
Por muito pouco o público não foi privado de uma das comédias mais inspiradas dos últimos anos. A animação quase foi engavetada por uma manobra jurídico-contábil do estúdio Warner Bros. Discovery, que suspendeu o lançamento para alegar prejuízo financeiro e se beneficiar com redução no pagamento de impostos. Essa foi a mesma estratégia polêmica utilizada na produção, finalização e engavetamento do filme solo Batgirl. Uma atitude digna da própria ACME, convenhamos. Esta história só foi revertida após forte pressão do elenco, do diretor e de uma grande mobilização de fãs, permitindo que a Ketchup Entertainment adquirisse os direitos de distribuição. O fato de Coyote vs. Acme finalmente chegar às telas já é, por si só, uma imensa vitória para o cinema.
E que vitória. O filme, dirigido por Dave Green (de As Tartarugas Ninja: Fora da Sombras, 2016) promove um reencontro nostálgico com personagens que povoaram as manhãs em frente à TV de tantas gerações, se estabelecendo como a melhor produção a combinar live-action com animação desde o clássico Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988). Na trama, cansado de ver suas armadilhas para capturar o Papa-Léguas falharem miseravelmente e resultarem em acidentes dolorosos, Wile E. Coyote decide tomar uma atitude inédita e contrata Kevin (Will Forte), um advogado de pequenas causas, para processar a gigantesca ACME Corporation por disponibilizar produtos defeituosos. O caso ganha repercussão midiática e chega até os tribunais, se transformando em um embate jurídico épico quando a corporação envia seu implacável e intimidador CEO (John Cena), ex-chefe de Kevin, disposto a tudo para defender a reputação de seu império. Em essência, Coyote vs. Acme é um filme de tribunal.

A narrativa funciona brilhantemente por dialogar com a memória afetiva do espectador. A violência estilizada dos Looney Tunes nunca foi sobre dor ou destruição, pois sempre foi sobre a celebração do absurdo. Foi essa fórmula que forjou gerações na magia de se divertir com pancadas sem sequelas, explosões sem sangue e a mais gloriosa subversão das leis da física, em que a gravidade só funciona quando o personagem olha para baixo.
Essa dinâmica captura a essência pura do humor pastelão (slapstick). Quem cresceu assistindo a esses desenhos desenvolveu uma relação afetiva com o absurdo, no qual o impacto físico existe como recurso estritamente cômico. Não há trauma ou tragédia na explosão de uma dinamite, ou uma bigorna caindo do penhasco ou um martelo esmagando o dedão. Existe apenas o ritmo perfeito da piada e a resiliência inabalável de quem se levanta no frame seguinte, pronto para a próxima tentativa de chegar ao seu objetivo. O filme entende que a graça nunca esteve no sofrimento do Coyote, mas na sua obstinação de continuar tentando em um mundo onde a lógica real não se aplica.

Grande parte desse sucesso se deve ao afiado elenco live-action. Destacam-se as atuações de Will Forte, perfeito como o advogado frágil brigando contra uma megacorporação, e de John Cena, que entrega uma performance descarada, exagerada e divertida como o CEO da ACME, construído como um típico vilão cartunesco, cheio de truques e autoconfiança exagerada.

Com soluções inteligentes de roteiro que amarram a metalinguagem jurídica ao caos dos desenhos animados, o filme transborda envolvimento e ritmo. O humor é afiado, gerando sequências genuinamente hilárias que arrancam gargalhadas sinceras da plateia do início ao fim. Por mais que soe como um clichê, a obra prova ser aquele raro entretenimento universal, pois fisga os adultos pelo resgate afetuoso do passado e encanta os mais jovens pela energia inabalável da comédia física. Coyote vs. Acme é um êxito do cinema de humor, mostrando que, contra todas as probabilidades e manobras corporativas, o Coyote, de alguma maneira, desta vez saiu vitorioso.
Assista ao trailer: Coyote vs. Acme
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
Pretendo ver ainda essa semana.
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