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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Socorro!: uma fantasia de vingança

 

Mestre do terror independente e do grande espetáculo hollywoodiano, Sam Raimi apresenta em seu novo trabalho uma mistura instigante de sátira corporativa, thriller de sobrevivência e horror cômico. Socorro! (Send Help, 2026) acompanha Linda Liddle (Rachel McAdams), executiva competente e dedicada em uma empresa de consultoria, que vê sua merecida promoção a vice-presidente ser negada pelo novo CEO Bradley Preston (Dylan O’Brien), filho mimado do falecido fundador. Após um acidente aéreo durante uma viagem de negócios, os dois se tornam os únicos sobreviventes em uma ilha deserta, onde velhos ressentimentos e dinâmicas de poder se transformam em luta crua pela sobrevivência e domínio. Rachel McAdams, acostumada a papéis mais amenos e dóceis em comédias românticas ou dramas leves, encara aqui uma história pesada com convicção total. Ela está intensa, crua e multifacetada, revelando camadas de raiva contida, inteligência afiada e vulnerabilidade que tornam sua personagem inesquecível.

Sam Raimi é, em essência, um cineasta de gênero, forjado no terror independente de baixo orçamento, seu habitat natural. Sua assinatura já se revelava em Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1981), produção quase amadora que inventava uma linguagem própria com sustos brutais entremeados de humor mórbido, câmera frenética e prazer sádico que transforma o horror em festival grotesco. Nos anos 2000, ele migrou para o mainstream com a trilogia Homem-Aranha (2002-2007), que redefiniu o gênero de super-heróis como um espetáculo emocional, repleto de efeitos visuais inovadores e vilões carismáticos. Esta fórmula infalível influencia os blockbusters até hoje.


Em Socorro! Raimi retorna ao seu terreno mais confortável, carregando a maturidade de quem conhece a estrada já percorrida. O filme tem muito a dizer. Critica o corporativismo tóxico, explora dinâmicas de poder invertidas, flerta com a sátira social e mergulha no espetáculo voyeurístico de explorar um drama de sobrevivência em uma ilha (um clássico cinematográfico). Linda, interpretada com brilho por McAdams, é o retrato perfeito dessa máquina desgastante. Ela é uma profissional brilhante cuja ascensão é bloqueada por nepotismo e machismo estrutural. O sexismo não aparece em episódios isolados, mas como lógica operacional da empresa. Decisões estratégicas ignoram resultados, ética e lógica, priorizando hierarquias de gênero, carisma masculino performático e heranças familiares. Bullying sutil, desprezo pelas contribuições femininas e objetificação naturalizada convertem o escritório em espaço predatório, onde a sobrevivência exige conformidade e silenciamento mais do que competência.


Raimi leva essa crítica a um território extremo ao deslocar o conflito para a ilha deserta. Sem estruturas institucionais que protegem os privilegiados, a opressão velada vira luta crua por poder, invertendo papéis de forma brutal. O filme não é só sobrevivência; é uma fantasia de revanche desconfortável que nos faz questionar o que acontece quando as vítimas do sistema ganham controle absoluto. Sem respostas fáceis ou redenções morais, deixa o riso preso na garganta diante do quão feio e familiar o poder se torna ao trocar de mãos, mas não de natureza.


Ainda dentro do tema de personagens forçados a uma convivência extrema pela sobrevivência, vale lembrar dois clássicos do subgênero. O mais recente deles é Náufrago (Cast Away, 2000), de Robert Zemeckis, com Tom Hanks em uma luta solitária contra a natureza e o isolamento psicológico. Já o outro exemplo, mais antigo e talvez mais próximo em espírito, é Inferno no Pacífico (Hell in the Pacific, 1968), dirigido por John Boorman. Nesse drama minimalista ambientado na Segunda Guerra Mundial, um piloto americano (Lee Marvin) e um oficial naval japonês (Toshiro Mifune), inimigos mortais, se encontram isolados em uma ilha deserta do Pacífico. Sem diálogos (eles não falam a mesma língua), eles alternam entre hostilidade, cooperação forçada e momentos de humanidade relutante, descobrindo que a sobrevivência depende de superar diferenças ideológicas e trabalhar juntos. A premissa de Socorro!, com as devidas ressalvas, encontra um eco moral nesse clássico dos anos 60. Ambos realizadores exploram como o isolamento desnuda hierarquias artificiais e obriga o confronto com o outro (e consigo mesmo), mas, enquanto Boorman busca uma reconciliação ambígua e existencial, Raimi opta por uma inversão brutal de poder e uma revanche desconfortável.


Essa amplitude temática é, ao mesmo tempo, a força e fraqueza de Socorro!. A narrativa oscila entre drama corporativo, comédia de sobrevivência, thriller psicológico e gore exagerado, mas com problemas de ritmo. Mudanças bruscas de tom por vezes parecem caprichos estilísticos, comprometendo parcialmente a imersão. Ainda assim, é nessa instabilidade que Raimi brilha. Ele usa o caos para amplificar o desconforto, transformando a ilha em laboratório de impulsos primitivos como vingança, dominação e crueldade que emergem sem pudor. O resultado não é equilibrado nem perfeito, mas vibrante, barulhento e irreverente, fiel à personalidade do diretor, sempre disposto a nos fazer rir mesmo diante do sangrento e violento.

Assista ao trailer: Socorro!


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quarta-feira, 19 de abril de 2023

A Morte do Demônio – A Ascensão: banho de sangue

 


Quando Sam Raimi surgiu para o mundo com a trilogia Morte do Demônio / Evil Dead, era um criativo cineasta em início de carreira, sem compromissos com a grande indústria, que ainda podia ousar e experimentar, sem fórmulas pré-estabelecidas. Na medida em que conquistava um lugar ao sol em Hollywood, Sam Raimi foi pouco a pouco perdendo o vigor, se acomodando ao modelo industrial. Perdeu parcialmente a autonomia e a marca autoral, na razão inversa do crescimento da conta bancária. Aquela explosão de criatividade do primeiro filme da série, no Brasil batizado como Uma Noite Alucinante (nada mais anos 80 do que este título), foi se perdendo pouco a pouco. 

A inusitada mistura de terror, humor pastelão (do nível de Os Três Patetas) e generosas doses de nonsense, que marcaram fortemente os três filmes originais, jamais se repetiram. Nem na retomada da franquia A Morte do Demônio, de 2013, dirigida pelo uruguaio Fede Alvarez, muito menos com este legítimo gore de 2023, A Morte do Demônio: A Ascensão (Evil Dead Rise), escrito e realizado por Lee Cronin (de The Hole in the Ground), com produção executiva dos criadores originais, Sam Raimi e Bruce Campbell (ator protagonista dos três primeiros filmes). Sai de cena o humor, restando apenas o terror, o livro dos mortos, muito sangue, a motosserra e a marca Evil Dead / A Morte do Demônio.



A mudança é também de cenário. A ação deixa para trás uma isolada cabana nos bosques do Tennessee e se transfere para um pequeno apartamento familiar em um prédio residencial em Los Angeles. A família em questão é formada por uma mãe, recém separada do marido, e seus três filhos (dois adolescentes e uma jovem garota). Certo dia a irmã da mãe chega para visitar a família, mas a tranquilidade daquele encontro familiar é interrompida quando encontram um tal livro sobrenatural que despertam forças malignas adormecidas. 

A Morte do Demônio: A Ascensão é objetivo e direto em sua proposta de submeter a plateia a um banho de sangue sem trégua. É papo reto, sem meias palavras. Após um rápido prólogo e também uma rápida apresentação dos personagens centrais da família, somos submetidos a cerca de 90 minutos ininterruptos, sem descanso, de muito sangue, cenas de horror gráfico e vísceras em profusão. Com direito ainda a uma sequência no elevador que faz uma homenagem explícita à O Iluminado de Stanley Kubrick.


Além desta manifesta intenção de privilegiar em primeiro lugar o horror no espectador, o filme de Lee Cronin apresenta ainda um subtexto de caráter feminista. Não apenas por apresentar a clássica personagem da “final girl”, a personagem feminina que salva o dia (no caso, a noite). O foco em questão aqui é a maternidade. A mãe que protege a cria acima de tudo, sob qualquer ameaça. A personagem da tia que visita a família está grávida (aqui não há nenhum spoiler, este fato já é apresentado na abertura). O instinto materno, ainda prematuro, se manifesta bravamente quando o Mal ronda aquele apartamento. Aqui uma outra referência parece inspirar o roteiro: a tenente Ripley de Aliens – O Resgate.


A Morte do Demônio: A Ascensão no geral entrega exatamente o que promete: sustos e pavor em dose cavalares. Certamente estamos diante de uma produção que pouco ou nada lembra o espírito anarquista dos títulos anteriores da série. Ao apontar claramente novos caminhos para expansão da mitologia do Livro dos Mortos, que ainda deverá ter muitas reencarnações pela frente, Sam Raimi fecha as portas do passado e mira novos desafios para manter viva uma ideia promissora que surgiu no início dos anos 80.

Assista ao trailer: A Morte do Demônio: A Ascensão


Jorge Ghiorzi / Membro da ACCIRS

janeladatela@gmail.com