segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Empregada: nada é o que parece

 

Dirigido por Paul Feig e baseado no best-seller homônimo de Freida McFadden, A Empregada (The Housemaid) exemplifica perfeitamente o estilo característico da autora. McFadden constrói thrillers psicológicos centrados em protagonistas femininas complexas, narradoras em primeira pessoa que oscilam entre vítima indefesa, heroína vingativa e vilã manipuladora, muitas vezes ocupando essas posições simultaneamente na trama. Seu traço mais marcante é a exploração da ambiguidade moral extrema dessas mulheres, gerando tensão através de reviravoltas que desafiam a empatia do leitor (ou espectador). A autora gosta de deixar o público desconfortável com o quanto acaba torcendo por personagens moralmente questionáveis. Tanto o livro quanto sua adaptação cinematográfica capturam essa essência, tornando-se exemplos icônicos do subgênero.

A trama principal acompanha Millie Calloway (Sydney Sweeney), uma jovem com um passado turbulento e um histórico criminal que busca desesperadamente um recomeço. Ela aceita o emprego como empregada doméstica na luxuosa mansão da família Winchester, residência da instável Nina (Amanda Seyfried), seu atraente e compreensivo marido Andrew (Brandon Sklenar) e a pequena filha do casal. O que começa como uma oportunidade dos sonhos logo revela camadas de segredos sombrios, manipulações psicológicas e dinâmicas de poder perigosas. À medida que Millie se integra à rotina da casa, percebe que nada é o que parece. A fachada de família perfeita esconde tensões profundas, abusos velados e intenções dissimuladas.

Por grande parte da narrativa o filme nos conduz a um grande novelão carregado de clichês clássicos do thriller doméstico. A saber, estão lá a esposa aparentemente desequilibrada que sente perder a atenção do marido, a jovem e bela empregada que chega como intrusa sedutora e esconde um passado misterioso, e o marido charmoso que surge como o único ponto de equilíbrio aparente. Estabelece-se um triângulo amoroso onde cada vértice tem propósitos ocultos, dissimulados como mandam as regras do suspense psicológico. No entanto, o filme cumpre fielmente outra premissa básica do gênero: nada é o que parece na superfície. Há camadas e mais camadas a serem desvendadas, e a narrativa ganha cada vez mais caos e imprevisibilidade conforme avança.

As reviravoltas, especialmente no terceiro ato, são vertiginosas e superam as expectativas iniciais, entregando o tipo de choque que os fãs de McFadden adoram. O crescente suspense, no entanto, nem sempre convence. O roteiro, assinado por Rebecca Sonnenshine (em parceria com a própria Freida McFadden), parece apressado em certos momentos, acelerando o ritmo onde poderia se demorar nas sutilezas psicológicas que fazem o livro brilhar. A construção da tensão perde força pela pressa em chegar aos grandes plot twists, o que compromete um pouco a imersão. Além disso, nenhum dos personagens centrais conquista plenamente a empatia do público. Millie, Nina e Andrew são figuras por demais ambíguas, manipuladoras e falhas, o que gera uma distância emocional.

Como resultado, o espectador não torce necessariamente pelos personagens, mas pelo caos em si. Queremos ver o circo pegar fogo, as máscaras caírem e as dinâmicas explodirem em violência e revelações. Isso transforma o filme em um guilty pleasure (prazer culposo) eficiente, um entretenimento trash e exagerado que diverte pelo absurdo das reviravoltas e pelo compromisso das atuações, especialmente Seyfried, que entrega uma performance intensa e sem freios.

As forças e fraquezas do filme se ancoram em sua ambivalência. Ele é ao mesmo tempo selvagemente divertido, provocador e cheio de uma energia perversa, mas também profundamente superficial. Essa dualidade evoca um retorno consciente aos thrillers eróticos e exagerados dos anos 90. A adaptação abraça esse espírito sem pudor, mas quando tenta ser mais contida ou realista, tropeça. Ao se entregar ao exagero, ao camp e ao absurdo das reviravoltas, o filme mostra afinal a que veio e até distrai como entretenimento fugaz. Nada mais.

No fim, A Empregada funciona como uma adaptação que respeita o espírito provocador de McFadden, mas sofre com as limitações de uma transposição para o cinema que não consegue capturar todas as nuances internas do livro. Ainda assim, é um thriller que cumpre seu papel por prender a atenção, chocar na medida certa e deixar o espectador debatendo as moralidades de seus personagens. Para quem gosta de histórias que brincam com a linha entre vítima e vilão, sem oferecer respostas fáceis, o filme entrega um pacote satisfatório de tensão e entretenimento.

Assista ao trailer: A Empregada


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


domingo, 21 de dezembro de 2025

Melhores Filmes de 2025

 

Em um ano que testemunhou o cinema resistir às alterações do mercado e reinventar-se com coragem rara, coroado pelo histórico primeiro Oscar do cinema brasileiro com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, estes dez filmes destacam-se não apenas pela excelência técnica ou pelas performances inesquecíveis, mas pela forma como dialogam com o tempo em que vivemos. O recorte temático é amplo e diverso, percorrendo da ferida ainda aberta das ditaduras à solidão contemporânea, da celebração da cultura negra à denúncia silenciosa da opressão, do revisionismo sertanejo à poesia do luto elisabetano.

São obras que nos confrontam, consolam e, acima de tudo, nos lembram do poder único do cinema de transformar o pessoal em universal, o efêmero em eterno. E que orgulho ver o Brasil brilhar com força dupla nesta seleção, com dois títulos nacionais entre os melhores do ano.

Aqui está uma seleção eclética e apaixonada dos filmes que mais marcaram o ano. Não se trata de um ranking, mas uma lista em ordem aleatória de obras que, cada uma à sua maneira, expandiram os limites do cinema com ousadia, emoção e inteligência. De vampiros blues ao sertão goiano, de espionagem conjugal a luto shakespeariano, estes são os títulos que nos fizeram pensar, sentir e lembrar por que amamos as salas escuras.



1)        PECADORES (Sinners)

de Ryan Coogler

Uma fusão audaciosa de horror vampiresco, blues e comentário social, que transforma o filme de gênero em uma celebração vibrante da cultura negra, com performances duplas hipnóticas de Michael B. Jordan e uma trilha sonora que eleva a narrativa a um patamar épico e emocional.




2)        O AGENTE SECRETO

de Kleber Mendonça Filho

Thriller político neo-noir ambientado no ano de 1977, em plena ditadura militar brasileira, que explora memória, resistência e repressão com tensão palpável, visual elegante e uma performance premiada de Wagner Moura como um homem fugindo do passado em Recife.




3)        UMA BATALHA APÓS A OUTRA (One Battle After Another)

de Paul Thomas Anderson

Um thriller de ação visceral e oportuno sobre revolução, vingança e família, impulsionado pela interpretação magnética de Leonardo DiCaprio e uma edição precisa que captura o caos da história contemporânea com intensidade inesquecível.




4)        OESTE OUTRA VEZ

de Erico Rassi

Uma revisão poética e revisionista do western clássico, ambientada no sertão goiano, que destaca a fragilidade da masculinidade tóxica, os valores do orgulho destrutivo e uma narrativa contemplativa essencialmente masculina, reinventando o gênero com profundidade emocional, ironia afiada e uma perspectiva essencialmente brasileira.




5)        CÓDIGO PRETO (Black Bag)

de Steven Soderbergh

Thriller de espionagem cerebral e elegante, com Cate Blanchett e Michael Fassbender como um casal de agentes em crise de lealdade, brilhando pela tensão conjugal, diálogos afiados, reviravoltas inteligentes e uma abordagem sofisticada que prioriza intriga psicológica sobre ação explosiva.




6)        SONHOS DE TREM (Train Dreams)

de Clint Bentley

Um luminoso retrato da América rural e do trabalho árduo de operários e lenhadores, encenado com sensibilidade e delicadeza, que captura a beleza melancólica da vida comum através de cinematografia hipnotizante e uma performance comovente de Joel Edgerton, celebrando a dignidade dos invisíveis.




7)        FOI APENAS UM ACIDENTE (It Was Just an Accident)

de Jafar Panahi

Um drama iraniano poderoso que denuncia opressão com coragem feroz e humanidade profunda, destacando-se pela narrativa impactante, autenticidade crua e uma crítica social que transforma dor pessoal em resistência universal.




8)        MISERICÓRDIA (Miséricorde)

de Alain Guiraudie

Uma exploração sensível e ambígua do perdão, da redenção e da fragilidade humana, que brilha pela sutileza emocional, direções de atores impecáveis e temas de empatia que tocam a alma, oferecendo uma visão provocadora e esperançosa em meio ao sofrimento e aos segredos de uma pequena comunidade.




9)        FRANKENSTEIN

de Guillermo del Toro

Visão gótica e comovente que humaniza o monstro clássico com visuais exuberantes, performances arrebatadoras de Jacob Elordi e Oscar Isaac, e uma reflexão profunda sobre criação, solidão e beleza na imperfeição.




10)    HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET

de Chloé Zhao

Adaptação devastadora, que transforma luto familiar em arte transcendental, com atuações avassaladoras de Jessie Buckley e Paul Mescal, explorando amor, perda e o poder curativo da criação shakespeariana de forma emocionalmente avassaladora e visualmente poética.


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela