O roteiro do dia inclui produções da
Polônia e do Japão: ambos são filmes de época que têm a guerra como elemento
central. Enquanto um se propõe a refletir o pós-guerra como um fantasma que
permanece assombrando os sobreviventes, o outro examina as consequências das
ações humanas submetidas a pressões no calor da batalha.
A TERRA DO MEU PAI - Direção: Pawel
Pawlikowski
Vencedor do prêmio de Melhor Diretor
no Festival de Cannes de 2026, este longa-metragem biográfico conclui a
trilogia de filmes históricos de Pawel Pawlikowski. Os projetos anteriores
deste tríptico — todos fotografados em esplendoroso preto e branco — foram Ida
(2013) e Guerra Fria (2018). As obras abordam temas de fundo político por meio
de histórias humanas que resgatam o passado em busca de uma identidade perdida,
dialogando intensamente com os tempos atuais.
Desta vez, o realizador retrata um
episódio verídico: a viagem do escritor Thomas Mann e de sua filha, que
retornam à Alemanha quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, depois de
mais de uma década de exílio nos Estados Unidos. Acompanhamos o roteiro da
dupla por uma Alemanha dividida entre norte-americanos e soviéticos em formato
de road movie, em que o deslocamento não é apenas físico, mas essencialmente
psicológico. Aquela seria uma revisita por vezes dolorosa, outras emotiva e
amargurada, e quase sempre marcada pelo confronto com convicções pessoais que
aparentavam estar pacificadas.
Uma espécie de herança maldita,
marcada por omissões ou julgamentos morais equivocados, tortura a mente do
intelectual — algo semelhante ao dilema (em outros termos, é verdade) do idoso
professor de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. Ambos são submetidos ao
desafio de confrontar suas falhas e fragilidades no ocaso da vida.
A Terra do Meu Pai trata de memória,
resgate, legado e do acerto de contas de um homem com sua obra, sua família e
sua postura diante do mundo, já que era constantemente assediado, cobrado e
alvo de cooptação por seu posicionamento ideológico. Naquela altura da vida,
Thomas Mann (magnificamente interpretado por Hanns Zischler) vivia as
contradições do artista que percebe que a cultura e as palavras nem sempre são
suficientes para mudar o estado das coisas; ações efetivas são necessárias. O
fardo se torna ainda mais pesado quando resta tão pouco tempo e tanto a fazer —
ou a consertar.
Por dever de justiça, vale abrir
espaço para destacar o ótimo desempenho de Sandra Hüller como Erika Mann, a
filha do escritor. A personalidade pendular da personagem, que oscila do
sarcasmo ao recato, da fragilidade ao cômico, encontra na atriz uma intérprete
extremamente capaz. Se Hanns Zischler representa a mente racional, Sandra
Hüller é, simplesmente, o coração emocional de A Terra do Meu Pai.
O SAMURAI E O PRISIONEIRO – Direção:
Kiyoshi Kurosawa
Drama
histórico situado no período do Japão feudal, no século XVI, o longa tem como
base o romance de Honobu Yonezawa. A história relata a batalha particular que o
nobre Murashige Araki trava contra a tirania de Oda Nobunaga. Refugiado em um
castelo, Murashige resiste às investidas de Oda enquanto gerencia a tensão
crescente entre os homens de seu próprio exército.
O
filme vai além de uma tradicional crônica de guerra. Kurosawa (não tem
parentesco, apenas divide o mesmo sobrenome com o mestre Akira) coloca sua
marca autoral ao transformar o que poderia ser apenas um cerco de guerra em um
claustrofóbico exercício de suspense psicológico. Quando crimes inexplicáveis
começam a ocorrer no interior da fortaleza sitiada, Murashige se vê encurralado
por uma ameaça tão perigosa quanto aquela que o inimigo representa além dos
muros do castelo. Mergulhamos então em uma trama de investigação criminal.
Não espere, no entanto, o ritmo de
filme de suspense tradicional. Os crimes ocorrem em compassos lentos, um a cada
estação do ano, que dividem o filme em capítulos. Aqui as coisas são mais sutis
e desaceleradas. Para auxiliar na resolução dos casos e manter o controle de
seus homens, ele é forçado a negociar, se aconselhar e dividir segredos com um
prisioneiro mantido nas masmorras. Kurosawa constrói então, com precisão
histórica e rigor narrativo, um jogo de gato e rato repleto de dilemas morais.
Com
quase duas horas e meia de duração, O Samurai e o Prisioneiro peca levemente ao
estender algumas situações em demasia. Um pouco mais de concisão faria bem à
fluidez da obra, embora esse excesso não chegue a comprometer sua qualidade
superior. No fim, o que temos é um drama histórico fascinante que mescla com o suspense investigativo aos temas clássicos e profundos da
cinematografia japonesa, como a honra, a tradição e o peso moral das escolhas.
Jorge Ghiorzi


Nenhum comentário:
Postar um comentário