Mostrando postagens com marcador Olhe o Mar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Olhe o Mar. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Olhe o Mar: em busca do tempo perdido

 

As relações familiares, um tanto fragilizadas nos tempos atuais e reconfiguradas em outras dinâmicas sociais, fazem o pano de fundo da comédia dramática francesa Olhe o Mar (Regarde, 2025), dirigida por Emmanuel Poulain-Arnaud. A obra se debruça sobre a complexidade desses novos arranjos, onde o distanciamento cotidiano e as marcas do passado muitas vezes parecem não deixar espaço para o afeto. Sob essa perspectiva, o diretor propõe uma reflexão sobre a urgência do compartilhamento do tempo, investigando como o isolamento individualista da modernidade pode ser rompido quando os indivíduos são forçados a encarar situações-limite sobre as quais não têm nenhum controle.

Os personagens centrais, no caso um núcleo familiar formado por pai, mãe e filho, vivem exatamente essa realidade ao se depararem com um fato irreversível que altera profundamente o futuro de todos. Nos primeiros minutos de Olhe o Mar, já ficam estabelecidos os perfis de cada um. O espectador logo descobre que os pais são separados. A mãe, Chris, vivida por Audrey Fleurot, é impulsiva; o pai, Antoine, interpretado por Dany Boon, é centrado e focado no trabalho; e o filho, Milo, papel de Ewan Bourdelles, um jovem de 16 anos, está claramente em busca de atenção. Essa dinâmica se estabelece da maneira usual encontrada em inúmeros casais que compartilham a guarda e os cuidados de filhos menores de idade. Há também, implícito, o desejo dos pais em construir novos caminhos afetivos, visto que a mãe namora um homem mais jovem e o pai convive com uma noiva com a qual está prestes a se casar.

Nesta atmosfera de aparente normalidade, surge uma grave situação de saúde que coloca em xeque as relações familiares. Milo é portador de uma doença degenerativa incurável que causará a perda total de sua visão em pouco tempo. A revelação se mostra devastadora para todos, especialmente porque o jovem atravessa a fase complexa da adolescência, marcada pela busca por autonomia e espaço. O diagnóstico reescreve o destino de cada um deles, que agora precisam buscar forças internas para restabelecer conexões afetivas até então negligenciadas. A saída para acelerar esse processo de reaproximação e recuperar o tempo perdido surge na decisão impulsiva de viajarem todos juntos, durante as férias do garoto, para visitar o avô, que vive à beira-mar. Naquele espaço, distantes do ambiente doméstico, eles encontram a oportunidade para uma reconciliação emocional, ao mesmo tempo em que constroem memórias afetivas e visuais antes que a doença se manifeste totalmente.

É a partir desse cenário que, por razões intimamente distintas, cada um deles busca respostas próprias para empreender a jornada. Os pais, assombrados pelo sentimento de culpa devido à natureza hereditária da doença de Milo, assumem a viagem como um pedido de desculpas silencioso ao jovem, aceitando uma trégua mútua pelas mágoas passadas do casal. O garoto, por sua vez, tenta exercer ao máximo sua independência. Ele vê no passeio em família junto ao mar não apenas a última oportunidade para praticar mais algumas horas de surfe, mas também a chance de reencontrar uma antiga paixão juvenil nunca concretizada.

O realizador Emmanuel Poulain-Arnaud (também autor do roteiro) conduz a trama com sensibilidade e empatia por seus personagens. A direção, sempre leve e de modo geral num clima de alto astral, não pesa a mão na potencial carga dramática da história. A opção foi justamente pelo registro oposto, tornando sutil a abordagem de uma situação que teria todos os elementos para levar a plateia às lágrimas fáceis. Nesse sentido, nada é mais explícito do que a maneira descontraída e desencanada com que os amigos de Milo tratam a situação. Para eles, não há drama, apenas fatos da vida.

Olhe o Mar é aquele tipo de filme em que antecipamos sem muita dificuldade todos os passos do desenrolar da história. Nossa intuição já aponta os caminhos que a trama assume, sem muitas surpresas ou grandes reviravoltas. No entanto, isso não elimina o prazer de assisti-lo com atenção e interesse. A previsibilidade reconfortante faz parte da experiência, na qual nos deixamos conduzir sem grandes sobressaltos. Afinal, há momentos em que o cinema não precisa necessariamente se reinventar ou sequer surpreender, bastando apenas nos acolher com uma narrativa sincera e humanizada.

Assista ao trailer: Olhe o Mar


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela