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quarta-feira, 17 de junho de 2026

Toy Story 5: tempo de tela

Uma geração inteira nos separa do primeiro Toy Story. Há 31 anos era lançado o primeiro longa-metragem de animação totalmente gerado por computação gráfica. Um curioso paralelo se estabelece entre a ficção e a realidade quando percebemos que as crianças que assistiram à produção de 1995, assim como os personagens humanos da narrativa, envelheceram no decorrer do tempo, conforme se sucediam os demais filmes da série. E, assim como ocorreu na ficção, os velhos brinquedos seguem morando no coração, e nunca são abandonados em uma caixa no depósito. A franquia Toy Story é justamente isto: um brinquedo cinematográfico que guardamos no lado esquerdo do peito. Então, é natural que de vez em quando um sentimento de nostalgia se manifeste, e para esses momentos uma solução foi providenciada. Chega às telas dos cinemas um novo episódio da saga. Toy Story 5 é aquela continuação que ninguém pediu, mas, claro, todo mundo descobriu que queria. 

O reencontro com Woody, Buzz e companhia vem cheio de saudosismo com uma nova aventura que traz de volta a magia dos melhores momentos da série, em especial nos três primeiros filmes. O quarto filme, de 2019, se mostrou um tanto derivativo, sem avançar substancialmente na história dos brinquedos à beira de um ataque de nervos, sempre assombrados pelo fantasma do abandono. O anúncio deste quinto filme acendeu o alerta dos fãs. Por qual caminho seguiria este episódio? A resposta surge em um roteiro que resgata a essência da franquia ao equilibrar a atualidade das novas tecnologias com o carisma dos personagens clássicos. Ao abraçar a maturidade de sua própria trajetória, a produção evita o desgaste de fórmulas repetitivas e faz jus ao legado iniciado três décadas atrás.


O grande tema de Toy Story 5 é a chegada inevitável dos dispositivos tecnológicos no universo dos brinquedos analógicos. Neste aspecto, o arco narrativo da franquia repercute com exatidão o tempo atual. Ao lado de bonecos e jogos tradicionais, com pouca interatividade além da imaginação, toda uma geração nova de recursos eletrônicos passa a disputar a atenção integral das crianças. As telas digitais de tablets e celulares capturaram o olhar e atraíram os pequenos, que descobrem todo um mundo de possibilidades, mas, como efeito colateral, conduzem ao isolamento e afastam a infância do convívio coletivo. 

Essa desconexão social ganha contornos dramáticos no cotidiano da pequena Bonnie, a menina que herdou o antigo grupo de brinquedos de Andy. Diante da dificuldade da filha em interagir com outras crianças no mundo real, os pais decidem presenteá-la com o ‘Lilypad’, um tablet de última geração projetado especificamente para o público infantil. A sedução da tela é imediata, e o quarto, antes um espaço de narrativas lúdicas guiadas pela imaginação, transforma-se em um ambiente destituído de criatividade. É sob o comando da caubói Jessie, agora líder do grupo na ausência temporária de Woody, que os velhos companheiros de jornada percebem o tamanho do desafio. A dinâmica clássica da franquia, caracterizada por aventuras de resgate ou fuga de perigos externos, é profundamente ressignificada. A missão da turma passa a ser uma disputa existencial pela atenção e pelo afeto da própria dona, forçando os brinquedos analógicos a reivindicar novamente seu espaço de direito. O inimigo a ser vencido é a lógica fria do algoritmo digital, em um esforço para devolver à infância o valor daquilo que é palpável e compartilhado.

A crítica de Toy Story 5 ao uso massivo e precoce das telas digitais por crianças em fase de alfabetização tem um endereço certo: os pais. Afinal, a introdução do dispositivo muitas vezes mascara o desejo dos adultos por conveniência, transformando a tecnologia em uma espécie de babá eletrônica de luxo. Em vez de mediar o ócio ou incentivar o tédio criativo, essa inserção antecipada ao universo digital na verdade está afastando os pequenos do exercício coletivo da interação com seus amigos, fundamental para o desenvolvimento social. Nesse ponto, o filme adentra um terreno curiosamente ambíguo: ao criticar com severidade a dependência desses gadgets, a Disney assume uma postura quase autofágica. Afinal, a própria corporação é uma das grandes beneficiárias desse ecossistema digital, lucrando massivamente com o consumo de seus conteúdos em telas cada vez mais onipresentes na rotina de todos. A busca por uma solução conciliadora nessa convivência entre o analógico e o digital é, no entanto, o que atenua o peso da crítica no desfecho da trama, sugerindo que o equilíbrio — e não a exclusão — é o caminho possível.

Mas que o espectador não se engane pelo peso desta crítica que o filme propõe em seu enredo. Não devemos nunca perder de vista que se trata, acima de tudo, de uma animação, fundamentalmente dirigida às crianças, e é com elas que deve dialogar e entreter em prioridade. Neste aspecto, Toy Story 5 cumpre esta tarefa com gosto e criatividade. A fórmula infalível da dobradinha Disney/Pixar deu certo mais uma vez, e funciona com todo tipo de público: tanto com os fãs nostálgicos dos primeiros filmes quanto com as crianças que estão conhecendo agora esta série dos bonecos animados mais divertidos do cinema. A propósito, os efeitos da passagem do tempo não deixam de ser reconhecidos pela própria franquia. O roteiro assume um flerte bem-humorado com o etarismo quando Woody retorna para o terceiro ato. Em passagens que servem como um ótimo alívio cômico antes do clímax, os velhos companheiros não hesitam em "pegar no pé" do líder veterano, ironizando os inevitáveis sinais da idade e até um início de calvície no caubói de pano que sempre foi vaidoso. No fim das contas, Toy Story 5 prova que, mesmo com algumas linhas de expressão a mais, a franquia não perdeu um único fio do seu carisma original.

Assista ao trailer: Toy Story 5


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quarta-feira, 19 de junho de 2024

Divertida Mente 2: a dor do crescimento

 


A expressão “quer que desenhe” é utilizada usualmente naquela situação onde algo bastante óbvio, ou eventualmente de difícil compreensão, exige uma explicação rápida, prática e funcional. Uma imagem pode valer mil palavras, graças ao poder de síntese e de conceito que carrega em si. Esta premissa foi o pano de fundo sob a qual a animação Divertida Mente foi concebida e lançada com grande êxito em 2015. Como as emoções primárias agem como forças internas em nossas mentes para moldar comportamentos? A Pixar/Disney respondeu esta questão de maneira gráfica com muita criatividade. As emoções são “personagens” que habitam nossas mentes. E, se há personagem, há, portanto, trama, conflito, desafio, vitórias e derrotas. Enfim, há storytelling. Assim como a Vida se apresenta para todos nós. 

A garotinha Riley, de 11 anos, protagonista que conhecemos no primeiro filme, retorna na sequência Divertida Mente 2 (Inside out, 2024), aos 13 anos, na pré-adolescência. Desta vez nossos cinco amiguinhos do primeiro filme (Alegria, Medo, Raiva, Nojinho e Tristeza), que formavam o grupo das “emoções básicas” infantis, ganham a companhia de outros quatro amiguinhos um pouco mais complexos. Ansiedade, Inveja, Tédio e Vergonha entram em cena e bagunçam um pouco mais a cabecinha cheia de dúvidas e vacilos da pequena Riley, em plena puberdade. Ela está em um momento de crescimento pessoal e reconhecimento no grupo social, onde as amizades e o hóquei no gelo são prioridades – a família já fica em segundo plano.


Quando surge a oportunidade de jogar no time das garotas mais velhas (e descoladas), o conflito se instala: ficar com as amigas BBF da sua idade? Ou aventurar-se com as mais adultas e “esquecer” as relações afetivas do passado? Isto dá uma bugada na cabecinha da Riley. As emoções, sentimentos e convicções são colocadas à prova. Uma iminente (ou não) mudança de personalidade estaria se configurando? 

A sequência de Divertida Mente tinha um desafio pela frente. Como manter o interesse do público em uma narrativa sem o efeito surpresa e o conceito inovador apresentado no primeiro filme? A solução acertada foi concentrar ainda mais o olhar na evolução da personagem central, Riley, cujo arco narrativo da construção complexa de sua personalidade é apresentado de maneira didática, cativante e, no mais das vezes, muito divertida. Este resultado foi alcançado graças a um ótimo e bem resolvido roteiro, que dá conta do recado sem abrir mão do entretenimento.


Vale lembrar sempre que se trata de uma animação, cujo público primário é o infantil, que é muito bem atendido em todo os quesitos mercadológicos e sensoriais. Pois a qualidade de Divertida Mente 2 evidencia ainda mais uma constatação já revelada no primeiro filme: a produção da Pixar/Disney fala muito de perto também com os adultos. A animação consegue a façanha de conectar simultaneamente dois públicos muito distintos com a mesma mensagem, dadas suas camadas de interpretação e comunicação.


O processo de amadurecimento do corpo, da mente e da percepção do mundo onde vivemos é o tema central de Divertida Mente 2. Sob esta perspectiva o filme se apresenta claramente com uma mensagem de inclusão e diversidade. Isto se explicita pela inclusão de personagens étnicos e culturalmente diversos. No grupo das amiguinhas e colegas que gravitam em torno de Riley aparecem representantes afro, latina, muçulmana, entre outras. E o cuidado com a acessibilidade também não ficou de fora. Em dado momento surge no fundo de uma cena uma enorme escadaria adaptada com pista transversal para cadeirantes. A mensagem está lá, como subtexto, inconscientemente absorvida pelas mentes dos adultos e das crianças.


Assistir Divertida Mente 2 é um prazer para todos os públicos. A produção dirigia por Kelsey Mann (O Bom Dinossauro) consegue a proeza de transformar o universo abstrato dos sentimentos em algo real e palpável, mostrando como as emoções agem no cérebro. Pagamos ingresso para sentar na poltrona e assistir divertidamente uma animação e acabamos ganhando de bônus uma aula de psicologia e uma sessão de terapia. Com direito a risos e lágrimas furtivas. Divertida Mente 2 diverte, mas não mente. Há dor no processo de autoconhecimento. Como lidar com isso é a chave do crescimento. 

Conceitualmente mais ambicioso do que o primeiro filme, por explorar níveis mais profundos de complexidade, Divertida Mente 2 é exemplar por mexer em pontos sensíveis para tocar os corações com sensibilidade e emoção. 

Assista ao trailer: Divertida Mente 2


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul) 

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com