O dia foi de documentários. Não, essa foi uma meia verdade. Sim, um dos títulos está perfeitamente enquadrado no gênero. O outro, porém, só por licença poética pode ser definido como documentário, pois se encaixa no que o podemos chamar de “docuficção”, que se apropria da liberdade da ficção, mas trabalha com a linguagem do registro factual.
CRONOVISOR – Direção: Jack Auen e Kevin Walker
Um
mistério fascinante, um objeto bizarro, uma investigação. Esses são os
ingredientes de Cronovisor, filme de baixo orçamento e poucos recursos
materiais, mas realizado com extrema criatividade.
O ponto de partida é um boato com ares
de conspiração e lenda urbana, do tipo que seduz quem gosta de mistérios e de
histórias que circulam pelo submundo. O tal “cronovisor” seria um aparelho
revolucionário, capaz de recuperar imagens do passado. A ideia é que tudo o que
acontece deixa vestígios de vibração que continuam vagando pelo espaço, e a
máquina conseguiria captar esses vestígios e transformá-los em imagem, como se
fosse uma televisão que sintoniza o passado. O equipamento seria capaz de “visualizar”, por exemplo, a
Crucifixão de Cristo. O filme acompanha a investigação de uma pesquisadora dedicada
em torno da existência desse mítico equipamento e das pessoas que teriam estado
envolvidas com a sua criação.
Para contar isso o filme manipula o
formato do “falso documentário” e apresenta uma verdade possível. A trama é, no
fundo, uma grande farsa, mas elaborada com um verniz de erudição que dá aquele
gostinho confortável de verossimilhança. O espectador sabe, em algum canto da
cabeça, que está sendo conduzido, e mesmo assim quer acreditar.
Boa parte dessa eficácia vem do fato
de Cronovisor ser um filme mais contado do que encenado. Textos,
referências bibliográficas e registros de toda natureza aparecem o tempo todo
na tela e sustentam a narrativa. Um mistério baseado em pesquisa e narrado
principalmente por meio de texto poderia ser árido, mas o filme é quase sempre
empolgante. É admirável o quanto ele entrega com tão poucos recursos cênicos,
de trama e de dramaturgia. A tensão é constante e o poder de sugestão faz o
trabalho que o dinheiro não fez.
A trilha sonora ajuda muito nisso.
Imponente e impactante, soa como algo à la Bernard Herrmann, o que nos leva a
Alfred Hitchcock, citado várias vezes ao longo do filme, que por sua vez nos
traz até Brian De Palma. Cronovisor bebe muito na fonte desses dois
mestres do suspense e assume a inspiração sem cerimônia.
Este é um filme de produção modesta,
consciente do seu alcance de nicho, que sabe exatamente o que quer fazer e o
faz com muita criatividade. Uma pequena joia a ser descoberta.
YO (O AMOR É UM PÁSSARO REBELDE) – Direção: Anna Fitch e Banker White
Yolanda
"Yo" Shea foi uma imigrante suíça de espírito livre, nascida na
década de 1920. A realizadora Anna Fitch, junto com o marido Banker White,
manteve com ela uma amizade muito próxima até a morte de Yo. O documentário
nasce dessa relação e registra o fim da vida de uma pessoa anônima, mas de personalidade
exuberante. Um espírito livre, que passou a vida toda tentando encontrar seu verdadeiro
lugar no mundo.
O filme é marcado pela dor da perda,
mas ainda assim transborda alegria e sorri para a vida humana. Yo conta
sua história sem censura, sem vaidade e sem ego, apenas com sinceridade à flor
da pele. A forma de organização do documentário ajuda a criar essa proximidade.
Ele é montado como uma colagem artística, com episódios marcantes da vida de Yo
dividindo espaço com lembranças pequenas, quase banais. Esse equilíbrio dá
riqueza ao relato e gera empatia imediata no espectador.
Um dos recursos mais fortes é a
miniatura da casa de Yo, construída pelos realizadores, com a amiga reproduzida
em versão de boneca de marionete. É uma maneira radical de guardar a memória de
alguém e de amenizar a dor da perda. Funciona como um memorial de tributo. Também
chama a atenção o tempo de trabalho. A realização foi lenta e meticulosa, quase
artesanal, e o filme só ficou pronto cerca de dez anos depois da morte da
protagonista.
Por ser tão pessoal para o casal de
realizadores, movido pelo luto, o filme parece ter sido terapêutico para os
dois e revelador para o público. Yo (O Amor é um Pássaro Rebelde)
reflete sobre as maneiras possíveis de manter alguém vivo através da memória. A
proposta é ambiciosa, mas o filme a sustenta com sensibilidade, sinceridade e
uma emoção contida.
Jorge Ghiorzi


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