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terça-feira, 29 de setembro de 2026

A Queda 2 – No Limite: o prazer da vertigem

 

Lançado em 2022, em um período em que a pós-pandemia ainda provocava estragos nas bilheterias, A Queda recebeu pouco tempo de tela, teve baixa circulação nos cinemas e logo passou a frequentar os catálogos de streaming. Esta circunstância histórica acabou afastando o público de apreciar aquele thriller da maneira para a qual foi concebido, ou seja, na sala de cinema. Afinal, somente assim suas qualidades poderiam ser plenamente apreciadas, já que na telona a sensação de vertigem é potencializada e impacta a plateia com grande efeito. Agora, quando os filmes voltaram a reinar nas salas (mesmo que com menos relevância do que no passado recente), chega esta sequência que mais uma vez procura nos deixar à beira da poltrona, com o coração acelerado e a respiração em suspenso.

Passados quatro anos, nossos nervos voltam a ser testados em A Queda 2: No Limite (Fall 2: Deadpoint), que dá continuidade à franquia com uma nova aventura nas alturas. A direção ficou a cargo dos irmãos Spierig (Michael e Peter), que substituem o criador original, Scott Mann, desta vez atuando apenas como um dos produtores e roteirista. O medo de altura (acrofobia) passa longe de ser um problema para as protagonistas, seja no primeiro filme ou neste. O caso aqui é exatamente o oposto, pois para elas as alturas são desafios estimulantes enfrentados com coragem, movidos por uma busca incessante por adrenalina. Assim, a sensação de pavor e o medo de vertigem ficam restritos apenas ao espectador.

Se no longa original a escalada da antena de rádio abandonada representava um ritual de luto doloroso que terminou em tragédia, aqui o cenário e as motivações se expandem para novos rumos. Tempos após o incidente, somos apresentados a Jax (Harriet Slater), irmã de Shiloh, morta no primeiro filme. Vivendo um período de luto e reclusão, Jax é incentivada pela amiga Luce (Arsema Thomas) a enfrentar seu medo e encarar uma nova aventura radical como forma de homenagear a memória da irmã. Juntas, elas partem para um novo encontro com as alturas, decididas a escalar uma perigosa montanha na Tailândia por uma trilha proibida para turistas e exploradores. Porém, o que deveria ser apenas um desafio pessoal a ser vencido acaba se transformando em um novo pesadelo de sobrevivência. Após um deslizamento de pedras, as duas ficam isoladas em um pequeno trecho de uma passarela suspensa, a mais de 3.000 metros de altura e com pouquíssimas possibilidades de resgate.

O novo longa continua eficiente em disparar a adrenalina e provocar uma genuína sensação de vertigem. No entanto, perde pontos ao deixar evidente o uso demasiado de efeitos visuais digitais em diversos momentos. O filme original era uma produção mais modesta, que utilizava com muita criatividade seus recursos enxutos, decisão que contribuía de forma decisiva para sustentar a suspensão de descrença. Agora, com a clara proposta de consolidar uma franquia a partir de um orçamento sensivelmente mais generoso, a produção cede a certos excessos narrativos e estéticos que acabam por comprometer o impacto da aventura.


Outro ponto a destacar que fragiliza a experiência é a inclusão de temas externos e tramas paralelas. Esses elementos pouco contribuem para a evolução dramática, funcionando apenas como artifícios para estender a narrativa. A consequência dessa decisão do roteiro é o esvaziamento do suspense inerente à situação limite enfrentada pelas protagonistas. Há inclusive um aparente anticlímax em momento próximo ao desfecho, que se prolonga sem necessidade e desvia o foco para caminhos inesperados e pouco significativos para o arco narrativo da personagem Jax, que passa a ser a nova protagonista da franquia.

Aqui vale ressaltar uma escolha perspicaz do roteiro ao introduzir um objeto cênico que deixa evidente a intenção de dar continuidade à franquia. Muito além de um simples adereço, esse novo elemento carrega a simbologia de legado e memória, operando como um agente catalisador. Um elo material e afetivo entre a trajetória da protagonista e os novos caminhos (ou escaladas) a serem explorados nas futuras sequências. Como entretenimento ligeiro e descompromissado, A Queda 2: No Limite cumpre seu papel, mas não fica à altura(!) do filme anterior, que se mostrou um exercício de tensão bem mais eficiente na construção de emoções genuínas no espectador.

Assista ao trailer: A Queda 2: No Limite


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela