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quarta-feira, 4 de março de 2026

Mother’s Baby: maternidade assombrada

O pesadelo da maternidade, quando o vínculo esperado com o recém-nascido se transforma em estranhamento e dúvida profunda, ganha contornos de thriller psicológico em Mother's Baby, dirigido pela cineasta austríaca Johanna Moder. Lançado em 2025 como coprodução entre Alemanha, Suíça e Áustria, o filme foi exibido na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim. A trama acompanha Julia (Marie Leuenberger), uma regente de orquestra de 40 anos, e seu parceiro Georg (Hans Löw), que recorrem a um procedimento experimental de fertilidade em uma clínica privada para realizar o sonho de ter um filho. Após um parto complicado, no entanto, Julia enfrenta uma incapacidade crescente de se conectar afetivamente com o bebê, o que a leva a uma espiral de suspeitas e paranoia que transforma sua experiência pós-parto em um autêntico horror psicológico.

Desde as sequências iniciais, o filme estabelece simbolicamente o tom que permeia toda a narrativa, caracterizada por suspense, estranhamento e desconforto sensorial. As imagens de corredores vazios e silenciosos na clínica transmitem uma sensação palpável de algo sinistro, contrastando com o momento sublime do parto vivido pela mãe. Essa atmosfera inicial prepara o terreno para o desenvolvimento da trama, convidando o espectador a compartilhar a inquietude crescente da protagonista.

O parto em si é retratado em um longo plano-sequência de cinco minutos, uma escolha que intensifica a angústia, permitindo que o público vivencie as dores e as emoções da mãe de forma imersiva. Esse momento crucial marca o início das aflições de Julia, que confronta um dos pavores mais angustiantes das parturientes: a possibilidade de troca do bebê, seja por erro ou intenção premeditada. Essa dúvida inicial evolui para suspeitas cada vez mais profundas, culminando em confirmações dolorosas que abalam sua realidade pós-parto.

É inevitável reconhecer paralelos com o clássico O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, outro thriller de horror centrado em uma mãe atormentada por ameaças invisíveis que minam sua sanidade. Há uma complementaridade entre as obras: enquanto Polanski explora o pré-parto, Mother's Baby mergulha nos abismos sombrios do pós-parto, ampliando o espectro do horror maternal. Além disso, a depressão pós-parto surge como uma metáfora assustadora e simbólica, onde os distúrbios psicológicos e as barreiras afetivas entre mãe e filho assumem contornos ao mesmo tempo metafóricos e explícitos, refletindo as complexidades reais da maternidade.

Outro elemento simbólico é a constante postergação da escolha do nome para o bebê recém-nascido, apesar da insistência do pai. Essa hesitação revela o sentimento profundo da mãe, que, por razões internas, questiona se aquela criança é realmente sua. Nomear o filho representaria uma aceitação definitiva, uma pacificação de suas dúvidas, e equivaleria a completar um parto que, para ela, permanece incompleto. Essa relutância reforça o tema da alienação maternal, tornando o filme ainda mais perturbador.

O terror da gravidez e da maternidade também ecoa em obras recentes, como Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, que aborda o tema de forma mais leve e divertida, em contraste com a abordagem assombrada e sombria do filme de Moder. Outro ponto em comum é o fato de que ambos são dirigidos por mulheres, o que enriquece a perspectiva feminina sobre esses medos. Além disso, Mother's Baby também se aproxima, por outros aspectos, do suspense Coma, dirigido por Michael Crichton em 1978, ao explorar o horror hospitalar. Ambos retratam instituições médicas como cenários de conspirações e violações éticas, onde procedimentos rotineiros se transformam em fontes de pavor, questionando a confiança no sistema de saúde e ampliando o suspense para além do âmbito pessoal.

Falado em alemão, o filme inicia e prossegue em um ritmo lento por muitos minutos, mas mantém o espectador engajado por meio de pequenas ocorrências e detalhes que constroem expectativa. Acompanhamos as angústias de Julia e suas descobertas graduais até o desfecho, que revela a última peça do quebra-cabeça. No entanto, algumas respostas permanecem suspensas, o que, embora contribua para o mistério, pode prejudicar um fechamento mais impactante, impedindo que se torne um thriller exemplar.

Em resumo, Mother's Baby se destaca como uma exploração visceral e inovadora da maternidade, mesclando horror psicológico com reflexões profundas sobre identidade e vínculo afetivo. Apesar de certas ambiguidades no final, o filme de Johanna Moder consegue capturar a essência do desconforto pós-parto, oferecendo uma narrativa que ressoa com medos universais e convida a uma reflexão sobre as sombras invisíveis da parentalidade. É uma obra que equilibra o suspense e o simbolismo, revelando as complexidades da experiência humana.

Assista ao trailer: Mother’s Baby


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Frio da Morte: sangue sobre a neve

 

Embora seja uma produção norte-americana em coprodução com a Alemanha, O Frio da Morte (Dead of Winter), dirigido por Brian Kirk, possui, em espírito, um coração europeu, ao menos no estilo e na ambiência. Nesse aspecto, o suspense estrelado por Emma Thompson se insere, de maneira enviesada, no modelo do chamado "suspense nórdico", inspirado em thrillers literários sombrios, atmosféricos e de cenários gélidos. Autores celebrados desse estilo, como Jo Nesbo, Lars Kepler e Stefan Ahnhem, entre outros, narram tramas focadas em mistérios intrincados, violência explícita e frieza emocional, aspectos todos muito presentes no longa. O roteiro, por sua vez, traz uma assinatura curiosa, pois foi coescrito pelo compositor de trilhas sonoras Nicholas Jacobson-Larson, aqui em sua primeira experiência como roteirista.

A trama acompanha Barb (Emma Thompson), uma viúva britânica que se mudou para uma remota região gelada dos Estados Unidos. Durante uma tempestade de neve, ela se perde e acaba chegando em uma casa isolada, onde faz uma descoberta aterrorizante: uma jovem é mantida em cativeiro. A partir desse momento, Barb se vê diante de um dilema que rapidamente se transforma em luta pela sobrevivência, pois os sequestradores percebem que foram descobertos.

A descoberta acidental de Barb desperta um alerta imediato na audiência. Diante da escassez de informações sobre aquela situação inesperada e aterrorizante, chegamos a cogitar estar diante de uma versão invernal dos caipiras psicopatas de O Massacre da Serra Elétrica. Contudo, o filme de Brian Kirk não tem esse alcance, e muito menos essa ambição. A referência ao clássico dos anos 1970 acaba restrita apenas à nossa imaginação, pois o longa definitivamente não entrega nada que se aproxime da crueza brutal daquela obra-prima do terror.

Sem avançar em direção a um indesejável spoiler, há um paralelismo entre a garota sequestrada e a filha da protagonista, o que desperta inevitavelmente seus instintos maternos de proteção e acolhimento. São esses mecanismos fundamentais que justificam por que uma senhora de idade assume o papel heroico que se impõe diante do risco da morte. Ao longo da história, somos gradualmente apresentados ao passado da personagem, aos fatos pretéritos que movem suas ações e sentimentos no presente. A construção desse passado é fragmentada, revelada em pequenos flashbacks e diálogos esparsos, como peças de um quebra-cabeça que o filme insiste em montar lentamente.

A personagem de Emma Thompson demonstra uma tenacidade extremada em seus propósitos, como se impusesse a si própria uma missão de vida, missão cujas respostas estão enraizadas em algum lugar do passado, marcado por um amor que transcendeu a morte. Apenas esses vislumbres do passado, compartilhados com a audiência, tornam aceitável sua transformação de uma dócil senhora em uma justiceira durona. As respostas estão no passado, e a ideia de um presente sem propósito revela-se, para ela, pior que a morte.

O problema é que, enquanto aguardamos o encaixe da última peça, a revelação integral das motivações do sequestro, o filme parece deliberadamente estender o percurso. Sem muitos elementos novos a oferecer ao espectador, a trama protela o desfecho até os momentos finais do terceiro ato. Esse adiamento, a princípio, poderia ser uma estratégia legítima de suspense, comum no chamado "suspense nórdico" que o filme evoca. Nas páginas dos livros a atmosfera e o mergulho psicológico muitas vezes importam mais do que a ação imediata. No entanto, em O Frio da Morte, a espera não é preenchida por tensão crescente ou por camadas adicionais de complexidade. Pelo contrário, as sequências intermediárias pouco contribuem para o andamento da narrativa. As situações se repetem e os diálogos giram em círculos, como se o único propósito fosse testar a paciência do espectador até a grande revelação.

O resultado é um descompasso entre a construção psicológica da protagonista e a condução do mistério. A história pessoal de Barb até oferece lastro emocional para suas escolhas, mas ela é dosada de forma tão moderada que, quando finalmente compreendemos o quadro completo, a surpresa chega enfraquecida pelo cansaço da espera. Em vez de um clímax explosivo ou de uma reviravolta de fato impactante, temos a sensação de que o filme poderia ter contado a mesma história em menos tempo (ainda que a duração seja relativamente curta) ou, quem sabe, deveria ter investido mais em desenvolver o presente enquanto nos fazia aguardar o passado.

A carreira de Emma Thompson inclui filmes de diversos gêneros, do drama à comédia, do romance à fantasia. No entanto, o thriller de suspense não marca presença significativa em sua filmografia. Em 1991 ela participou de Voltar a Morrer, dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, então seu companheiro. O retorno da atriz ao gênero só ocorre agora, 35 anos depois, com este papel, que exigiu muito de ação e dinamismo para uma atriz de 66 anos de idade. A propósito, neste aspecto há que se fazer justiça: a atriz está convincente e dá muito bem conta do recado, ao viver uma personagem que não esconde a idade que tem.

Diante disso, podemos até relevar os furos, os clichês e as conveniências fáceis do roteiro para nos atermos ao deleite inusitado de ver Emma Thompson sangrando, tremendo de frio, lutando e atirando nos vilões. O filme, frio e pouco envolvente no geral, encontra sua razão de ser na presença calorosa de uma grande atriz em uma obra pouco memorável.

Assista ao trailer: O Frio da Morte


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela