Uma sessão dupla com muita História para contar. O mesmo cinema que viajou um século para o passado para emocionar, é aquele que recua meio século para lembrar.
AURORA
– Direção: F. W. Murnau
Produção vi. Uma sessão de cinema muito especial
nos transportou para o passado. Retornamos um século, quando as películas de
celulóide eram projetadas em enormes telas brancas. Sem som, mas nunca
silenciosas, pois a música de acompanhamento era executada ao vivo para pontuar
a ação na tela. Esta foi a experiência reproduzida nesta exibição especial, que
celebrou a magia do cinema em seu esplendor com uma das maiores obras-primas da
história.
A cópia restaurada em 4K de Aurora
(1927), dirigido pelo alemão F. W. Murnau, foi exibida com a apresentação ao
vivo de uma nova trilha sonora composta por Timothy Brock e executada pela
Orquestra Jazz Sinfônica.
Aurora (Sunrise) é a primeira
produção hollywoodiana de Murnau, diretor de outra obra-prima do cinema
mundial, Nosferatu (1922). A história é simples: uma mulher da cidade
grande (Margaret Livingston) vai passar férias no interior, onde conhece um
fazendeiro (George O’Brien). Ela tenta convencê-lo a matar sua esposa (Janet
Gaynor) para que possam viver juntos. O cineasta usa habilmente a emoção e o
talento dos atores para tratar de culpa e perdão.
Murnau ganhou um orçamento generoso de
William Fox, fundador da Fox Film Corporation, para realizar um filme de
prestígio para o estúdio, que era mais conhecido por produções populares. Aurora
não foi um sucesso de bilheteria, mas entrou para a história do cinema devido
às suas qualidades artísticas, ao uso da emoção e às inovações técnicas. O
longa avançou a linguagem cinematográfica e influenciou diretores como John
Ford, Howard Hawks e Raoul Walsh, mudando a cara de Hollywood para sempre. Na
primeira cerimônia do Oscar, em 1929, levou três estatuetas: melhor direção de
fotografia (Charles Rosher e Karl Struss), melhor atriz (Janet Gaynor) e o
prêmio de melhor produção artística e única, uma categoria especial que nunca
mais foi repetida pela Academia.
Em seu lançamento nos Estados Unidos, Aurora
foi exibido em duas versões: a muda, com formato 4:3, e a sonorizada pelo
processo Movietone, com proporção 1.19:1 e trilha e efeitos de som
sincronizados, mas sem diálogos. O filme foi um dos últimos da era muda e um
dos primeiros da era sonora, sendo lançado quase simultaneamente a O Cantor
de Jazz, da Warner, que entrou para a história como o primeiro longa com
diálogos sincronizados, transformando o cinema mundial.
Em 1937, o negativo original de Aurora
foi destruído em um incêndio na Fox. O filme só sobreviveu graças a cópias
armazenadas em vários lugares do mundo. Para a cuidadosa restauração em 4K, a
San Francisco Film Preserve liderou o projeto em conjunto com outras
instituições de peso, como o BFI National Archive, o The Museum of Modern Art,
a Cinémathèque Royale de Belgique e o George Eastman Museum.
Assistir a essa joia restaurada nos lembra que a força do cinema mudo permanece atemporal, provando que as imagens em movimento continuam pulsando com a mesma intensidade de um século atrás.
RETORNO À BUENOS AIRES – Direção: Marco Bechis
Ambientada nos dias atuais e pontuado
por frequentes flashbacks, esta coprodução da Argentina, Brasil e Itália
acompanha a trajetória de um médico italiano envolvido na resistência argentina
durante a década de 1970. Ele retorna a Buenos Aires a contragosto para depor
sobre o período em que passou preso e torturado pelo regime militar. O
protagonista, Mariano, é um homem psicologicamente devastado, profundamente
atormentado pela culpa do sobrevivente e pelas cicatrizes físicas e emocionais
que carregou por toda a vida.
A narrativa se desenrola em uma alternância constante entre passado e presente, acompanhando as revelações do julgamento e o estado cada vez mais tenso do ex-prisioneiro. Para quem acompanha o cinema do diretor Marco Bechis, a obra funciona, na prática, como uma continuação de seu clássico Garage Olimpo, lançado em 1999, retomando o horror daquele centro clandestino de detenção que funcionava em uma antiga garagem da capital argentina. Há, ainda, uma forte marca biográfica na condução da história, considerando que o próprio cineasta foi sequestrado e preso em 1977 na Argentina, antes de ser exilado na Itália.
Um detalhe curioso de interesse para o público porto-alegrense é que parte das gravações foi realizada na capital gaúcha. Além de vantagens logísticas e de custos para a coprodução, a semelhança arquitetônica e urbanística de Porto Alegre serviu estrategicamente como cenário para representar Buenos Aires.
Apesar de lidar com um tema tão pesado e de o diretor ser uma testemunha real dos fatos retratados, a condução de Marco Bechis é particularmente sóbria e contida. O filme tenta lidar com o trauma e a culpa da sobrevivência evitando julgamentos simplistas, preferindo expor os fatos sem apontar dedos ou recorrer a excessos dramáticos. No entanto, essa contenção gera um efeito curioso no desfecho. Quando a trama finalmente se transforma em um filme de tribunal, parece faltar o grande momento de catarse para Mariano, mesmo após a libertação trazida pelo ato de revelar publicamente todo o horror sofrido. Mesmo com estas ressalvas, a urgência temática e política garante a relevância da produção, lembrando que olhar para esse período doloroso da história da América Latina continua sendo um exercício essencial.
Jorge Ghiorzi


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