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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Da Magia à Sedução – Feitiço de Amor: maldição de família

 

Quase três décadas após o lançamento do título que se tornou um clássico cult das locadoras no final dos anos 1990, Hollywood resolveu reacender o caldeirão da família Owens. Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (Practical Magic 2) chega aos cinemas impulsionado pela tendência contemporânea de resgatar franquias do passado, apoiando-se no apelo aconchegante da memória afetiva para tentar reengajar o público.

Trata-se de uma continuação tardia e dispensável. O longa original, de 1998, passou longe de ser memorável. Uma produção mediana cujo sucesso se fortaleceu principalmente no mercado de locadoras e na grade da TV aberta. Embora tenha cultivado um nicho de fãs fiéis ao longo do tempo, a ideia de uma sequência parecia improvável. A onda de resgates nostálgicos acabou falando mais alto, reelaborando e recolocando no mercado produtos audiovisuais com os quais as plateias já tem alguma familiaridade.

Nesta sequência reencontramos as irmãs Sally (Sandra Bullock) e Gillian (Nicole Kidman) anos após os eventos do primeiro longa. No desfecho da produção original, parecia que a dupla havia finalmente quebrado a antiga maldição ancestral que condenava à morte qualquer homem por quem uma mulher da família se apaixonasse. Contudo, descobre-se aqui que a superação dessa sombria sina foi apenas parcial. A brecha permite que o estigma alcance a nova geração, representada pelas filhas de Sally, Kylie (Joey King) e Antonia (Maisie Williams), que até então ignoravam a própria descendência de uma linhagem milenar. Para tentar preservá-las, a mãe (Sally) manteve as origens ocultas, transformando um legado que deveria ser de potência em um fardo silencioso.

Há uma simetria curiosa na estrutura do universo criado pela franquia. A bruxaria aqui parece operar sempre em duplas. O poder, a cumplicidade e a própria maldição familiar se manifestam em pares sucessivos que espelham gerações: duas tias, duas irmãs, duas filhas. Essa dinâmica de espelhamento não apenas reforça os laços de hereditariedade, mas consolida a ideia de que a magia das Owens depende fundamentalmente do contraponto e do equilíbrio entre dois polos femininos.

Para que essa engrenagem funcione, o melhor conselho ao espectador é nem tentar fazer conexões totalmente lógicas com a linha do tempo do filme original. Apenas aceite a história como lhe é apresentada. O roteiro toma diversas liberdades e faz ajustes forçados para encaixar as peças e simular coerência. A trama se situa cronologicamente no início dos anos 2000, o que funciona bem para ajustar a idade das filhas, algo fundamental para a lógica da narrativa, e, por consequência, das próprias protagonistas. Hoje na vida real, Sandra Bullock, com 62 anos, e Nicole Kidman, com 59, já superaram a faixa etária que Stockard Channing, então com 54, e Dianne Wiest, com 50, tinham quando interpretaram as tias no longa de 1998. No fim das contas, são truques de magia típicos de Hollywood.

Em termos de temática e abordagem, esta sequência carrega um paradoxo instigante. O filme original, dirigido por Griffin Dunne, priorizava a jornada de autonomia, solidariedade feminina e emancipação das irmãs. Curiosamente, esta continuação sob o comando de Susanne Bier (de Bird Box – Caixa de Pássaros) retoma um formato mais convencional e próximo de uma comédia romântica. Em vez de expandir a independência de suas protagonistas, o arco narrativo reduz a plenitude emocional e o destino de mãe e filha ao sucesso de um par afetivo. Sob essa perspectiva, a produção aparenta dar um passo atrás ao submeter a potência da irmandade bruxa a convenções narrativas tradicionais onde a validação pessoal depende da figura masculina. No entanto, a realizadora contorna essa armadilha ao deixar estabelecido que o afeto romântico não é o único pelo qual vale a pena entregar o coração, mostrando que as relações afetuosas e os legados familiares também são capazes de suprir esse desejo.

Ainda que não seja totalmente satisfatório (o que o coloca em pé de igualdade com o filme de 1998), Da Magia à Sedução – Feitiço de Amor funciona como uma revisita simpática a um tempo que traz lembranças agradáveis. Nada muito além disso. Uma sequência que chega com o peso e o carisma de duas grandes estrelas, mas que, passados os créditos finais, deixa muito pouco de memorável.

Assista ao trailer: Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela