
A
obsessão pela juventude e pela beleza serve de inspiração, há muito tempo, para
a ficção, tanto na literatura quanto no cinema. Obras como o romance O
Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e a animação clássica da Disney Branca
de Neve e os Sete Anões, são apenas dois exemplos que ilustram essa busca
idealizada. Há, no entanto, um pecado original nessa jornada: o preço da
vaidade é invariavelmente a ruína. Nessas narrativas, a promessa da perfeição
estética quase sempre culmina em tragédia, loucura ou na própria deformidade de
quem a almeja. Esse desejo obstinado ganha contornos ainda mais sinistros
quando transposto para a modernidade, onde a promessa de milagres estéticos
imediatos esconde segredos perturbadores.
Este
é justamente o cenário no qual se desenvolve a trama de Segredo Obscuro
(Shell), dirigido por Max Minghella. O longa acompanha o dilema de
Samantha Lake (Elisabeth Moss, que também assina a produção), uma atriz em
declínio na carreira que já não recebe oportunidades de trabalho em virtude de
sua idade e do desleixo com a aparência. No glamoroso mundo dos holofotes, das
capas de revistas e dos papéis de destaque nas telas, estes são considerados
dois pecados mortais. A saída que ela encontra é se submeter a tratamentos
estéticos revolucionários que prometem rejuvenescimento e o resgate da
autoestima. Samantha acaba atraída para a ‘Shell’, um poderoso império da saúde
e do bem-estar comandado pela ambiciosa Zoe Shannon (Kate Hudson), que
desenvolveu um procedimento baseado no sistema reprodutivo dos crustáceos. O
que parecia o início de um sonho dourado logo se transforma em pesadelo quando
a atriz passa a notar sintomas estranhos em seu próprio corpo e descobre que
pacientes da clínica estão desaparecendo misteriosamente. Enredada em uma
perigosa teia de conspirações, ela precisa lutar pela verdade contra uma
corporação implacável.

A
estética de Segredo Obscuro espelha a própria matéria-prima de sua
crítica. Em sua primeira metade, antes da virada narrativa (que não chega a ser
exatamente um plot twist), o filme adota uma abordagem polida e
idealizada, mimetizando a própria lógica superficial da indústria da beleza. No
entanto, quando a trama assume o lado sombrio da ditadura estética, o longa
recorre à paródia satírica de horror para revelar as entranhas monstruosas que
se escondem sob a vaidade obsessiva. Durante dois terços de sua projeção, o
filme parece limpo e inofensivo demais, com uma mensagem bem clichê que critica
o etarismo e o culto à beleza jovem no meio midiático. Então, em dado momento,
como se estivesse exausto de ser bem-comportado e higienizado, o roteiro se
entrega totalmente ao caricato e diz finalmente a que veio.

O
filme de Max Minghella dialoga tematicamente com duas outras obras, obtendo
resultados distintos. Ambas abordam, em essência, o mesmo mote: o desejo de
reverter os efeitos do envelhecimento e a recuperação da beleza perdida — em
resumo, a busca por uma eternidade utópica. A primeira correlação possível é
com a comédia de humor macabro A Morte Lhe Cai Bem (1992), dirigida por
Robert Zemeckis e estrelada por Bruce Willis, Meryl Streep e Goldie Hawn (mãe
da atriz Kate Hudson). A outra obra de identificação imediata é o recente
terror corporal A Substância (2024), de Coralie Fargeat. Fica evidente,
portanto, a linhagem clara que alimenta o longa de Minghella. O ponto a
ressaltar — e lamentar — é que Segredo Obscuro fica preso em um limbo
difuso ao não se assumir plenamente como uma comédia ácida e farsesca, nem
incorporar, em sua totalidade, a vocação para abraçar o grotesco sem limites.

Tudo
o que Segredo Obscuro deseja refletir sobre a indústria da beleza já foi
tratado com mais complexidade em outros trabalhos no cinema. O objetivo do filme não está
aí, já que ele passa ao largo de uma discussão significativa sobre o tema. O
coração da obra reside, na verdade, na apropriação dessa temática para se
divertir com uma narrativa que inicia como drama, transforma-se em suspense e
finaliza como um autêntico body horror, jogando todas as suas fichas no
choque visual e no desconforto. A questão é que a imersão profunda no cinema camp
de terror, que visava a perturbar a audiência, acaba provocando o efeito
contrário, transformando o pavor em comédia involuntária.
_cleanup.jpg)
Na
maior parte do tempo, a direção demonstra indecisão sobre qual caminho seguir.
Com isso, o longa perde a coragem de mergulhar na escuridão e no drama
psicológico. Da forma como foi concebida, a obra entrega um resultado muito
aquém do potencial que a premissa sugeria e contenta-se com sua própria falta
de ambição. Segredo Obscuro parece ser aquele tipo de produção que hoje
olhamos com desconfiança e desapontamento, mas que no futuro poderá ser
redescoberto como uma pérola do cinema trash, daquelas que faziam as
delícias dos cinéfilos nos tempos das videolocadoras.
Assista ao trailer: Segredo Obscuro
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela