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O pesadelo da maternidade, quando o vínculo esperado com o recém-nascido se transforma em estranhamento e dúvida profunda, ganha contornos de thriller psicológico em Mother's Baby, dirigido pela cineasta austríaca Johanna Moder. Lançado em 2025 como coprodução entre Alemanha, Suíça e Áustria, o filme foi exibido na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim. A trama acompanha Julia (Marie Leuenberger), uma regente de orquestra de 40 anos, e seu parceiro Georg (Hans Löw), que recorrem a um procedimento experimental de fertilidade em uma clínica privada para realizar o sonho de ter um filho. Após um parto complicado, no entanto, Julia enfrenta uma incapacidade crescente de se conectar afetivamente com o bebê, o que a leva a uma espiral de suspeitas e paranoia que transforma sua experiência pós-parto em um autêntico horror psicológico.
Desde as sequências iniciais, o filme estabelece simbolicamente o tom que permeia toda a narrativa, caracterizada por suspense, estranhamento e desconforto sensorial. As imagens de corredores vazios e silenciosos na clínica transmitem uma sensação palpável de algo sinistro, contrastando com o momento sublime do parto vivido pela mãe. Essa atmosfera inicial prepara o terreno para o desenvolvimento da trama, convidando o espectador a compartilhar a inquietude crescente da protagonista.
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O parto em si é retratado em um longo plano-sequência de cinco minutos, uma escolha que intensifica a angústia, permitindo que o público vivencie as dores e as emoções da mãe de forma imersiva. Esse momento crucial marca o início das aflições de Julia, que confronta um dos pavores mais angustiantes das parturientes: a possibilidade de troca do bebê, seja por erro ou intenção premeditada. Essa dúvida inicial evolui para suspeitas cada vez mais profundas, culminando em confirmações dolorosas que abalam sua realidade pós-parto.
É inevitável reconhecer paralelos com o clássico O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, outro thriller de horror centrado em uma mãe atormentada por ameaças invisíveis que minam sua sanidade. Há uma complementaridade entre as obras: enquanto Polanski explora o pré-parto, Mother's Baby mergulha nos abismos sombrios do pós-parto, ampliando o espectro do horror maternal. Além disso, a depressão pós-parto surge como uma metáfora assustadora e simbólica, onde os distúrbios psicológicos e as barreiras afetivas entre mãe e filho assumem contornos ao mesmo tempo metafóricos e explícitos, refletindo as complexidades reais da maternidade.
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Outro elemento simbólico é a constante postergação da escolha do nome para o bebê recém-nascido, apesar da insistência do pai. Essa hesitação revela o sentimento profundo da mãe, que, por razões internas, questiona se aquela criança é realmente sua. Nomear o filho representaria uma aceitação definitiva, uma pacificação de suas dúvidas, e equivaleria a completar um parto que, para ela, permanece incompleto. Essa relutância reforça o tema da alienação maternal, tornando o filme ainda mais perturbador.
O terror da gravidez e da maternidade também ecoa em obras recentes, como Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, que aborda o tema de forma mais leve e divertida, em contraste com a abordagem assombrada e sombria do filme de Moder. Outro ponto em comum é o fato de que ambos são dirigidos por mulheres, o que enriquece a perspectiva feminina sobre esses medos. Além disso, Mother's Baby também se aproxima, por outros aspectos, do suspense Coma, dirigido por Michael Crichton em 1978, ao explorar o horror hospitalar. Ambos retratam instituições médicas como cenários de conspirações e violações éticas, onde procedimentos rotineiros se transformam em fontes de pavor, questionando a confiança no sistema de saúde e ampliando o suspense para além do âmbito pessoal.
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Falado em alemão, o filme inicia e prossegue em um ritmo lento por muitos minutos, mas mantém o espectador engajado por meio de pequenas ocorrências e detalhes que constroem expectativa. Acompanhamos as angústias de Julia e suas descobertas graduais até o desfecho, que revela a última peça do quebra-cabeça. No entanto, algumas respostas permanecem suspensas, o que, embora contribua para o mistério, pode prejudicar um fechamento mais impactante, impedindo que se torne um thriller exemplar.
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Em resumo, Mother's Baby se destaca como uma exploração visceral e inovadora da maternidade, mesclando horror psicológico com reflexões profundas sobre identidade e vínculo afetivo. Apesar de certas ambiguidades no final, o filme de Johanna Moder consegue capturar a essência do desconforto pós-parto, oferecendo uma narrativa que ressoa com medos universais e convida a uma reflexão sobre as sombras invisíveis da parentalidade. É uma obra que equilibra o suspense e o simbolismo, revelando as complexidades da experiência humana.
Assista ao trailer: Mother’s Baby
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
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