quinta-feira, 4 de maio de 2017

"Café Society": a paixão segundo Woody Allen


Tão certo quanto às quatro estações é a confirmação de um novo filme de Woody Allen todos os anos. Pelo menos tem sido assim desde 1982 quando lançou "Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão". São 34 anos de produção regular e ininterrupta. Então, estamos diante do Woody Allen safra 2016: Café Society. E, ficando ainda no campo das analogias, esta safra deve ser degustada com prazer e deleite que somente os bons vinhos podem proporcionar.

Depois de viajar por Londres, Barcelona, Paris e Roma com seus filmes, Woody Allen volta seu olhar carinhoso para uma de suas maiores paixões: a cidade de Nova Iorque. A outra paixão, o Jazz, também compõe a ambiência desta nova obra que se desenrola parcialmente no lado oposto do país, na Los Angeles dos anos 30, época de ouro do cinema de Hollywood, dos grandes estúdios, dos poderosos produtores, da ostentação e do star system que cultuava o glamour das grandes estrelas da tela. É neste cenário de sonhos e promessas que chega à cidade o protagonista Bobby (Jesse Eisenberg), um jovem judeu novaiorquino em busca de oportunidades. Acaba indo trabalhar com seu tio Phil (Steve Carrel), um poderoso agente de cinema. O choque cultural é imediato. Saído da dureza fria de uma Nova Iorque realista, Bobby se vê imerso no universo das futilidades de uma Los Angeles ilusória. A única ponte com o "mundo real" é a jovem secretária do tio, Vonnie (Kristen Stewart). O que inicialmente parecia ser apenas uma identificação de alma com o espírito independente daquela jovem imune ao mundo afetado de Hollywood, acaba se transformando em paixão. Bobby e Vonnie passam a se relacionar. Uma ilha de idílio em meio à frivolidade das relações pessoais daquela cidade ensolarada e existencialmente vazia.


"O sonho é um sonho"

Todo o primeiro ato de "Café Society" tem como cenário esta Los Angeles. Paixão, jazz, amores declarados, amores divididos, amores desfeitos. Escolhas e renúncias. Pano rápido. Estamos em Nova Iorque. Vida nova para os protagonistas. O sonho de L. A. dá lugar à realidade de N. Y. Separados por circunstâncias incontornáveis, Bobby e Vonnie seguem caminhos distintos, porém marcados pelo gosto amargo de impossibilidade de um sonho não realizado em sua plenitude.

Romântico e apaixonado (pela trama e pelos protagonistas) como poucas vezes em sua carreira, Woody Allen entrega um filme de fina sensibilidade, sem deixar de lado sua ironia crítica, sempre amparada por personagens cativantes e diálogos espirituosos. Reconhecido por sua excelência como criador de frases de efeitos e tramas bem montadas, Allen por vezes deixava a sensação de não desenvolver adequadamente seus personagens, ficando apenas na superfície da exposição de tipos meramente característicos. Pois, em Café Society o realizador se entregou totalmente e mergulhou fundo na verdade de seus protagonistas tornando-os críveis, capazes de conquistar a empatia da plateia. Ao opor L. A. e N. Y., sonho e realidade, e todas as contradições intrínsecas das paixões, Woody Allen entrega uma narrativa enxuta, coesa e cativante.

(Originalmente publicado no site DVD Magazine em setembro de 2016)

Jorge Ghiorzi

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