
Mestre
do terror independente e do grande espetáculo hollywoodiano, Sam Raimi apresenta
em seu novo trabalho uma mistura instigante de sátira corporativa, thriller de
sobrevivência e horror cômico. Socorro! (Send Help, 2026)
acompanha Linda Liddle (Rachel McAdams), executiva competente e dedicada em uma
empresa de consultoria, que vê sua merecida promoção a vice-presidente ser
negada pelo novo CEO Bradley Preston (Dylan O’Brien), filho mimado do falecido
fundador. Após um acidente aéreo durante uma viagem de negócios, os dois se
tornam os únicos sobreviventes em uma ilha deserta, onde velhos ressentimentos
e dinâmicas de poder se transformam em luta crua pela sobrevivência e domínio. Rachel
McAdams, acostumada a papéis mais amenos e dóceis em comédias românticas ou
dramas leves, encara aqui uma história pesada com convicção total. Ela está
intensa, crua e multifacetada, revelando camadas de raiva contida, inteligência
afiada e vulnerabilidade que tornam sua personagem inesquecível.
Sam
Raimi é, em essência, um cineasta de gênero, forjado no terror independente de
baixo orçamento, seu habitat natural. Sua assinatura já se revelava em Uma
Noite Alucinante: A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1981), produção quase
amadora que inventava uma linguagem própria com sustos brutais entremeados de
humor mórbido, câmera frenética e prazer sádico que transforma o horror em
festival grotesco. Nos anos 2000, ele migrou para o mainstream com a
trilogia Homem-Aranha (2002-2007), que redefiniu o gênero de
super-heróis como um espetáculo emocional, repleto de efeitos visuais
inovadores e vilões carismáticos. Esta fórmula infalível influencia os
blockbusters até hoje.

Em
Socorro! Raimi retorna ao seu terreno mais confortável, carregando a
maturidade de quem conhece a estrada já percorrida. O filme tem muito a dizer.
Critica o corporativismo tóxico, explora dinâmicas de poder invertidas, flerta
com a sátira social e mergulha no espetáculo voyeurístico de explorar um drama
de sobrevivência em uma ilha (um clássico cinematográfico). Linda, interpretada
com brilho por McAdams, é o retrato perfeito dessa máquina desgastante. Ela é
uma profissional brilhante cuja ascensão é bloqueada por nepotismo e machismo
estrutural. O sexismo não aparece em episódios isolados, mas como lógica
operacional da empresa. Decisões estratégicas ignoram resultados, ética e
lógica, priorizando hierarquias de gênero, carisma masculino performático e
heranças familiares. Bullying sutil, desprezo pelas contribuições femininas e
objetificação naturalizada convertem o escritório em espaço predatório, onde a
sobrevivência exige conformidade e silenciamento mais do que competência.

Raimi
leva essa crítica a um território extremo ao deslocar o conflito para a ilha
deserta. Sem estruturas institucionais que protegem os privilegiados, a
opressão velada vira luta crua por poder, invertendo papéis de forma brutal. O
filme não é só sobrevivência; é uma fantasia de revanche desconfortável que nos
faz questionar o que acontece quando as vítimas do sistema ganham controle
absoluto. Sem respostas fáceis ou redenções morais, deixa o riso preso na
garganta diante do quão feio e familiar o poder se torna ao trocar de mãos, mas
não de natureza.

Ainda
dentro do tema de personagens forçados a uma convivência extrema pela
sobrevivência, vale lembrar dois clássicos do subgênero. O mais recente deles é
Náufrago (Cast Away, 2000), de Robert Zemeckis, com Tom Hanks em uma
luta solitária contra a natureza e o isolamento psicológico. Já o outro exemplo, mais
antigo e talvez mais próximo em espírito, é Inferno no Pacífico (Hell
in the Pacific, 1968), dirigido por John Boorman. Nesse drama minimalista
ambientado na Segunda Guerra Mundial, um piloto americano (Lee Marvin) e um
oficial naval japonês (Toshiro Mifune), inimigos mortais, se encontram isolados
em uma ilha deserta do Pacífico. Sem diálogos (eles não falam a mesma língua),
eles alternam entre hostilidade, cooperação forçada e momentos de humanidade
relutante, descobrindo que a sobrevivência depende de superar diferenças ideológicas
e trabalhar juntos. A premissa de Socorro!, com as devidas ressalvas,
encontra um eco moral nesse clássico dos anos 60. Ambos realizadores exploram
como o isolamento desnuda hierarquias artificiais e obriga o confronto com o
outro (e consigo mesmo), mas, enquanto Boorman busca uma reconciliação ambígua
e existencial, Raimi opta por uma inversão brutal de poder e uma revanche
desconfortável.

Essa
amplitude temática é, ao mesmo tempo, a força e fraqueza de Socorro!. A
narrativa oscila entre drama corporativo, comédia de sobrevivência, thriller
psicológico e gore exagerado, mas com problemas de ritmo. Mudanças bruscas de
tom por vezes parecem caprichos estilísticos, comprometendo parcialmente a
imersão. Ainda assim, é nessa instabilidade que Raimi brilha. Ele usa o caos
para amplificar o desconforto, transformando a ilha em laboratório de impulsos
primitivos como vingança, dominação e crueldade que emergem sem pudor. O
resultado não é equilibrado nem perfeito, mas vibrante, barulhento e
irreverente, fiel à personalidade do diretor, sempre disposto a nos fazer rir
mesmo diante do sangrento e violento.
Assista ao trailer: Socorro!
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela