terça-feira, 31 de março de 2026

O Drama: castelo de cartas ou porto seguro?

 

O casamento é um tema recorrente do cinema, pois funciona como ponto de partida, estudo sociológico ou simplesmente como o palco onde tudo acontece. De clássicos densos como o bergmaniano Cenas de um Casamento e o melancólico Foi Apenas um Sonho a fenômenos pop como Garota Exemplar e Casamento Grego, a sétima arte já explorou muitas facetas do "viver a dois". Entre comédias românticas, sátiras e tragédias, a instituição do matrimônio acabou se tornando, na prática, um subgênero temático com vida própria. É nesse terreno promissor, e com uma proposta que renova o fôlego do tema, que se habilita o mais novo integrante desse recorte: O Drama (The Drama), escrito e dirigido por Kristoffer Borgli.

O que torna a experiência de assistir a O Drama particularmente instigante é a forma como Borgli manipula as expectativas do público. Sob a superfície de uma narrativa que se apresenta descontraída e visualmente solar, o diretor injeta um elemento perturbador que retira gradualmente o espectador de sua zona de conforto. Um aforismo popular, imortalizado na música “Vaca Profana”, de Caetano Veloso, afirma que “de perto, ninguém é normal”. Em O Drama, essa premissa é colocada à prova quando uma verdade inconveniente abala os planos do casal de noivos, Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya), às vésperas das núpcias. O estopim ocorre em uma descontraída roda de amigos que, embalada por algumas taças de vinho laranja, decidem brincar de dizer a “pior coisa que já fizeram”. Se inicialmente o jogo transita entre relatos cômicos e embaraçosos, uma revelação de peso desmorona o clima da confraternização e altera o curso das relações. A partir desse ponto, o filme percorre os passos de um jogo perigoso, onde o casamento não é mais apenas uma festa, mas um campo minado que precisa ser desarmado a tempo.

As longas cenas dialogadas demonstram que o diretor bebeu na fonte de Woody Allen, recorrendo a uma extensa argumentação verbal pontuada por sentenças que transitam entre a sabedoria de vida e os clichês do nosso inconsciente coletivo. Há, no entanto, uma diferença fundamental nesse paralelo. Enquanto Allen lidava com adultos "analógicos" bem formados, os personagens deste filme são jovens adultos digitais, pressionados menos por valores morais do que pelas aparências performáticas exigidas em seus grupos sociais. Se Allen usava o diálogo para tentar resolver a neurose, Borgli parece usá-lo para sustentar uma máscara social que o casamento, ironicamente, deveria ser o único lugar capaz de remover. A união formal, para essa geração, tornou-se menos um refúgio emocional e mais uma “curadoria” de imagem instagramável.

Em certa medida, O Drama descontrói a mística do romantismo amoroso e a ideia de uma união plena de virtudes. O roteiro insere na equação o componente da racionalidade objetiva, que entra em rota de colisão com o idealismo dos apaixonados. Esse embate fica delimitado quando um personagem afirma que "amar é não ter ego". Ironicamente, em um mundo focado na autoconstrução digital, o "não ter ego" soa menos como um sacrifício romântico e mais como uma impossibilidade real. A desconstrução prossegue com outra sentença definitiva: "o casamento não resiste à realidade". Esta fala sugere que a manutenção do vínculo exige um pacto ficcional, ou uma necessária suspensão de descrença, onde as arestas são suavizadas. Sem o refúgio da fantasia, o que sobra é a aspereza do real, insuficiente para sustentar uma instituição que sempre dependeu de rituais e narrativas compartilhadas para não desmoronar.

A química entre Robert Pattinson e Zendaya transborda desde a primeira sequência, conferindo uma ótima verossimilhança ao casal. O magnetismo reside no contraste. Enquanto Pattinson imprime uma vulnerabilidade contida, Zendaya domina a cena com uma segurança explosiva. Curiosamente, a surdez parcial da protagonista atua como uma metáfora sutil para a comunicação daquela união, mesmo quando abertos ao diálogo. Há uma 'escuta seletiva' emocional, uma frequência onde o que não é dito (ou não 'escutado') acaba por gerar abismos. É uma ironia dramática que um romance nascido de uma pequena mentira (quando ele diz que já leu o livro que ela está lendo) venha a ser ameaçado por uma omissão de proporções devastadoras.

Embora o título sugira o contrário, não se engane, O Drama é conduzido com leveza e bom humor. O diretor opta por um olhar generoso e o resultado é uma obra que trata a angústia com um toque irresistível de ironia. Em última análise, a jornada dos personagens de Pattinson e Zendaya pelo labirinto de suas próprias falhas sugere que o desarmamento desse campo minado é o rito de passagem para a maturidade. Ao confrontarem a "escuta seletiva" e as mentiras que pavimentaram o início da relação, os protagonistas são forçados a encarar a realidade nua, sem idealismos. O Drama encerra o “drama” não com respostas fáceis, mas com uma provocação: o amor real só começa quando a fantasia termina? O filme projeta no espectador a dúvida fundamental. Até que ponto a nossa própria felicidade depende das mentiras que escolhemos contar e das verdades que decidimos esconder? No fim, O Drama mostra que é na coragem da permanência que descobrimos se o que foi construído é um castelo de cartas ou um porto seguro.

Assista ao trailer: O Drama


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


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