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domingo, 21 de junho de 2026

Segredo Obscuro: faltou substância

 

A obsessão pela juventude e pela beleza serve de inspiração, há muito tempo, para a ficção, tanto na literatura quanto no cinema. Obras como o romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e a animação clássica da Disney Branca de Neve e os Sete Anões, são apenas dois exemplos que ilustram essa busca idealizada. Há, no entanto, um pecado original nessa jornada: o preço da vaidade é invariavelmente a ruína. Nessas narrativas, a promessa da perfeição estética quase sempre culmina em tragédia, loucura ou na própria deformidade de quem a almeja. Esse desejo obstinado ganha contornos ainda mais sinistros quando transposto para a modernidade, onde a promessa de milagres estéticos imediatos esconde segredos perturbadores. 

Este é justamente o cenário no qual se desenvolve a trama de Segredo Obscuro (Shell), dirigido por Max Minghella. O longa acompanha o dilema de Samantha Lake (Elisabeth Moss, que também assina a produção), uma atriz em declínio na carreira que já não recebe oportunidades de trabalho em virtude de sua idade e do desleixo com a aparência. No glamoroso mundo dos holofotes, das capas de revistas e dos papéis de destaque nas telas, estes são considerados dois pecados mortais. A saída que ela encontra é se submeter a tratamentos estéticos revolucionários que prometem rejuvenescimento e o resgate da autoestima. Samantha acaba atraída para a ‘Shell’, um poderoso império da saúde e do bem-estar comandado pela ambiciosa Zoe Shannon (Kate Hudson), que desenvolveu um procedimento baseado no sistema reprodutivo dos crustáceos. O que parecia o início de um sonho dourado logo se transforma em pesadelo quando a atriz passa a notar sintomas estranhos em seu próprio corpo e descobre que pacientes da clínica estão desaparecendo misteriosamente. Enredada em uma perigosa teia de conspirações, ela precisa lutar pela verdade contra uma corporação implacável.


A estética de Segredo Obscuro espelha a própria matéria-prima de sua crítica. Em sua primeira metade, antes da virada narrativa (que não chega a ser exatamente um plot twist), o filme adota uma abordagem polida e idealizada, mimetizando a própria lógica superficial da indústria da beleza. No entanto, quando a trama assume o lado sombrio da ditadura estética, o longa recorre à paródia satírica de horror para revelar as entranhas monstruosas que se escondem sob a vaidade obsessiva. Durante dois terços de sua projeção, o filme parece limpo e inofensivo demais, com uma mensagem bem clichê que critica o etarismo e o culto à beleza jovem no meio midiático. Então, em dado momento, como se estivesse exausto de ser bem-comportado e higienizado, o roteiro se entrega totalmente ao caricato e diz finalmente a que veio.


O filme de Max Minghella dialoga tematicamente com duas outras obras, obtendo resultados distintos. Ambas abordam, em essência, o mesmo mote: o desejo de reverter os efeitos do envelhecimento e a recuperação da beleza perdida — em resumo, a busca por uma eternidade utópica. A primeira correlação possível é com a comédia de humor macabro A Morte Lhe Cai Bem (1992), dirigida por Robert Zemeckis e estrelada por Bruce Willis, Meryl Streep e Goldie Hawn (mãe da atriz Kate Hudson). A outra obra de identificação imediata é o recente terror corporal A Substância (2024), de Coralie Fargeat. Fica evidente, portanto, a linhagem clara que alimenta o longa de Minghella. O ponto a ressaltar — e lamentar — é que Segredo Obscuro fica preso em um limbo difuso ao não se assumir plenamente como uma comédia ácida e farsesca, nem incorporar, em sua totalidade, a vocação para abraçar o grotesco sem limites.


Tudo o que Segredo Obscuro deseja refletir sobre a indústria da beleza já foi tratado com mais complexidade em outros trabalhos no cinema. O objetivo do filme não está aí, já que ele passa ao largo de uma discussão significativa sobre o tema. O coração da obra reside, na verdade, na apropriação dessa temática para se divertir com uma narrativa que inicia como drama, transforma-se em suspense e finaliza como um autêntico body horror, jogando todas as suas fichas no choque visual e no desconforto. A questão é que a imersão profunda no cinema camp de terror, que visava a perturbar a audiência, acaba provocando o efeito contrário, transformando o pavor em comédia involuntária.


Na maior parte do tempo, a direção demonstra indecisão sobre qual caminho seguir. Com isso, o longa perde a coragem de mergulhar na escuridão e no drama psicológico. Da forma como foi concebida, a obra entrega um resultado muito aquém do potencial que a premissa sugeria e contenta-se com sua própria falta de ambição. Segredo Obscuro parece ser aquele tipo de produção que hoje olhamos com desconfiança e desapontamento, mas que no futuro poderá ser redescoberto como uma pérola do cinema trash, daquelas que faziam as delícias dos cinéfilos nos tempos das videolocadoras.

Assista ao trailer: Segredo Obscuro


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela