Desejar
ardentemente algo costuma ocultar um alerta raramente percebido com clareza.
Como cada escolha determina uma renúncia, o desejo nem sempre se revela
compensador, pois a concretização de um anseio intenso pode desencadear
consequências imprevistas e negativas. O drama vivido pelo protagonista de Obsessão,
dirigido por Curry Barker, ilustra precisamente o perigo de desejar algo
obsessivamente sem medir os riscos caso a realidade saia do controle. De modo
geral, o gênero de horror não é um espaço para grandes inovações, apresentando
usualmente um modelo de reprodução massivo com poucas variáveis. No entanto,
este longa ousa quebrar tais regras ao injetar criatividade sem incorporar os
clichês recorrentes das produções contemporâneas.
A
trama apresenta Bear (Michael Johnston), um jovem retraído que esconde uma
paixão avassaladora por Nikki (Inde Navarrette), sua colega de trabalho.
Incapaz de declarar seus sentimentos, ele encontra uma solução inesperada no One
Wish Willow, um artefato sobrenatural que promete realizar um único desejo.
O artifício utilizado para nos inserir no absurdo da situação possui uma
simplicidade acachapante, mas acreditamos na premissa porque o truque funciona
como um passe de mágica tanto no protagonista quanto em nós, espectadores. Isso
se deve à inteligência com que Curry Barker conduz sua narrativa, que nunca oferece aos seus personagens uma saída fácil para uma situação que se torna cada vez
mais diabólica.

Ao
ter seu desejo atendido Bear percebe que o preço por manipular o livre-arbítrio
é muito mais alto e sombrio do que o esperado. A partir desse ponto, ao ser
afetada pela magia do artefato, a personagem de Nikki passa a agir de maneira
errática, embaralhando seus sentimentos ao mesmo tempo em que sua relação com o
colega de trabalho se torna verdadeiramente perturbadora. O filme gera um
desconforto latente desde os primeiros instantes em um crescendo que se
transforma em uma inquietação insuportável. Existe na obra um recurso perspicaz
que pode passar despercebido. Contrariando a maioria dos filmes de horror que
são focados na perspectiva da vítima, a narrativa aqui nos imerge no olhar de
quem efetivamente causou o caos. A ação é conduzida a partir do ponto de vista
do incrédulo Bear, que se vê simultaneamente como culpado e vítima da própria
maldição.
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Essa
escolha coloca Obsessão em um patamar de complexidade superior ao que
sua premissa minimalista sugere inicialmente. Genuinamente tenso, o longa
sustenta um clima sufocante por dois terços da trama sem recorrer a uma única
gota de sangue ou efeitos especiais excessivos. A obra revela-se exemplar ao
segurar a explosão catártica para o terceiro ato, apresentando um desfecho
ancorado em um roteiro construído com engenhosidade dramática. O final resolve
o destino dos protagonistas de maneira coerente e surpreendente, fugindo das
simplificações que costumam enfraquecer as resoluções do gênero.

O
realizador Curry Barker confirma seu posto como o novo talento do horror em
Hollywood por meio dessa precisão narrativa. Uma prova de sua rápida ascensão é
a recente parceria com a produtora A24, pela qual deve comandar um projeto que
se propõe a reimaginar a atmosfera visceral de O Massacre da Serra Elétrica
sob uma nova perspectiva autoral. Com este trabalho, Barker consolida sua
capacidade de transformar anseios simples em pesadelos psicológicos profundos e
inevitáveis.
Assista ao trailer: Obsessão
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
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