
Uma
ótima notícia. O bom e velho Steven Spielberg de guerra está de volta, em
excelente forma. Esse retorno também pode ser avaliado como uma retomada de
suas origens como cineasta. Cinco décadas depois do monumental Contatos
Imediatos do Terceiro Grau (que cresce a cada revisão), o diretor revisita
o tema da existência de vida extraterrestre. A bem da verdade, a presença
alienígena é um assunto recorrente na sua filmografia, surgido já em seus
primeiros curtas-metragens caseiros, como Firelight (1964), e que
prosseguiu em longas como E.T. – O Extraterrestre, A.I. –
Inteligência Artificial e Guerra dos Mundos, além de inúmeras outras
produções em que atuou apenas como produtor.
O lançamento de Dia D
(Disclosure Day) marca mais um capítulo dessa saga pessoal de Spielberg,
consolidando a exploração de um tema que fascina o realizador desde a
juventude. Mais do que uma simples escolha de gênero, a busca pelo desconhecido
e pelo cósmico se reflete na tela como um elemento central de sua própria identidade
artística. Se o episódio histórico do Dia D na Segunda Guerra Mundial já foi
retratado pelo diretor no clássico O Resgate do Soldado Ryan, momento em
que o curso da história foi alterado para sempre, agora, em termos ficcionais,
Spielberg projeta na tela um outro Dia D, articulando o potencial impacto de
transformação da humanidade pela revelação da existência de seres de outros
mundos que nos visitam desde sempre.

Houve
uma coincidência histórica (intencional ou não, vai saber) no fato de o
lançamento desse épico de ficção científica se dar justamente no momento em que
o governo dos EUA libera uma série de vídeos sigilosos que registram fenômenos
e supostas aparições de naves de origem desconhecida. Segredos revelados, a
propósito, formam a base sobre a qual se constitui esse Dia D, que, na
tradução literal do título, se refere ao dia da revelação.
Na
abertura, Spielberg já diz a que veio. O filme inicia acelerado e tenso,
mostrando uma operação da agência secreta do governo norte-americano, dirigida
por Noah Scalon (Colin Firth), responsável por acobertar evidências de vida
extraterrestre. O alvo da investida é o ex-funcionário Daniel Kellner (Josh
O’Connor), acusado de roubar registros sigilosos que comprovam que há décadas
somos visitados por seres de outros planetas. Em paralelo, o outro eixo
narrativo da história acompanha a apresentadora de TV Margaret Fairchild (Emily
Blunt, excelente), que, durante um boletim meteorológico ao vivo, começa a agir
estranhamente ao emitir sons guturais, os quais, logo descobrimos, pertencem à
linguagem dos alienígenas.
O
filme antecipa com habilidade um momento bastante crível em um futuro incerto:
aquele em que descobriremos que não estamos sós no universo. Sem dúvida, caso
isso se confirme, estaremos diante de um irreversível ponto de inflexão para a
humanidade, que será impactada por profundas transformações. Spielberg trata
deste assunto com a devida reverência sem, no entanto, perder o sentido de
espetáculo, transformando Dia D em uma obra grandiosa e ambiciosa, com
amplo espectro temático. Ao mesmo tempo que discute o acobertamento
governamental de assuntos delicados, o diretor reconhece que esses temas são
capazes de subverter a ordem pública, reordenar a geopolítica e ressignificar
as religiões.
Fábulas
infantis sempre foram inspirações seminais para Spielberg. Lembremos as
citações de Peter Pan em E.T. e Hook, e também a fada em A.I.
– Inteligência Artificial, apenas para citar algumas. Em Dia D
também há menção às histórias infantis. No caso, a referência é ‘João e
Maria’, que simbolicamente traz uma alegoria da dupla (no filme, Daniel e
Margaret) que se perde na floresta e descobre, com inteligência, o caminho de
volta para casa com um tesouro como recompensa. No longa, essa recompensa
atende pelo nome de Verdade.

Em
1938, Orson Welles colocou em pânico os ouvintes de rádio nos Estados Unidos ao
narrar uma suposta invasão da Terra por naves espaciais, inspirado na obra ‘A
Guerra dos Mundos’, de H. G. Wells. Uma experiência fantasiosa que chocou a
população da época. Em escala globalizada e potencializada, é isso que a ficção
de Dia D propõe. Com as facilidades que a tecnologia atual permite, ao
toque de um botão uma mesma informação pode ser transmitida simultaneamente
para todo o mundo. É justamente nessa dinâmica que reside um dos grandes
acertos do filme, apresentado como uma sequência final de alto impacto
emocional, magistralmente dirigida por Spielberg.
Como
thriller de conspiração, Dia D é uma experiência emocionante, que
apresenta uma ampla gama de temas e provoca diferentes sensações. Há mistério,
intriga, perseguição de carros, suspense, ficção científica e encantamento. O
longa traz a marca indelével dos melhores momentos do realizador ao entregar
para a audiência uma narrativa plena de otimismo, magia e esperança. Steven
Spielberg segue como um cineasta cheio de ideias, motivado pela imaginação e
pela curiosidade. Ainda é possível vislumbrar um jovem maravilhado com o cinema
habitando seu corpo de quase 80 anos. Tudo isso está presente em Dia D,
uma obra que resgata e consolida o talento de um realizador que reafirma seu
legado como ícone vivo do cinema moderno.
Assista ao trailer: Dia D
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
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