sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Recortes da Mostra SP - Dia 2

O roteiro do dia inclui produções da Polônia e do Japão: ambos são filmes de época que têm a guerra como elemento central. Enquanto um se propõe a refletir o pós-guerra como um fantasma que permanece assombrando os sobreviventes, o outro examina as consequências das ações humanas submetidas a pressões no calor da batalha.

 


A TERRA DO MEU PAI - Direção: Pawel Pawlikowski

Vencedor do prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2026, este longa-metragem biográfico conclui a trilogia de filmes históricos de Pawel Pawlikowski. Os projetos anteriores deste tríptico — todos fotografados em esplendoroso preto e branco — foram Ida (2013) e Guerra Fria (2018). As obras abordam temas de fundo político por meio de histórias humanas que resgatam o passado em busca de uma identidade perdida, dialogando intensamente com os tempos atuais.

Desta vez, o realizador retrata um episódio verídico: a viagem do escritor Thomas Mann e de sua filha, que retornam à Alemanha quatro anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, depois de mais de uma década de exílio nos Estados Unidos. Acompanhamos o roteiro da dupla por uma Alemanha dividida entre norte-americanos e soviéticos em formato de road movie, em que o deslocamento não é apenas físico, mas essencialmente psicológico. Aquela seria uma revisita por vezes dolorosa, outras emotiva e amargurada, e quase sempre marcada pelo confronto com convicções pessoais que aparentavam estar pacificadas.

Uma espécie de herança maldita, marcada por omissões ou julgamentos morais equivocados, tortura a mente do intelectual — algo semelhante ao dilema (em outros termos, é verdade) do idoso professor de Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. Ambos são submetidos ao desafio de confrontar suas falhas e fragilidades no ocaso da vida.

​ ​A Terra do Meu Pai trata de memória, resgate, legado e do acerto de contas de um homem com sua obra, sua família e sua postura diante do mundo, já que era constantemente assediado, cobrado e alvo de cooptação por seu posicionamento ideológico. Naquela altura da vida, Thomas Mann (magnificamente interpretado por Hanns Zischler) vivia as contradições do artista que percebe que a cultura e as palavras nem sempre são suficientes para mudar o estado das coisas; ações efetivas são necessárias. O fardo se torna ainda mais pesado quando resta tão pouco tempo e tanto a fazer — ou a consertar.

Por dever de justiça, vale abrir espaço para destacar o ótimo desempenho de Sandra Hüller como Erika Mann, a filha do escritor. A personalidade pendular da personagem, que oscila do sarcasmo ao recato, da fragilidade ao cômico, encontra na atriz uma intérprete extremamente capaz. Se Hanns Zischler representa a mente racional, Sandra Hüller é, simplesmente, o coração emocional de A Terra do Meu Pai.

 


O SAMURAI E O PRISIONEIRO – Direção: Kiyoshi Kurosawa

​Drama histórico situado no período do Japão feudal, no século XVI, o longa tem como base o romance de Honobu Yonezawa. A história relata a batalha particular que o nobre Murashige Araki trava contra a tirania de Oda Nobunaga. Refugiado em um castelo, Murashige resiste às investidas de Oda enquanto gerencia a tensão crescente entre os homens de seu próprio exército.

​O filme vai além de uma tradicional crônica de guerra. Kurosawa (não tem parentesco, apenas divide o mesmo sobrenome com o mestre Akira) coloca sua marca autoral ao transformar o que poderia ser apenas um cerco de guerra em um claustrofóbico exercício de suspense psicológico. Quando crimes inexplicáveis começam a ocorrer no interior da fortaleza sitiada, Murashige se vê encurralado por uma ameaça tão perigosa quanto aquela que o inimigo representa além dos muros do castelo. Mergulhamos então em uma trama de investigação criminal.

Não espere, no entanto, o ritmo de filme de suspense tradicional. Os crimes ocorrem em compassos lentos, um a cada estação do ano, que dividem o filme em capítulos. Aqui as coisas são mais sutis e desaceleradas. Para auxiliar na resolução dos casos e manter o controle de seus homens, ele é forçado a negociar, se aconselhar e dividir segredos com um prisioneiro mantido nas masmorras. Kurosawa constrói então, com precisão histórica e rigor narrativo, um jogo de gato e rato repleto de dilemas morais.

​Com quase duas horas e meia de duração, O Samurai e o Prisioneiro peca levemente ao estender algumas situações em demasia. Um pouco mais de concisão faria bem à fluidez da obra, embora esse excesso não chegue a comprometer sua qualidade superior. No fim, o que temos é um drama histórico fascinante que mescla com o suspense investigativo aos temas clássicos e profundos da cinematografia japonesa, como a honra, a tradição e o peso moral das escolhas.

Jorge Ghiorzi

 

 

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