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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Frio da Morte: sangue sobre a neve

 

Embora seja uma produção norte-americana em coprodução com a Alemanha, O Frio da Morte (Dead of Winter), dirigido por Brian Kirk, possui, em espírito, um coração europeu, ao menos no estilo e na ambiência. Nesse aspecto, o suspense estrelado por Emma Thompson se insere, de maneira enviesada, no modelo do chamado "suspense nórdico", inspirado em thrillers literários sombrios, atmosféricos e de cenários gélidos. Autores celebrados desse estilo, como Jo Nesbo, Lars Kepler e Stefan Ahnhem, entre outros, narram tramas focadas em mistérios intrincados, violência explícita e frieza emocional, aspectos todos muito presentes no longa. O roteiro, por sua vez, traz uma assinatura curiosa, pois foi coescrito pelo compositor de trilhas sonoras Nicholas Jacobson-Larson, aqui em sua primeira experiência como roteirista.

A trama acompanha Barb (Emma Thompson), uma viúva britânica que se mudou para uma remota região gelada dos Estados Unidos. Durante uma tempestade de neve, ela se perde e acaba chegando em uma casa isolada, onde faz uma descoberta aterrorizante: uma jovem é mantida em cativeiro. A partir desse momento, Barb se vê diante de um dilema que rapidamente se transforma em luta pela sobrevivência, pois os sequestradores percebem que foram descobertos.

A descoberta acidental de Barb desperta um alerta imediato na audiência. Diante da escassez de informações sobre aquela situação inesperada e aterrorizante, chegamos a cogitar estar diante de uma versão invernal dos caipiras psicopatas de O Massacre da Serra Elétrica. Contudo, o filme de Brian Kirk não tem esse alcance, e muito menos essa ambição. A referência ao clássico dos anos 1970 acaba restrita apenas à nossa imaginação, pois o longa definitivamente não entrega nada que se aproxime da crueza brutal daquela obra-prima do terror.

Sem avançar em direção a um indesejável spoiler, há um paralelismo entre a garota sequestrada e a filha da protagonista, o que desperta inevitavelmente seus instintos maternos de proteção e acolhimento. São esses mecanismos fundamentais que justificam por que uma senhora de idade assume o papel heroico que se impõe diante do risco da morte. Ao longo da história, somos gradualmente apresentados ao passado da personagem, aos fatos pretéritos que movem suas ações e sentimentos no presente. A construção desse passado é fragmentada, revelada em pequenos flashbacks e diálogos esparsos, como peças de um quebra-cabeça que o filme insiste em montar lentamente.

A personagem de Emma Thompson demonstra uma tenacidade extremada em seus propósitos, como se impusesse a si própria uma missão de vida, missão cujas respostas estão enraizadas em algum lugar do passado, marcado por um amor que transcendeu a morte. Apenas esses vislumbres do passado, compartilhados com a audiência, tornam aceitável sua transformação de uma dócil senhora em uma justiceira durona. As respostas estão no passado, e a ideia de um presente sem propósito revela-se, para ela, pior que a morte.

O problema é que, enquanto aguardamos o encaixe da última peça, a revelação integral das motivações do sequestro, o filme parece deliberadamente estender o percurso. Sem muitos elementos novos a oferecer ao espectador, a trama protela o desfecho até os momentos finais do terceiro ato. Esse adiamento, a princípio, poderia ser uma estratégia legítima de suspense, comum no chamado "suspense nórdico" que o filme evoca. Nas páginas dos livros a atmosfera e o mergulho psicológico muitas vezes importam mais do que a ação imediata. No entanto, em O Frio da Morte, a espera não é preenchida por tensão crescente ou por camadas adicionais de complexidade. Pelo contrário, as sequências intermediárias pouco contribuem para o andamento da narrativa. As situações se repetem e os diálogos giram em círculos, como se o único propósito fosse testar a paciência do espectador até a grande revelação.

O resultado é um descompasso entre a construção psicológica da protagonista e a condução do mistério. A história pessoal de Barb até oferece lastro emocional para suas escolhas, mas ela é dosada de forma tão moderada que, quando finalmente compreendemos o quadro completo, a surpresa chega enfraquecida pelo cansaço da espera. Em vez de um clímax explosivo ou de uma reviravolta de fato impactante, temos a sensação de que o filme poderia ter contado a mesma história em menos tempo (ainda que a duração seja relativamente curta) ou, quem sabe, deveria ter investido mais em desenvolver o presente enquanto nos fazia aguardar o passado.

A carreira de Emma Thompson inclui filmes de diversos gêneros, do drama à comédia, do romance à fantasia. No entanto, o thriller de suspense não marca presença significativa em sua filmografia. Em 1991 ela participou de Voltar a Morrer, dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, então seu companheiro. O retorno da atriz ao gênero só ocorre agora, 35 anos depois, com este papel, que exigiu muito de ação e dinamismo para uma atriz de 66 anos de idade. A propósito, neste aspecto há que se fazer justiça: a atriz está convincente e dá muito bem conta do recado, ao viver uma personagem que não esconde a idade que tem.

Diante disso, podemos até relevar os furos, os clichês e as conveniências fáceis do roteiro para nos atermos ao deleite inusitado de ver Emma Thompson sangrando, tremendo de frio, lutando e atirando nos vilões. O filme, frio e pouco envolvente no geral, encontra sua razão de ser na presença calorosa de uma grande atriz em uma obra pouco memorável.

Assista ao trailer: O Frio da Morte


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quarta-feira, 28 de setembro de 2022

A Queda: medo e terror nas alturas

 


Um dos clássicos irretocáveis do cinema, Um Corpo Que Cai (Vertigo), possui como tema de fundo a acrofobia (o medo de altura). Naquela trama de suspense de Alfred Hitchcock a fobia é do personagem de James Stewart. Nós, assistentes, ficamos sempre em segurança. O tema do medo das alturas não é exatamente o problema das protagonistas de A Queda (Fall). O caso é exatamente o oposto, na verdade. Para elas, as alturas são desafios estimulantes que enfrentam por aventura e prazer. Então, a sensação do medo de altura fica restrita apenas para o espectador.

Os desafios não ficam por aí para as protagonistas. Some-se a experiência do confinamento em espaço reduzido e a luta pela sobrevivência. Pronto, estes são os ingredientes quase minimalistas que integram a fórmula enxuta de A Queda. Escrito e dirigido por Scott Mann (Vingança Entre Assassinos e O Sequestro do Ônibus 657) o filme é excepcional na tarefa de provocar a percepção de vertigem na plateia, de preferência em uma sala de cinema.


As amigas Becky (Grace Caroline Currey, de Annabelle 2: A Criação do Mal e Shazam!) e Hunter (Virginia Gardner, de Projeto Almanaque e Halloween 2018) têm por hobby desafiar as alturas em escaladas por montanhas rochosas, em busca de superação de limites, de adrenalina e visualizações de suas aventuras divulgadas por canais e blogs de internet. Abalada e deprimida emocionalmente após uma tragédia – apresentada no prólogo - Becky fica reclusa por um ano. Mas tudo muda quando Hunter a convence voltar às escaladas, para enfrentar seus medos e superar o trauma do passado. O objetivo da escalada redentora: o topo de uma torre de TV abandonada, com 600 metros de altura, no meio do deserto de Mojave. Mas nem tudo sai como previsto. O que seria uma aventura radical se transforma em uma experiência limite de vida ou morte, quando ambas ficam presas no topo da torre.


Novamente citando Hitchcock, vale lembrar que o mestre fez dois filmes inteiramente restritos e limitados a um espaço / cenário único: Festim Diabólico (um apartamento) e Um Barco e Nove Destinos (um bote salva-vidas). Este tipo de narrativa impõe necessariamente um clima de suspense e acrescenta uma camada extra de tensão que perpassa por todo o enredo. O êxito de narrativas deste tipo se sustenta na engenhosidade do encadeamento dos fatos que mantenham a atenção e garantam o interesse do espectador. Neste ponto A Queda se sai bem, desenvolvendo situações criativas, que se equilibram entre o surpreendente e o exagero, mas suficientemente coerentes para garantir a suspensão de descrença.

O roteiro ainda encontra espaço para desenvolver (ainda que minimamente) a trajetória das personagens, pelo menos no que se refere à ligação que une as duas, revelada lá pelas tantas. Para contar sua história o diretor Scott Mann não utiliza sequer o recurso do flashback, tão comum para preencher lacunas e vazios narrativos. O que vemos é o real do tempo dramático ou, no máximo, o registro de pequenos fragmentos do passado, visualizados pela tela de um celular. A Queda é confinado não apenas no espaço, mas também na dramatização. Para tanto contribuem enormemente para o resultado a edição, os efeitos sonoros e os efeitos de CGI, estes combinados com filmagens reais em uma torre verdadeira, de apenas 30 metros.


O thriller de suspense e terror A Queda é particularmente feliz em desencadear nossos gatilhos emocionais atávicos: medo da morte, abandono, fome, dentre outros. Produção restrita de recursos, mas eficiente na construção de emoções genuínas na plateia, o filme de Scott Mann é um bom motivo para o grande público voltar a vivenciar – em grande escala - a experiência sensorial de um filme exibido na telona de uma sala de cinema.

Assista ao trailer: A Queda


Jorge Ghiorzi / Membro da ACCIRS

janeladatela@gmail.com


quinta-feira, 29 de julho de 2021

“Tempo”: uma vida em um dia


Se há algo incontestável que se possa dizer sobre M. Night Shyamalan é que ele não tem medo de arriscar. Após o sucesso mundial de O Sexto Sentido, na virada do século, o cineasta de origem indiana poderia simplesmente se contentar com uma carreira confortável em Hollywood dirigindo apenas filmes convencionais com grandes estrelas, sob a grife dos grandes estúdios. O fato é que recusou a zona de conforto – apesar das acusações de se repetir nos filmes – optando por seguir a trilha de cineasta “autoral”, ou tão autoral quando possível no meio da indústria hollywoodiana. Um rebelde silencioso contra o sistema. Já cometeu sua cota de erros, vários, mas segue na convicção de seu cinema de gênero baseado essencialmente no suspense.

Após quase uma década de projetos frustrados, Shyamalan voltou a atrair atenção a partir de Fragmentado em 2016. Chegamos então ao 14º filme da sua filmografia, Tempo (Old, 2021), uma adaptação da graphic novel francesa “Sandcastle” (Castelos de Areia), de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters. E para não deixar dúvidas, suas marcas registradas estão todas lá: suspense, mistério, reviravoltas e maneirismos narrativos. Para o bem e para o mal.


Um casal (Gael Garcia Bernal e Vicky Krieps) e seus dois filhos pré-adolescentes em viagem de feriado se hospedam em um resort de verão. Lá são convencidos a conhecer (juntamente com outros hóspedes) uma praia isolada de difícil acesso. A promessa de aventura, descanso e diversão se transforma em tragédia ao ficarem presos, incomunicáveis e sob um estranho efeito. Naquele local misterioso o tempo transcorre mais rápido, fazendo com que todos envelheçam em poucas horas vários anos de vida.


O grande inimigo de Tempo é, ironicamente, o tempo. A maior parte da trama parece um episódio estendido do seriado Lost, onde uma situação básica é estabelecida e permanece rodando sem sair do lugar, acrescentando acúmulo de informações e pistas por todo lado. O que inicia com uma criativa e bem trabalhada inquietude aos poucos se transforma em tedioso incômodo. A premissa muito promissora parece não entregar tudo o que prometia, parecendo se contentar apenas com os aspectos superficiais de uma história de fundo fantástico e perturbador. O que, de modo geral, é uma falha recorrente em vários filmes de Shyamalan, onde ele costuma perder a mão. Seu cinema privilegia excessivamente a forma em detrimento do conteúdo. Ele é um cineasta esteta que se manifesta primordialmente pelo aspecto visual. Mais do que o que contar (narrar) Shyamalan se esmera primeiramente na forma visual do que será mostrado. Isto explica o uso frequente de enquadramentos inusitados e profundidade de campo nas tomadas. Artifícios da linguagem e da técnica cinematográfica utilizados com grande habilidade e virtuosismo, diga-se a bem da verdade.


Com Tempo Shyamalan parece se deparar com um impasse. Indeciso entre uma história de terror ou drama psicológico que reflete a inevitabilidade da morte, o realizador abre mão de mergulhar profundamente no tema, fazendo a opção fácil por uma trama centrada apenas no horror corporal. Um roteiro frouxo, superficial e pouco conclusivo não dá conta de amarrar todas as pontas levantadas ao longo da história. Personagens avulsos, que pouco fazem sentido ou se conectam convincentemente quando juntos, não ajudam a atrair a atenção ou empatia da plateia. Isto sem falar do elenco internacional que não dá liga em momento algum. No ranking que vai do melhor (O Sexto Sentido) ao pior (Fim dos Tempos) desta vez Shyamalan ficou no meio do caminho.

Assista ao trailer: Tempo

por Jorge Ghiorzi