terça-feira, 20 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 6

Uma mulher e quatro sementes foram as protagonistas do dia. Todas tentando (re)construir uma existência alternativa em território totalmente desconhecido. Histórias de descobertas e esperança. Neste planeta ou além das estrelas.

 

​ADMIRÁVEL NOVO AMOR – Direção: Maria Bäck

Esta coprodução da Dinamarca, Suécia e Grécia fala essencialmente de escolhas. Explora as formas de desejo e os limites do comportamento de quem ousa sair dos modelos sociais tradicionais. A narrativa é construída integralmente pela ótica feminina.

A história gira em torno de Kate, uma terapeuta que vive com o marido e a filha adolescente e mantém em segredo, há três anos, um caso fora do casamento. A base do filme é o típico romance proibido da infidelidade. O dilema dela é descobrir se é realmente capaz de amar dois homens ao mesmo tempo ou se, no fundo, ama apenas a liberdade que essa condição proporciona. Kate se vê forçada a escolher entre um casamento estável, mas não totalmente satisfatório, e um mergulho mais fundo na relação com um homem que despertou uma paixão que parecia adormecida. Mesmo que não haja sexo entre os amantes.

De início, o filme parece apontar para uma história de amor moderna e liberal. Depois muda o tom e assume um caminho absolutamente convencional, ainda que pretenda demonstrar o tempo todo uma profundidade que não alcança.

Isso fica claro no excesso de referências e sinais espalhados pela narrativa: um balão azul, a banana, o pássaro, o novelo de lã, o cavalo-marinho e até a mitologia grega, já que tudo se passa na Grécia. O espectador percebe esses elementos e fica na expectativa de que, em algum momento, tudo faça sentido em favor da história. Mas isso não acontece. A maior parte deles não passa de pequenos truques narrativos, de pouca ou nenhuma importância efetiva.

O desfecho segue a mesma linha. Há uma certa ambiguidade conformista no final dessa aventura de transformação e descoberta de uma mulher que deseja ir além do papel de mãe e esposa. O filme sugere uma ousadia que, no fim, não sustenta.

 

A ODISSEIA DOS DENTES-DE-LEÃO – Direção: Momoko Seto

Esta animação impressiona de imediato pela qualidade da técnica. Em termos visuais, o filme pouco fica a dever às grandes produções da Pixar ao criar um universo deslumbrante, concebido a partir de diversas técnicas de animação.

 

​O filme acompanha a trajetória de quatro sementes de dente-de-leão que sobrevivem à destruição apocalíptica da Terra (guerra nuclear?) e ficam vagando pelo espaço sideral até encontrarem um novo planeta para viver. Esta é uma história de sobrevivência simples e direta, de fácil compreensão, inclusive pelas crianças. No entanto, os pequenos espectadores talvez não encontrem muitos motivos para se identificarem emocionalmente com as quatro protagonistas. As criaturinhas desta odisseia não são exatamente fofas como aquelas habituais das produções da Disney.

 

​Apesar disso, é surpreendente como coisinhas tão pequenas e frágeis podem ganhar tanta personalidade e protagonismo. Ao assumirem o papel principal, essas sementes conduzem a história com habilidades insuspeitas. Sem emitir um som sequer, e com recursos de movimentação bastante limitados, elas se mostram capazes de expressar uma ampla gama de sentimentos.

 

Em certa medida esta animação se situa no limite entre uma narrativa de ficção e um documentário sobre a natureza. O filme funciona como uma verdadeira aula de vida e de ecologia, que acaba por se converter em uma fábula de forte vocação ecológica. Sob a perspetiva da biodiversidade do planeta ocupado, as sementes são, na verdade, criaturas invasoras. Elas buscam apenas um lar onde possam criar raízes e constituir uma nova vida. Temos diante dos olhos, portanto, uma espécie de diáspora do reino vegetal terrestre.

 

​A cada novo desafio de aniquilamento ou risco de extinção, as sementes resistem com bravura e sagacidade. Elas acumulam conhecimento sobre aquele mundo desconhecido e hostil, tornando-se um exemplo vivo de resiliência. O objetivo é cumprir a missão primordial no ciclo da existência: germinar e gerar novas vidas. Além disso, a obra transmite o conceito da hipótese de Gaia. O filme ilustra com clareza a ideia de que um planeta funciona como um único sistema integrado, onde todos os elementos naturais interagem e se relacionam de forma profunda.

 

A Odisseia dos Dentes-de-leão proporciona momentos genuinamente inspiradores e comoventes, orientados sempre pela bússola firme da esperança. É um filme emocionante e tocante que transforma a fragilidade da natureza em um espetáculo grandioso, inesquecível e esteticamente impecável.

Jorge Ghiorzi


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