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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Antártida: desastre glacial

 

Dirigido por Bruno Safadi, Antártida chega às salas de cinema brasileiras precedido por grande expectativa. O orçamento expressivo, o elenco de apelo popular, o aparato técnico de ponta e a promessa de entregar um cinema de gênero assumido desenhavam um panorama inicial dos mais promissores. Trata-se de uma escala de produção pouco usual no circuito nacional. No entanto, a esmerada composição visual não é suficiente para sustentar o longa-metragem. A frieza estéril que caracteriza a ambientação geográfica acaba por contaminar a própria narrativa, resultando em uma experiência distante, calculada e, em última análise, profundamente frustrante para o espectador.

A premissa, em termos conceituais, carrega força e apelo imediato. A trama se passa em uma estação de pesquisa brasileira no continente gelado que fica isolada do resto do mundo durante o rigor do inverno polar. O gatilho dramático dispara quando a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa), recém-chegada ao local, sofre uma violência sexual. A partir deste ponto, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) assume a condução do caso, transformando todos os homens do contingente em suspeitos imediatos, incluindo figuras de autoridade como o Comandante Barros (Antonio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos). Cercadas pela ameaça contida dentro da própria base e subjugadas pelo clima inóspito do exterior, as mulheres do grupo veem-se forçadas a estabelecer uma aliança tácita em meio ao silêncio e ao medo constante.

O problema central da obra reside no desenho da sua estrutura dramática. Ao abordar a investigação de um crime sob confinamento, o roteiro opta por uma dinâmica narrativa que mais se assemelha à de uma minissérie televisiva fragmentada. A tentativa de comprimir múltiplos personagens, tramas secundárias e arcos individuais complexos em uma duração que mal ultrapassa os noventa minutos compromete irremediavelmente o ritmo. A montagem trabalha em ritmo acelerado para tentar amarrar o excesso de pontas soltas que o próprio texto cria, mas o preço pago por essa sobrecarga é o enfraquecimento da lógica interna do mistério e o esvaziamento psicológico dos personagens.

Em tese, a produção reunia todos os predicados de um suspense clássico de confinamento, o tradicional whodunit ("quem fez isso?"). Estão lá o espaço claustrofóbico, o crime perturbador, a lista de suspeitos e a urgência da investigação. O erro crucial de Antártida foi tentar expandir e elaborar uma fórmula narrativa que funciona justamente pela economia de meios, simplicidade estrutural e precisão de foco. A título de comparação, obras fundamentais do gênero com proposta semelhante, como O Enigma do Outro Mundo, de John Carpenter, sustentam sua eficiência ao manter a tensão constante. No clássico de 1982, pouco importa o passado dos indivíduos ou seus traumas e dores pregressas. Para que a engrenagem do suspense imediato funcione, qualquer desvio psicológico excessivo atua apenas como ruído dispensável.

Em Antártida, contudo, a linha investigativa principal é frequentemente interrompida e diluída pela sobreposição de pautas sociais e ambientais. Tópicos como violência doméstica, masculinidade tóxica, relacionamentos homoafetivos e as mudanças climáticas globais surgem de forma pontual, didática e pouco integrada ao tecido dramático. Como o roteiro insiste em cobrir diversas frentes temáticas de maneira simultânea, nenhuma delas alcança a densidade que exigiria, e a atmosfera de ameaça constante que deveria mover o mistério evapora.

Essa dispersão conceitual reflete-se diretamente na construção dos diálogos, que soam frequentemente expositivos. As falas assumem uma função explicativa e redundante, que retira a fluidez da condução cênica e distancia o público do conflito principal. O que resta na tela é a composição superficial de alguns papéis, a dependência quase total dos recursos de computação gráfica para criar a imponência dos cenários externos e descuidos marcantes de verossimilhança. Um exemplo deste problema está sintetizado na figura da protagonista vivida por Marina Ruy Barbosa, que frequentemente enfrenta tempestades e nevascas extremas com os cabelos ao vento, sem jamais cobrir a cabeça com o capuz do casaco térmico.

Movido por intenções válidas e por um aparente desejo de relevância temática, Antártida acaba por se perder na própria falta de medida. O filme recusa o rigor do gênero em nome de um acúmulo de discursos que não se consolidam em cena. O resultado é um projeto impecável em sua superfície técnica, mas dramaticamente inerte. Assistir a um boneco de neve derreter é mais emocionante do que assistir a Antártida.

Assista ao trailer: Antártida


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela