Três vezes mulher. Uma mulher vivendo a culpa pelo passado nazista, uma mulher compartilhando o mesmo sonho da filha e uma mulher vampira milenar circulando por Viena.
MULHER DESCONHECIDA – Direção: May el-Toukhy
Dirigido
por uma cineasta dinamarquesa de ascendência egípcia (conhecida por seu
trabalho na série The Crown), este drama histórico conquistou o Leão de
Ouro de Melhor Filme e o prêmio Coppa Volpi de Melhor Atriz no Festival de Veneza
de 2026. A obra mergulha em um período delicado da história europeia sob uma
perspectiva humana, crua e incômoda.
Na Dinamarca do pós-Segunda
Guerra Mundial, a empregada doméstica Marie (Mathilde Arcel) trabalha na
residência de um rico empresário viúvo. Após envolver-se romanticamente com o
patrão, ela está prestes a se casar com ele, vislumbrando a chance perfeita de
ascensão social e de deixar uma vida de dificuldades para trás. No entanto,
seus planos desabam quando segredos de seu passado nazista ameaçam vir à tona.
Atormentada pelo medo da revelação, Marie desenvolve um forte sentimento
materno em relação à filha do empresário, tentando de alguma forma ocupar o
lugar da esposa falecida, ao mesmo tempo em que mergulha em uma perigosa
espiral de mentiras e atos desesperados para esconder sua verdadeira
identidade.
Conforme o cerco social e
psicológico se fecha, a busca de Marie pela sobrevivência a conduz por um
caminho sem volta de medidas extremas. O roteiro aproveita essa trajetória para
abordar temas pesados, como a violência contra o corpo feminino, a vergonha e o
trauma. O longa evidencia o cruel duplo julgamento sofrido por algumas mulheres
daquele período: elas foram duplamente condenadas, primeiro ao serem submetidas
a relações sexuais não consentidas durante a ocupação e, em seguida,
estigmatizadas, punidas publicamente e encarceradas quando esses envolvimentos
vem à tona.
Para traduzir visualmente esse
conflito, a diretora aposta em um simbolismo bastante ostensivo. O vermelho da
suástica pintada na fachada do prédio da família se conecta diretamente ao tom
vermelho do vestido de Marie no momento máximo de sua celebração, a consagração
de sua inserção na elite de Copenhague. Mais do que um mero recurso estético, a
cor funciona como um elemento vivo da jornada psicológica da protagonista,
representando o passado implacável do qual ela jamais consegue se libertar de
verdade.
Assim, May el-Toukhy sintetiza
na figura de Marie a complexa narrativa da colaboracionismo sob o regime
nazista, retratando como esta cicatriz moral marcou a vida de centenas de
mulheres na Europa do pós-guerra. A grande questão que o filme levanta reside
justamente na ambiguidade moral da sobrevivência. A noiva vestida de branco foi
perdoada ou apenas submetida às regras do jogo? O final conciliatório serve
como um espelho revelador das aparências de uma classe dominante que sempre
permanece protegida e no poder, independentemente de quem vença os conflitos da
história.
TALISMÃ – Direção: Thais Fujinaga
Premiado
como Melhor Direção no Festival do Rio 2026, Talismã surge como um
sensível e delicado retrato das pressões do mundo moderno, particularmente
junto às crianças. Dirigido por Thais Fujinaga e com roteiro assinado pela
própria diretora em parceria com a atriz Fernanda Chicolet, o longa aborda a
influência da mídia e os efeitos da exposição pública no universo infantil.
A trama acompanha Tereza
(Fernanda Chicolet), uma mãe solo que vive no Rio Grande do Sul e se divide
entre dar aulas de dança e cuidar da filha, Pina (Sophia Fuggacy). A rotina da
família, que conta apenas com a ajuda do avô (Stepan Nercessian), ganha novos
contornos quando a menina entra em um reality show de talentos mirins.
Disposta a viajar para disputar a grande final no Rio de Janeiro, Pina é
seduzida por uma engrenagem que expõe diretamente a adultização precoce, um
fenômeno em que crianças são estimuladas a adotar comportamentos adultos em
busca de engajamento nas redes sociais e de apelo de audiência.
O roteiro observa como o
estilo de vida contemporâneo impõe a lógica de que apenas a existência validada
e admirada nas telas merece ser vivida, o que se torna particularmente danoso
para a formação das crianças. Ao mesmo tempo, o filme escancara os mecanismos
de manipulação e exposição que sustentam os programas de auditório e espetáculos
televisivos.
Apesar de lidar com uma
questão social espinhosa na educação infantil, a temática é tratada em Talismã
com uma apropriada singeleza. Os conflitos não carregam o peso dramático que o
tema poderia sugerir, pois a proposta da diretora Thais Fujinaga não é sufocar
o espectador com tragédias sociais. O objetivo é suavizar a discussão, usando-a
como o motor da história sem transformar o filme em um fardo pesado, garantindo
que ele consiga dialogar de forma leve com o público.
Grande parte dessa leveza e
força narrativa vem de sua jovem estrela. A garota Sophia Fuggacy, intérprete
de Pina, é uma verdadeira explosão de talento e espontaneidade. Ela carrega com
muita graça um papel bastante exigente para a sua idade, e os melhores momentos
da história acontecem justamente quando ela divide a cena com Fernanda
Chicolet, cuja química em tela sustenta o coração emocional da obra.
Ao
equilibrar crítica social, afeto familiar e a lucidez de olhar para o universo
infantil sem julgamentos fáceis, Talismã mostra-se divertido, sensível e
cumpre sua função como bom entretenimento.
A CONDESSA SANGRENTA – Direção: Ulrike Ottinger
Um delirante filme de vampiros
que acompanha a fictícia célebre nobre húngara e assassina em série Erzsébet
Báthory. Na história, após um longo período nas sombras, a implacável condessa
(Isabelle Huppert) retorna à Viena moderna ao lado de sua devotada criada e de
seu sobrinho, um vampiro vegetariano. O objetivo do grupo é recuperar um livro
perigoso que ameaça todo o reino das criaturas da noite. Enquanto deixam um
rastro de caos e excentricidades pela cidade, passando por terapeutas,
vampirologistas e autoridades policiais que estão à sua caça, o longa mergulha
em uma atmosfera de fantasia e humor ácido e debochado.
O tema do vampirismo já
recebeu centenas de abordagens ao longo da história do cinema, mas poucas delas
assumem um tom tão abertamente queer quanto esta. O filme funciona como
uma comédia excêntrica e peculiar, embora nunca se complete totalmente como
humor tradicional. O tom da narrativa é bastante vacilante, girando entre a
piada mais óbvia e a sátira erudita, sem conseguir arrancar gargalhadas
genuínas do público. Há uma sensação constante de que a proposta soa muito mais
divertida na teoria do que na prática.
Apesar dessas hesitações no
ritmo, a obra conta com uma presença magnética em cena. Isabelle Huppert assume
o papel principal com a imposição de uma legítima dama do cinema contemporâneo
em plena atividade, ancorando com firmeza o tom exótico da produção. Por trás
das câmeras está a realizadora Ulrike Ottinger, que aos 83 anos carrega um
histórico importante como parte da vanguarda do Novo Cinema Alemão desde os
anos 1970. Embora seu nome nunca tenha alcançado grande circulação popular, ela
possui um reconhecimento sólido nos circuitos alternativos de cinema de arte. A
Condessa Sangrenta foi um projeto de longa gestação, desenvolvido ao longo
de mais de duas décadas antes de finalmente chegar às telas.
No
entanto, desta vez sua liberdade criativa esbarra em excessos visuais. O filme
aposta em tanta informação e exuberância na direção de arte e no figurino que o
resultado acaba parecendo afetado demais, perdendo um pouco da força e do
significado para a dramaturgia da obra. No geral, o longa sofre com uma trama
frágil e simplória, que pouco condiz com a ambição do projeto. Os minutos vão
se acumulando sem que aconteça nada realmente substancial, fazendo com que a
história fique girando em torno de si mesma ao longo de duas penosas horas de
projeção. O resultado é uma experiência visualmente chamativa, mas que tem
dificuldades para sustentar seu próprio peso.
Jorge
Ghiorzi



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