Hoje foi dia de sessão tripla reunindo
um drama mezzo francês e russo premiado no Festival de Cannes, um documentário
italiano sobre um dos maiores compositores de trilhas sonoras de todos os tempos e um
drama sérvio sobre jovens envolvidos em protestos políticos.
iMINOTAURO – Direção: Andrey Zvyagintsev
Depois de receber o Grande Prêmio do
Júri no Festival de Cannes 2026, Minotauro foi escolhido pela França
para disputar uma vaga entre os indicados ao Oscar 2027 de Melhor Filme
Internacional. O filme tem uma boa origem: é baseado no clássico A Mulher
Infiel (1969), de Claude Chabrol.
A premissa central é a mesma. Um homem
poderoso da elite descobre a infidelidade da esposa e entra em uma espiral de
obsessão, ciúme e violência. Mas a versão do cineasta russo radicado na França
é mais uma releitura do que uma refilmagem. Chabrol criticava a moral vazia da
burguesia rica francesa. Aqui, a história passa para a Rússia de hoje, em meio
à guerra com a Ucrânia. A mudança de lugar permite uma analogia política, ao
mostrar a decadência moral da oligarquia russa.
O protagonista, Gleb, é dono de uma
próspera empresa do setor de transportes. Ele sofre pressão do governo para
recrutar e alistar os próprios funcionários para lutarem no front da
guerra. Ao mesmo tempo, enfrenta uma crise no casamento ao receber a
confirmação de que a esposa, Galina, tem um amante. Diante dessas duas
pressões, sua vida confortável desmorona. A instabilidade que invade sua
intimidade se espalha também pelo ambiente público e corporativo. Em situação
limite, Gleb cede aos impulsos mais primitivos: a violência e o crime.
Minotauro é uma alegoria sobre mecanismos de
poder, corrupção política e autoridade moral. A violência do protagonista não é
apenas física, é sobretudo simbólica. Ele entra em um verdadeiro labirinto
ético e não tem para onde correr, a não ser seguir em frente em busca de uma
saída. Esse é o sentido do título, que remete à figura da mitologia grega. A
criatura devora quem entra no labirinto, mas é para sempre prisioneira dele. No
filme, o labirinto está tanto no ambiente doméstico e social quanto nos corredores
e gabinetes do poder.
O cinismo é uma marca forte do longa e se esconde atrás de uma narrativa que nunca perde a elegância e a sobriedade, mesmo ao tratar de assuntos tão sórdidos. Verdades inconvenientes são jogadas para debaixo do tapete, e as oligarquias seguem impunes. O longo plano final deixa poucas dúvidas. O voo da família feliz sobre um tapete de nuvens mostra que os poderosos estão lá em cima, inatingíveis, ainda que carreguem culpa por muito do que acontece abaixo das nuvens.
NINO: UM FILME SOBRE NINO ROTA – Direção: Walter Fasano
Nascido em uma família com muitos
músicos, o compositor italiano Nino Rota foi um talento precoce na música. Compor
para o cinema nunca foi sua escolha premeditada, nem sequer um desejo. Foi um
acaso de vida que acabou por definir sua carreira e colocar seu nome na
história. Desde o primeiro contato com a sétima arte, Rota compreendeu que a
música é parte integrante da narrativa. Essa perspectiva moldou todas as suas
obras para o cinema. Para ele, trilhas sonoras são música aplicada, feita com
um propósito bem definido, e por isso devem vir do coração, sem se submeter a
regras pré-estabelecidas ou a dogmas puristas. Por ser fiel a esse princípio, e
por ser popular e acessível, foi considerado por muito tempo um compositor
menor.
O documentário de Walter Fasano faz um
resgate da vida e da obra do compositor e reavalia seu legado. Coloca Rota no
panteão dos grandes nomes do cinema, ao lado, por exemplo, do conterrâneo italiano
Ennio Morricone. A trajetória é contada com fotografias, material de arquivo e
entrevistas, tanto de época quanto atuais. O roteiro investiga as dimensões
pessoais, artísticas e espirituais da vida do artista. Rota compôs mais de 150
obras para cinema, televisão e teatro. Foi parceiro e irmão de alma de Federico
Fellini, com quem desenvolveu uma forte amizade e uma lista de temas
inesquecíveis. Já perto do fim da vida, escreveu a magnífica trilha de O
Poderoso Chefão I e O Poderoso Chefão II, que lhe rendeu um Oscar e
pela qual será sempre reverenciado. Ele morreu em 1979.
Há uma curiosidade pouco destacada neste documentário: a narração é feita pelo músico britânico Sting, ex-líder da banda The Police. A ligação dele com a Itália é antiga. Sting tem uma propriedade na Toscana e é grande amigo de Fasano. Por não ser um narrador profissional, ele acrescenta ao relato uma camada extra de humanidade e sensibilidade musical. Em termos técnicos e formais, Nino: Um Filme Sobre Nino Rota é um documentário bastante acadêmico e convencional. Seu grande brilho vem da grandeza do artista retratado, que é superior às qualidades objetivas do filme. Ainda assim, é uma boa porta de entrada para conhecer, ou reconhecer, um compositor que merecia esse resgate.
ATÉ QUE O DIA TERMINE – Direção: Jelena Maksimovic
Este
drama sérvio traz uma representação da revolta da juventude em tempos de
polarização política, com um elenco jovem formado principalmente por atores não
profissionais. A história se passa durante os protestos anticorrupção na
Sérvia, em 2024 e 2025. A protagonista é Lena, de 20 anos, envolvida no
ativismo antigovernamental. O que torna o filme interessante é que ela e o
outro jovem protagonista procuram seu lugar no mundo estando em lados opostos
de seus grupos, e ainda assim não se excluem. Encontram, juntos, uma forma
pragmática de sobreviver. No fundo, é um filme sobre amor, amizade, empatia e a
possibilidade de superar diferenças políticas.
A narrativa é hiper-realista e
despojada, no limite do documental. Em certos momentos, dialoga com o chamado
"slow cinema", ao desacelerar a ação e deixar correr apenas o tempo.
A imagem acompanha essa proposta. As cenas são, em geral, escuras, com sombras
ameaçadoras por todos os lados e reflexos frequentes que a lente insiste em não
corrigir. Isso reforça a experiência realista que a diretora pretende. Somos
tentados a imaginar que essa liberdade de registro cru só foi possível com
câmeras de celular, mas é apenas uma impressão, que carece de confirmação.
Apesar das boas intenções e da ousadia
estética, o filme não parece ter uma visão clara sobre o que quer ser. Muitos
aspectos narrativos soam desconexos e gratuitos, o que compromete o
desenvolvimento e a profundidade dos personagens, essenciais para dar propósito
à história. A sensação é de que as partes foram montadas na pós-produção sem
uma organização adequada. Essa desconexão se estende a quase tudo, com exceção
das atuações espontâneas, que sustentam o drama, particularmente no terceiro
ato, quando a história se concentra nos dois protagonistas.
Jorge Ghiorzi


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