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terça-feira, 9 de junho de 2026

O Afinador: a arte do crime

 

O famoso ditado popular "a ocasião faz o ladrão" sugere que, diante de condições favoráveis ou de uma avaliação moralmente flexível, pessoas comuns, até então distantes do delito, podem sucumbir à tentação. É precisamente nessa zona cinzenta da moralidade que se move o protagonista do longa-metragem O Afinador (Tuner), dirigido por Daniel Roher, cineasta canadense vencedor do Oscar pelo documentário Navalny.

O personagem-título, Niki (Leo Woodall, visto recentemente em Nuremberg e integrante do elenco da série The White Lotus), é um talentoso afinador de pianos que trabalha junto com seu mentor e eventual cupido, Harry Horowitz (Dustin Hoffman, em participação luxuosa), atendendo à clientela de alto padrão em Nova York. Graças a uma condição especial de sua audição — o ouvido absoluto —, Niki acaba descobrindo por acaso que seu talento pode ser utilizado também para atividades menos nobres. Sua capacidade aguçada de percepção sonora permite que ele se dê bem desvendando o segredo de cofres apenas com sua sensibilidade tátil e auditiva. Esses talentos secretos despertam a atenção de uma gangue de assaltantes, que passa a utilizá-lo como uma “arma infalível” em seus roubos.

O protagonista justifica intimamente sua adesão ao crime como uma forma de ajudar Harry, debilitado por uma doença e sufocado por dívidas. Estamos, então, diante daquela clássica situação em que, pelas razões corretas, alguém faz a coisa errada. Niki se conforta moralmente por estar agindo de forma válida e bem-intencionada, ainda que eticamente condenável e criminosa. 

Além do dilema moral, Niki luta contra seus próprios fantasmas internos. Por conta de sua condição peculiar de saúde (a hiperacusia), que exige proteção constante contra os ruídos cotidianos, ele vive uma forma de exclusão social que o afasta do convívio mais íntimo. O protagonista habita, fundamentalmente, uma bolha sonora controlada, utilizando fones de ouvido para abafar o mundo exterior. Essa hipersensibilidade não apenas dificulta seus relacionamentos, mas também sabotou seu grande sonho de seguir carreira como pianista. A vida o empurrou para o papel de técnico de afinação, uma posição invisível em que auxilia outros a praticarem sua arte, em vez de ele próprio ser o artista a executar as composições. Por incentivo do tio, um interesse amoroso eventualmente surge em sua vida quando conhece a também pianista Ruthie (Havana Rose Liu) durante um atendimento em um conservatório.


O desenvolvimento da trama acompanha de perto a degradação moral, os conflitos e as pressões sociais e familiares que levam o habilidoso afinador ao limite. Incapaz de se realizar como artista, após ter a carreira frustrada por limitações que fugiam ao seu controle, Niki encontra nos caminhos tortuosos da criminalidade uma espécie de palco alternativo, onde seu talento finalmente é reconhecido e valorizado. 

O Afinador é o que se poderia chamar de “filme menor”. Não como um juízo de valor sobre suas qualidades, mas em referência às suas condições de produção. Trata-se daquele tipo de obra com baixa taxa de sobrevivência nas salas de shopping, mas que encontra facilmente seu público no streaming. Que não haja engano: este é um longa-metragem que merece atenção e visibilidade, revelando-se muito mais afinado e envolvente do que uma primeira impressão pode sugerir. À sua maneira, é um drama intimista feito à moda antiga, construído com coração, afeto e arte minimalista. Uma composição rara nos tempos atuais, que exigem das plateias adesão total a espetáculos hipertrofiados de som, luzes e ação vertiginosa. Em contraposição a esse excesso, o filme nos oferece a beleza serena de notas musicais bem afinadas.

Assista ao trailer: O Afinador


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela