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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Backrooms – Um Não-Lugar: perdidos no labirinto

Os últimos anos, particularmente após o período da pandemia, têm sido pródigos para o cinema de terror e horror. Tradicionalmente relegados ao segundo plano em termos de prestígio, esses longas-metragens que se propõem a levar sustos às plateias têm recebido cada vez mais atenção do público, garantindo gordas bilheterias que sustentam a manutenção do ciclo. Raras são as semanas nas quais não temos um lançamento do gênero. Sem dúvida, eles são a bola da vez. Uma prova do alcance crescente dos filmes de terror se manifesta pela origem cada vez mais ampla dos argumentos das produções. 

Nos primeiros tempos, os filmes do gênero eram inspirados pela literatura, como o ciclo de monstros da Universal nas décadas de 1930 e 1940 (Frankenstein, Drácula, O Lobisomem). Depois, o modelo de representação foi influenciado por fatos reais, casos escabrosos e violência explícita, a exemplo de Psicose e dos assassinos em série em geral. Para os tempos mais recentes, essencialmente neste século XXI, uma das fontes de inspiração tem sido os fenômenos virais gerados pelo YouTube e pelas redes sociais. Para comprovar essa força recente do terror que se alimenta de conteúdos originalmente criados na internet, chega às telas dos cinemas Backrooms – Um Não-Lugar (Backrooms, 2026), dirigido por Kane Parsons.


O filme é baseado na websérie “The Backrooms”, que explora uma lenda urbana digital sobre a existência de uma dimensão paralela, composta por um labirinto infinito de salas vazias com paredes amareladas, carpete úmido e o zumbido incessante de luzes fluorescentes. O acesso a esse espaço alternativo ocorreria por meio de uma "porta" que representa, na verdade, uma falha na realidade. Quem acompanha a série Ruptura (Severance) já está familiarizado com este conceito. O criador desses vídeos é o próprio Kane Parsons, que tinha apenas 16 anos quando iniciou a produção. Os conteúdos viralizaram a ponto de chamar a atenção de grandes produtoras de Hollywood. Assim, com a bênção da produtora A24, Backrooms migrou do ambiente dos smartphones para as telas das salas de cinema. 

Mantendo a essência da websérie, o filme expande o fenômeno da internet ao inserir uma trama que estabelece um contexto narrativo para a exploração daquele perturbador mundo interdimensional. O enredo acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), o proprietário de uma loja de móveis que faz uma descoberta intrigante no subsolo do estabelecimento. Um portal permite que ele acesse outra dimensão, formada apenas por corredores infinitos em ambientes claustrofóbicos, repletos de mobiliário destruído, destroços, perspectivas distorcidas e figuras humanas aterrorizantes. A outra personagem da história é sua terapeuta, a doutora Mary Kline (Renate Reinsve, de Valor Sentimental), que toma conhecimento do fato por meio do relato do próprio paciente em uma das sessões de análise. Após o desaparecimento de Clark, ela assume a missão de resgatá-lo, precisando enfrentar os mistérios e os perigos que habitam esse não-lugar.


A cenografia de Backrooms é o grande trunfo do longa, e talvez seu único e verdadeiro destaque. Os ambientes sufocantes e opressivos, estruturados basicamente em uma paleta de cores de tons amarelo, âmbar e ocre, transmitem com muita eficiência o estranhamento angustiante vivido pelo personagem, pelo qual também somos impactados. Soma-se a isso a quebra das leis da física, na qual conceitos de "cima" e "baixo" deixam de fazer sentido, como se estivéssemos em uma nave espacial, mas sem os efeitos da ausência de gravidade. O problema surge quando o filme tenta arquitetar um enredo interessante para justificar tudo isso. A premissa tem lá seu apelo pela curiosidade que desperta ao abordar realidades paralelas, uma possibilidade, a propósito, prevista pela física na Teoria das Cordas. O ponto aqui é que a trama criada é por demais superficial, um tanto confusa e pouco envolvente. 

Não se trata de exigirmos explicações para tudo o que acontece, mas um mínimo de justificativa e coerência é necessário. E isso é tudo o que não temos aqui. O roteiro, que parece se perder diante das inúmeras possibilidades que promete, por uma analogia involuntária, acaba reproduzindo a trajetória do protagonista: perdido em caminhos infinitos.


A sensação geral que fica é que Backrooms funciona mais pelas partes isoladas do que pelo todo. Os personagens são mal delineados (para dizer o mínimo) e suas motivações são aleatórias e nada convincentes. O incômodo geral, ou melhor, a insatisfação do espectador, não se dá apenas pela ausência de explicações. Elas não são necessariamente essenciais em filmes que se propõem a trabalhar com enigmas e mistérios. A questão aqui é que, em dado momento, o filme se dispõe a dar algumas respostas. Pois então, o melhor seria não tê-las dado para a audiência, pois recorrem ao mais ordinário clichê, além de serem na verdade uma meia explicação. Ficaríamos melhor sem essa tentativa de explicação. O filme dá pistas de que há ali uma história a ser contada sobre o passado dos personagens (particularmente da terapeuta), mas o roteiro não dá conta. A opção é repetir-se, minutos e mais minutos intermináveis, por passeios naqueles corredores desolados e assustadores. Por essas e outras, Backrooms – Um Não-Lugar não passa de uma versão estendida dos microepisódios da websérie que fez sucesso na internet. Na verdade, este é um não-filme.

Assista ao trailer: Backrooms – Um Não-Lugar


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela