sábado, 17 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 3

O dia foi de documentários. Não, essa foi uma meia verdade. Sim, um dos títulos está perfeitamente enquadrado no gênero. O outro, porém, só por licença poética pode ser definido como documentário, pois se encaixa no que o podemos chamar de “docuficção”, que se apropria da liberdade da ficção, mas trabalha com a linguagem do registro factual.

 


​CRONOVISOR – Direção: Jack Auen e Kevin Walker

​Um mistério fascinante, um objeto bizarro, uma investigação. Esses são os ingredientes de Cronovisor, filme de baixo orçamento e poucos recursos materiais, mas realizado com extrema criatividade.

O ponto de partida é um boato com ares de conspiração e lenda urbana, do tipo que seduz quem gosta de mistérios e de histórias que circulam pelo submundo. O tal “cronovisor” seria um aparelho revolucionário, capaz de recuperar imagens do passado. A ideia é que tudo o que acontece deixa vestígios de vibração que continuam vagando pelo espaço, e a máquina conseguiria captar esses vestígios e transformá-los em imagem, como se fosse uma televisão que sintoniza o passado. O equipamento  seria capaz de “visualizar”, por exemplo, a Crucifixão de Cristo. O filme acompanha a investigação de uma pesquisadora dedicada em torno da existência desse mítico equipamento e das pessoas que teriam estado envolvidas com a sua criação.

Para contar isso o filme manipula o formato do “falso documentário” e apresenta uma verdade possível. A trama é, no fundo, uma grande farsa, mas elaborada com um verniz de erudição que dá aquele gostinho confortável de verossimilhança. O espectador sabe, em algum canto da cabeça, que está sendo conduzido, e mesmo assim quer acreditar.

Boa parte dessa eficácia vem do fato de Cronovisor ser um filme mais contado do que encenado. Textos, referências bibliográficas e registros de toda natureza aparecem o tempo todo na tela e sustentam a narrativa. Um mistério baseado em pesquisa e narrado principalmente por meio de texto poderia ser árido, mas o filme é quase sempre empolgante. É admirável o quanto ele entrega com tão poucos recursos cênicos, de trama e de dramaturgia. A tensão é constante e o poder de sugestão faz o trabalho que o dinheiro não fez.

A trilha sonora ajuda muito nisso. Imponente e impactante, soa como algo à la Bernard Herrmann, o que nos leva a Alfred Hitchcock, citado várias vezes ao longo do filme, que por sua vez nos traz até Brian De Palma. Cronovisor bebe muito na fonte desses dois mestres do suspense e assume a inspiração sem cerimônia.

Este é um filme de produção modesta, consciente do seu alcance de nicho, que sabe exatamente o que quer fazer e o faz com muita criatividade. Uma pequena joia a ser descoberta.



YO (O AMOR É UM PÁSSARO REBELDE) – Direção: Anna Fitch e Banker White

​Yolanda "Yo" Shea foi uma imigrante suíça de espírito livre, nascida na década de 1920. A realizadora Anna Fitch, junto com o marido Banker White, manteve com ela uma amizade muito próxima até a morte de Yo. O documentário nasce dessa relação e registra o fim da vida de uma pessoa anônima, mas de personalidade exuberante. Um espírito livre, que passou a vida toda tentando encontrar seu verdadeiro lugar no mundo.

O filme é marcado pela dor da perda, mas ainda assim transborda alegria e sorri para a vida humana. Yo conta sua história sem censura, sem vaidade e sem ego, apenas com sinceridade à flor da pele. A forma de organização do documentário ajuda a criar essa proximidade. Ele é montado como uma colagem artística, com episódios marcantes da vida de Yo dividindo espaço com lembranças pequenas, quase banais. Esse equilíbrio dá riqueza ao relato e gera empatia imediata no espectador.

Um dos recursos mais fortes é a miniatura da casa de Yo, construída pelos realizadores, com a amiga reproduzida em versão de boneca de marionete. É uma maneira radical de guardar a memória de alguém e de amenizar a dor da perda. Funciona como um memorial de tributo. Também chama a atenção o tempo de trabalho. A realização foi lenta e meticulosa, quase artesanal, e o filme só ficou pronto cerca de dez anos depois da morte da protagonista.

Por ser tão pessoal para o casal de realizadores, movido pelo luto, o filme parece ter sido terapêutico para os dois e revelador para o público. Yo (O Amor é um Pássaro Rebelde) reflete sobre as maneiras possíveis de manter alguém vivo através da memória. A proposta é ambiciosa, mas o filme a sustenta com sensibilidade, sinceridade e uma emoção contida.

Jorge Ghiorzi

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