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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A Terra do Meu Pai: reencontro com o passado

Vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2026, este longa-metragem de tons biográficos conclui a trilogia de filmes históricos do cineasta polonês Pawel Pawlikowski. Os projetos anteriores deste tríptico — todos fotografados em um esplendoroso preto e branco — foram os aclamados Ida (2013) e Guerra Fria (2018). As obras abordam temas de fundo político por meio de histórias intensamente humanas que resgatam o passado europeu em busca de uma identidade perdida, dialogando de forma direta com o mundo contemporâneo. 

Desta vez, o realizador retrata um episódio verídico: a viagem de retorno à Alemanha do romancista Thomas Mann — vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1929 e autor de A Montanha Mágica e Morte em Veneza — ao lado de sua filha, Erika Mann. O reencontro com a terra natal ocorre quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, encerrando mais de uma década de exílio nos Estados Unidos, país do qual obteve cidadania em 1944. Acompanhamos a jornada da dupla por uma Alemanha dividida e desfigurada entre estadunidenses e soviéticos sob a estrutura de um road movie. O deslocamento não é apenas físico, mas essencialmente psicológico. Trata-se de uma revisita a temas e contextos por vezes dolorosa, outras emotiva e amargurada, e quase sempre marcada pelo confronto com convicções pessoais que aparentavam estar pacificadas pelo tempo.


Expatriado pelo regime nazista em 1936, ao qual se opôs firmemente no exterior, Thomas Mann viveu no exílio profundas transformações políticas, evoluindo de um nacionalismo conservador para uma defesa intransigente da democracia e do humanismo. Em função destas mudanças e de suas antigas hesitações, o intelectual constantemente despertava desconfianças sobre qual era, efetivamente, a sua verdadeira visão de mundo.

Este foi o cenário tenso que encontrou em seu retorno ao país no pós-guerra. Toda essa dinâmica de vigilância e desconfiança está presente em A Terra do Meu Pai, que coloca o romancista sob constante escrutínio por onde quer que transite. Mais do que demonstrar boa vontade com o convite para uma breve turnê de homenagens e a entrega de um prêmio literário, o que mais move Thomas Mann é a possibilidade de um doloroso acerto de contas com as pontas soltas de seu passado.

Uma espécie de herança maldita, marcada por omissões ou julgamentos morais equivocados durante a ascensão do fascismo, tortura a mente do escritor. O filme estabelece aqui uma rima temática direta com o dilema do idoso professor de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman: ambos são submetidos ao desafio de confrontar suas falhas e fragilidades no ocaso da vida. A Terra do Meu Pai trata de memória, resgate, legado e da reconciliação de um homem com sua obra, sua família e sua postura diante da barbárie. Constante alvo de assédio e cooptação ideológica, Thomas Mann (magnificamente interpretado por Hanns Zischler) vivencia as contradições do artista que percebe que as palavras nem sempre bastam. Ações efetivas são necessárias. O fardo se torna ainda mais pesado quando resta tão pouco tempo para consertar o que foi quebrado.

Por dever de justiça, cabe destacar também o ótimo desempenho de Sandra Hüller como Erika Mann. A personalidade pendular da personagem, que oscila do sarcasmo ao recato e da fragilidade ao cômico, encontra na atriz uma intérprete brilhante. Se Hanns Zischler representa a mente racional, Sandra Hüller é o pulsante coração emocional de A Terra do Meu Pai.

Assista ao trailer: A Terra do Meu Pai


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela