Uma mulher e quatro sementes foram as protagonistas
do dia. Todas tentando (re)construir uma existência alternativa em território totalmente
desconhecido. Histórias de descobertas e esperança. Neste planeta ou além das estrelas.
ADMIRÁVEL NOVO AMOR – Direção: Maria Bäck
Esta coprodução da Dinamarca, Suécia e
Grécia fala essencialmente de escolhas. Explora as formas de desejo e os
limites do comportamento de quem ousa sair dos modelos sociais tradicionais. A
narrativa é construída integralmente pela ótica feminina.
A história gira em torno de Kate, uma
terapeuta que vive com o marido e a filha adolescente e mantém em segredo, há
três anos, um caso fora do casamento. A base do filme é o típico
romance proibido da infidelidade. O dilema dela é descobrir se é realmente
capaz de amar dois homens ao mesmo tempo ou se, no fundo, ama apenas a
liberdade que essa condição proporciona. Kate se vê forçada a escolher entre um
casamento estável, mas não totalmente satisfatório, e um mergulho mais fundo na
relação com um homem que despertou uma paixão que parecia adormecida. Mesmo que
não haja sexo entre os amantes.
De início, o filme parece apontar para
uma história de amor moderna e liberal. Depois muda o tom e assume um caminho
absolutamente convencional, ainda que pretenda demonstrar o tempo todo uma
profundidade que não alcança.
Isso fica claro no excesso de
referências e sinais espalhados pela narrativa: um balão azul, a banana, o
pássaro, o novelo de lã, o cavalo-marinho e até a mitologia grega, já que tudo
se passa na Grécia. O espectador percebe esses elementos e fica na expectativa
de que, em algum momento, tudo faça sentido em favor da história. Mas isso não
acontece. A maior parte deles não passa de pequenos truques narrativos, de
pouca ou nenhuma importância efetiva.
O desfecho segue a mesma linha. Há uma
certa ambiguidade conformista no final dessa aventura de transformação e
descoberta de uma mulher que deseja ir além do papel de mãe e esposa. O filme
sugere uma ousadia que, no fim, não sustenta.
A ODISSEIA DOS DENTES-DE-LEÃO – Direção: Momoko Seto
Esta animação impressiona de imediato
pela qualidade da técnica. Em termos visuais, o filme pouco fica a dever às
grandes produções da Pixar ao criar um universo deslumbrante, concebido a
partir de diversas técnicas de animação.
O
filme acompanha a trajetória de quatro sementes de dente-de-leão que sobrevivem
à destruição apocalíptica da Terra (guerra nuclear?) e ficam vagando pelo espaço
sideral até encontrarem um novo planeta para viver. Esta é uma história de
sobrevivência simples e direta, de fácil compreensão, inclusive pelas crianças.
No entanto, os pequenos espectadores talvez não encontrem muitos motivos para
se identificarem emocionalmente com as quatro protagonistas. As criaturinhas desta
odisseia não são exatamente fofas como aquelas habituais das produções da
Disney.
Apesar
disso, é surpreendente como coisinhas tão pequenas e frágeis podem ganhar tanta
personalidade e protagonismo. Ao assumirem o papel principal, essas sementes
conduzem a história com habilidades insuspeitas. Sem emitir um som sequer, e
com recursos de movimentação bastante limitados, elas se mostram capazes de
expressar uma ampla gama de sentimentos.
Em certa medida esta animação se
situa no limite entre uma narrativa de ficção e um documentário sobre a
natureza. O filme funciona como uma verdadeira aula de vida e de ecologia, que
acaba por se converter em uma fábula de forte vocação ecológica. Sob a perspetiva
da biodiversidade do planeta ocupado, as sementes são, na verdade, criaturas
invasoras. Elas buscam apenas um lar onde possam criar raízes e constituir uma
nova vida. Temos diante dos olhos, portanto, uma espécie de diáspora do reino
vegetal terrestre.
A
cada novo desafio de aniquilamento ou risco de extinção, as sementes resistem
com bravura e sagacidade. Elas acumulam conhecimento sobre aquele mundo
desconhecido e hostil, tornando-se um exemplo vivo de resiliência. O objetivo é
cumprir a missão primordial no ciclo da existência: germinar e gerar novas
vidas. Além disso, a obra transmite o conceito da hipótese de Gaia. O filme
ilustra com clareza a ideia de que um planeta funciona como um único sistema
integrado, onde todos os elementos naturais interagem e se relacionam de forma
profunda.
A Odisseia dos Dentes-de-leão proporciona momentos genuinamente
inspiradores e comoventes, orientados sempre pela bússola firme da esperança. É
um filme emocionante e tocante que transforma a fragilidade da natureza em um
espetáculo grandioso, inesquecível e esteticamente impecável.
Jorge Ghiorzi


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