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domingo, 11 de janeiro de 2026

O Beijo da Mulher Aranha: a arte como resistência

Quatro décadas após a impactante adaptação de Hector Babenco, O Beijo da Mulher Aranha ganha nova vida nas telas em 2025, dirigida por Bill Condon (Deuses e Monstros e Dreamgirls). Para o público brasileiro, a expectativa inicial poderia ser a de um simples remake hollywoodiano do clássico de 1985. Mas não é bem isso. Esta versão adapta o premiado musical da Broadway de 1993, que também se baseia no romance do argentino Manuel Puig. Essa origem teatral explica a predominância dos números musicais, que invadem a narrativa com exuberância, muitas vezes sacrificando a profundidade do contexto político central na obra original.

Em meio à violência e à degradação de uma prisão argentina durante a ditadura militar dos anos 1980, onde a tortura e a vigilância constante buscam aniquilar qualquer resquício de humanidade, Luis Molina (interpretado por Tonatiuh, com entrega, delicadeza e autonomia marcantes), um decorador de vitrines condenado por atentado ao pudor, divide a cela com o preso político Valentín Arregui (Diego Luna). Para escapar dos horrores cotidianos, Molina narra o enredo de seu musical hollywoodiano favorito, estrelado pela diva Ingrid Luna (Jennifer Lopez) no papel da sedutora Mulher-Aranha. Uma fantasia que, aos poucos, transforma a relação improvável entre os dois em um laço profundo de empatia, vulnerabilidade e amor.

Apesar do background já gravado no inconsciente coletivo daqueles que conhecem a adaptação icônica dos anos 1980, é preciso destacar que os protagonistas desta versão constroem personagens distintos e autônomos em relação ao trio clássico de Babenco (William Hurt, vencedor do Oscar por este papel, Raul Julia e Sonia Braga). As atuações de Tonatiuh e Diego Luna oferecem uma leitura fresca e contemporânea, especialmente sensível às nuances de gênero, identidade e vulnerabilidade emocional.

A nova adaptação abraça deliberadamente o escapismo e tangencia o pano de fundo sociopolítico. Há uma ousadia comedida ao privilegiar a beleza em detrimento da tragédia. Politicamente tímido, distante e pouco comprometido, o filme potencializa a ficção como forma de resistência, afirmando dignidade e humanidade apesar da ditadura. Uma perspectiva que, por fim, ainda ecoa no contexto atual.

O cerne emocional do filme reside na declaração de Molina, que diz ter descoberto a dignidade justamente no lugar mais indigno do mundo. Essa afirmação sintetiza a conexão improvável entre ele e Valentín, que nasce do escapismo compartilhado de filmes e musicais, evolui para uma empatia profunda e culmina em um amor que transcende rótulos de gênero, orientação sexual ou ideologia. Em meio à opressão da prisão, a fantasia deixa de ser simples evasão e se transforma no caminho para redescobrir a humanidade, o afeto e a autoestima


O projeto conta com nomes de peso como Ben Affleck e Matt Damon, como produtores executivos, ao lado da própria Jennifer Lopez que também atua como produtora, tornando o longa um veículo pessoal para seu estrelismo. Os números musicais que protagoniza resgatam um glamour tardio dos grandes musicais da Metro-Goldwyn-Mayer, com produção luxuosa e coreografias elegantes, mas nenhum se destaca como memorável. Falta a grandiosidade visionária de um Busby Berkeley ou a inventividade revolucionária de Bob Fosse.


Visualmente suntuoso em algumas passagens, o filme de Condon celebra a beleza como ato de resistência, mas sua timidez política e os problemas narrativos impedem que alcance toda a potência trágica e subversiva do material original. Ao transitar entre os dois polos (a brutalidade opressiva da prisão e o brilho fantástico dos musicais), o diretor não consegue contornar por completo os tropeços de ritmo e narrativa decorrentes dessa alternância constante entre universos tão distintos, o que gera uma sensação de irregularidade no fluxo e deixa pairar no ar uma dúvida sobre o efetivo propósito da obra. Ainda assim, no geral, permanece uma celebração tocante do poder transformador da arte e da dignidade que ela consegue preservar mesmo nas sombras mais escuras. Aspectos que pertencem de fato à essência da obra original de Manuel Puig, e que esta nova versão tende a diluir em favor de um tom mais escapista e luminoso.

Assista ao trailer: O Beijo da Mulher Aranha

Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela