
Vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2026, este longa-metragem de tons biográficos conclui a trilogia de filmes históricos do cineasta polonês Pawel Pawlikowski. Os projetos anteriores deste tríptico — todos fotografados em um esplendoroso preto e branco — foram os aclamados Ida (2013) e Guerra Fria (2018). As obras abordam temas de fundo político por meio de histórias intensamente humanas que resgatam o passado europeu em busca de uma identidade perdida, dialogando de forma direta com o mundo contemporâneo.
Desta vez, o realizador retrata um episódio verídico: a viagem de retorno à Alemanha do romancista Thomas Mann — vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1929 e autor de A Montanha Mágica e Morte em Veneza — ao lado de sua filha, Erika Mann. O reencontro com a terra natal ocorre quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, encerrando mais de uma década de exílio nos Estados Unidos, país do qual obteve cidadania em 1944. Acompanhamos a jornada da dupla por uma Alemanha dividida e desfigurada entre estadunidenses e soviéticos sob a estrutura de um road movie. O deslocamento não é apenas físico, mas essencialmente psicológico. Trata-se de uma revisita a temas e contextos por vezes dolorosa, outras emotiva e amargurada, e quase sempre marcada pelo confronto com convicções pessoais que aparentavam estar pacificadas pelo tempo.
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Uma espécie de herança maldita, marcada por omissões ou julgamentos morais equivocados durante a ascensão do fascismo, tortura a mente do escritor. O filme estabelece aqui uma rima temática direta com o dilema do idoso professor de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman: ambos são submetidos ao desafio de confrontar suas falhas e fragilidades no ocaso da vida. A Terra do Meu Pai trata de memória, resgate, legado e da reconciliação de um homem com sua obra, sua família e sua postura diante da barbárie. Constante alvo de assédio e cooptação ideológica, Thomas Mann (magnificamente interpretado por Hanns Zischler) vivencia as contradições do artista que percebe que as palavras nem sempre bastam. Ações efetivas são necessárias. O fardo se torna ainda mais pesado quando resta tão pouco tempo para consertar o que foi quebrado.

Por dever de justiça, cabe destacar também o ótimo desempenho de Sandra Hüller como Erika Mann. A personalidade pendular da personagem, que oscila do sarcasmo ao recato e da fragilidade ao cômico, encontra na atriz uma intérprete brilhante. Se Hanns Zischler representa a mente racional, Sandra Hüller é o pulsante coração emocional de A Terra do Meu Pai.
Assista ao trailer: A Terra do Meu Pai
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
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@janeladatela