção recente em Santa Catarina, vale destacar ainda o longa Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar, exibido na Première Brasil do Festival do Rio e vencedor do prêmio “Goes to Cannes” no Marché du Film. A obra conquistou também o 3º Prêmio Netflix na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, garantindo sua distribuição global via streaming. Outro destaque relevante é o lançamento, ainda este ano, do longa-metragem de terror Casarão (da mesma Cíntia Domit Bittar), ambientado na década de 1950, no interior rural do estado.

Assista ao trailer: Edifício Bonfim


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


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