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A incomunicabilidade e o desgaste silencioso das relações afetivas costumam encontrar no cinema um terreno fértil para investigações profundas. No drama italiano Três Vezes Adeus (Tre ciotole), dirigido por Isabel Coixet, a narrativa parte do cotidiano banal para mapear as ruínas de um relacionamento. O filme propõe um estudo sensível sobre a dor do término, o luto emocional e os mecanismos que a mente encontra para sobreviver ao vazio.
A trama se inicia com uma pequena discussão de relacionamento entre Marta (Alba Rohrwacher), uma professora de Educação Física, e Antonio (Elio Germano), dono de uma pizzaria. Tudo é deflagrado por um motivo insignificante do dia a dia. Contudo, é no atrito dessas banalidades que as barreiras acabam por ruir. A discussão escala rapidamente e se transforma na fagulha que explode anos de sentimentos sufocados e pequenas mágoas acumuladas. O desfecho dessa escalada verbal é inevitável, culminando na separação do casal. O filme captura essa dinâmica psicológica na qual o motivo inicial é mero pretexto. O que verdadeiramente se declara nas discussões banais são as verdades incômodas e o ressentimento amadurecido em silêncio ao longo do tempo.
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Com o fim do relacionamento, o filme passa a expor um retrato doloroso da solidão consentida. Incapaz de processar o rompimento de forma imediata, Marta nega o mundo exterior e mergulha em uma introspecção profunda. Esse recolhimento opera como um luto emocional e funciona como uma armadura de proteção contra o ambiente externo e as exigências sociais de superação.
Dentro desse cenário de isolamento surge um dos elementos mais simbólicos do longa. A protagonista encontra alento e conforto emocional na figura inanimada de um display de papelão em tamanho real de um ídolo da música pop coreana. A princípio bizarra, essa relação desenvolve uma função terapêutica crucial. A imagem de papelão torna-se um interlocutor silencioso para suas angústias e mágoas, uma companhia que não julga, não cobra e não abandona. É possível estabelecer uma analogia com o clássico Náufrago, filme em que o personagem de Tom Hanks projeta humanidade e parceria na bola de vôlei Wilson para manter a sanidade na ilha deserta. Para a protagonista de Três Vezes Adeus, o display do ídolo pop é o seu "Wilson", uma âncora simbólica em meio ao oceano da desolação.

Paralelamente ao término afetivo, uma camada ainda mais sutil e profunda se apresenta na narrativa, que é a presença insidiosa da morte. Ela não surge apenas como um evento concreto, mas como uma sombra existencial que acompanha os passos da protagonista. A ruína do amor espelha a própria finitude da vida, obrigando a personagem a confrontar a impermanência de tudo o que a cerca. Nesse contexto, o filme consolida seu tema central, focado na despedida e na aceitação. A despedida em Três Vezes Adeus não se limita ao ato físico de ver o outro partir, mas envolve o desapego das expectativas frustradas e da versão de si mesma que existia dentro daquele relacionamento. A aceitação surge não como um ato passivo de resignação, mas como um processo doloroso e necessário de assimilação da perda. É preciso despedir-se do que foi para que o presente volte a ser suportável.

A mensagem central do filme é explicitada no desfecho, mostrando que só nos encontramos quando estamos realmente perdidos. Ao se redescobrir como mulher, plena e soberana, Marta prova que a verdadeira aceitação nasce do ato de encarar a própria solidão sem atalhos. Três Vezes Adeus pode exigir paciência por seu desenvolvimento inicialmente lento e introspectivo, mas recompensa o espectador com uma experiência profunda e inspiradora. O filme não se nega a recorrer a certos clichês do modelo melodramático, porém supera essas convenções ao consolidar um retrato íntimo e extremamente sensível da protagonista. Ao fazer esse balanço honesto de sua trajetória, a obra reafirma que encarar as próprias sombras é o primeiro passo para a soberania emocional.
Assista ao trailer: Três Vezes Adeus
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
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