domingo, 18 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 4

Hoje foi dia de sessão tripla reunindo um drama mezzo francês e russo premiado no Festival de Cannes, um documentário italiano sobre um dos maiores compositores de trilhas sonoras de todos os tempos e um drama sérvio sobre jovens envolvidos em protestos políticos.

i

​MINOTAURO – Direção: Andrey Zvyagintsev

Depois de receber o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2026, Minotauro foi escolhido pela França para disputar uma vaga entre os indicados ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional. O filme tem uma boa origem: é baseado no clássico A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol.

A premissa central é a mesma. Um homem poderoso da elite descobre a infidelidade da esposa e entra em uma espiral de obsessão, ciúme e violência. Mas a versão do cineasta russo radicado na França é mais uma releitura do que uma refilmagem. Chabrol criticava a moral vazia da burguesia rica francesa. Aqui, a história passa para a Rússia de hoje, em meio à guerra com a Ucrânia. A mudança de lugar permite uma analogia política, ao mostrar a decadência moral da oligarquia russa.

O protagonista, Gleb, é dono de uma próspera empresa do setor de transportes. Ele sofre pressão do governo para recrutar e alistar os próprios funcionários para lutarem no front da guerra. Ao mesmo tempo, enfrenta uma crise no casamento ao receber a confirmação de que a esposa, Galina, tem um amante. Diante dessas duas pressões, sua vida confortável desmorona. A instabilidade que invade sua intimidade se espalha também pelo ambiente público e corporativo. Em situação limite, Gleb cede aos impulsos mais primitivos: a violência e o crime.

Minotauro é uma alegoria sobre mecanismos de poder, corrupção política e autoridade moral. A violência do protagonista não é apenas física, é sobretudo simbólica. Ele entra em um verdadeiro labirinto ético e não tem para onde correr, a não ser seguir em frente em busca de uma saída. Esse é o sentido do título, que remete à figura da mitologia grega. A criatura devora quem entra no labirinto, mas é para sempre prisioneira dele. No filme, o labirinto está tanto no ambiente doméstico e social quanto nos corredores e gabinetes do poder.

O cinismo é uma marca forte do longa e se esconde atrás de uma narrativa que nunca perde a elegância e a sobriedade, mesmo ao tratar de assuntos tão sórdidos. Verdades inconvenientes são jogadas para debaixo do tapete, e as oligarquias seguem impunes. O longo plano final deixa poucas dúvidas. O voo da família feliz sobre um tapete de nuvens mostra que os poderosos estão lá em cima, inatingíveis, ainda que carreguem culpa por muito do que acontece abaixo das nuvens. 


​NINO: UM FILME SOBRE NINO ROTA – Direção: Walter Fasano

Nascido em uma família com muitos músicos, o compositor italiano Nino Rota foi um talento precoce na música. Compor para o cinema nunca foi sua escolha premeditada, nem sequer um desejo. Foi um acaso de vida que acabou por definir sua carreira e colocar seu nome na história. Desde o primeiro contato com a sétima arte, Rota compreendeu que a música é parte integrante da narrativa. Essa perspectiva moldou todas as suas obras para o cinema. Para ele, trilhas sonoras são música aplicada, feita com um propósito bem definido, e por isso devem vir do coração, sem se submeter a regras pré-estabelecidas ou a dogmas puristas. Por ser fiel a esse princípio, e por ser popular e acessível, foi considerado por muito tempo um compositor menor.

O documentário de Walter Fasano faz um resgate da vida e da obra do compositor e reavalia seu legado. Coloca Rota no panteão dos grandes nomes do cinema, ao lado, por exemplo, do conterrâneo italiano Ennio Morricone. A trajetória é contada com fotografias, material de arquivo e entrevistas, tanto de época quanto atuais. O roteiro investiga as dimensões pessoais, artísticas e espirituais da vida do artista. Rota compôs mais de 150 obras para cinema, televisão e teatro. Foi parceiro e irmão de alma de Federico Fellini, com quem desenvolveu uma forte amizade e uma lista de temas inesquecíveis. Já perto do fim da vida, escreveu a magnífica trilha de O Poderoso Chefão I e O Poderoso Chefão II, que lhe rendeu um Oscar e pela qual será sempre reverenciado. Ele morreu em 1979.

Há uma curiosidade pouco destacada neste documentário: a narração é feita pelo músico britânico Sting, ex-líder da banda The Police. A ligação dele com a Itália é antiga. Sting tem uma propriedade na Toscana e é grande amigo de Fasano. Por não ser um narrador profissional, ele acrescenta ao relato uma camada extra de humanidade e sensibilidade musical. Em termos técnicos e formais, Nino: Um Filme Sobre Nino Rota é um documentário bastante acadêmico e convencional. Seu grande brilho vem da grandeza do artista retratado, que é superior às qualidades objetivas do filme. Ainda assim, é uma boa porta de entrada para conhecer, ou reconhecer, um compositor que merecia esse resgate.


​ATÉ QUE O DIA TERMINE – Direção: Jelena Maksimovic

​Este drama sérvio traz uma representação da revolta da juventude em tempos de polarização política, com um elenco jovem formado principalmente por atores não profissionais. A história se passa durante os protestos anticorrupção na Sérvia, em 2024 e 2025. A protagonista é Lena, de 20 anos, envolvida no ativismo antigovernamental. O que torna o filme interessante é que ela e o outro jovem protagonista procuram seu lugar no mundo estando em lados opostos de seus grupos, e ainda assim não se excluem. Encontram, juntos, uma forma pragmática de sobreviver. No fundo, é um filme sobre amor, amizade, empatia e a possibilidade de superar diferenças políticas.

A narrativa é hiper-realista e despojada, no limite do documental. Em certos momentos, dialoga com o chamado "slow cinema", ao desacelerar a ação e deixar correr apenas o tempo. A imagem acompanha essa proposta. As cenas são, em geral, escuras, com sombras ameaçadoras por todos os lados e reflexos frequentes que a lente insiste em não corrigir. Isso reforça a experiência realista que a diretora pretende. Somos tentados a imaginar que essa liberdade de registro cru só foi possível com câmeras de celular, mas é apenas uma impressão, que carece de confirmação.

Apesar das boas intenções e da ousadia estética, o filme não parece ter uma visão clara sobre o que quer ser. Muitos aspectos narrativos soam desconexos e gratuitos, o que compromete o desenvolvimento e a profundidade dos personagens, essenciais para dar propósito à história. A sensação é de que as partes foram montadas na pós-produção sem uma organização adequada. Essa desconexão se estende a quase tudo, com exceção das atuações espontâneas, que sustentam o drama, particularmente no terceiro ato, quando a história se concentra nos dois protagonistas.

Jorge Ghiorzi

Nenhum comentário:

Postar um comentário