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quarta-feira, 8 de julho de 2026

O Convite.: relações perigosas


A vizinhança no cinema raramente é um espaço de neutralidade, pois funciona, antes, como um espelho de neuroses, desejos ocultos e paranoias sociais. Bisbilhotar a vida de quem mora a poucos metros é um tema clássico que atravessa gêneros, servindo de premissa tanto para o terror de O Bebê de Rosemary e o suspense de Janela Indiscreta, quanto para a sátira de costumes em O Pecado Mora ao Lado e a comédia escrachada de Meus Vizinhos São um Terror. Afinal, a proximidade física com estranhos sempre flerta com o perigo, o inusitado, o mistério ou a sedução. É exatamente nessa linha tênue de convivência forçada que se baseia a comédia dramática O Convite. (The Invite, 2026), oferecendo mais um instigante exercício prático sobre os limites — ou a total falta deles — da boa vizinhança.

São justamente esses limites que testam o casamento desgastado de Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen). Embora dividam o mesmo teto, ambos se comportam como estranhos que levam vidas autônomas, estacionados naquele estágio precário em que a aparente comunicação apenas revela a mais absoluta incomunicabilidade. Uma oportunidade de romper esse círculo vicioso de anulação mútua surge com a chegada dos novos moradores do andar de cima, os descolados e desinibidos Piña (Penélope Cruz) e Hawk (Edward Norton). Percebidos como o modelo idealizado de um relacionamento moderno que deu certo, eles são convidados por Angela para um jantar de boas-vindas, para a surpresa de Joe. Afinal, ele nutre certa antipatia pelos vizinhos devido aos ruídos escandalosos que eles fazem durante suas intensas noites de amor. É sob esse clima de expectativa e iminente acerto de contas que se inicia o que deveria ser um amistoso encontro de casais. Porém, o desdobramento da noite faz jus à clássica frase de Bette Davis em A Malvada: “Apertem os cintos, a noite vai ser turbulenta”.

As diferenças na dinâmica dos casais ficam evidentes no momento em que a porta se abre para recepcionar os convidados. A noite, que se inicia como uma comédia de erros, aos poucos muda de tom, sem nunca, porém, abrir mão do humor. Este, a propósito, é um dos grandes acertos de Olivia Wilde — aqui acumulando a função de diretora —, que conduz a narrativa de forma afiada, perspicaz e com pleno domínio de sua evolução

O Convite. é uma refilmagem da comédia espanhola Sentimental (2020), escrita e dirigida por Cesc Gay a partir de uma peça de sua autoria. O próprio Cesc é um dos responsáveis pelo roteiro da versão estadunidense da sua obra, ao lado de Will McCormack (Toy Story 4) e Rashida Jones. A origem teatral do texto fica evidente na tela pelo formato huis clos, no qual toda a ação se concentra em um único ambiente, “entre quatro paredes”. Contrariando a imensa maioria das adaptações de textos teatrais para o cinema, O Convite. jamais entedia o espectador por sua ausência de ação ou pelo cenário confinado. Pelo contrário: não há um minuto sequer de desperdício do interesse do público, graças a um texto sagaz, honesto e inteligente, somado a desempenhos inspirados e extremamente afinados, além de uma edição enxuta e orgânica que garante fluidez absoluta.

O encontro dos casais é regido, em seus momentos iniciais, pelas personas sociais que todos desempenham. Na superfície, todos se mostram idilicamente perfeitos, inteligentes e espirituosos, sem desvios de caráter e apresentados publicamente com as melhores versões de si mesmos, como em um filme de Woody Allen. Mas o teatro social dura pouco. Algumas taças de vinho depois as pequenas e inofensivas indiscrições privadas abrem caminho para pesadas confissões íntimas, abalando a amizade sincera que parecia surgir. Em certa medida, vimos algo semelhante no recente O Drama, de Luca Guadagnino, quando verdades desconfortáveis vêm à tona. Ao descobrirem, de maneira hilária, o segredo por trás do estranho comportamento dos vizinhos barulhentos, Angela e Joe sofrem um choque de realidade que abala suas estruturas emocionais. O que descobrem os faz refletir sobre seus verdadeiros desejos reprimidos, provocando uma profunda análise sobre a própria história deles como um casal que um dia se amou, casou e pretendeu construir uma vida em comum.

Muito além de uma típica comédia romântica, O Convite. é um filme divertido sobre sexo, casamento e amores compartilhados. Um entretenimento para adultos, embalado pelo som aveludado de Sade: inteligentemente mordaz, delicadamente triste, genuinamente engraçado, confortavelmente moralista e sedutoramente inspirador.

Assista ao trailer: O Convite.


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela