quinta-feira, 16 de novembro de 2017

“Os Assassinos”: o passado condena


“Tudo o que você precisa para fazer um filme é uma arma e uma garota”, já dizia Jean-Luc Godard. Esta definição síntese contém os elementos chaves que fizeram o sucesso de uma série de filmes que, conscientemente ou não, levaram este conceito ao pé da letra. Uma arma em cena significa conflito, disputa, ação. Uma mulher simboliza desejo, paixão, sacrifício. Este tipo de pensamento misógino marcou a fase de ouro do chamado “cinema noir”, que exibia na prática a receita formulada posteriormente por Godard nos anos 60. Mais do que um gênero em si, o Noir era um estado de espírito do cinema. Um modo de ser e ver o mundo, caracterizado pela dubiedade, dissimulação, caráter discutível e ética flexível.

Cronologicamente produzido de forma mais regular na metade do século XX (anos 40 e 50), o filme Noir, de fato, sempre existiu, não se limitando, portanto, a um período específico. Regularmente, até hoje, o cinema nos oferece obras que carregam fortemente o espírito estético e moral daqueles filmes. Drive (2011), de Nicolas Winding Refn, é um exemplo bem recente. Um mais antigo a ser citado é Os Assassinos (The Killers), realizado por Donald (Don) Siegel em 1964. Inspirado em um pequeno conto de Ernest Hemingway, esta produção é o que se poderia chamar de “noir de raiz”, que substitui a magia do preto e branco pelas cores vibrantes do Technicolor.


Em síntese o conto de Hemingway conta a história de um homem, envolvido num assalto, que sabe que vai ser morto por assassinos de aluguel, mas não tenta fugir. Nesta adaptação para o cinema, que é uma refilmagem (em 1946 Robert Siodmark dirigiu uma primeira versão), o diretor Don Siegel optou, acertadamente, em contar a história do ponto de vista dos assassinos. Esta opção narrativa necessariamente desloca a ação e acrescenta elementos de mistério e suspense, na medida em que os matadores (e nós também) não sabem as razões do crime e não entendem a resignação passiva da vítima. A descoberta da verdadeira história por trás de um crime comum passa a ser uma obsessão dos assassinos, que vislumbram a possibilidade de ficar com o dinheiro do assalto.


Tudo começa quando a dupla de matadores de aluguel, interpretados por Lee Marvin e Clu Gulager (ambos excelentes em seus papéis), invade uma escola para cegos com o objetivo de executar um professor (John Cassavetes). Cumprem a missão com facilidade, pois o alvo não esboça qualquer intenção de escapar. Isto intriga os matadores que decidem investigar a fundo a história, que envolve um passado secreto do executado e seu algoz, o contratante dos assassinos (Ronald Reagan, sim, o futuro presidente dos EUA). Esta busca pelo passado mostra uma série de flashbacks que vão desvendando as razões daquela morte. Personagens e histórias vão surgindo em cena, esclarecendo pequenas partes de um intrincado quebra cabeças. E, como todo noir que se preze, temos também uma femme fatale, interpretada por uma sedutora Angie Dickinson. Tudo não passava de um assalto a um caminhão de transporte de valores que acabou em traição no grupo. A morte encomendada era portanto apenas um acerto de contas. Mas, nada é tão simples como parece. Há uma complexidade nas relações do trio John Cassavetes - Ronald Reagan - Angie Dickinson, que remete para um desfecho inesperado.


Em Os Assassinos já encontramos traços do estilo de Don Siegel  que seriam uma constante nos filmes que dirigiu ao longo dos anos (Meu Nome é Coogan; Os Abutres também tem Fome; O Estranho que Nós Amamos; Perseguidor Implacável; O Homem que Enganou a Máfia; O Telefone; Alcatraz, Fuga Impossível): economia de planos, precisão do corte, diálogos curtos. Nada em excesso. Tudo funcional e preciso. O pupilo e herdeiro Clint Eastwood, que muito filmou com Siegel, em sua carreira como diretor segue a mesma cartilha do velho mestre, e costuma se dar muito bem.

A dupla de assassinos (Lee Marvin e Clu Gulager), antes e depois do crime, conversam bastante, são irônicos, durões, dizem banalidades, fazem coisas triviais do dia a dia. Enfim, até parecem gente bem bacana. Isso por acaso lembra outra dupla famosa de assassinos? Que tal John Travolta e Samuel L. Jackson em Pulp Fiction? E mais, não seria nenhuma surpresa se a estrutura de flashback / presente do mesmo Pulp Fiction fosse uma inspiração de Quentin Tarantino a partir dos retrocessos e avanços da narrativa de Os Assassinos.

Assista o trailer: Os Assassinos

(Texto originalmente publicado na coluna “Cinefilia” do DVD Magazine em fevereiro de 2017)

Jorge Ghiorzi

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